Notas iniciais
Olá! Sejam bem vindos a mais um capítulo. Aproveitem!

A extensão do riacho é maior do que eu poderia imaginar, e caminho com Cassie por mais de quinze minutos antes de localizar uma vara de pescar improvisada encostada em uma rocha. Na grama, três peixes de tamanho médio estão dispostos sem a cabeça, algumas escamas espalhadas em seu entorno indicando que já foram limpos, e Carter Seashell está sentado tentando acender uma fogueira com um pedaço de galho e duas pedras.


— Até que enfim você achou ele. — Ele dirige a palavra pra Cassie, pausando o movimento de fricção com o galho. — E aí, Aurum?


— Já estive melhor. Cassie acabou de salvar minha vida. — Conto a ele do confronto com Aspen, e ele ri do ocorrido.


— Salvo pelo gongo, hein? Mas você também não se ajuda. Não passou pela sua cabeça correr?


Fecho a cara. Odeio admitir que ele tem razão, eu conseguiria fugir de Aspen considerando que ele estava com a perna machucada, mas quis bancar o protagonista colocando minha vida em risco.


— Não teria tanta graça. E você, matou alguém até agora?


— Cassian. Os carreiristas tentaram nos interceptar no banho de sangue, e consegui acertá-lo com uma lança. — Ele conta, continuando a tentar acender a fogueira. — Não foi legal.


— E você, Cassie? — Olho para minha aliada e vejo ela dar de ombros.


— Aspen foi meu primeiro. Acertei uma flecha na perna de Alaric, mas ele conseguiu fugir.


— Você matou alguém, Aurum? — Pergunta Carter. A palavra matou me atinge em cheio, ainda estou processando o ocorrido da noite passada.


— Sett. Ele me encontrou escondido entre as árvores, estava em surto, tentou me acertar com o machado. — Mostro a machadinha que carrego em mãos. — Consegui distrair ele e acertei sua cabeça.


Ficamos em silêncio por um minuto. O peso de nós três sermos assassinos é implícito, mas carregaremos esse fardo até a hora da morte. O distrito 2, 7 e 11 neste momento estão torcendo para termos um fim pelas mãos de outro tributo para vingar a morte de um dos seus.


— Então somos em dezessete restantes? — Pergunta Carter.


— Dezesseis. Brent morreu atacado por bestantes mosquitos, acho que é por isso que tem repelente na minha mochila.


Alcanço o repelente na mochila e entrego nas mãos de Cassie, e meus dois aliados se besuntam do líquido áspero para garantir proteção contra os mosquitos assassinos.


— Algum de vocês viu a Erin? — Pergunto enfim, me sentando em uma das pedras próximas ao acampamento improvisado.


— Vi ela fugindo com os carreiristas do banho de sangue. Sirena eliminou a garota do 6 e o garoto do 5 e juntou o bando, seguindo para a área da floresta. — Conta Cassie. — Eles iam avançar contra nós, quando Carter matou Cassian, eles recalcularam a rota.


— Sorte a minha. — Declaro.


Almoçamos os peixes que Carter pescou, e cada um consegue comer um inteiro. Sinto falta dos temperos que minha mãe usa para cozinhar, mas não reclamo de ter alimentos na arena. Dividimos uma das minhas maçãs e duas barras de cereal que estavam na mochila de Carter, e começamos a recolher nosso acampamento.


— Minha mochila tem uma chave com o número 42, com o nome Maysilee Donner. — Explica Cassie, quando terminamos de juntar as provisões — Acho que é para entrarmos em algum mausoléu. Nosso plano é ir até os túmulos e nos escondermos nele até o top 8.


O top 8, quando precisaremos nos separar para não sermos obrigados a matar uns aos outros.


— Claro. Vou onde vocês forem.


E assim, começamos a caminhar sentido contrário ao fluxo do riacho, com Cassie a frente, eu no meio e Carter com seu tridente na retaguarda. Atentos a qualquer movimentação estranha, observamos alguns animais coexistindo pacificamente durante o trajeto, ignorando completamente nossa presença.


— Está vendo aquele bicho ali? — Cassie aponta para uma ave que nada vagarosamente no riacho. — É um pé-de-pato. Não é um pato de verdade e sim um ganso. Eles são animais domésticos lá no 4.


— Vocês domesticam aves? No 9, nós temos coelhos de estimação. Só que eles comem nossa plantação se não tomarmos cuidado.


— Os gansos são animais engraçados. Se eles não aceitam comer cevada, é um sinal que a maré não está para peixe. Mas se eles comerem o pote inteiro, significa que a pesca vai ser produtiva. — Explica ela.


— Até damos um peixe para o Finneas se ele acertar as previsões. — Conta Carter, entre uma risada.


— Finneas?


— Nosso ganso, bobão. — Ele dá um soquinho em meu braço.


Quando as árvores começam a diminuir, as cruzes dos túmulos ficam mais evidentes e nossos olhos buscam os números dourados que estão pendurados nos mausoléus. Um paraquedas desliza suavemente de algum lugar não identificado e pousa quase que sobre meus pés, com uma caixa prateada que reluz a luz do sol.


— Acho que é pra você, Aurum. Abra que vamos te dar cobertura. — Cassie engatilha o arco com uma flecha, enquanto pego o objeto em mãos.


O fecho da caixa precisa ser aberto com as duas mãos, e quando a tampa movimenta-se para os lados, um pequeno frasco com um líquido escuro acompanha um cartão com escritos em uma letra dourada.


Oi, Aurum. A água do rio precisa ser purificada. Use cinco gotas disso por litro e espere 30 minutos. — G.


O G deve se referir ao patrocinador que escolheu me presentear, mas não posso deixar de pensar em Garret. O líquido escuro tem um cheiro acre, e identifico como sendo iodo.


— Obrigado, pessoal. — Ergo o frasco como quem exibe um prêmio.


— Nossa primeira dádiva. Você está no radar deles, Aurum. — Carter sorri para mim, os olhos verdes faiscando entre orgulho e inveja.


Aproveitamos para purificar nossas garrafas: Tenho duas e cada um dos meus aliados conseguiu uma em suas mochilas. Continuamos caminhando em direção aos túmulos quando ouvimos dois disparos do canhão, um seguido do outro.


— Canhão Duplo. — Carter faz uma careta, procurando ao redor sinais de perigo.


— Sorte á nossa. — Cassie não olha para trás, apenas segue o caminho concentrada em manter seu arco engatilhado.


Quando chegamos nos túmulos enfileirados, consigo escutar pequenos estalares ao longe, o som me lembra muito as cigarras que cantam nos fins de tarde no meu distrito. Elas são chatas e barulhentas, mas aqui o som parece estar suficientemente longe para chegar a ser um incômodo real. Entre os túmulos, existem fotos espalhadas com o nome de tributos que pereceram nas edições anteriores dos jogos, e ao lado de suas fotos existe um nome, o distrito pertencente e a edição em que participou. Em um dos túmulos, a foto de uma garotinha de doze anos do distrito 8 me embrulha o estômago, ela participou duas edições atrás e foi morta pelos carreiristas com uma lança no pescoço.


— Cara, que coisa doentia. — Deixo escapar em voz alta, colocando a mão sobre a boca.


— Tão doentio quanto enviar vinte e quatro adolescentes para uma arena até sobrar só um? — Pergunta Cassie ironicamente, o que faz Carter dar uma risada.


— Certo, você tem um ponto. — Rebato, analisando os outros túmulos. — Tem certeza que é um mausoléu?


— A não ser que exista algum túmulo com um cadeado, tenho certeza.


Estamos quase chegando na área dos mausoléus quando ouço o som de galhos quebrando. Em uma fração de segundos, Cassie e Carter apontam suas armas para nossa lateral e estou prestes a erguer a machadinha quando vejo a pele oliva brilhando no entardecer. Com uma machadinha idêntica a minha em mãos, os olhos de Rupi encontram os meus e ela abre um sorriso.


— Aurum! — Ela solta a machadinha e caminha em minha direção.


— Oi, Rupi. — Repito o movimento dela, e meus aliados abaixam as armas. Nossos corpos se entrelaçam em um abraço e escuto sua respiração pesada.


— Eu queria ter te encontrado depois do banho de sangue. Eu fui burra, deveria ter proposto uma aliança com você lá no centro de treinamento, quando treinamos lanças juntos. — Ela desabafa, e quando se afasta seu sorriso está maior. — E você está com os irmãos carreiristas, então?


— Oi, Rupi. — Cumprimenta Cassie, com o rosto sem expressão. — Você queria uma aliança só com o Aurum?


— Claro que não! Eu falei com seu irmão. — Ela faz uma careta, confusa.


— É mesmo? — Cassie fuzila o irmão com os olhos. — Tenho a impressão que ele esqueceu de me avisar.


Carter coça a parte de trás da cabeça, desviando o olhar para a copa das árvores. Sua expressão deixa claro que ele omitiu a informação.


— Achei que você ia querer uma aliança só com o Aurum. — Ele diz por fim, olhando para Cassie.


— E daí você achou que…


— Pessoal. — Interrompo os dois antes que comecem uma discussão. — Estamos no meio da arena. E quatro pessoas é melhor do que três, certo?


— Que seja. Mais uma pessoa para montar guarda. — Cassie continua andando, e retomamos a caminhada em direção ao mausoléu.


Conto a Rupi o porquê de estarmos caminhando entre os túmulos, e ela me atualiza sobre o que viu desde que chegou na arena: Erin e os carreiristas ocuparam a região da cornucópia e montam guarda para emboscar os tributos que chegam por lá a procura de suprimentos. Ela e Sett acabaram se separando, mas ela não o tinha visto desde então, e em sua mochila tinha uma chave com o número 86, com o nome de Coral Warming, mas quando chegou no mausoléu ele estava em ruínas. Outro som de canhão ecoa e ficamos em silêncio por alguns minutos.


— Estou esperando o hino da Capital essa noite para descobrir se Sett está vivo ou não. — Diz Rupi, os olhos atentos patrulhando o perímetro.


Respiro fundo e toco em seu ombro. Ela para e olha em meus olhos.


— Rupi, ontem depois do hino, Sett me encontrou na floresta. Ele não estava, você sabe, normal. — Conto a ela tudo que aconteceu, e Cassie e Carter nos observam em silêncio enquanto término de contar a história.


Ela respira fundo sem tirar os olhos de mim, e depois de alguns segundos olha para o céu, pensativa.


— Ele não era ruim, só não batia bem. — Declara, enquanto volta a caminhar ao meu lado. — Eu teria feito o mesmo. Está tudo bem.


— Eu não queria.. Você sabe.


— Ninguém quer. Eu não achei que precisaria até o fim dos jogos, mas Rowan me atacou. — Rowan, o garoto do 10 que estava com medo de Briar. — E quando eu vi, já tinha estourado o canhão.


— Então sabemos que um canhão foi de Rowan. Basta esperar pra ver de quem foram os outros. — Observa Carter, antes de Cassie parar abruptamente.


— Pessoal, acho que chegamos.


A construção não é muito grande, mas não deixa de ser imponente: Um mausoléu de mármore negro, com decorações em obsidiana e prata pura. Uma foto com moldura ovalada revela uma garota loira mais ou menos da minha idade, com um belo vestido e maquiagem delicada. Logo abaixo da foto pode se ler os escritos:


Maysilee Donner, Distrito 12

50° Edição dos Jogos Vorazes


— O segundo massacre quaternário. — Cassie segura a chave por entre os dedos, pronta para destrancar o cadeado. — Foi o ano que o garoto do 12 venceu os jogos.


— Que irônico, não? — Dou um sorriso para ela, e quando a chave encaixa na abertura, o cadeado abre com um clique e permite a abertura da porta de vidro blindado.


O espaço acomoda três pessoas deitadas, com uma elevação onde teoricamente ficaria o túmulo. Acredito que nenhum de nós vai querer deitar ali. Quatro de nós podemos sentar em uma roda, o que possibilita que possamos comer juntos, mas alguém vai precisar montar guarda durante a noite, do lado de fora.


— Vamos nos dividir em turnos. Duas pessoas a cada quatro horas, assim todos conseguimos dormir. Durante o dia, vamos ao riacho buscar água e peixe fresco, e de noite revezamos até chegar no top 8. — Explica Cassie, desenhando com os dedos no chão frio.


— Depois disso, cada um por si. — Evito olhar para meus aliados após a constatação.


— É, por aí. — Responde Carter, sem muita animação.


Nos juntamos com a porta de vidro encostada para jantarmos um dos peixes que sobraram com um pão esverdeado que estava na mochila de Rupi e que os irmãos identificam como sendo do distrito 4. Dividimos uma das garrafas de água e finalizamos o jantar dividindo uma das minhas maçãs em quatro partes.


— Aurum, quase esqueci de você. — Cassie levanta de sobressalto, caminhando até sua mochila. — Onde você colocou, Carter?


— No bolso esquerdo. — Ele mastiga o pedaço de maçã enquanto aponta para a bolsa. — A não ser que você perdeu.


— O que vocês trouxeram pra mim? — Ergo a sobrancelha, desconfiado. — Vão me envenenar?


— Melhor que isso. — Cassie sorri, e me entrega uma pequena trouxa de pano preta.


Dentro dela existe um cinto de couro regulável com quatro estojos confeccionados no mesmo material, cada bainha com duas facas de arremesso perfeitamente presas a ele. Meus aliados tomaram da cornucópia a única arma que sei usar de verdade.


Ergo os olhos para eles em pura gratidão. Eles sorriem pra mim, satisfeitos com minha reação.


— Ai gente, obrigado. — Levanto rapidamente e prendo o cinto em minha cintura, ele se adapta ao movimento do meu corpo rapidamente e retiro uma das facas, percebendo estão todas balanceadas. — E elas são balanceadas! Fica muito mais fácil atirar!


— Só promete que não vai usar contra a gente, tá bom? — Carter me dá outro soquinho, e o abraço instintivamente.


Ele me abraça de volta, meio sem jeito. Seus braços são fortes e duros, e me sinto constrangido automaticamente. Me solto dele e abraço Cassie logo após, para evitar um clima estranho entre nós.


— Hora de começar a vigília, então? — Sorrio para Rupi, e concordamos em montar guarda juntos.


O hino preenche o céu algum tempo depois, e as baixas do segundo dia iluminam a arena. Primeiro Brent, seguido por Volter do 5,Sett, Omar do 8, Rowan e Aspen. Seis mortos, e agora somos treze tributos vivos.



— Quem está vivo, então? — Pergunta Rupi, contando nos dedos.


— Os dois do 1, Sirena do 2, a garota do 3, eu e Carter, o garoto do 6, você, a garota do 8, Erin, Aurum, Briar e Corin do 12. — Recapitula Cassie, polindo uma de suas flechas. — Quase metade dos tributos em dois dias.


— Amanhã é mais um dia. Boa noite, meus caros aliados. — Me despeço de Cassie e Carter e monto guarda em frente ao mausoléu, com Rupi abaixada em minha frente.


— Então agora somos só nós. — Ela sorri pra mim, encostando seu corpo contra o mármore de um dos túmulos.


O tempo passa rapidamente, perco a noção das horas enquanto conversamos em voz baixa sobre o que vivemos até então, e ela me conta um pouco mais sobre os carreiristas. Ela monitorou seus passos escondida entre os túmulos da ponta da arena, e conseguiu ver o momento em que Briar entrou despercebida na cornucópia e saiu com uma quantidade razoável de armas dentro de uma mochila, enquanto os carreiristas patrulhavam a região da floresta.


— Você está me dizendo que a doidinha da garota do 10, que ameaçou me matar, está por aí armada até os dentes?


Rupi começa a rir.


— Não se sinta especial, ela ameaçou você, eu e até os carreiristas. — Ela conta, afiando a faca.


Meus olhos se erguem até uma árvore próximas onde uma luz verde brilha em lampejos fracos. Ela percebe minha inquietação e olha para trás, com as mãos agarrando o cabo da machadinha.


— Que luz é essa?


— Algum sinalizador? — Arrisco o palpite, enquanto ela caminha lentamente até a árvore.


— Deixa as facas preparadas. Esteja pronto.


Ela caminha até a parte de trás da árvore e some por alguns segundos. Quando ela volta, sua expressão é de alívio.


— São besouros. Vem cá ver! — Ela me chama com uma das mãos, abaixando seu machado.


Então eu percebo, como um animal sentindo o cheiro do perigo. Elara não chegou a me dizer onde os besouros-de-caixão costumam fazer seus ninhos, mas tenho a impressão que Rupi descobriu.


Saio correndo em sua direção, gritando para que ela se afaste da árvore.


Mas é tarde demais, o primeiro besouro já levantou voo e cravou suas patas em seu braço. Quando ela começa a gritar, pelo menos dez besouros já estão pousados sobre sua pele exposta, a luz verde em seus abdômens ficando cada vez mais fraca e os gritos de Rupi cada vez mais altos. Corro de volta para a mochila que está próxima a entrada do mausoléu e procuro o repelente de insetos desesperado.


Quando alcanço o frasco, Cassie abre a porta com o arco em mãos e o canhão estoura. E os gritos de Rupi dão lugar ao silêncio.


Notas finais
É, chegamos ao fim do capítulo de hoje. Estou de luto. Até mais, um besouro-de-caixão.