Notas iniciais
Olá! Aproveite a história. Já passamos da metade dela.

Cassie e Carter precisam me obrigar a deitar depois que o aerodeslizador recolhe o corpo de Rupi entre as árvores. Não consigo esquecer da cena da garota se contorcendo com o veneno dos besouros-de-caixão sendo injetado em seu corpo, e como ainda haviam besouros presos em sua pele quando a garra do aerodeslizador retirou minha aliada da arena.


Ouço os irmãos conversando enquanto me recolho no chão frio do mausoléu, suas vozes baixas atravessando a porta de vidro e atingindo meus ouvidos como almas penadas vagando pelo maldito cemitério.


— Eu não deveria ter sido tão fria com ela. — Identifico a voz de Cassie, enquanto fecho os olhos na tentativa de apagar este dia.


— Somos em doze agora. Mais quatro mortes e precisamos nos separar dele. — Agora quem fala é Carter.


— Eu não quero me separar dele. Ele é só uma criança. — O tom de Cassie é impositivo.


— A Briar também é, e vai matar a gente se tiver oportunidade. — Ele retruca. — Mas eu mato ela sem nenhum problema, não quero ter que matar ele. Eu mato qualquer outro tributo, mas não ele.


Minha mente martela as palavras de Carter, e me questiono o por quê de ele não querer me matar. Agora, fragilizado com a morte de uma das minhas aliadas, sou um alvo fácil, mas sei que nenhum deles vai me matar. E adormeço com o peito dolorido e com a culpa me corroendo por não ter sido mais rápido. Os dois tributos do distrito 7 estão mortos e a culpa é toda minha, direta e indiretamente.


Acordo com o rosto de Cassie debruçado sobre o meu, e saco uma das facas de arremesso involuntariamente. Não tinha percebido que dormi segurando o cabo de uma delas, o que faz Cassie se afastar de imediato.


— Bom dia, flor do dia. — Ela me cumprimenta, segurando um paraquedas. — Recebi agora de manhã. Lembra do nosso acordo?


— Bom dia. Não usar as facas em vocês. Lembro. — Sento no saco de dormir, limpando os olhos ramelentos com as mãos. — O que recebeu de bom?


— Seis pães quentinhos, manteiga e rosbife. Hora do café da manhã! — Ela começa a montar a mesa improvisada sobre o elevado do mausoléu, quando Carter atravessa a porta de vidro.


— Um canhão disparou no início da manhã. Somos em onze agora. — Ele abre um dos pães com as mãos, utilizando uma pequena faca que veio no paraquedas para passar a manteiga no interior do pão.


— Imaginam quem seja? — Pergunto, recheando um dos pães com manteiga e uma fatia de rosbife.


— Vi a garota do 8 correndo entre os túmulos, mas não tinha nada seguindo ela. — Conta Cassie enquanto mastiga um dos pães.


Tomamos nosso café em silêncio, sem mencionar a morte de Rupi na noite anterior. Decidimos que vamos pescar no riacho e coletar mais água para purificarmos, abrimos a mochila de Rupi apenas para separar um saco de amendoins, duas garrafas de água vazias e um saco de salame desidratado entre nossas mochilas. Cada um de nós ficou com um punhado de amendoins, três salames e duas garrafas de água. Três pães sobram do nosso café da manhã, o que significa que temos um pão em cada uma das mochilas.


— Daqui ao ponto em que estávamos é quase uma hora, mas se atravessarmos as árvores aqui em frente, calculo que vamos encontrar o riacho em vinte minutos. — Explica Carter, apontando com o tridente para a direção onde Rupi encontrou os besouros. — Vamos até lá, pescamos os peixes e voltamos para o mausoléu.


Olho para o céu, e o sol já está ligeiramente acima da copa das árvores.


— Arrisco dizer que agora já passa das nove horas. — Digo á eles, enquanto passamos o cadeado na porta do mausoléu. — Vamos tentar terminar tudo até uma hora e voltamos, assim revezamos para dormir um pouco de tarde e estarmos atentos durante a noite, fechado?


— Acho uma ótima ideia. — Diz Carter, e Cassie concorda com a cabeça.


— Então, bem vindos ao terceiro dia de arena. — Sorrio para eles, e montamos a formação habitual enquanto caminhamos floresta a dentro.


Chegamos a beira do rio pouco mais de trinta minutos após o início da caminhada. Carter desenha círculos com a ponta da minha adaga nas árvores em que passamos para sabermos nos guiar de volta ao mausoléu. A floresta é fresca e diferente da parte em que estive no primeiro dia, a luz atravessa as folhas com muito mais facilidade, e Cassie aproveita para abater duas galinhas de penas amareladas que caminham despreocupadas pelo matagal.


— E essa ave aqui, você conhece, Aurum? — Carter levanta uma das aves pela perna, com um olhar debochado.


— Não, Carter. Nunca vi uma galinha nos meus quatorze anos de vida. — Respondo seu deboche com acidez, revirando os olhos. — Tem muitas dessas lá no seu distrito?


— Mais do que você pode imaginar. — Ele começa a depenar as aves com as mãos, utilizando a faca pra arrancar as penas mais resistentes.


— Por que vocês não ficam quietinhos e prestam atenção se não temos bestantes vigiando? — Cassie não olha para nós, e vejo seus dedos habilidosos trabalhando na improvisação de um anzol em uma linha transparente que conheço como nylon.


Quando ela lança a linha no rio, ouvimos o som de um canhão. Olhamos ao redor inquietos, mas tudo parece normal nas redondezas.


— Parabéns, senhores. — Cassie volta seu olhar para o rio, murmurando baixinho. — Chegamos no top 10.


Com a morte de Rupi na noite anterior e os mortos anunciados no hino, apenas os distritos 1, 4 e 9 tem os dois tributos vivos. Poderia o canhão ter anunciado a morte de Erin? Algum dos carreiristas pereceu no terceiro dia de arena?


Antes que eu possa me questionar, uma figura baixinha corre por entre as árvores até a beira do rio, claramente desorientada. Vários cortes profundos em seu corpo escorrem sangue, e o rapaz pressiona a barriga enquanto um fluxo intenso de líquido vermelho escorre pelas frestas dos dedos.


É Corin, o garoto do 12 que deve ter a mesma idade que eu. Quando ele nos vê, ele estende uma das mãos em desespero.


— Ela traiu a gente. Matou o Thane enquanto ele dormia. — Ele fala com dificuldade, arfando entre cada palavra.


Carter segura o tridente com força, virando-se pra a floresta. Cassie e eu amparamos o garoto, analisando os ferimentos espalhados em seu corpo.


— Os cortes são muito fundos. — Constato, pressionando uma de suas mãos com a minha. — Quem fez isso?


— Briar. — Ele tosse uma quantidade considerável de sangue. — Furou o Thane. Me atacou pelas costas.


— Ela te seguiu até aqui? — Pergunto a ele. Seus olhos estão começando a desfocar e suas pupilas dilatam.


— Não. — Ele tosse uma última vez. — Só ria.


O canhão soa, e a mão que pressionava seu estômago enfraquece. Agora, somos nove.


No fim das contas, os patrocinadores não estavam errados em apostar em Briar Cliff. A mais jovem entre nós traiu seus dois aliados e os matou com vários golpes. A ideia dessa maluca gargalhando enquanto apunhalava Corin me deixa enojado, e sei que ela deve ser eliminada assim que encontrarmos ela.


— Vamos concluir a pesca e voltar pro mausoléu. — Anuncio para meus aliados, me afastando junto a eles quando o aerodeslizador acima de nós começa a produzir um vento quente. — Os carreiristas não são o único risco por aqui.


Cozinhamos as duas galinhas e um peixe à beira do riacho, aproveitando alguns galhos para acender uma fogueira que não emite fumaça negra. Almoçamos em silêncio e retornamos ao mausoléu tomando o máximo de cuidado para não revelar nossa posição. Conforme o canhão soa, as probabilidades de vitória aumentam mas nos tornamos alvos com muito mais facilidade, visto que a quantidade de mortes tende a diminuir, bestantes tendem a ser libertos para forçar encontros entre os tributos e a gana por sobreviver enebria a mente dos jovens. Após a próxima morte, os repórteres da Capital começarão a entrevistar as famílias dos oito tributos restantes para engajar as apostas e começar a contagem para a reta final dos jogos, e é justamente aí que os patrocinadores começam a investir mais nas dádivas para os competidores. Se eu chegar ao top 8, devo receber um segundo paraquedas.


Durmo um pouco enquanto Cassie e Carter montam guarda, mas o sono dura pouco quando meus sonhos são invadidos pelas lembranças da morte de Rupi e Corin. Em determinado momento, Briar me persegue com uma enorme faca de cozinha emitindo uma gargalhada gutural, e quanto mais eu corro, mais ela chega perto de mim. Quando vejo que não adianta tentar dormir mais, decido que está na hora de montar guarda.


— Já deu o que tinha que dar pra mim. — Abro a porta de vidro e encontro os irmãos encostados no mausoléu. — Quem dorme agora?


Eles se olham. Ambos começam a demonstrar sinais de cansaço, mas as bolsas embaixo dos olhos de Cassie revelam que ela precisa mais desse sono do que Carter.


— Vai você. Eu e o bonitão aqui cuidamos da porta. — Carter indica com a cabeça pra Cassie entrar, e ela sorri.


— Como vocês são cavalheiros. Se comportem enquanto eu estiver fora, hein? — Ela da as costas e se estica no saco de dormir, enquanto montamos guarda em frente a construção.


— Então, já era para Thane e Corin. — Carter esfrega uma pequena pedra em uma das pontas do tridente para afiá-la. — Quem você acha que foi o terceiro?


— A garota do 8, talvez. Ou pode ser algum dos carreiristas.


— Eu daria tudo para que fosse a Sirena. — Ele sorri para mim. — Pelo menos a competidora mais forte estaria fora do jogo.


— Sabemos que não foi a Briar, porque ela matou os dois aliados. — Pondero, enquanto seguro uma das facas de arremesso em mãos.


— Eu aposto na garota do 3. Ou você acha que os carreiristas romperam a aliança?


— Difícil. Eles vão esperar ter apenas um tributo fora da aliança vivo para cortarem a garganta uns dos outros. — Digo a ele antes de cairmos na gargalhada.


— Daqui algumas horas, vamos descobrir quando o hino tocar. Vamos apostar agora, quem ganhar pega um pedaço de pão dos perdedores. — Desafia Carter.


— Então eu aposto na garota do 8.


— Eu aposto na garota do 3.


— E Cassie? — Pergunto, olhando pela fresta da porta entreaberta.


— Ela vai apostar na Erin. Sua companheira de distrito não é lá muito simpática. — Ele sorri de canto, e sou obrigado a concordar com sua colocação.


É quando acontece, rápido demais para sequer raciocinarmos direito. Um som metálico é ouvido da parte de trás do mausoléu e nos colocamos de pé rapidamente. Nossos olhares se cruzam, e corremos pelas laterais da construção até a parte traseira. Meus olhos não conseguem identificar o que são os dois discos colados na parede, cada um com uma luz piscando em verde.


— Isso já estava aqui antes? — Pergunta Carter, erguendo o tridente para cutucar um dos objetos.


— Não mexe nisso, idiota. — Dou um tapa no tridente antes que ele encoste no dispositivo. — Vamos chamar a Cassie para averiguar.


Quando ouço a risada estridente vindo da frente da construção, meus pés ligeiros correm de volta para a porta em desespero. Eu e Carter chegamos juntos no vidro, mas não tem nada que indique que a porta tenha sido aberta.


Ouço sons de galhos quebrando e minha atenção se volta direto para a floresta. O som é alto demais para que seja um animal pisando em falso, e tudo indica que são pés humanos.


— Você vai por um lado e eu pelo outro. — Sussurro para Carter, e atravessamos dois túmulos adjacentes em direção ao início da floresta.


Quando o cabelo vermelho emerge de um dos troncos, Briar Cliff exibe um sorriso demoníaco. Ela está com as roupas ensanguentadas e manchas de sangue sujam seu rosto pequeno quase que completamente. Estou prestes a atirar uma faca em sua direção quando ela ergue as mãos, e dois dispositivos cilíndricos brilham com botões vermelhos próximos a seus polegares.


Detonadores.


— Cassie! — Eu e Carter gritamos em uníssono em direção ao mausoléu, dando meia volta em direção a nossa aliada.


Quando a garota do 10 aciona os botões, meus tímpanos vibram dolorosamente com a explosão do nosso abrigo. Caio de joelhos no chão, tapando meus ouvidos enquanto enormes pedaços de mármore desmoronam sobre o corpo de Cassie Seashell.


Notas finais
E.. fim do capítulo de hoje! Cada capítulo que passa, se torna mais difícil escrever. Mas eu continuo escrevendo. Um xero!