A Jornada do Louco
21 A Temperança
Notas iniciais
— Aurum, eles chegaram. — Minha mãe atravessa a porta de mogno próximo ao meio dia, ela segura um bule de chá recém passado que cheira á camomila e parece impaciente. — Não deixe que eles façam muito escândalo, por favor.
O som dos pássaros cantando nas copas das árvores indicam que o clima é ensolarado, o que é uma raridade para esta época do ano. Se eu estiver certo, hoje é dia quinze de novembro, o que significa que a turnê da vitória começa a partir das seis da tarde, quando embarco no trem em direção ao distrito 12 para iniciar o circuito de celebrações entre os distritos, onde realizo um discurso sobre a bravura dos tributos vencidos e participo da festividade que premia o distrito da vez com a única refeição decente que eles tem no ano, me forçando a interagir com as famílias de jovens que assassinei no período em que estive na arena.
Levanto da cama com o mínimo de animação possível, escovando os dentes no banheiro anexo ao meu quarto na grande casa que passei a morar quando retornei ao 9, na Aldeia dos Vitoriosos. Tudo aqui é novo demais, como se fosse um lembrete de que conquistei meu lugar entre a elite a custo de sangue derramado. No andar debaixo, ouço vozes tagarelando animadamente, e sei que minha equipe de preparação já está no local.
— Aurum! Os seis meses de descanso acabaram, querido. — Grita Atticus quando me vê ao pé da escada, mostrando os dentes encrustados de diamantes em um sorriso. — É hora de brilhar de novo!
— Já achei que estava me aposentando! Preciso colocar as mãos nesse rostinho lindo mais uma vez. — Venus sobe os degraus rapidamente, me conduzindo pelos ombros até uma das poltronas existentes na sala de jantar.
— Oi pessoal. Podemos ser rápidos hoje? Não estou de bom humor.
— Para com isso, bobinho. Vão ser doze dias de festa, você precisa se animar! — Diz Atticus, enquanto um funcionário da Capital trajado de branco atravessa a porta de casa arrastando um tanque de última geração que serve para lavar meus cabelos.
Travo automaticamente. Reconheço o traje que ele está usando de imediato: Avox. Minha equipe de preparação percebe o erro grotesco e enxota o rapaz para fora do ambiente, evitando tocar no assunto.
— Você vai melhorar esse humor por bem ou por mal, Aurum. — Nefertiti atravessa o portão principal, envolvendo minha mãe em um abraço apertado. — Todos nós recebemos um aumento, sabia? A partir da próxima edição, vamos receber 20% a mais!
— Que bom que tem alguém feliz, então. — Sorrio para ela, desanimado. — É o último aumento que vocês vão receber por um bom tempo.
— Alguém já te disse que calado você é um poeta, Aurie? — Ela massageia meus ombros, como quem alisa uma caça recém abatida. — Se você emagrecer mais um quilo, vou mandar te alimentarem com sondas hipercalóricas.
Hoje o traje é casual chique, sem nenhum adereço para emperequetar meu visual. Estou usando um sobretudo caramelo e meus cabelos estão amarrados em um coque desleixado, para dar a sensação de normalidade. Quando as câmeras do lado de fora focam meu rosto, produzo um aceno ensaiado com um sorriso artificial.
— Olá, Panem. Amanhã estarei no distrito 12 para iniciar a Turnê da Vitória. Não poderia estar mais animado de conhecer a cultura de cada um de vocês. Não deixem de acompanhar cada passo da turnê!
A câmera desliga e respiro aliviado, começando a remover o sobretudo. Garret aparece na porta da sua casa assim que ele considera que não vai atrapalhar as câmeras, caminhando em minha direção.
— Você não precisa ser tão artificial, sabia?
— É isso ou mandar que todos se explodam. — Sorrio para ele, estalando um beijo em seus lábios. — Não estou preparado para essa viagem, Gary.
— São poucos dias e você vai estar de volta. Depois, você vai intercalar ano sim, ano não com Jomilee para ser mentor nos Jogos. Suporte esses dias e vamos viver tranquilos depois disso, tudo bem? — Ele me conforta, depositando um beijinho em minha bochecha.
— Acho que consigo suportar. Você vai continuar me esperando aqui?
— Até o dia que derrubarmos a torre de cartas.
A torre de cartas foi o código que criamos para nos referir a Capital. Sorrio para ele antes de voltar para o interior da casa que estou ocupando para reunir os únicos pertences que são realmente relevantes para mim na viagem que farei. Minha equipe desata a conversar com minha mãe e elogiar seus dotes culinários, e quando subo para meu quarto, vejo que a porta do escritório está entreaberta. Dentro do cômodo, meu pai fuma um cigarro de filtro vermelho e sopra a fumaça para o ar, bebericando uma uísque que descolei para ele no mercado da cidade.
— Oi, papai. — Entro no recinto, me sentando na cadeira próxima a ele.
— Oi, Aurie. — Ele me cumprimenta, bebendo o restante do líquido em seu copo. — Viaja hoje?
— Sim. Vim aqui me despedir.
— Sim. Quer um copo de bebida? — Ele me alcança um dos copos de cristal, e permito que ele deposite dois dedos do líquido laranja no recipiente.
— Eu queria um cigarro também, por favor.
Ele franze as sobrancelhas, mas não questiona. Fumei com ele algumas poucas vezes desde que voltamos para o distrito 9, desde então esse tem sido nosso segredo sórdido. Ele me alcança um dos cilindros brancos, e acendo a ponta indicada em uma vela aromática acesa próxima a nós. A fumaça preenche meus pulmões quando trago, e aproveito para dar um gole na bebida.
— Dia difícil? — Ele pergunta.
— Mais do que você pode imaginar.
Ficamos em silêncio por um tempo. Tragamos os cigarros e bebemos dos copos sem cruzar nossos olhares, tentando não tocar no único assunto que tem aparecido em nossas interações.
— Aurie, não quero que você fique se culpando o resto da vida.
— Eu não estou me culpando, pai.
— Eu sei que você pensa que poderia..
— Não, papai. De verdade. Foi melhor assim.
Ficamos em silêncio por mais alguns minutos. Levanto da cadeira e beijo sua testa, saindo do cômodo sem olhar para trás. A culpa que corrói meu pai também está presente no meu peito, mas não podemos remoer as mágoas para todo o sempre. No fim de tarde, embarco no trem bala da Capital e a locomotiva dispara noite a dentro em direção ao Distrito 12.
Na manhã seguinte, o trem nos deixa na estação mal cuidada do distrito mais pobre de Panem. Eu considerava o distrito 9 como sendo um distrito pobre, mas conforme transito pela região responsável pela extração de carvão, percebo que as famílias mais pobres do Arado ainda vivem em melhores condições do que famílias relativamente abastadas do 12. A cidade é deprimente, seus moradores são franzinos e identifico pelo menos dois cadáveres cobertos pelas folhas secas habituais do outono no trajeto entre estação de trem e a praça do Edifício da Justiça.
Diferente da Capital, o prédio do 12 é tão decadente que chega a ser assustador: Existem duas janelas quebradas, a pintura está desbotada e a maior parte dos cidadãos vestem roupas remendadas. O prefeito do distrito, Otto Undersee, elogia as bandeiras de cinco metros que decoram o ambiente com as cores e o símbolo da Capital e anuncia minha presença com pouquíssima animação. Quando tomo a dianteira do microfone em minha frente, meus olhos se fixam nas elevações atrás da multidão.
A família de Corin ocupa a elevação direita, e é composta por uma senhora muito velha e duas crianças um pouco mais novas que ele. A família de Elara, que ocupa a elevação esquerda, é muito maior: Um único homem de aparência debilitada está cercado por outras cinco garotas, todas com idade próxima á Elara.
— O Distrito 12 não é apenas o fornecedor do carvão de Panem. É um distrito que fornece os tributos mais corajosos e com sede de vitória desse país. — Com a autorização de Sabina, que não estava muito afim de elaborar discursos, me comprometo á honrar cada tributo vencido sem culpabilizar a Capital diretamente. — Corin morreu em meus braços, traído por alguém que ele depositou boa fé. Elara não cruzou comigo na arena, mas me ensinou tudo o que sei sobre besouros-de-caixão, e serei eternamente grato á ela por isso. Minha vitória tem participação fundamental dos tributos do distrito 12, e é por eles que farei um esforço diário para que os distritos e a Capital, unidos, sejam um só país. Uma soberania.
Alguns aplausos tímidos irrompem da plateia, mas a maioria os cidadãos raquíticos do distrito me observam com um olhar de julgamento. Um olhar acusador, que me condena a ser mais um fantoche da Capital.
Durante o coquetel de comemoração, os moradores do distrito estão mais preocupados em comer do que olhar para mim, de fato. A única aproximação que acontece vem de uma das irmãs de Corin, uma garota que deve ter seus doze anos. Ela abraça minhas pernas por alguns segundos e olha para mim, com seus olhos marrons esperançosos.
— Eu queria que o Corin tivesse se aliado á você. — Ela me diz calmamente antes de me soltar.
— Eu também queria, criança. — Observo ela voltar correndo para sua família, não sem antes surrupiar um pedaço de bolo de milho. — Eu também.
No distrito 11, o cenário não melhora nem um pouco. Meu discurso é raso, já que não conheço meus concorrentes á fundo, e os familiares de Aspen me fuzilam com o olhar, já que eu matei indiretamente um membro da sua família. Quando chego no Distrito 10, aguardo uma represália maior ainda, mas surpreendentemente isso não acontece.
— Não conheci Rowan, então não posso discorrer sobre sua bravura, apesar de ter certeza que ele lutou até o final. — Existe apenas uma mulher na área destinada a família de Rowan, e ela parece tão irremediavelmente anestesiada que nem presta atenção no que falo. — Briar foi, sem dúvidas, a maior concorrente que encontrei na arena. Ela não só era uma assassina impiedosa, como também era uma garota assustadoramente inteligente. Foi uma honra lutar com ela.
Durante o coquetel da vitória, a mãe de Briar se aproxima de mim sorrateiramente e me envolve em um abraço apertado. Fico sem entender inicialmente, até que ela se separa de mim e me olha diretamente nos olhos.
— Ela era minha filha, mas não posso deixar de estar aliviada. — Ela me confidencia em voz baixa. — Ela matou a irmã mais nova no berço, sufocando com um cobertor, e eu temia pela vida dos gêmeos mais novos. Eu não tenho raiva de você, fique tranquilo quanto a isso.
Os irmãos de Briar são dois garotinhos que não devem ter mais de cinco anos, e retribuo o abraço apertado de sua mãe quando ela tira o peso da morte brutal que condicionei sua filha dos meus ombros.
O distrito 8 não poderia ser mais indiferente á minha presença. Como não fui responsável pela morte de nenhum deles, não existe comoção mínima a não ser o banquete que é servido após o coquetel.
O distrito 7 traz uma carga mais emotiva para a turnê, e a avó de Sett, que é sua única familiar viva, me encara sem esboçar reações.
— Nem nos meus piores pesadelos eu mataria Sett, tivemos uma interação positiva nos treinamentos e acreditei que isso perduraria pela arena. Infelizmente, é matar ou morrer, e acabei escolhendo a primeira opção. — Meus olhos voltam atenção para a família de Rupi, composta apenas por seu pai e sua mãe. — Rupi foi minha aliada desde o treinamento; quando ela me ensinou a atirar com as lanças. Não pude protegê-la em relação aos besouros de caixão, e não consigo me perdoar até hoje. Tenho certeza que o distrito 7 dará orgulho para todos vocês nos próximos anos.
No coquetel, os pais de Rupi fazem questão de me abraçar, mas não tecem nem mesmo um mínimo comentário. Nos distritos 6 e 5, existe uma baixa comoção quando discorro sobre os tributos oriundos de cada região, mas consumo suas comidas típicas no coquetel sem a interação de nenhuma das famílias enlutadas.
O cenário muda quando atravesso as portas antigas do distrito 4. Não existem elevações separadas, mas sim uma única elevação centralizada na reta do palco, com os pais de Cassie e Carter preenchendo o quadrado espaçoso. A mulher chora escondendo o rosto no ombro do marido, e preciso fingir normalidade enquanto os moradores do distrito me encaram em silêncio.
— Aqui, talvez, more a dor mais pulsante que me atormenta ao longo dos últimos meses. — Inicio meu discurso sentindo a queimação habitual que assalta meu estômago quando estou nervoso. — Diferente de qualquer outro discurso, aqui falarei dos meus aliados mais fiéis e mais destemidos.
A mãe dos meus aliados ergue o rosto para o palco pela primeira vez, contendo seu choro para prestar atenção nas palavras que saem da minha boca.
— Cassie foi o segundo referencial de força que tive nesses quinze anos. O primeiro foi minha mãe, que é professora, e Cassie não deixou de ser uma grande educadora que me ensinou a importância de acreditar. — As lágrimas começam a surgir em meus olhos. — Algo em seu jeito meigo e mortal me ensinou que a vida exige que sejamos duros, mas flexíveis. Se não fosse ela e sua convicção sobre minha índole, eu teria sido assassinado no segundo dia dos jogos. Eu poderia viver mil anos promovendo um evento anual com lanternas aéreas em homenagem a Cassie, mas isso não seria o suficiente.
Um garoto que aparenta ser um pouco mais novo do que eu lança uma flor branca no palco na tentativa de me encorajar. Respiro fundo buscando fôlego e continuo meu discurso.
— Carter e eu não conversamos de verdade até estarmos na arena. No começo, achei que ele era igual aos outros carreiristas, mas com o passar do tempo, pude conhecer um lado dele que câmera nenhuma poderia captar. — Sorrio para a câmera retrátil que faz questão de focar meu rosto. — Ele foi fiel, generoso e impetuoso. E, por algum motivo que ainda não entendi, se apaixonou por mim. Ele e sua irmã mereciam tanto viver que não durmo direito desde que saí da arena. Não consigo imaginar a dor de seus pais, mas garanto que eles criaram filhos maravilhosos, capazes de se sacrificar por um garoto magrelo do distrito 9 em nome de uma amizade curta, mas eterna. Essa vitória é por eles.
Alguns aplausos surgem na multidão, a mãe deles enxuga as lágrimas e sorri em gratidão pelas palavras. Durante o banquete, que julgo estar ficando enjoativo já que existem um ou dois pratos diferentes, a família de Cassie e Carter se aproxima de mim, acompanhados de um homem parrudo e um garoto de uns doze anos, o mesmo garoto que atirou a flor branca para mim.
— Tem uma palavrinha, Aurum? — Pergunta o pai dos meus aliados, ele parece desconfortável e abraça sua esposa com um dos braços.
— Claro. — Saio de perto do prefeito do 4, um homem esguio que passou os últimos minutos me contando sobre a variedade de peixes produzida no distrito e me aproximo do casal. — Eu sinto muito pela sua perda.
— Obrigado. A forma que você falou sobre Cassie e Carter.. — O homem para por alguns segundos, escolhendo as palavras em meio á dor do luto. — Ficamos gratos por você estar ao lado deles na arena. É bom saber que quem venceu os jogos era amigo deles.
— A gente só queria que você soubesse que não é sua culpa. — É a primeira vez que a esposa do homem emite algum som, ela se solta do seu braço e se aproxima de mim. — Não consigo imaginar como você está se sentindo. Eu me sinto destruída do momento que acordo até o momento que vou deitar, mas não tenho pesadelos. Sei que seu sono deve ser pior que o meu.
Ela me abraça, e retribuo o abraço com toda a força que consigo. É a primeira vez que choro junto á outra pessoa sem ser Garret ou minha mãe. O peso da culpa por não ter conseguido salvar meus aliados me atinge como um soco no estômago, e fico abraçado á mulher por alguns minutos.
— Alguém aqui queria te conhecer. — A mulher puxa o homem e o garoto para perto de nós. — Esse é meu irmão e meu sobrinho, primo de Cassie e Carter.
O homem estende a mão para mim, com um sorriso no rosto.
— É um prazer conhecer você, Aurum. Eu sou Mario Odair. — Retribuo seu aperto de mão. — Este é meu filho mais velho, Finnick.
O garoto sorri para mim, tem os cabelos cor de bronze e os olhos verdes. Seu sorriso é desdentado devido um único canino faltante, resultado da queda tardia de um dente de leite, e ele estende a mão para mim, animado.
— É um prazer, Aurum. — Ele me cumprimenta alegre. — Fiz algo pra você!
— É mesmo? — Sorrio para ele, enquanto o garoto tira uma caixa do bolso.
Dentro da pequena caixa existe um colar feito de corda, com um pingente de concha costurado á mão.
— Se você colocar a concha perto do ouvido antes de dormir, consegue escutar o som do mar. — Ele garante, enquanto os adultos ao redor riem encantados. — Mas precisa ser no escuro, e você precisa estar deitado.
— Obrigado, Finnick. Agora tenho um pedacinho do distrito 4 comigo!
— Sinto muito pelo seu irmão. — Ele diz, me dando um abraço rápido antes de partir junto ao pai para a mesa de comida.
Me despeço da família Seashell ao fim do banquete, embarcando em direção aos distritos faltantes. O colar de conchas pendurado no pescoço como um lembrete do carinho da família de quem não consegui proteger.
O Distrito 3 é apático, meu discurso é fraco e o banquete serve apenas para que o prefeito da cidade faça com que eu escute um discurso de quase uma hora de um dos seus vitoriosos, Beetee, que discursa de forma monótona sobre uma invenção que ajudará o Distrito 9 a processar os grãos e separar o joio do trigo em poucos segundos. Quando chego no Distrito 2, a energia transmuta automaticamente: Apesar de algumas construções espalhadas pelo Distrito, a vida acontece em uma enorme montanha que eles chamam de A Noz. Seus cidadãos são bem alimentados, os adolescentes carreiristas exibem uma expressão arrogante em seus rostos e a família dos tributos se corrói enquanto discurso sobre coragem e superação. É o primeiro distrito em que vejo uma quantidade considerável de vitoriosos, todos igualmente arrogantes. Reconheço a vitoriosa do ano passado, Enobaria, quando ela me cumprimenta com seu sorriso cínico e os dentes serrados como os de um tubarão.
Mas é no distrito 1 que me dou conta da discrepância entre ele e os demais distritos. Existem joalherias espalhadas pela rua, os cidadãos vestem roupas bem costuradas e de tecidos de qualidade e quase todos possuem algum acessório encrustada com gemas. A prefeita do Distrito 1 mais parece uma das acompanhantes dos tributos, exceto que seus cabelos são loiros e ela não usa um penteado bizarro, e ela discursa animadamente sobre a honra que é morrer nos jogos representando o distrito. Quando chega a hora do meu discurso, consigo sentir todo o ódio que a família de Velvet envia para mim de cima do seu palanque.
— É uma honra estar aqui, rodeado pelas mais belas joias de Panem: Os cidadãos do Distrito 1. — Bajulação parece funcionar por aqui, porque as caras fechadas na multidão começam a exibir alguns sorrisos. — E por serem cristais tão bem lapidados, o Distrito 1 conta com o maior número de vitoriosos da história dos Jogos Vorazes. Ninguém conhece tão bem a honra e a glória como vocês, assim como Alaric e Velvet pereceram lutando bravamente. Ambos eram fortes, inteligentes e mortíferos, e sua bravura ecoou por aquela arena assim como sua voz.
— Diferente do seu irmãozinho! — Grita um rapaz do palanque da família de Velvet, que acredito ser seu irmão. Ele sorri com deboche, percebendo que a fala me deixa desconcertado.
— Perdão?
— Está surdo, 9? Pelo menos minha irmã não limpa a bunda dos ricos da Capital! — Ele grita novamente, arrancando risadas da multidão.
Sorrio pra ele com o mesmo deboche.
— Entendo sua dor. O luto é individual para cada um, sabe? Tenho certeza que Velvet foi muito amada. Até eu amei ela, sabia? Por ela ser do um, esperava que ela gostasse de qualquer outra arma, menos de tridentes. — O garoto começa a gritar comigo, enfurecido. A multidão começa a se agitar, com raiva, e percebo que está na hora de finalizar meu discurso. — Não tem um ditado que diz que a gente dá a mão e eles querem o braço? Velvet também quis um, aparentemente.
É necessário que pelo menos cinco pacificadores me escoltem durante o banquete, e apenas interajo com alguns vencedores. Ao fim da noite, retorno ao trem-bala relativamente bêbado e morrendo de rir junto a Laurel.
— Você não morreu hoje por pouco, hein? — Ela me dá um tapinha no ombro. — Provocar logo os cidadãos do 1?
— Eu queria ter xingado ele, mas me contive em nome da minha imagem.
Rimos um pouco mais, e nos acomodamos em duas grandes poltronas próximas a janela.
— Tá afim de beber? — Pergunta Laurel, já tomando o sino em mãos.
— Depois desses onze dias? Com certeza!
— Uma garrafa de vinho, por favor! — Ela balança uma sineta apoiada ao aparador próximo as poltronas. — E uma garrafa de champanhe para o Aurum!
Um avox surge pouco tempo depois, de cabeça baixa e segurando uma bandeja com as bebidas. Ele se aproxima lentamente, é algo em seu andar me parece familiar, quando o homem encaixa a bandeja sobre a mesa, percebo que ele se parece muito com alguém que conheço. Na verdade, ele se parece muito comigo.
— Argentum?
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