A Jornada do Louco
7 A Força
Notas iniciais
Quando Faustina vai embora, todas as sete pessoas originárias do andar estão observando o novo integrante do albergue em silêncio. Ele caminha em direção a Laurel e eles se abraçam, é quando minha mentora desatina a falar.
— Eles te obrigaram a vir? Como você veio parar aqui? Alguém te machucou?
— Não, mãe. Eles apareceram na aldeia hoje pela manhã, com um envelope enviado pelo presidente Snow se referindo a nós como “convidados de honra”. — Ele desenha as aspas no ar com os dedos. — E nos trouxeram pra cá em um aerodeslizador. Eles nos alimentaram e nos levaram para um lugar que Faustina chamou de show room, para escolhermos roupas para usar nos eventos. Sem agressividade.
— Claro que não teve agressão! Vocês acham que nós da Capital somos monstros? — Sabina parece extremamente ofendida com a insinuação.
Todos exceto Sabina, Nefertiti e Dalenhaal se entreolham, como quem se questiona se ela realmente acredita que a ideia dos jogos vorazes por si só não é monstruosa o suficiente.
— Acho que ele não quis dizer isso, Sabina! Vem, vamos buscar mais uma garrafa de champanhe. — Nefertiti pisca para mim e leva a acompanhante para o elevador, com Dalenhaal e Jomilee em sua cola, discutindo qual o melhor espumante para harmonizar com o jantar de hoje.
Quando eles descem, Erin parece se cansar de todo o show e vai direto para seu quarto, sem dizer ao menos uma palavra. Quando percebo, estou eu, Garret e Laurel parados próximos ao elevador.
— Então… Eu vou ver o que tem na mala, acredito que enviaram um colchão inflável. — Ela percebe o clima instaurado e começa a se afastar. — Se eu fosse vocês, iria conhecer o terraço do décimo quarto andar.
Quando ela se vai, olho para Garret e silenciosamente concordamos em conhecer o novo andar. O vidro do elevador reflete meu rosto pensativo enquanto pequenas figuras se movem abaixo de nós, se tornando ainda menores.
— É aqui. — Constata Garret quando a porta se abre, revelando um jardim suspenso repleto de flores silvestres e pequenas mesas redondas de metal, com cadeiras ornamentadas pintadas de branco e dourado.
— É. — Caminho até uma das cadeiras, lançando um olhar para o garoto. — Oi, Garret.
— Oi, Aurum.
Um silêncio constrangedor preenche o ambiente e percebo que vivi silêncios demais nos últimos dois dias. Desvio o olhar para uma planta suspensa que acumula pequenas frutinhas vermelhas, que identifico como sendo um visco.
— Minha família? — Pergunto após alguns segundos.
— Estão bem, mandaram apenas eu e outros dois filhos de mentores aqui para o prédio, as famílias estão acomodadas em um prédio diferente.
— Então estão proibidas as interações?
— Só podem interagir nos eventos oficiais e no dia do banquete.
Respiro aliviado, Garret não fala mais nada por um tempo. Decido falar sobre o elefante branco na sala.
— Olha, sobre a carta…
— Tudo bem, esquece isso, Aurum. Eu não sei onde estava com a cabeça. — Ele olha para o horizonte.
— Eu acho que sei onde você estava com a cabeça sim. — Retruco sem olhar para ele.
— É mesmo? Onde?
— Em mim, aparentemente. — Olho para ele e vejo suas bochechas corarem.
Ele olha para mim, acredito eu que questionando o que se passa em minha mente, e seus dedos começam a tamborilar o tampão da mesa.
— Primeiro eu achei que você fosse odiar, mas aí no desfile você cheirou a flor, e aí você me mandou..
Ele para no meio da frase, desviando o olhar novamente.
— Vou ser sincero com você, Garret. Na hora eu achei bizarro, depois eu achei fofo, e agora não sei o que eu acho. — Minha mão desliza pela mesa e segura seus dedos delicadamente, ele olha para nossas mãos e posso jurar sentir seu coração disparar. — Eu estou indo para uma arena com vinte e três jovens e no fim do mês só restará um de nós. Eu vou tentar sair vivo, e se isso acontecer, a gente vai se conhecer. Porquê, vamos ser francos, eu não te conheço.
Ele baixa os olhos novamente. Seus dedos acariciam minha mão inconscientemente, e percebo que talvez tenha sido sincero demais.
— Mas você até que é bonitinho. — Ele arregala os olhos e sorrio de canto para ele. — Quem sabe até o dia da arena eu não te conheça melhor.
Me inclino para frente e dou um beijo em seu rosto, o cheiro de ervas característico de Garret invade minhas narinas. Ele vira lentamente o rosto em minha direção, a respiração fraca já falhando.
— Você está perto demais. — Ele consegue dizer.
— Acho que sim. Quem sabe eu não chego um pouquinho mais da próxima vez?
E quando as luzes do horizonte começam a se apagar, decidimos que é hora de voltar para o andar do nove.
Na manhã seguinte, mal tenho tempo de pensar no ato de ousadia que tive com minha paquera do distrito 9 pois minha acompanhante quase estoura a porta do quarto de tanto bater. Quando abro a porta, ela segura uma muda de roupas e seu semblante transparece impaciência.
— Vista isso, você tem cinco minutos. Cozinha, mentores, agora.
Delicada como um bonsai, espero ela sair em direção ao quarto de Erin e começo a me vestir, hoje começam as sessões coletivas de treinamento, o que significa que seremos apresentados formalmente uns aos outros e aprenderemos habilidades novas. Também é a oportunidade de observarmos nossos adversários para identificar potenciais ameaças e formar alianças.
Quando chego na sala, Laurel está me esperando com uma xícara de café e um sanduíche de rosbife com ovos mexidos.
— Bom dia, Aurum. Oficialmente iniciamos a sessão de treinamentos. Está pronto?
— Vamos lá. Qual minha sorte do dia? — Pergunto entre mordidas no sanduíche.
— Os carreiristas estão em desvantagem devido ao porte físico dos tributos do 4, e em questão de tamanho, eu me preocuparia com o distrito 1, 2, o garoto do 5, os dois do 8 e o garoto do 11.
Ela continua.
— Mas se a arena for um local apertado, eles estão em desvantagem. Se for uma arena em que precisa usar a lógica, músculos podem não ser importantes. Recomendo que no primeiro dia você foque em habilidades que você ainda não possui, analise seus concorrentes e inicie conversas despretensiosas.
Conto a ela rapidamente que tenho uma certa habilidade com facas de arremesso e conheço um pouco de flores e frutas. Laurel me orienta a visitar seções de sobrevivência antes de visitar a parte de armas.
— Tem mais uma coisa. Você precisa decidir se confia ou não na Erin, isso pode ser decisivo antes dos jogos começarem.
Confirmo com a cabeça após concluir meu café, e quando minha parceira de distrito chega, descemos até o andar térreo sem nem mesmo um bom dia.
O prédio dos tributos é grande, mas o centro de treinamento parece ainda maior. Tem pelo menos quinze estações, cada uma com um propósito diferente e com um instrutor diferente. As primeiras estações estão carregadas de armas de todo tipo, das famosas espadas até as pouco utilizadas picaretas, e mais ao fundo temos estações focadas em sobrevivência.
Erin se afasta de mim logo que chegamos, e percebo que uma aliança com ela está fora de cogitação. Uma mulher chamada Atala reúne os tributos quando todos chegam ao andar e inicia uma explicação sobre como estamos proibidos de brigar durante o treinamento, as principais causas mortis na arena, e a diferença entre objetos cortantes, perfurantes e contundentes. Quando somos liberados, meus olhos fixam diretamente na sessão de arremesso de facas, aqueles objetos perfurocortantes de diferentes tamanhos, pesos e formatos. É preciso que eu respire fundo e saia de perto da seção para evitar cair na tentação.
Decido iniciar meu treinamento na seção de armadilhas, onde um senhor de idade com poucos fios de cabelos brancos ensina a mim e aos tributos do cinco como montar e desarmar uma armadilha para ursos. Descubro que meus colegas se chamam Liss e Volter, eles são educados mas evitam contato. Aproveito a distração deles com a armadilha e decido me movimentar para a estação de primeiros socorros, onde a garota do sete e o garoto do onze aprendem a criar seu próprio unguento para proteger ferimentos.
— Esta folha aqui se chama barbatimão, ela ajuda a fechar os vasos sanguíneos. — Uma mulher, que reconheço pelo nome de Cecelia apresenta a folha para os tributos. — Se misturarem com um pouco de gordura animal ou cera de abelha, obterão um unguento poderoso.
— E se a arena for gelada ou desértica? — Pergunta a garota do sete.
— Procurem por rios, nesse tipo de arena existe sempre uma fonte de água com peixes, lá vocês vão achar um específico que pode ajudar vocês.
— Tilápia. A pele é usada para queimaduras, não? — Respondo de imediato. — Lembro que uma garota do 8 utilizou depois de queimar a perna em um incêndio na cornucópia.
Cecelia sorri.
— Ponto para o distrito 9! Está correto. A pele da tilápia comum tem ação cicatrizante, mas a tilápia modificada da arena cicatriza três vezes mais rápido. — Ela puxa a barra da calça e mostra uma cicatriz quase imperceptível. — Viram só?
É assim que me dou conta que Cecelia é a garota do distrito 8 que comentei anteriormente. Ela venceu os Jogos sete anos atrás e foi elogiada pela técnica com o peixe.
— Não é só o distrito 4 que precisa entender de peixes. — Ela sorri para nós, e decido explorar outras seções após tomar uma nota mental sobre a importância das tilápias na arena.
Decido treinar minha resistência física em uma estação ambiental, e caminho até o final do centro de treinamento, onde existe um retângulo enorme com um letreiro brilhante escrito “SIMULADOR DE TERRENOS”. Quem comanda a estação é um homem franzino de olhos esbugalhados, que discursa animadamente para os tributos do doze sobre as maravilhas das arenas desérticas, o que deixa meus colegas relativamente apavorados com os perigos descritos.
— Bem vindo, 9. Já sabe qual arena quer simular? — Pergunta o rapaz, digitando em uma grande tela acoplada ao sistema.
— Não tenho nenhuma ideia. O que você me indica?
— Que tal uma surpresa? — Ele sorri.
Faço que sim com a cabeça e me dirijo a entrada do simulador, arregaçando as mangas da camiseta. Estou prestes a entrar quando ouço uma voz vinda de trás de mim me chamando.
— Aurum! Podemos treinar com você?
É Cassie, do distrito quatro. Ela e o irmão chegam apressados a porta do simulador, vindos de alguma outra estação que não me importo o suficiente para perguntar. Sinceramente, não tenho vontade de desenvolver nenhum tipo de vínculo com os irmãos, mas evito me indispor com eles e concordo com um sorriso amigável.
— Claro, vamos nessa!
Entramos no simulador com Cassie dando pulinhos de alegria, Carter não demonstra a mesma empolgação e segue em silêncio. O simulador está vazio e parece com um dos containers que já vi em meu distrito que servem para encher de grãos, e imagino que serão projetados hologramas para treinamos.
— Espero que estejam prontos. A simulação começa em três, dois.. — O homem aciona algum botão no tablet e a mágica acontece.
Do chão que estamos pisando surge um gramado verde tão real que consigo sentir o cheiro de mato, algumas árvores surgem nos cantos e a temperatura cai rapidamente. Identifico que as árvores são pinheiros, tradicionais no distrito 7 onde extraem madeira para a Capital. O chão começa a se mover lentamente e percebo que estamos em uma espécie de esteira.
— Desviem dos obstáculos. — Grito para os irmãos, e sinto o chão aumentar a velocidade gradativamente. Enquanto caminho, desvio das árvores artificiais com facilidade, o que começa a ser um empecilho é quando a velocidade aumenta consideravelmente.
Depois do que parece uma eternidade, o chão finalmente para de se mover e a paisagem se dissolve. Estou pronto para sair quando uma grossa camada de areia brota do chão, um calor escaldante irrompe das paredes do simulador e minha testa começa a suar.
— Deserto, que nem a arena do ano passado! — Grita Cassie, quando o vento começar a formar uma tempestade de areia.
Corro até os irmãos e nós abaixamos juntos, formando uma parede e protegendo nossos rostos abraçados em um círculo. Quando a tempestade passa, Carter começa a afundar no solo, sem conseguir se alçar para fora.
— Ajuda! — Ele grita em desespero, os olhos arregalados.
Se nos aproximarmos, corremos o risco de afundar junto com ele, e começo a procurar na extensão da caixa algo que possamos usar para tirá-lo de lá. Coincidentemente, o responsável pela estação fez surgir uma corda no canto do equipamento, apanho seu cabo e jogo uma ponta para Carter.
— Vamos lá, Cassie! No três. Um! Dois! Três! — Puxamos a corda com toda força, o corpo de Carter começa a deslizar para fora da areia, e em instantes ele está a salvo.
— Conseguimos! — Ela me abraça, novamente dando seus pulinhos de alegria. Carter parece nervoso, mas me dá um tapinha no ombro como agradecimento.
— Vem, vamos sair daqui. — Caminho em direção a porta de saída quando o cenário se desfaz, e sinto a temperatura cair ainda mais do que a simulação da floresta de pinheiros.
Quando olho pro chão, meus pés estão cobertos com uma areia branca e úmida, e minha respiração gera fumaça visível aos olhos. Meu coração dispara quando olho ao redor e vejo que existem blocos de gelo espalhados pela sala da simulação, nos colocando para treinar em uma arena de gelo.
Gemma.
Minha mente me transporta direto para a 59º Edição dos Jogos Vorazes, consigo ver claramente o corpo pequeno de minha irmã deslizando para fora da Cornucópia, segurando apenas uma pequena faca. Lembro das focas bestantes devorando os tributos, a escassez de comida e água que obrigou minha irmã a beber o próprio xixi. Começo a hiperventilar e percebo que meus colegas de simulação estão correndo em direção a um grande bloco de neve, subindo sobre ele.
— Aurum, sobe logo aqui! — Cassie grita, o rosto horrorizado.
Quando olho para trás, vejo que uma inundação se aproxima de mim, rápida como a formação de uma tempestade. Aos meus pés, um tijolo de gelo me faz lembrar do bloco utilizado para esmagar a cabeça da minha irmã mais velha, e meu corpo trava completamente, é quando a água me atinge em cheio e sou arrastado para trás.
Ouço gritos abafados pela água que preenche meus ouvidos, meu corpo se debate na tentativa de me empurrar para cima, mas não tenho sucesso. Minha mente me lembra uma informação não percebida durante os quase quinze anos da minha vida: eu não sei nadar. Começo a perder o fôlego e aceito que irei morrer antes mesmo de entrar na arena, e quando estou prestes a respirar um litro de água, braços me alçam acima da água e me carregam para o bloco de neve mais próximo.
Fora da água é mais frio ainda, e levo alguns segundos para perceber que Cassie e Carter se lançaram na água para me buscar. Eles estão igualmente encharcados como eu, mas não parecem nem um pouco exaustos da braçada que deram para me tirar do fundo da caixa.
— Vocês ficaram malucos? Vocês poderiam ter morrido! — Grito com eles, incrédulo com a atitude irresponsável.
— Você é idiota? Nós somos do 4, passamos a vida nadando. — É a primeira vez que Carter fala mais de duas palavras, e vejo que ele ficou ofendido com a insinuação.
— Além do mais, não deixaríamos nosso aliado morrer. — Cassie ajeita meu cabelo molhado, torcendo a barra da minha camiseta.
A simulação começa a se desfazer e um vento quente irrompe pelas paredes, teto e chão. Em segundos, estamos secos como nunca estivemos. Quando a porta se abre, pelo menos sete tributos estão nos observando e o instrutor bate palmas efusivamente.
— Isso, queridos tributos, é a mais bela demonstração de uma aliança!
Saio da caixa ainda estarrecido com a situação. Bebo um copo de água que Cassie busca para mim e me sento em um banco longe do simulador. Quando se aproxima do fim do primeiro dia de treinamento, minha mente só consegue pensar que preciso informar minha mentora que agora, querendo ou não, tenho dois aliados. E eles são irmãos, ótimos nadadores e carreiristas renegados.
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