A Jornada
5 O Fim do Castelo de Papel
Capítulo 5 – O Fim do Castelo de Papel
Kimberly olhava para o teto do seu quarto, sem um pingo de sono. A conversa com seus pais havia tirado um peso de suas costas e, quando chegou com Ramona em casa novamente, seus pais fizeram algo que nunca tinham feito: um jantar em família, onde conversaram com Ramona e disseram o quanto haviam as criado erroneamente e que agora seria completamente diferente. Fora uma cena emocionante quando Richard e Justice abraçaram a filha mais nova e disseram que a amavam, Kimberly precisava confessar.
O celular tocou sobre a escrivaninha próxima a cabeceira da cama. Kim pegou o aparelho e viu o nome brilhante de Dylan na tela. Deu um leve tapa em sua testa. Havia esquecido completamente da festa do namorado.
— Oi Dylan. – atendeu o telefone e pôde distinguir o som de música alta e conversas.
— Kim! Cadê você?
— Desculpe, mas é que aconteceram algumas coisas aqui em casa e...
— Você não vem? – Dylan lhe cortou, obviamente não havia escutado nada do que ela tinha dito. Ele soltou uma risada, provavelmente de algo que alguém falou para ele. – Você não vem, Kim?
— Desculpe, mas não vou conseguir ir.
— Mas você disse que vinha! – ele pareceu uma criança, emburrada pelo fato dela não ir.
— Aconteceram algumas coisas aqui em casa, então não vou conseguir ir. – ela repetiu e ouviu uma risada e um resmungo do outro lado do telefone. Kimberly franziu o cenho. – Quem está aí com você, Dylan?
— Então, está bem, Kim. Amanhã nos falamos. – e antes que ela pudesse repetir a pergunta, ele desligou o telefone.
Kimberly olhou para o aparelho com o cenho ainda franzido. Dylan estava estranho, mais do que o normal. Ela sabia que não conseguiria dormir tão cedo, afinal sua cabeça estava a mil, então decidiu que não faria mal algum ir até a tal festa do namorado.
Colocou um vestidinho florido e um salto alto preto, passou uma leve maquiagem e pegou a bolsa e as chaves do carro. Deixou um bilhete na cozinha, dizendo para a mãe onde havia ido e saiu de casa.
A mansão estava lotada. Nos jardins, havia lixo e pessoas caídas de tão bêbadas, além de muitas pessoas dançando e se beijando. Kimberly adentrou a casa e logo avistou um amigo de Dylan, que dançava de forma extremamente sensual com uma garota. Ele estava visivelmente bêbado, mas como ela não viu o namorado por perto, Kim decidiu perguntar onde ele estava para o rapaz.
— Ei, Marco. – ela o chamou e, quando foi ignorada, o cutucou até que ele a olhasse. – Você viu o Dylan?
— Acho que ele subiu para o quarto dele. – o garoto respondeu e voltou sua atenção para a garota a sua frente.
Kimberly deixou os dois e se dirigiu para as escadas. Achou estranho que o namorado tivesse subido para o quarto dele, afinal a festa ainda estava acontecendo e parecia que não terminaria tão cedo. Ela se perguntou como os vizinhos conseguiam aguentar aquilo. Já se passava da meia noite e o som da festa explodia por todos os cantos da casa, tão alto que ela podia sentir a cabeça vibrar com a batida da música.
Chegou à porta do quarto de Dylan e ouviu barulhos estranhos vindos de lá. Arregalou os olhos violeta, pensando que algum convidado havia entrado ali dentro e estava fazendo coisas indevidas no quarto do anfitrião.
Abriu a porta, pronta para gritar com as pessoas e expulsá-las de lá, mas seu corpo travou com o que viu. Dylan estava completamente nu em cima de Hannah, que se contorcia enquanto ele realizava movimentos pélvicos, e ambos gemiam alto.
Seria uma cena engraçada, se não fosse trágica. Foi o que Kimberly pensou. No instante entre a aberta da porta e a captação da cena, Dylan se jogou na cama enquanto Hannah tentava se cobrir com o lençol. Os olhos castanhos de Dylan se arregalaram enquanto Hannah apresentou uma expressão aterrorizada. Ao ver que o rapaz ao seu lado não estava em condições de dizer algo, Hannah tentou falar.
— Kimberly, eu... – ela tentou começar, mas Kim ergueu a mão para que ela se calasse.
— Eu poderia falar muitas coisas para você, Hannah. Mas a culpa não é sua. Eu não tenho raiva de você. – ela disse, tão calma que ela mesma se surpreendeu. – Eu sei como o Dylan é, e se você quer um conselho, não se envolva com ele. Tudo o que ele disse para você, todas as frases românticas e gentis, é tudo mentira. É só uma forma de te levar para a cama e depois jogar fora. É assim que as coisas funcionam para garotos como o Dylan. Eles são gentis e românticos até conseguir o que eles querem, e depois se revelam o que verdadeiramente são: completos babacas. Você merece algo melhor, Hannah, acredite em mim.
— Kimberly, eu... Desculpe-me! – Dylan exclamou, se levantando rapidamente e jogando as peças de roupa de Hannah em cima da pobre garota, que o olhou estarrecida. – Eu estava bêbado, e fiquei chateado porque você não veio. Isso não devia acontecer!
Kimberly olhou para a pobre garota na cama, que abaixou o olhar e começou a se vestir. Hannah gostava daquele garoto, e havia acabado de criar a ilusão de que ele também sentia algo por ela.
Quantas vezes aquilo tinha que acontecer? Quantas vezes ela havia presenciado algo parecido com os colegas de equipe de Dylan e tinha se mantido calada? Não daquela vez. Não com aquela nova Kimberly.
— Você quer me convencer de que você estava bêbado e a Hannah te seduziu? – Kim indagou e, quando Dylan assentiu, ela riu. – Por favor, Dylan. Não menospreze a minha inteligência. Eu convivo com você e seu grupinho por mais de dois anos. Eu sei exatamente como vocês são. Atrair garotas novas e iludi-las para que elas pensem que vocês sentem algo por elas é o passatempo preferido de vocês. E eu cansei de me manter calada quanto a isso. Vocês são nojentos!
Ela caminhou até a cama e pegou a mão de Hannah, ajudando-a a se levantar e terminar de se arrumar. Dylan tentou tocá-la, mas Kimberly desferiu um tapa em sua mão.
— Fique longe de mim! E da Hannah também! – ela exclamou e, quando o rapaz tentou novamente se aproximar de si, Kimberly lhe deu um tapa na cara. – Eu não quero mais vê-lo novamente, entendeu Dylan? E se eu lhe ver chegar perto de mim ou de Hannah, eu não respondo por mim.
Ela saiu do quarto, puxando Hannah consigo. A menina chorava copiosamente e, com o braço livre, se abraçava forte. Kimberly ouviu Dylan lhe chamando desesperadamente, mas não olhou para trás. Abriu a porta do seu carro para que Hannah entrasse e, quando foi em direção à porta do motorista, Dylan agarrou seu braço.
— Você vai me escutar, Kimberly. Como você pode defendê-la? É apenas uma garota que você mal conhece e que sempre ficou se insinuando para cima de mim! Eu fui seu namorado por dois anos! Você sabe que eu nunca seria capaz de te trair! Eu te amo! Foi um erro que não vai se repetir!
— Engraçado que você não me parece nem um pouco bêbado, Dylan. E, como você disse, eu te conheço por dois anos e eu já te vi bêbado. E quando você fica bêbado, você fica muito diferente do que está agora. – ela soltou seu braço e cruzou os braços. – Você não me ama, só está falando isso por causa dos meus pais e porque ainda não conseguiu fazer sexo comigo! Eu vou defendê-la sim, e sabe por quê? Porque se nós, mulheres, não nos defendermos de babacas como você, quem vai?
Sem dizer mais nada, e deixando para trás um rapaz completamente estarrecido, Kimberly entrou no carro e arrancou.
No meio do caminho, depois de diversos minutos de silêncio, Hannah resolveu falar. Ela havia parado de chorar a alguns minutos atrás e Kimberly estava esperando que ela falasse algo.
— Desculpe por fazer você passar por isso, Kimberly. Justo você, que foi tão legal comigo e que me ajudou na adaptação a faculdade.
— Não é você que tem que pedir desculpas, Hannah. Você não era a minha namorada, portanto não me devia nenhum tipo de fidelidade. Mas o Dylan, sim. – foi tudo o que Kimberly respondeu.
O restante do caminho foi silencioso. Quando chegaram em frente a casa de Hannah, Kimberly segurou a mão da garota antes que ela pudesse sair do carro.
— Você é uma garota muito bonita e inteligente, Hannah. E eu sei que o Dylan parece um cara maravilhoso, mas ele não é. Eu digo isso não porque ele me traiu com você, mas sim porque eu conheço como ele realmente é. Por baixo daqueles cachos louros e da postura gentil e romântica, ele é inescrupuloso e ilude as garotas apenas para se alto beneficiar.
— Obrigada pela carona, Kimberly. – ela agradeceu e olhou para baixo. – Desculpa por tudo o que aconteceu hoje. Sei que você falou que eu não preciso me desculpar, mas mesmo assim me sinto muito mal.
— O que você fez foi errado. – Kim disse, o que chamou a atenção da garota a sua frente. – Mas não por minha causa, e sim por sua. Você merece algo melhor, Hannah. Só precisa fazer melhores escolhas quanto a relacionamentos.
— Ele foi gentil comigo. Agradeceu-me por ter ajudado a organizar a festa e disse que estava triste por você não ter ido à festa. Eu disse a ele que devia ter acontecido algo com você e que ele devia ligar para você para ver o que tinha acontecido. Então eu sai para falar com algumas amigas minhas, e ele foi para perto dos amigos dele para te ligar. – Hannah começou a contar, mexendo nervosamente as mãos. – Eles riam e olhavam na minha direção. Foi então que o Dylan desligou o telefone e me chamou. Ele disse que você realmente não vinha e me perguntou se eu não queria dançar com ele. Desde que eu cheguei na faculdade, eu havia o achado muito bonito, mas sabia que ele não era pra mim, afinal vocês namoravam. No meio da dança, ele me perguntou se eu não queria subir para conversar. Eu fui idiota e inocente, e aceitei o convite. Quando chegamos lá, ele disse que você tinha brigado com ele e que tinham terminado.
— Ele disse isso? Cafajeste! – Kimberly balançou a cabeça, batendo de leve no volante.
— Sim. Eu disse que vocês deviam conversar pessoalmente e que talvez se entendessem. Mas ele disse que era definitivo e eu o abracei, dizendo que vocês provavelmente iriam se reconciliar. Foi então que ele começou a me elogiar. – ela limpou uma lágrima que havia escorrido pela sua face e Kimberly sentiu o coração se apertar com aquilo. Dylan era realmente um babaca. – Disse que ele notou que eu o admirava e que ele me achava muito bonita. Eu fiquei sem reação, quando me dei conta, nós estávamos nos beijando e ele já estava puxando minha blusa. Quando eu disse que estava com medo, pois era a minha primeira vez, ele me disse que tudo ia ficar bem e continuou. E aconteceu tudo o que aconteceu.
Kim passou a mão pelos fios castanhos de Hannah, tentando consolá-la.
— Estou com tanta vergonha!
— Quem tem que se envergonhar é ele, Hannah. Você só demonstrou algo muito bonito para a pessoa errada. – Kimberly sorriu com doçura.
— Você realmente não está brava comigo?
— Por que eu ficaria? – ela deu de ombros. – Você era a minha namorada?
— Não.
— Então, não era você que precisava ser fiel a mim. – Kim sorriu novamente e Hannah sorriu de volta, meio acanhada.
— Obrigada por me ajudar, Kimberly. Eu fiquei tão envergonhada quando você apareceu e mais ainda quando ele começou a se desculpar. E foi aí que percebi que tudo o que ele tinha me dito era para me usar.
— Ele é um cafajeste e um babaca. – ela concordou e abraçou Hannah. – Se ele tentar falar com você, dê um tapa na cara dele e diga para ele ficar longe de você.
Hannah riu e assentiu, abrindo a porta do carro.
— Vou dar dois tapas na cara. Um por mim, e outro por você.
— Eu agradeço. – Kimberly piscou um dos olhos, o que fez com que a outra garota risse. – Boa noite, Hannah. Qualquer coisa que precisar, pode me mandar mensagem.
— Boa noite, Kimberly. E obrigada de novo. – ela fechou a porta e começou a se afastar, mas então pareceu lembrar-se de algo e voltou a se virar para Kim. – O que você disse antes, foi a coisa mais legal que eu já ouvi na minha vida. “Porque se nós, mulheres, não nos defendermos de babacas como você, quem vai?”. Eu vou sempre me lembrar disso. Obrigada.
Sem dizer mais nada, Hannah se afastou do carro e entrou na casa dela. Kimberly sorriu com aquilo. Apesar de ter acontecido aquilo, se sentia feliz e leve. Ela estava começando a se descobrir e estava ficando orgulhosa da Kimberly que ela estava descobrindo. Só faltava mais uma coisa que ela precisava fazer.
[...]
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