A Joia de Indigy
5 A joia roubada
Vi meus pais pela última vez há dez anos. Porém nunca me esqueci das coisas que aprendi sobre o mundo e sobre mim mesma com eles. Na nossa casa perto da praia descobri que amava o mar gelado no dia de meu aniversário de sete anos, porque tinha ficado tão irritada com algum motivo simples e corri para lá. E fazia questão de entrar nele todos os dias desde então, especialmente naquelas tardes nublados. Todas as vezes que estava prestes a entrar na água eu sentia medo daquela sensação de dormência que aparecia no começo. Mas, poucos segundos depois, eu sabia que ia sentir a renovação. Meu corpo parecia mais forte e resistente, e ao mesmo tempo tão vulnerável. Sentia que podia correr o mundo sem nunca mais parar porque meu coração poderia esquentar e martelar minhas costelas, mas meu sangue frio me salvaria.
Era quase inverno em Kraines, nosso país. Não consegui deixar de pensar naquelas noites em que insistia em entrar no mar congelante. A sensação que eu tinha agora era parecida. Mas agora eu estava deitada em grama molhada e sentia as gotas pesadas e frias de chuva pingarem no meu rosto. Abri meus olhos. Galhos estavam em cima de mim, me arranhando. Mexi-me para afastá-los e parte de grama semicongelada estalou.
Assim que me levantei o vento assobiou em meus ouvidos e fez as folhas das árvores balançarem violentamente. Ignorei a dor em minha barriga. Havia uma trilha de destruição, com galhos caídos e árvores que foram acertadas, e a segui. Estavam chamando meu nome, consegui perceber mesmo com o zunido em meu ouvido. Isso era bom. Se podiam gritar então estavam bem. O aperto que não percebi que sentia no peito sumiu.
Ross estava ao lado de Sarah, e os dois estavam me chamando. Eles estavam de costas para mim e o jato estava perto deles, sua frente completamente destruída e o resto escondido por lama e plantas. Os jatos contavam com um pouco de magia de proteção, como todos os meios de transportes. Isso queria dizer que haviam nos sabotado. Pobre piloto...
Hesitei antes de chamar a atenção deles. Não confie em ninguém, não confie em ninguém, repeti para mim mesma e logo me repreendi. Eles estavam ali, feridos como eu e à minha procura. Eles estavam no jato. Por que tentariam sabotá-lo?
Quando dei o primeiro passo em direção a eles, senti um choque que me levou ao chão. Gemi com o impacto na barriga, mas logo protegi o rosto com os braços. Eles foram afastados com força e senti as mãos fortes em meu pescoço. Mason estava em cima de mim, apertando meu pescoço com força, a fúria crescente em seus olhos. Chutei sua barriga e ele vacilou o suficiente para que eu o afastasse. Só tive tempo de me agachar antes que ele se voltasse para mim novamente e dei um soco em seu nariz. Me levantei, mas ele puxou meus pés, me derrubando novamente. Escorregava com facilidade no solo molhado. Ele me puxou em sua direção. Levei minha mão à minha coxa em busca da adaga e quando finalmente a alcancei, Ross puxou o amigo pelos ombros, nos afastando. Fui em sua direção, mas Sarah me segurou também.
—POR QUE VOCÊ APENAS O SOLTOU?- Mason gritou. – VOCÊ QUERIA QUE EU MORRESSE? POIS QUASE CONSEGUIU!
Respirei fundo quando entendi a situação. Deixei que meus dedos se afrouxassem do cabo da adaga. Eu era a responsável pelas algemas. Meus reflexos apenas me permitiram liberar um. Aparentemente fora Ross. Que otário. Se eu o quisesse o matar, faria de forma bem mais simples. Agachei-me na frente de Mason e lhe dei um soco. Ele apagou. Passei reto por eles depois, afastando o cabelo molhado do rosto e tentando descobrir que lugar era aquele.
—Onde estamos? – Perguntei, me apoiando em um tronco enquanto levantava a camiseta. Uma pequena perfuração acima do umbigo. Nada demais.
Sarah e Ross trocaram um olhar confuso. Mas Sarah deu de ombros e respondeu:
—Não muito longe de Toprien. Pouco mais de uma hora andando, talvez. Reconheço essa vegetação. Fica perto das trilhas.
Eles pareciam inteiros. Já tiveram tempo para se curar. Ross parecia estar sentindo ainda um pouco de dor. Pensei em perguntar a Sarah se ela sabia o motivo daquele incidente. Que fora proposital. Mas ela não ficaria feliz em mostrar nossa pequena falta de descuido na frente de forasteiros.
—Bem, o que estamos esperando? – Olhei para cima. A chuva estava mais fraca e consegui enxergar a posição do sol. Ele estava perto de se pôr. Comecei a andar na direção Oeste.
Ross fez menção de falar algo, mas Sarah fez um gesto com a mão e Mason estava acordado novamente, grogue. Enquanto andava não pude deixar de perceber que os arranhões simples causados pelos galhos ainda não tinham sumido como deveriam ter feito em poucos minutos. Tentei não pensar no que aquilo significava.
°°°
Chegamos tarde demais em Toprien. A casa estava silenciosa e escura, passava do toque de recolher em que geralmente desligavam as luzes. Sarah ficara encarregada de avisar que estávamos lá para não dispararmos nenhum alarme. Era noite de lua nova e absolutamente nenhuma luz iluminava o interior da mansão. Sarah e eu tínhamos tocado em nossas joias e um fraco brilho azulado surgiu, suficiente apenas para vermos os rostos uns dos outros. Segurara a mão de Ross, que apoiava Mason, e o guiara para um dos quartos no segundo andar, perto do meu, por saber os caminhos da casa de cor.
Quando finalmente entrei no meu quarto me joguei no carpete branco. Fiquei ali por bastante tempo, sentindo o cheiro e a familiaridade do lugar. Fechei os olhos apesar da escuridão, tateando os móveis e sem dificuldade alguma em reconhecê-los. Eu passara muitas horas de castigo naquele lugar e conhecia cada detalhe. Eu nunca fora uma pessoa de prestar atenção em qualquer detalhe, mas meu quarto era uma exceção. Jamais tinha enjoado. Me livrei dos sapatos apertados e acabei batendo o joelho na mesa que eu sabia que ficava perto da porta. Sabia que uma prateleira estava do lado dela. E que logo iria me deparar com as portas de vidro que levavam à sacada. Esbarrei na cama antes de passar os dedos pela parede lisa de...
Duas batidas na porta.
Eu não queria abrir. Queria me jogar naquela cama macia e apagar. Não queria falar sobre o acidente ou sobre os conflitos que aconteciam. Não queria que me lembrassem de que não tinha encontrado minha alma ainda. Mas suspirei e abri a porta. Ross estava se afastando, mas se virou para mim. Eu sabia que ele estava vermelho, porque sempre ficava quando alguém lhe dava o mínimo de atenção. O cabelo loiro cobrindo os olhos como sempre. Ele se aproximou.
—Posso voltar outra hora. –Sussurrou.
Segurei o colarinho de sua camiseta e o puxei para dentro. Fechei a porta e gesticulei para que ele se sentasse em minha cama. Ele o fez, os ombros encolhidos como se tivesse realizando um crime só por estar ali. Sentei no carpete, de frente para ele.
—Eu só queria pedir desculpas por Mason. Ele anda se estressando rapidamente, com essa ideia louca de que alguém quer nos matar. –Ele falou baixinho.
—Isso tem alguma coisa a ver com o que aconteceu no dia que encontramos vocês?
Ele se mexeu desconfortavelmente. Quando foram interrogados separadamente, os dois falaram para mim e para Nora que estavam caçando na fronteira de Indigy e das terras selvagens quando foram surpreendidos por uma saraivada de flechas. Correram sem rumo e acabaram perto do abrigo. Lá foram finalmente alcançados e perderam de vista seus perseguidores. Nora me disse depois que muitas pessoas tinham sido mortas nas fronteiras entre as terras selvagens e as três regiões, mas não encontraram nenhum motivo aparente. Primeiro pensaram que era algo dos Verdes até que eles também foram mortos.
—Aquilo definitivamente ajudou.
Ross deslizou de minha cama para o chão. Agora nos olhávamos de forma mais igual em altura. Percebi um arranhão em sua bochecha. Ele também não tinha se curado.
— Camellia, você acha que seria possível eu me juntar a vocês?
Balancei a cabeça.
—Não sei. Nunca vi um Vermelho se juntar novamente há uma sociedade.
Ele se aproximou ainda mais. Olhou para suas mãos antes de falar novamente.
—Eu posso ajudar. Mason também. Conhecemos essas terras muito bem. É justo depois do que fizeram por nós.
—Ross, daria uma trabalheira. Teríamos que entrar em contato com os Dourados, procurar algum tipo de perdão ou sei lá...
—Não se mantermos em segredo. – Ele me cortou.
Levantei as sobrancelhas. Ele estava mesmo empenhado com aquela ideia.
—Você pode ser útil. Eles levarão isso em consideração. Ou então cortarão sua cabeça e darão para os porcos.
Ele arregalou os olhos e eu ri. Ross definitivamente era mais velho que eu, mas tinha uma inocência encantadora em seus olhos. Ele abriu um sorriso e olhou ao redor, como se tivesse percebido apenas naquele momento que estava em meu quarto. Seus olhos pararam na parede onde fotos estavam penduradas.
—Quem são essas pessoas? – Ele se levantou e tocou nas fotos. Uma delas acabou caindo e ele me lançou um pedido de desculpas com os olhos antes de se abaixar para pegá-la.
—Não sei. – Deitei no carpete, com as mãos apoiadas atrás da cabeça, de frente para a parede que dediquei inteira para as fotos. – Eu gosto de fotografia. Registro muito do que vejo. A câmera foi o último presente que meu pai me deu.
Eu sabia qual pergunta apareceria na cabeça de Ross agora. Mas ele foi sensato o suficiente para não questionar onde meu pai estava.
—Você não conhece ninguém das fotos?
—Conheço, claro. – Fechei um olho e apontei para a foto mais afastada, de uma criança com olhos puxados e o sorriso com um dente faltando. – Aquela é princesa dourada, ou foi esse o nome que ela me deu. Tirei essa foto antes daquele monstrinha roubar minha câmera e me morder quando tentei recuperá-la. Aquela ali – Apontei mais ou menos ao centro – É cuidadora da torre de alguma praia do norte numa viagem que fiz. E aquele é Cameron.
Ross se virou para mim.
—Aquele é Cameron? Sem nenhuma explicação?
E eu realmente queria explicar aquilo?
—Cameron foi meu primeiro namorado. Mais um dois vieram depois dele.
Ross levantou a sobrancelha.
—Você não quis esperar sua alma? Como a maioria das pessoas faz?
Revirei os olhos.
—Não. E eles também não. Talvez eu nunca conheça minha alma. E, se um dia conhecer, ter um pouco de experiência é sempre bom. –Lhe lancei um sorriso provocador e pisquei um olho. Ele abriu a boca, chocado. – O que? Você nunca ficou com alguém?
O rapaz engoliu a seco e hesitou. Me arrependi imediatamente de fazer aquela pergunta. Poucas pessoas se sentiam confortáveis em falar sobre sua vida amorosa que não incluísse o seu verdadeiro par.
—É, já fiquei com alguém. –Ele disse simplesmente. – Preciso ir.
Me levantei de uma vez, cambaleando até a porta. Ross me olhou um pouco sem graça quando me alcançou.
—Boa noite. – Dei um beijo em sua bochecha. Não vi sua expressão quando ele saiu.
°°°
Ross
Girei a pedra branca em meus dedos. A corrente vermelha roçava em meu braço enquanto brincava com a joia roubada. Toquei no ferimento em minha bochecha, sentindo um pouco de ardência. Ali perto um beijo fora depositado. Senti minhas orelhas queimarem. Minha alma estava naquela casa. Eu sabia disso. E não queria aceitar isso. Pensei no que Camellia dissera. Era possível ficar com alguém que não possuísse a mesma joia, era possível ser feliz dessa forma por algum momento. Mesmo que aquilo quase tivesse me matado. Fechei os olhos, imaginando qual seria meu destino à partir daquele momento.
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