Acordei sobressaltada. Em um minuto eu estava dormindo profundamente e no outro já estava apoiada em meus cotovelos. Esse provavelmente foi o objetivo de Agnes quando pulou em minha cama, com um sorriso gigante (e meio psicopata) estampando no rosto perfeito. Ela nem tinha se importado em tirar o pijama. Seu cabelo castanho caía em cascatas longas até o quadril, e agora tinha mexas roxas. Os olhos amendoados se arregalaram quando seu aproximou de mim, balançando meus ombros.

-Sarah vai se casar! – exclamou ela. Coloquei a palma de minha mão em seu rosto, afastando-a antes de me levantar.

-Oi para você também! – Imitei seu tom irritante.

Agnes era a atual responsável por Toprien enquanto King estava fora. Ela era responsável apesar da atitude quase infantil e sempre histérica. Nós praticamente crescemos juntas lá, ela com seus três anos a mais. Ela não demorou muito para encontrar sua alma, Joseph, o que sempre me impressionou pelo fato dele ser o completo oposto dela. Ele era um participante ativo da Sociedade dos Azuis enquanto Agnes cuidava apenas da mansão.

Agnes se deitou em minha cama, ignorando meu mau humor.

-Eu já sei qual vestido vou escolher para ela. Não que eu a conheça tão bem, mas o corpo pequeno dela é perfeito para o que eu quase escolhi para o meu casamento. Claro que eu sou muito mais alta, jamais teria dado certo. Aliás, que ideia foi essa de virem para Toprien sem nem avisar antes? Nora realmente deve estar cansada. Quantos anos ela tem, tipo uns sessenta?

Fiz cara feia para Agnes. A felicidade de estar novamente em casa se esvaiu completamente durante a noite. Tive mais pesadelos que o normal, a maioria relacionada com quedas de avião. Não tinha paciência para aquilo.

-Algum objetivo além de tagarelar te traz aqui às... – Olhei para o relógio em cima da mesa – oito e dezessete da manhã?

A garota desviou os olhos das unhas coloridas e falou despreocupadamente.

-Joseph quer falar com você. Está te esperando na sala de jantar.

-Que ótimo. – Resmunguei, enfiando qualquer roupa pelo corpo. Eu sabia que Joseph não me daria nenhuma missão, apenas reclamaria sobre a nossa atitude irresponsável.

-Pera aí. – A voz de Agnes estava séria. Eu já ia abrir a porta quando me virei para ela. Uma pequena informação importante eu estaria satisfeita. – Você vai deixar que pessoas te vejam com essa roupa?

Peguei o objeto mais próximo que encontrei (uma bota) e joguei em sua direção antes de sair.

°°°

-Você está me dando uma missão? – Abri um sorriso para Joseph.

Ele massageou as têmporas. O cabelo negro geralmente penteado perfeitamente, sem nenhum fio para cima, estava rebelde. A ruga entre suas sobrancelhas estava ainda mais visível. A sala de jantar estava abarrotada de gente, fazendo a mesa de doze lugares parecer um privilégio.

-Não me faça mudar de ideia. Nós realmente estamos desesperados.

-Deveriam estar mesmo. Como não puderam me informar que os nossos enviados estão sendo mortos? Essa informação é de extrema importância. Nós poderíamos ter procurado por reforços. – Sarah estava furiosa. Parecia não ter dormido nada à noite. – Certamente atacaremos os Verdes.

-Não sabemos se os Verdes foram responsáveis por isso. – Retrucou Joseph. As outras pessoas na sala estavam em silêncio, observando os dois. – Encontramos os corpos mutilados e marcados por um tipo de magia que nem eles podem conhecer.

-E o que nós sabemos sobre a magia deles? Não entramos em seu território há quinze anos, deixando com que roubem e matem em nossas fronteiras sem nem percebemos! – Sarah estava de pé agora.

Levantei o braço diante do curto silêncio que surgiu.

-Alguém pode me situar? – Falei baixo, mas parecia que estava gritando naquela sala.

— Precisamos que alguém vá Feulie investigar a morte dos Azuis que enviamos para lá e que acabaram mortos. Como eles não conhecem você, então será uma das pessoas que irá se infiltrar lá. – O tom de voz de Joseph era mais calmo e ele voltou a atenção para os papéis na grande mesa.

Assenti. Fácil.

-O que os Dourados disseram a respeito? – Perguntei.

-Eles apenas nos mandaram os corpos que encontraram. Não querem se meter nisso. – Um homem idoso respondeu dessa vez.

-Certo. Posso levar Mason e Ross comigo. Os Verdes também não os conhecem.

Sarah balançou a cabeça.

-Camellia, não é uma boa ideia. Nem sabemos se eles são confiáveis.

-Quem são esses? – Perguntou Joseph.

Troquei um olhar com Sarah.

-São Vermelhos que encontramos. – Eu disse.

-Vocês trouxeram Vermelhos para cá? – Joseph estava demasiadamente calmo.

Eu estava prestes a responder quando um barulho horroroso surgiu do andar de cima. O candelabro balançou violentamente. Ninguém se mexeu. Um cheiro forte nos atingiu e fumaça entrou na sala de jantar. Uma explosão. E definitivamente com magia pelo cheiro. Aquilo iria nos apagar em alguns segundos. Cobri a boca e o nariz com a camiseta e corri para o segundo andar com a adaga que sempre deixava por perto na mão. Escutei passos atrás de mim e um baque – alguém tinha desmaiado. Eu esbarrei em várias pessoas enquanto subia as escadas. Eu sabia que a maioria era criança que tinha pensando rápido e também cobriram o nariz.

Eu já estava no segundo andar, perto da fonte da explosão porque uma luz esverdeada estava brilhando em algum lugar. Tropecei em algo. Alguém. Ajoelhei-me ao lado do pequeno corpo que estava caído no chão. A fumaça não me permitia ver nada, então me abaixei ainda mais, tateando seu corpo. Senti a respiração fraca em meu pescoço quando passei as mãos por trás de seus joelhos e seu pescoço. Era tão leve.

Corri para o andar de baixo novamente, para fora daquela casa. O ar fresco era quase intoxicante. Repousei o menininho na grama e ele logo tossiu, buscando por ar aos ofegos. O jardim inteiro estava uma confusão, com pessoas passando mal e correndo. Alguém me empurrou para o lado e foi assistir o menino. Sentada na grama finalmente olhei para Toprien.

A mansão enorme de três andares quase toda revestida de janelas mostrava em seu interior apenas fumaça. Parecia uma nuvem negra com relâmpagos verdes e roxos. As luzes que iluminavam o exterior da casa estavam piscando, prestes a queimar. Eu nem conseguia mais ver as grandes árvores que a cercava. O brilho mais forte vinha de um quarto do segundo andar, na extremidade da casa.

O meu quarto. Sem nem pensar corri de volta para casa. Um braço me segurou quando eu estava a um passo da entrada, mas derrubei o indivíduo sem esforço. Quando finalmente cheguei em meu quarto, senti a camiseta deslizar de meu rosto. Minhas fotografias estavam todas queimadas, assim como qualquer tecido no quarto. O fogo de cor curiosa crescia ao meu redor. Eu não conseguia respirar.

Uma figura magra e careca, sem rosto, surgiu na minha frente, com um livro grosso nas mãos. Um domo o rodeava, protegendo-o de qualquer male do ambiente. Ele tocou em minha testa e foi como se tivesse me dado um tapa. Eu já estava tonta e caí facilmente no chão. Joguei fracamente minha adaga em sua direção, mas ela foi ricocheteada. A figura entrou no meio das chamas e sumiu.

E tudo estava girando. E eu não conseguia respirar. Senti mãos firmes ao meu redor, me ajudando a levantar. De alguma forma consegui cambalear para fora. Mas não fui para onde os outros que iriam me ajudar estavam. Estávamos indo para o meio da floresta. Eu tossia com força quando finalmente paramos e me permitir ficar de joelhos para recuperar o ar.

-O que você está fazendo? – Uma voz masculina longe, tão longe... – Deixe-a lá para morrer. Já conseguimos o que queríamos.

Agarrei o canivete dentro de minha jaqueta com força. Mas de nada me adiantou, porque o ar encantando me afogou por dentro.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.