A Jogadora
1 Prólogo
Notas iniciais
Eu estava cercada.
Os cinco inimigos empunhavam suas armas com segurança, com a felicidade invadindo suas almas por terem me encurralado. Suas vitórias estavam perto e minha derrota mais próxima do que nunca. Humilhante. Simplesmente humilhante. Como isso foi acontecer, droga? Os uniformes pretos com o símbolo de uma fênix rubra como sangue pareciam ainda mais sombrios quando seus donos eram os caçadores e eu a presa.
– Merda. – praguejei.
– Quem é o fodão agora hein? Isso não é para garotas, surpreendo-me por você ter chegado tão longe. – falou um dos homens rindo.
Olhei para minha pistola sem munição, inútil. Talvez eu ainda possa acertar a cabeça desse idiota com ela. Chequei meus itens, procurando qualquer coisa que pudesse me tirar daquela situação. E então eu vi. Uma granada de contagem regressiva. Eu poderia sair dançando se não estivesse tão compenetrada em bolar um plano e uma rota de fuga.
– Todos que estão perto do shopping da rua que tem o ônibus escolar capotado caiam fora. Esse lugar vai pelos ares, se alguém morrer não me culpe, estou avisando para vocês se afastarem. – disse no microfone para que somente minha equipe ouvisse a mensagem.
Abaixei-me fingindo que iria aceitar a morte, mas disfarçadamente ativei a granada e coloquei-a em uma fissura um pouco larga no asfalto.
Cinco. Saí correndo como louca em direção ao muro da rua sem saída. Pude ouvir o ricochetear das balas atingindo o cimento atrás de mim e acelerei mais ainda.
Quatro. As risadas dos homens atrás de mim ecoavam, mal sabiam eles que tudo já estava terminado. Dei um sorriso mínimo que eles não poderiam ver já que eu estava de costas.
Três. Levantei a tampa parcialmente quebrada de um bueiro e pulei direto no esgoto sem hesitar.
Dois. Ignorando o quão nojento aquilo parecia, mesmo naquela situação, comecei a tentar correr para longe.
Um. Tapei os ouvidos e rezei para que nada desmoronasse em cima de mim, estava perto de alcançar mais uma meta e não poderia morrer agora. Se isso acontecesse, todo meu esforço iria por água abaixo.
Zero.
A explosão fez o teto — ou seria o chão? — tremer e pedaços dele começaram a cair onde eu havia pulado. Mesmo naquela profundidade, o barulho foi profundamente alto e machucou meus ouvidos já que o volume estava no máximo. Fechei os olhos e senti minhas mãos suarem. Por favor não morra, por favor não morra. Fiquei repetindo isso mentalmente como se fosse o refrão de uma música por um ou dois minutos até ter coragem de encarar o estrago que havia feito.
– Você é foda, Myst! – exclamou uma menina da minha equipe – Queria ser como você, acabou com todos eles de uma vez só.
Só então abri os olhos e fitei a tela de quarenta polegadas. Nela, havia uma mensagem que me fez abrir o primeiro sorriso daqueles dois dias que estava trancada no quarto jogando: ‘‘Parabéns,Myst! Você alcançou o nível 103’’.
– Eu consegui. – murmurei incrédula fitando a atualização da partida. Quase caí para trás quando vi o rank mundial aparecer no canto esquerdo do jogo.
– Você passou o DDGhuy! Você passou ele! Eu não acredito! Terceira colocada geral, meu Deus! – tagarelou Hteuy, um cara com que havia feito amizade no jogo – Tem certeza que você é realmente uma menina ou é só um cara gordo sem vida social que põe a irmã para falar no microfone enquanto ele faz todo o trabalho duro?
– Eu sou… A terceira mundial. – Minha voz estava trêmula e todo o cansaço provocado pelo fato de eu estar acordada ininterruptamente há cinquenta horas pareceu sumir, dando lugar a uma imensa alegria.
Eu, Marcela Bicard, era a terceira melhor classificada no melhor e mais acessado mundialmente jogo online Urei e única brasileira a aparecer no top vinte do mundo. Retirei o microfone para ninguém de minha equipe ouvir meus gritos e chiliques de felicidade. Só mais dois e estarei no topo!
~♥~
Acordei com uma inacreditável dor de cabeça e em meu corpo. Abri os olhos soltando um murmúrio insatisfeito por ter dormido na cadeira desconfortável em frente ao computador. Meu pescoço e minhas pernas estavam me irritando, por isso tomei uma aspirina junto a um dorflex. Como já estava acostumada a passar mal graças à grande quantidade de horas sem dormir ou por jogar muito, sempre mantinha um pequeno estoque de remédios ao lado do monitor.
Acendi a luz fechando os olhos rapidamente graças à luminosidade forte. Quando minha visão se acostumou à claridade, observei ao redor. Meu quarto estava uma bagunça. Havia um prato de miojo meio comido em cima de uns livros e várias latinhas de refrigerante parcialmente escondidas em baixo da cama junto a algumas peças emboladas de roupa suja. Minha cama estava com as cobertas reviradas e a poeira começava a se acumular nos móveis, tudo resultado de um feriado vivendo no meu quarto e só saindo para pegar algo para comer. Se minha mãe visse aquilo, iria me matar com certeza.
– É melhor eu arrumar isso. – murmurei para mim mesma.
Todos os dias sem trabalho e faculdade eram assim: trancava-me em meu quarto e acumulava uma enorme bagunça nele, apesar de odiar isso. Então na última tarde antes de voltar a ralar como programadora, limpava-o e fazia meus projetos. Não é só porque, admito, era viciada em jogos que tinha que viver em um chiqueiro e ir mal nos estudos.
Arrumei meu quarto e fiz uma faxina bem geral em minha pequena casa. Quando terminei, percebi que já estava anoitecendo e fiz um muxoxo. Domingos eram tão deprimentes, amanhã já teria que voltar à minha louca rotina sem poder ficar logada por muito tempo. Suspirei e ouvi minha barriga roncar.
Liguei para a pizzaria pedindo uma pizza de mortadela e sentei-me em meu sofá bege para assistir algum programa na televisão de tela plana. Zapeei os canais sem interesse, achando toda aquela programação chata. Meus olhos se prenderam em um telejornal cuja matéria estava com letras chamativas: ‘‘ Um adolescente foi assassinado em sua própria casa enquanto jogava videogame’’.
– Mas que merda? – sussurrei aumentando o volume.
‘‘ Neste sábado o corpo de Emanuel Figueiredos, de dezoito anos, foi encontrado sem vida em seu quarto. Segundo sua mãe, o jovem estava há um dia trancado no cômodo e quando ele não respondeu o chamado da irmã, o pai arrombou a porta deparando-se com o cadáver do filho. A polícia está averiguando o caso e descartou a possibilidade de arrombamento na casa. Segundo a família, eles não tinham deixado Emanuel sozinho na residência em nenhum momento.’’
– Aposto que a mídia dará um jeito de colocar a culpa da morte do garoto no jogo. Até porque o videogame sempre é o responsável por tudo atualmente. – murmurei irônica.
A campainha tocou assustando-me um pouco. Finalmente a pizza tinha chegado! Olhei no espelho ajeitando meus cachos bagunçados e desamassando meu pijama confortável. Meu estômago roncou só de pensar naquele maravilhoso queijo derretido e na massa crocante. Assim que coloquei o pé no jardim me arrependi de estar descalça e com um shortinho, o chão estava congelante.
Girei a chave na fechadura e abri o portão deparando-me com um homem alto virado de costas para mim falando no telefone. Ele tinha o cabelo curto e negro, sua pele era pálida, dando a impressão de que não saía do escritório há muito tempo. Estava vestindo um terno cor giz, uma blusa social branca, uma gravata preta e sapatos exageradamente engraxados. Ele passava um lencinho verde musgo no pescoço para limpar o suor e percebi que ele não era brasileiro, pois àquela temperatura a maioria das pessoas estava sentindo um leve frio, ainda mais que estava escurecendo.
— Epa! Você não é o cara da pizza. — falei fazendo seus olhos verdes se fixarem em mim com interesse.
— Você é a senhorita Marcela Bicard? — perguntou com um evidente sotaque americano. Analisei-o rapidamente encarando seus olhos verdes e seus lábios finos, ele provavelmente deveria ser três ou quatro anos mais velho do que eu.
— Depende, se for para eu ganhar algo sou eu, mas se for para pagar alguma coisa não conheço ninguém com esse nome. — respondi sorrindo — Quem é você?
— Sou Georg Towell, chefe dos assuntos internacionais da SMMJ, sistema de monitoramento mundial de jogos. — disse mostrando-me suas credenciais.
O que esse maluco de alguma empresa mundial de informática estava fazendo no meu portão? Ai meu Deus! Será que foi porque eu baixei aquele filme pirata no meu computador? Talvez eu consiga excluí-lo e acabar com as provas daquilo antes dele revistar meu notebook.
— Olha, se for sobre aquele filme que eu baixei, saiba que...
— Não é nada disso, senhorita. Posso entrar para conversarmos melhor?
— Não. Nem vem com essa, cara. Você aparece aqui na minha casa se passando por um agente da SMMJ, ou sei lá o quê e ainda quer entrar? — ri com descrença — Nem pensar, primeiro me diga o que você está querendo comigo e o motivo de eu nunca ter ouvido falar dessa empresa.
— Quero que você me ajude a pegar quem está matando os jogadores de Urei e como você está entre os cinco melhores do jogo vim buscá-la. Nós vistoriamos tudo secretamente, então é bem lógico que você não saiba nada a nosso respeito. — falou sério.
— Você está brincando comigo? — perguntei rindo.
— Senhorita Bicard estou falando muito sério. — afirmou e sua expressão se tornou um pouco impaciente. Será que aquilo era realmente verdade ou ele não passava de um doido? — Seria melhor deixar-me entrar para te explicar melhor, realmente precisamos da sua ajuda.
Analisei-o novamente dos pés à cabeça. Ele realmente não tinha aparência de quem iria me roubar, mas mesmo assim fiquei com medo de deixar um estranho entrar em minha casa. Vai que ele é um psicopata? Tenho só vinte e um anos, sou muito nova para morrer! Não posso partir desta pra melhor antes de ser a primeira mundial em Urei, é questão de honra!
— Tudo bem. Mas caso pense em fazer alguma gracinha saiba que tenho uma enorme faca de açougueiro e um pitbull raivoso. — disse abrindo o portão, permitindo que Georg entrasse. Na verdade, Mel era uma cachorrinha Shih tzu que tinha medo até da bolinha de lançar, mas ele não precisava saber disso.
~♥~
Encarei as cento e três pastas cor pastel abertas em cima da mesa da cozinha sem acreditar no que meus olhos viam. Minhas mãos começaram a suar e meu dedo indicador direito balançava involuntariamente de tão apavorada que fiquei com aquilo. Todas continham o mesmo crime: algum jogador de Urei morto com um tiro na cabeça enquanto jogava o jogo. O pior de tudo é que os crimes aconteceram no mundo inteiro, não somente no Brasil.
— Uau. Achei que haviam poucos casos, só caiu na mídia dois eu acho. — comentei espantada. Aquele tanto de gente estava morta só por jogar Urei?
— Estamos mantendo longe dos noticiários. Como sabe, Urei é de uma empresa norte-americana, caso essas mortes se espalhem a companhia faliria, não só ela como todo o mercado de videogames sofreria uma queda terrível da qual pode não se recuperar. — explicou dando uma pausa dramática — As famílias, com medo, pararão de comprar os jogos, todo o progresso que fizemos até agora irá regredir, até que não sobrará mais ninguém atrás de melhorias, de melhores gráficos, etc.
— Então você está querendo dizer que se a Liga dos Vingadores Online — ironizei — não se reunir para achar esses assassinos poderá ser o fim dos jogos? Porque, olha, é bem difícil de acreditar que eu posso ser de alguma serventia. Não tenho a mínima noção do que fazer para pegar um bandido, não sei atirar e, por Deus, sou uma sedentária de marca maior, não pratico nenhum exercício físico desde os meus dezessete anos. Qualquer idiota recém-formado na polícia daria conta disso melhor do que eu.
— Bem, é verdade. Porém, precisamos recrutar os melhores jogadores de Urei para buscar o grupo Jeu Terminé dentro e fora da internet. Eles são um grupo de hackers, que conseguem o endereço das vítimas através de suas contas. — discursou tentando me convencer — A princípio, atacavam jogadores fracos e aleatórios, mas agora o tempo entre os assassinatos está diminuindo, eles estão ficando ousados, atacam os fortes também, como se quisessem chamar atenção. Precisamos de gente de dentro, não possuímos tempo para criar um avatar e upá-lo a fim de chamar atenção.
— Deixo isso então para os outros quatro jogadores que estão no rank cinco. Uma pessoa a mais, uma a menos não fará diferença. Amo essas coisas de investigação, CSI e jogos, mas existe uma coisa que prezo mais do que isso: minha vida. — retruquei.
— Três.
— O quê? — perguntei confusa.
— São só quatro agora, você e mais três. A quinta colocada no rank foi morta de madrugada na Austrália. — informou.
Arregalei os olhos, ficando completamente em silêncio. Hyk, esse era o nome da jogadora que ocupava a quinta colocação se não me engano. Conversei com ela apenas duas vezes, nada mais do que três minutos. Apesar de nunca tê-la visto, sua voz indicava que ela era uma menina nova, talvez de uns dezesseis anos.
— Quantos anos ela tinha? — questionei com a voz baixa.
— Quinze.
Que tipo de doentes fazem isso só por prazer? Matar pessoas aleatórias, apagar suas existências do mundo assim de uma forma tão brusca é algo desumano. Quem esses assassinos pensavam que eram para brincar de Deus dessa maneira? Estremeci só de pensar que poderia ser minha irmã no lugar dessa menina, já que ela também havia começado — por insistência minha — a jogar aquele jogo. A primeira coisa que eu faria assim que Georg saísse de minha casa seria ligar para minha baixinha mandando-a abandonar aquele jogo por enquanto.
— Você nos ajudará? — questionou.
— Como assim? Decidir agora? Cadê os dois dias para refletir, fazer uma planilha de prós e contras, ou algo do tipo? Estou realmente em dúvida entre esperar para morrer enquanto jogo ou sair à procura de um tiro na bunda.
— Estamos sem tempo, temos que pará-los antes que o acúmulo de mortos seja grande demais para encobrirmos. Se esse assunto vier à tona...
— Será o fim dos jogos e blá, blá, blá. Entendi essa parte da ideia. — interrompi-o apertando a base do nariz. Merda, o que eu iria fazer? — Não acho que possa sair por aí combatendo o crime e conciliar isso com meus estudos e meu trabalho.
— Sobre isso, já conversamos com o reitor da Inforium, sua faculdade, e com o seu chefe. Ambos concordaram em dar férias para você, suas provas e trabalhos serão repostos, não se preocupe. — respondeu sorrindo.
Arregalei os olhos, descrente.
— Como você conseguiu isso? Chegou lá e disse que estava me convocando para a Iniciativa Vingadores dos games e eles aceitaram numa boa? — perguntei abismada e um pouco desconfiada.
— Isso não vem ao caso agora. Caso aceite a proposta, vamos pegar um voo daqui três horas para os Estados Unidos para nos encontrarmos com o chefe da empresa de Urei e com os outros dois jogadores, que já concordaram em nos ajudar. Lá combinaremos o seu pagamento, é claro. E então, qual é a sua resposta?
Será que eu realmente podia ser útil? Encarei a parede branca da cozinha e peguei um copo de água gelada. Eu poderia evitar a morte de algumas pessoas se aquilo desse certo, mas mesmo assim estava incerta. Não queria assumir uma responsabilidade que talvez não fosse capaz de cumprir. Além disso, segurar uma arma nos jogos era algo totalmente diferente de empunhá-las na vida real, tinha minhas dúvidas de que conseguiria apertar o gatilho.
Dei um longo suspiro e a imagem de minha irmã mais nova, Giovana, me veio a mente. Eu via seu corpo debruçado sobre o teclado, o cabelo cacheado e castanho esparramado sobre seu rosto, o sangue escorrendo por sua nuca... Eu não tinha certeza de que daria certo, mas não podia deixar isso continuar acontecendo sendo que eu poderia impedir.
— Vamos nessa, vou ajudar vocês.
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