A Jogadora
2 Capítulo 1 - Press Start
Notas iniciais
A primeira coisa que pensei quando desembarquei no aeroporto John F. Kennedy em Nova Iorque é que eu realmente não deveria ter dormido nas minhas aulas de inglês. Aqueles americanos realmente estavam falando a língua que eu havia estudado ou eles tinham criado um idioma próprio enquanto eu estava naquele voo entediante de dezesseis horas? Minha bunda quase adquiriu o formato da poltrona de tanto tempo que passei sentada.
Nas primeiras cinco horas foi divertido ter o frio na barriga e a ansiedade por nunca ter saído do Brasil me consumindo. Porém, depois disso eu já estava a ponto de abrir a porta de emergência para sair logo de lá. O pior de tudo é que não conseguia achar uma boa posição na cadeira e tive que incorporar uma contorcionista para cochilar com um pouco de conforto. Mas não podia reclamar tanto assim, já que estava viajando de graça.
— Senhorita Bicard, tem certeza que não quer um tradutor? — perguntou Georg dando um risinho com a expressão de confusão que estava estampada em meu rosto.
— Tradutor? Há há, eu só estou um pouquinho enferrujada com o inglês, daqui a pouco me acostumarei e estarei falando melhor do que você! — respondi.
Peguei minha pequena, porém pesada, malinha roxa na esteira e entrei no carro preto com os vidros escuros que nos esperava do lado de fora do enorme aeroporto. Assim que sentei no banco, fiquei maravilhada com o couro branco e seu conforto. Sentia-me até alguém importante.
Durante todo o caminho até a sede da empresa Entergame, a dona de Urei, fiquei com o rosto colado na janela apreciando a cidade que tanto via nos filmes sendo iluminada pelo sol das três horas da tarde. Aquele lugar parecia com uma cidade qualquer, não tinha toda a magia que esperei que tivesse, mas talvez isso se devesse ao fato de não ter ido aos centros de compras ainda. Abismei-me ao ver que a fiação toda da cidade era subterrânea. Imagina se algum fio entra em curto circuito e sai explodindo tudo?
— Senhorita Bicard, chegamos. — anunciou Georg.
Olhei para cima e quase não consegui ver o fim daquele enorme edifício. As janelas eram enormes e os vidros brilhavam com os raios solares. A porta dupla prateada permitia que víssemos as pessoas de terno e roupas sociais caminhando por lá com pastas nas mãos. Sentia-me pequenina diante daquele lugar. Deveria ter me vestido melhor, estava com minha calça jeans escura preferida e uma camiseta preta básica. Talvez devesse ter alugado algum terno ou algo do tipo, mas Georg já estava quase me matando por demorar a arrumar as roupas que levaria. Qual é, eu ia passar cinco dias em Nova Iorque, precisava de coisas bonitas e separá-las levou tempo!
— Chame-me apenas de Marcela, que droga. Pareço uma velha com você usando esse ‘‘Senhorita Bicard’’ pra lá, ‘‘Senhorita Bicard’’ pra cá. — pedi.
— Certo, Marcela. — segurei uma imensa vontade de rir. Devido ao sotaque americano, parecia que ele estava falando Marrchela — Christopher Reynolds é o dono da empresa e vai falar com você e os outros jogadores. Uma coisa que tem que ficar bem clara: aqui não é lugar para brincadeiras, vocês estão fazendo uma coisa séria e se saírem um pouquinho da linha serão mortos. Ou pelos bandidos ou por nós. Não precisamos de vocês se achando só por estarem aqui e acabarem nos atrapalhando.
— Vai com calma aí, Exterminador do Futuro. Esqueceu que eu não sei nem atirar? — perguntei disfarçando o nervosismo. Será que realmente tomei a decisão certa? Parecia que qualquer coisa que eu fizesse seria motivo para me matarem. — Está com medo de eu ficar de TPM e dar um tiro nessa sua bunda redondinha?
Comecei a rir quando ele ficou sem graça, grata pelo ambiente ter descontraído. Se os homens podiam ficar encarando nossos traseiros por que não poderíamos fazer o mesmo com eles? Entramos na recepção e passamos por uma loira sentada atrás da bancada que me encarou como se estivesse querendo me tirar dali pelos cabelos só por eu não estar bem vestida.
Entramos no elevador e percebi que íamos para o trigésimo andar, onde deveria de localizar a sala de reuniões. Minhas mãos suavam e meu dedo indicador direito tremia involuntariamente de nervosismo. Eu queria jogar. Eu precisava jogar. Essa era o único modo de me acalmar. Será que em alguma sala havia o jogo? Esse andar não vai chegar nunca? Que merda!
A porta metálica se abriu e soltei um pequeno suspiro que chamou a atenção de Georg. Ele pôs a mão em meu ombro e me olhou sorrindo. Porém, isso não me deixou mais tranquila. Eu estava prestes a conhecer o homem que é dono da empresa que fez o melhor jogo do mundo! Suava em bicas só de pensar na possibilidade de conversar com ele.
— Fique calma, Marcela. — falou caminhando pelo corredor que possuía um macio carpete cinza no chão e paredes brancas.
— Eu estou calma. — resmunguei.
Paramos diante de uma porta de madeira clara e Georg a abriu. Soltei a respiração que estava prendendo e entrei na sala com o máximo de confiança que consegui reunir. Não estava nem um pouco nervosa. Só iria conhecer o dono da melhor empresa de videogames do mundo. Isso lá é motivo para ficar ansiosa? Há! Claro que não. Sequei as mãos na calça assim que me sentei em uma das quatro cadeiras livres de couro preto no final da mesa de vidro e tentei acalmar meus batimentos cardíacos.
Como estava no fundo do cômodo pude analisá-lo melhor. Havia quatro pessoas no lugar. Um homem velho e rechonchudo estava encarando nervosamente o relógio que marcava quase quatro horas da tarde. Ele usava uma roupa social, cuja blusa branca estava quase com os botões explodindo devido à sua barrigona proeminente. Ao seu lado, um executivo conferia alguns papéis em sua pasta preta.
Do lado esquerdo da mesa, um jovem um pouco mais velho do que eu jogava algo em seu celular sem se importar com mais nada ao seu redor. Ele estava com fones de ouvido preto que contrastavam com seu cabelo castanho claro e uma barba cerrada cobria seu maxilar. O melhor de tudo é que ele vestia uma camisa preta do Black Sabbath junto a um jeans e um tênis surrado. Não me senti tão deslocada depois disso. Ao seu lado, um cara de terno tentava inutilmente dizer algo para ele.
— O senhor da direita e o homem com o celular são jogadores como você. Eles estão acompanhados por seus treinadores, por assim dizer. Assim como eu, eles devem ajudá-los com os aprendizados necessários para esse caso e temos que protegê-los de qualquer ameaça fora do jogo. — falou Georg saciando minha curiosidade.
— Então você é minha babá? — perguntei jocosa.
— Praticamente sim.
— Já vou avisando que você terá um grande trabalho comigo, nunca fui muito fã de ficar quieta e todas as três mulheres que cuidaram de mim enquanto eu era criança quase enlouqueceram por minha causa. — brinquei — Assim que terminarmos aqui temos muitas coisas a fazer. A começar por umas comprinhas na Quinta Avenida! Eu preciso de um novo jogo que lançou e aqui é mais barato.
A porta foi aberta e todos os olhares presentes — menos o do homem no celular — voltaram-se para o adolescente japonês que entrou na sala. Ele usava um jeans e uma camisa branca com uma outra verde listrada de frio por cima um pouco amassada. Seu cabelo preto estava bagunçado, tinha algumas espinhas no rosto e seus olhos castanhos escuros estavam transbordando sono. Ele tinha no máximo, dezessete anos e parecia estar intimidado por estar ali. Assim que ele se sentou fiquei analisando todos os três homens presentes. Qual deles era o primeiro colocado? Antes que pudesse bolar suposições, Christopher entrou.
Eu já tinha visto fotografias dele, mas me surpreendi com sua beleza mesmo assim. Ele era um negro alto com um grande sorriso branco e olhos escuros. Usava um terno impecável cor de giz e uma blusa social branca. Atrás dele vinha uma mulher baixinha e de cabelo castanho, sua assessora provavelmente. Os olhos dela eram cor âmbar. Aquilo tinha que ser lente! Eu não aceito isso. Ela era bonita, morena e ainda tinha o os olhos cor de mel? Sacanagem isso.
— Boa tarde a todos, sou Christopher Reynolds. Sejam bem vindos à Entergame, a empresa que criou Urei. Creio que todos já sabem o motivo de estarmos aqui. — fez uma pausa e analisou todos na sala com o semblante sério. Ele deveria estar fulo da vida, pois aquelas mortes poderiam falir todo seu ‘‘império’’. — Antes de mais nada tenho que apresentá-los uns aos outros para que se tornem uma equipe e não um grupo de desconhecidos.
Ok. Aquilo estava parecendo o clube dos meninos que Cebolinha criou e eu era a única intrusa, a única mulher a participar dele. Já estava esperando que no slide aparecesse o título: ‘‘Planos para a dominação mundial’’, ou algo do tipo. Tive que disfarçar o riso com uma tosse baixa. Ao invés do que imaginei, o projetor refletiu a imagem do velho na parede branca. Abaixo da foto, estavam vários dados pessoais dele.
— Este é o senhor Domicio Esparza da Espanha. Ele tem quarenta e sete anos e ocupa a segunda colocação, seu nick no jogo é WiseTec. — falou apontando para o velho nem tão velho assim.
Eu apareci na tela. Fala sério, pegaram a minha pior foto e colocaram naquela porcaria.
— Esta é a senhorita Marcela Bicard do Brasil. Ela tem vinte e um anos e é conhecida em Urei como Myst. — disse sério.
O cara do celular olhou minha ficha e me encarou. Então, ele riu baixinho. Meu nível de raiva quase atingiu o limite. Esse cara estava rindo de mim? Ah, eu não acredito nisso! Assim que o username dele for revelado vou atirar tanto em seu personagem que ele terá até medo de logar novamente! O garoto japonês me olhou com raiva, parecia até que eu tinha rasgado o ursinho de pelúcia favorito dele, credo. A imagem mudou. Desta vez a fotografia do adolescente espinhento apareceu na tela.
— Este é o senhor Akihiko Ishizaki do Japão. Possui só dezoito anos, está no quarto lugar do rank e é conhecido como DDGhul — Christopher não parecia nem um pouco feliz por ter aquele garoto ali, até mesmo eu achava que ele era novo demais para sair por aí caçando assassinos.
Eu estava controlando a imensa vontade que tinha de apontar o dedo na cara do japonês e falar: ‘‘Há, há! Eu te passei, otário’’. Só não fazia aquilo porque ainda não era hora. Era por isso que parecia que ele queria arrancar minha cabeça! Ele estava nervosinho porque o ultrapassei, que idiota.
— E por fim este é o senhor Ivan Vinogradoff da Rússia. Tem vinte e cinco anos e encabeça o rank mundial, acho que todos o conhecem por JokR.
O quê?! Aquele cara que riu de mim era o melhor jogador do mundo? Como se lesse meus pensamentos, Ivan me encarou e riu como se fosse superior a todos naquela sala. Ah mas que cara abusado! Vou tirá-lo de seu pedestal à tiros. Agora mais do que nunca queria chegar ao topo! Temos que acabar logo com esses assassinos para eu poder destruir aquele homem em seu próprio jogo.
– Agora que já foram apresentados, vamos ao que interessa. O grupo Jeu Terminé está matando jogadores aleatoriamente como já foram informados. Eles estão querendo atenção, desejam que as mortes sejam reveladas para mandar uma mensagem a todo o mundo. O que nos resta saber é quem é o destinatário e qual é o assunto. Eu e o presidente do SMMJ, que não está presente hoje, percebemos que vocês têm que aprender a se defender caso sejam alvos. – Christopher explicou e fez uma pausa olhando para todos nós com as mãos nas costas. – É por isso que, durante os cinco dias que passarão aqui, seus assistentes irão lhes dar aulas básicas de defesa pessoal e de tiro. Boa sorte.
~♥~
Ai meu Deus! Eu estava em um estande de tiro! Quero dizer, eu realmente estava ali! Não era uma simulação ou um videogame, era a vida real! Respirei fundo sentindo a ponta de meus dedos formigarem de ansiedade. Controle-se, Marcela, não dê um chilique agora! Observei ao redor, maravilhada. O cômodo era amplo, as paredes possuíam cor branca e o chão de cerâmica preta estava tão polido que refletia as luzes fluorescentes das lâmpadas no teto. Havia cinco divisões de vidro preto formando uma espécie de cabine. Cada uma delas dava de frente para uma grande folha que continha uma silhueta humana com várias marcações a aproximadamente cinquenta metros de distância.
Georg me levou até para a divisão cinco, a última do lado esquerdo da sala. Estava tão animada que mal conseguia prestar atenção ao que ele falava. Só percebi que ele me mostrou uma fileira de sete armas diferentes na pequena mesa de vidro em uma baixa prateleira. Escolhi uma arma prateada com o cabo de outro material preto que não escorregava. Eu conhecia aquela pistola. Ela era a minha favorita no tempo de escola quando jogava Resident Evil, GTA San Andreas e Left 4 Dead 2. Além disso, ela também aparecia em Supernatural. Se eu não me engano o nome dela era Desert alguma coisa.
– Marcela, tem certeza de que quer começar por essa pistola? Ela tem um coice muito forte. – perguntou com um pouco de preocupação.
– Claro. – afirmei.
Se todo mundo nos filmes usavam essas pistolas não deveria ser tão difícil assim dispará-la. Era só mirar e apertar um gatilho. Qual a dificuldade disso?
– Sua arma tem balas de verdade para você já se acostumar ao barulho. Pelo amor de Deus! Não ponha o dedo na corrediça, essa parte superior da pistola, se não é capaz de você perde-lo. – pediu fazendo-me ficar de frente para ele a fim de procurar o lugar que ele falava. Graças a tudo que é sagrado ele estava me dando as instruções em português! – Cuidado para não apontar essa coisa em minha direção.
– Não sou burra, Georg. Sei que não posso sair por aí balançando os braços como um boneco de posto de gasolina. – respondi revirando os olhos.
– Certo. Primeiro posicione-se na posição de tiro. – falou ajeitando-me – Abra a mão que você usa para escrever e segure a pistola com a pele que fica entre seu dedo indicador e polegar. Pegue a com a outra mão e coloque a empunhadura da arma nessa parte da sua mão dominante. Com o polegar de um lado da empunhadura, coloque os outros dedos em volta logo abaixo do gatilho.
– Que complicado. – murmurei ficando um pouco impaciente. Georg fazia uma coisa que deveria ser emocionante se tornar uma aula chata.
– Seus pés devem estar abertos na largura dos ombros, com o pé esquerdo um passo à frente do outro. – Georg fez uma pausa para ajeitar minha postura – Fique com o corpo reto, mas levemente curvado para frente, mantendo o equilíbrio. O cotovelo do seu braço direito deve estar quase completamente reto. Já o outro cotovelo deve estar levemente flexionado.
– Mire no centro do alvo. Posicione a pistola na direção do alvo, mantendo o foco na mira da frente. Você deve vê-la nitidamente na parte de baixo do centro do alvo, que estará desfocado. Entendeu? – fiz um gesto afirmativo com a cabeça. – Ponha os óculos de proteção e os fones de ouvido. Dê-me a arma e depois você tenta atirar, certo?
Coloquei o material de segurança. Peguei a pistola sentindo minhas mãos suarem em demasia. Estava tão ansiosa! Como seria atirar na vida real? Estava louca para ver onde acertaria. Será que conseguiria atingir o centro da silhueta ou a sua cabeça? Olhei para o lado vendo o instrutor de Ivan falar à toa, pois o russo não ouvia nada e nem era culpa dos grandes fones azuis. Tudo que o homem fazia era ver algo em seu celular. Isso me irritou profundamente. Enquanto várias pessoas estavam morrendo ele estava ali jogando alguma coisa ridícula sem prestar atenção nas instruções!
– Se não quiser levar isso a sério, caia fora idiota. – falei alto suficiente para que ele ouvisse. Acho que já estava acostumando a falar inglês, pois a frase saiu mais naturalmente.
Ivan me olhou como se eu fosse uma criança que queria brigar com um adulto. Ele deu mais um de seus sorrisinhos irritantes e pegou uma arma qualquer em sua prateleira. Quero só ver esse arrogante de merda acertar o alvo já que ele não ouviu nenhuma orientação. Pelo menos terei um pouco de divertimento. Observei sua postura relaxada. Sua mão direita se levantou segurando a pistola, ele mirou por um breve instante e apertou o gatilho fazendo um grande barulho ecoar pela sala. O assistente dele aproximou o alvo para mostrar onde o projétil tinha furado. Arregalei os olhos e minha boca abriu de incredulidade.
O desgraçado acertou bem no meio!
Ah, agora ele me tirou completamente do sério. Como aquele cara tinha feito aquilo? Minha competitividade alcançou níveis alarmantes e posicionei-me também do modo que Georg tinha me ensinado há pouco. Se aquele prepotente conseguia acertar eu também conseguiria! Regulei minha respiração e fingi que ia apertar o gatilho toda vez que expirava o ar como forma de treinamento. Minhas mãos suavam e estavam um pouco escorregadias, mas nada que me impedisse de atirar. Destravei a arma com um pouco de dificuldade e senti que estava pronta. Apertei o gatilho com força.
E quase furei meu olho. O coice do disparo foi tão forte que a pistola levou minha mão para trás e me fez cair de bunda do chão, completamente chocada. A gargalhada de Ivan me fez querer virar um avestruz, afundar minha cabeça no chão e só sair quando ninguém mais se lembrasse daquele vexame.
É, parece que não era tão fácil assim atirar.
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