A Jogadora
3 Capítulo 2 - Um episódio de CSI
Notas iniciais
Como se aquele fiasco na aula de tiro não fosse suficiente, eu descobri que era ainda pior em luta corporal. Cada músculo do meu corpo estava doendo e mesmo tendo a pele morena, possuía várias marcas arroxeadas nas pernas e nos braços. O pior é que já havia se passado apenas uma hora de aula, ainda teríamos mais trinta minutos pela frente. Pelo menos aquela tortura estava acabando, chegamos há dois dias nos Estados Unidos e não via a hora de ir embora para minha casa. Não pude jogar quase nada ali!
Era sempre a mesma coisa: Georg me acordava cedo, me levava para o estante de tiro, almoçávamos e depois ele tentava me ensinar algo sobre luta. Só ontem consegui logar em Urei para jogar um pouco e ver como minha equipe estava. Felizmente minha irmã tinha acatado meu pedido e em seu avatar estava escrito que ela não fazia login há três dias.
– Não force o pulso, a força do soco vem do movimento que o tórax e o braço fazem. Também não é necessário levantar tanto o cotovelo, isso avisa ao oponente o que você vai fazer. Cadê seu equilíbrio? Pare de pôr todo o peso nas pontas dos pés quando ataca! Você está ao menos tentando, Marcela? – perguntou Georg irritado com minha falta de vocação para aquilo.
Quem diria que dar um soco era tão difícil? Os meninos da escola sempre se metiam em briguinhas e os golpes pareciam tão fáceis, mas eu quase quebrei minha mão ao socar o braço de Georg. Parecia até que ele era feito de metal, credo. Pelo menos estávamos sozinhos na sala de treinamento e por isso o Ivan não iria ter mais um motivo para debochar da minha cara. Acho que até aquele adolescente espinhento estava se saindo melhor do que eu. A única coisa positiva foi que não caí de bunda mais nenhuma vez depois daquele horrível primeiro disparo.
– Claro que estou! Sabe que seria bem mais fácil se você estivesse totalmente coberto, não é? Isso tudo aí – apontei para sua regata branca colada que ressaltava seus músculos bem definidos – está me distraindo. Sabe, ouvi falar de uma loja maravilhosa na Time Square que vende moletons. Poderíamos ir lá para comprar uma roupa decente e depois voltamos para treinar, que tal?
– Desista, Marcela, você não terá seu dia de compras hoje. – respondeu massageando as têmporas.
– Daqui a alguns dias voltaremos para o Brasil! De que adianta eu ganhar trinta mil dólares por mês ajudando vocês se eu não poderei gastá-lo? Acabaram de lançar o remake do jogo Resident Evil 1 e só aqui vende. Por favor, por favor vamos à loja de jogos! – implorei.
– Já vi que você não está nem um pouco a fim de treinar luta corporal agora. – falou. Finalmente ele percebeu o óbvio! – Então se você conseguir me acompanhar em uma caminhada pelo Central Park, pedirei para comprarem o jogo para você. Caso contrário, voltaremos para o Brasil sem nenhuma aquisição nova.
Uma caminhada pelo Central Park? Mas aquele lugar equivalia a mil campos de futebol! Georg estava drogado se pensava que eu iria andar aquilo tudo. Mas... Era o remake de Residente Evil 1! Já sei! Vou fingir um ataque cardíaco ou de asma no meio do exercício, ele se sentirá culpado, comprará o jogo para mim e de quebra não terei que andar aquele tanto!
– Certo. Vamos nessa, mas se você colocar um shortinho e uma tiara ao redor da cabeça ficarei bem longe de você!
~♥~
O Central Park era maravilhoso. Haviam enormes árvores em ambos os lados do caminho e banquinhos de metal verde para assentarmos se quiséssemos ver o lago que possuía águas turvas. O dia estava fresco e ensolarado, com uma brisa um pouco fria soprando e movimentando as folhagens abundantes. Aquele seria um dia perfeito se eu não estivesse sendo forçada a fazer uma grande caminhada.
Nunca gostei de ir à academia. Achava muito entediante a esteira e a bicicleta e não tinha a menor força ou vontade para usar os outros aparelhos de ginástica. Agora eu estava pagando o preço por ter sido tão sedentária. Não tinha nem dez minutos que havíamos começado a andar ali e eu já estava suando em bicas com o senhor perfeito – vulgo Georg – transparecendo tranquilidade enquanto ria da minha cara.
Minha respiração estava ofegante, sentia minhas pernas queimarem pelo esforço e aquele shortinho preto de tecido mole com aquela regata branca incomodavam minha pele. Como alguém podia fazer aquilo por livre espontânea vontade?
– Pausa, pelo amor de Deus! – exclamei caindo sentada na grama perto de uma família que fazia um piquenique aproveitando a vista maravilhosa de um canteiro repleto de flores rosas.
– Você é muito molenga, Marcela. – afirmou tomando um gole da água em sua garrafinha e passando-a para mim. – Nunca conseguirá ganhar seu jogo se continuar assim.
– Pare de exagero! Há alguma cláusula contratual que diga que para salvar o mundo as mulheres têm que se tornar panicats? – questionei de mal humor – Porque se tivesse pode ter certeza que eu reconsideraria a proposta!
– Pani... O quê?! – retrucou sem entender.
– Esqueça. Vamos logo com isso. – falei levantando-me emburrada – Mas se eu tiver um ataque cardíaco e morrer a culpa será sua. Irei assombrá-lo para o resto da vida, puxarei seu pé de madrugada e farei você morrer velho e sozinho, pois vou afastar todas as suas namoradas. Quando estiver com vinte gatos, irá se lembrar do dia que me matou e se perguntará o motivo de não termos ido para o hotel quando eu pedi.
Juntei toda minha força de vontade e recomecei a caminhar sendo seguida por Georg. A cada minuto que passava eu me sentia como um lutador de Mortal Kombat que tinha sua barrinha de vida diminuindo gradativamente após sucessivos golpes do oponente. Já até esperava que aparecesse a frase ‘‘Finish her’’ em cima da minha cabeça enquanto meu corpo balançava de um lado para o outro. Estava tão concentrada em não morrer asfixiada e tentar levar o ar para meus pulmões que não percebi a grande pedra que estava, literalmente, no meu caminho. Tropecei nela e caí com tudo no chão, ralando minhas mãos e meus joelhos.
– Qual seu problema? – questionei irritada ao ver Georg tentando prender o riso.
– O que eu fiz? – retrucou.
– Seu bruto! Você nunca leu romances, não? Você tinha que ter me segurado impedindo-me de levar esse tombo. – respondi ainda sentada e conferi os estragos da queda.
– Eu sou um agente, não um ninja. Estava a um metro de você, nem se eu quisesse conseguiria te agarrar. – disse revirando os olhos – Levante-se, ainda temos muito chão para percorrer.
– Eu não consigo, meu joelho está doendo muito. Acho que já está até começando a inchar, o bati com muita força no chão. – menti fazendo um careta de dor – Você vai ter que me carregar.
Georg pareceu me analisar para tentar perceber se eu estava ou não mentindo. Quando apertou levemente minha patela, soltei um gemido de dor que parecia muito real. Não me orgulho disso, mas já fingi muitas vezes passar mal para não ter de ir à escola, então tinha um pouco de experiência com isso. Felizmente ele acreditou. Com um movimento rápido pegou-me no colo ao estilo noiva e começou a fazer o caminho de volta. Até que ele era bem fortinho, pensei sorrindo.
– Por que você está rindo? – questionou franzindo o cenho.
– Porque adoro ser carregada por homens fortes de regata às terças feiras. – respondi.
As pessoas nos olhavam com curiosidade e eu estava me sentindo uma rainha. Um grupo de fotógrafos que estava sentado nos banquinhos do Strawberry Fields nos escarou como se estivessem planejando algo e aquilo me deu um pouco de medo. Aquele lugar era uma homenagem à John Lenon e possuía o nome de sua música mais famosa, Imagine, gravada no chão. Uma mulher do grupo nos encarou sorrindo, pegou uma câmera e tirou uma foto mostrando-a para seus amigos. Eles falavam inglês tão rápido que só entendi algumas palavras como ‘‘maravilhoso’’ e ‘‘felicidade’’. Ainda bem que Georg conversava comigo em português, caso contrário estaria sem entender nada. Porém, ele deve ter compreendido o que eles disseram já que começou a rir.
– O que eles estavam falando? – perguntei tirando uma folha que tinha caído em minha barriga.
– Nada. – respondeu da minha ignorância.
Quando estávamos saindo do Central Park, fiquei maravilhada por ver duas charretes paradas no passeio. Eu sempre gostei dessas coisas antigas, se não tivesse que fingir estar machucada, teria saído correndo em direção àquelas carruagens leves. O celular de Georg começou a apitar. Para atendê-lo, ele me colocou sentada em um banquinho de metal e se afastou para ter uma conversa particular.
Como não tinha mais nada para fazer, fiquei olhando os nova-iorquinos. A maioria andava apressadamente por ser dia de semana, haviam poucos que entravam no parque e outros paravam apenas para comprar cachorros-quentes. Confesso que nunca havia visto um lugar com mais taxis do que automóveis pessoais. Aquela era uma cidade como todas as outras, não vi nada que tivesse uma diferença tão gritante para a minha, Belo Horizonte. Como todo lugar do mundo, o asfalto também possuía rachaduras, havia muito trânsito nos horários normais de pico, o cheiro que saía de alguns bueiros era ruim graças ao metrô subterrâneo e os pedestres tinham que correr ao atravessar a rua, pois os semáforos ficavam fechados por pouco tempo. Uma coisa que amei daquela cidade eram os preços, eles eram um pouco menores do que Brasil ao fazer a conversão de dólar para real e ali as promoções eram reais, do tipo compre um produto e leve outro. Mesmo com o imposto de oito por cento do valor final da compra valia a pena fazer alguns gastos.
Decidi ligar para minha mãe, Bruna. Estava com saudade e precisava avisá-la de que tudo corria bem e que em alguns dias estaria no Brasil. Para ela, eu tinha vindo aos Estados Unidos para testar um programa de computador. O interurbano era caro, mas valia a pena. No terceiro toque ela atendeu.
– Oi Marcelinha! Que saudade de você, filha! – exclamou animada – Como é Nova Iorque? Conheceu algum gatinho? Está se alimentando direito? Não coma muitas dessas porcarias americanas, hein?!
– Oi mamãe! Também estou morrendo de saudades. Assim que chegar em Belo Horizonte te dou um toque e irei à sua casa para ficar um pouco com vocês. Como o papai e a Giovana estão? A Mel está dando muito trabalho?
– Eles estão ótimos. Sua irmã está furiosa porque mudei a senha do computador como você me pediu para ela não jogar aquela coisa violenta. Finalmente você tomou juízo nessa sua cabeça e parou com essas coisas de morte e tiro! Isso só serve para influenciar a cabeça das pessoas, é por isso que os assassinatos estão aumentando. Sua irmã mesmo está toda irritadiça e reclamona. – fez uma pausa para respirar – Que horas você acha que chega?
– Provavelmente um pouco antes do jantar. – respondi sorrindo.
– Farei uma lasanha deliciosa para você então. Espere, chamarei sua irmã para falar com você. – anunciou antes que eu pudesse responder.
Ouvi o nome de Giovana sendo gritado de modo abafado e logo ela atendeu.
– Ainda estou com raiva de você. – disse com rispidez – Poderia estar upando meu personagem, mas não... Você tinha que dar uma de louca e convencer nossa mãe a mudar a senha do computador.
– Olha, maninha, pode não parecer, mas eu estou fazendo isso para o seu bem. – Vi Georg se aproximar com uma expressão estranha no rosto. Algo de muito ruim havia acontecido – Gio, terei que desligar, depois ligo novamente.
Guardei meu celular e analisei meu parceiro. Os nós de seus dedos estavam brancos, tamanha a força que ele segurava o celular na mão direita. Seu cabelo preto estava um pouco bagunçado e ele parecia verdadeiramente possesso.
– O que aconteceu? – questionei preocupada.
– Mais sete pessoas foram mortas. – ele apertou a base do nariz – Uma delas em São Paulo, um garoto de doze anos. É melhor não ter feito bagunça com sua mala, pois temos um voo para lá daqui a uma hora e meia.
~♥~
Desembarquei no aeroporto de Congonhas em São Paulo dezesseis horas depois. O céu estava nublado, refletindo meu péssimo e triste humor. Por algum milagre do destino o banco ao lado do meu foi vazio, permitindo que esticasse minhas pernas e dormisse com um pouco de conforto. Porém, quase não consegui descansar. O fato de saber que mais pessoas morreram só por jogarem Urei era difícil demais de aceitar. E se eu não conseguisse ajudar a parar aquilo?
– Não precise ficar tão tensa, o corpo não está mais na casa. – informou – Você passa mal ao ver sangue?
– Bem, quando minha irmã quase arrancou metade do dedo fora com uma faca de cozinha ao tentar cortar uma maça eu não desmaiei. – respondi com a boca seca sentindo como se um buraco negro tivesse sido aberto em meu estômago.
– Se não se sentir à vontade posso somente te mostrar fotos do local. – sugeriu – Ficaremos por aqui apenas duas horas, depois voltaremos para Belo Horizonte.
– Acho que é mais fácil encontrar algo eu mesma procurando na cena do crime. Mas é bom já deixar o número da ambulância de prontidão caso eu tenha um treco. – falei com a voz trêmula.
Já com minha malinha roxa em mãos, entrei em um taxi com Georg e fomos em direção a uma rua chamada Doutor Virgílio de Carvalho Pinto no bairro Pinheiros. Por sorte eram ainda dez da manhã e o trânsito estava sem engarrafamentos – pelo menos no nosso percurso. Sempre tive vontade de ir à São Paulo, mas nunca tive oportunidade. Era louca para conhecer o Parque Ibirapuera, que todos diziam ser maravilhoso. Infelizmente teria que deixar a visita à ele para outra oportunidade.
O carro estacionou em frente à um prédio alto de doze andares com a fachada cor creme. O portão preto estava aberto e um homem de terno conversava com uma idosa que consolava uma mulher de cabelo preto que chorava copiosamente. Desci do taxi com as mãos trêmulas e as pernas bambas. Uma brisa gélida me fez encolher e fechar ainda mais meu casaco jeans. Por sorte eu tinha viajado com roupas quentes, se não estaria morrendo de frio.
Entramos no prédio, mas estava tão compenetrada em colocar um pé na frente do outro que mal pude observar o redor. Entramos no elevador e vi minha expressão de pavor refletida no espelho. Georg apertou o botão do sétimo andar e subimos rapidamente. Quando a porta se abriu, notei alguns policiais ao redor de uma fita amarela que isolava um dos apartamentos. Sentia-me em um episódio de CSI, aquilo seria legal se uma pessoa não tivesse realmente perdido a vida naquele lugar.
Georg conversou rapidamente com os homens, que permitiram nossa entrada. O apartamento, mesmo possuindo paredes brancas, parecia escuro, como se a própria construção estivesse de luto. Na estante da pequena sala notei em meio aos livros várias fotos de uma mulher com seu filho. Percebi, com os olhos arregalados, que ela a mesma pessoa que estava chorando do lado de fora do edifício. A semelhança entre os dois era muito perceptível: os mesmos olhos castanhos escuros brilhantes, a mesma covinha somente do lado direito da bochecha e o mesmo cabelo preto. Como não havia foto da mãe do garoto com um homem, cheguei a conclusão de que ela o criava sozinha. Senti um bolo se formar em minha garganta e uma imensa vontade de chorar me invadiu.
– Você está bem? – perguntou Georg quando paramos em frente a porta de madeira do quarto do menino.
– Não, mas vamos nessa. – falei controlando a imensa vontade de sair correndo dali.
Georg, percebendo meu estado, colocou a mão em meu ombro como se estivesse me transmitindo força. Respirei fundo várias vezes tentando tomar coragem. Então, dei um passo para dentro do cômodo.
Era hora de levar aquilo à sério.
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