A Jogadora
4 Capítulo 3 - Nós sabemos
Notas iniciais
Aquele parecia o quarto de um garoto de doze anos comum. Exceto é claro pelo sangue rubro e um pouco úmido manchado na escrivaninha azul e respingado na parede branca. A cama estava perfeitamente arrumada, as revistinhas de super heróis estavam empilhadas na estante juntamente com vários bonequinhos de personagens que não reconhecia e a janela estava fechada impedindo que o vento tirasse o cheiro de sangue e de morte do lugar.
– Vista essas luvas e não mexa muito na cena do crime, temos que deixar tudo como estava na hora da morte para não atrapalhar a perícia local. – falou Georg estendendo-me um par de luvas.
Infelizmente não me vinha nenhuma piadinha à mente para quebrar o clima pesado ali. Parecia falta de respeito rir em um cômodo em que um garoto foi morto e que ainda possuía fortes indícios disso. Coloquei as luvas sentindo-me verdadeiramente em um episódio de CSI. Só esperava que, como todos os casos da série, no final fosse revelado o assassino.
Andei pelo quarto como se aquilo fosse um jogo de campo minado em que uma escolha errada resultaria em uma bomba explodindo e uma mensagem de ‘‘Você perdeu o jogo. Mais sorte na próxima vez!’’ aparecendo na minha frente. Tomei muito cuidado ao procurar alguma coisa na lixeira, porém só encontrei papéis amassados e chiclets antigos. Também não obtive nenhuma sorte ao vistoriar a estante e a cama. Só faltava um lugar para procurar, o que eu estava evitando até mesmo de olhar: a escrivaninha. Acho que estava encarando demais aquela mobília porque Georg passou a mão várias vezes na frente do meu rosto.
– Ao invés de fazer isso igual a um retardado você poderia me ajudar. – resmunguei de mal humor.
– É mais divertido vê-la apavorada com o sangue. – me controlei para não socar cara bonita dele – Estou brincando, é melhor só você procurar para não mexermos muito aqui.
Engoli em seco e vistoriei com os olhos a parte que estava manchada. Suspirei aliviada ao perceber que não havia nada ali, porém um quase minúsculo papelzinho branco me chamou atenção. O único problema era que ele estava sob o teclado com uma grande poça de sangue manchando-o. Com a precisão e cuidado que causaria inveja até em um neurocirurgião, consegui pegá-lo sem mexer as coisas próximas dele. Eu era demais, merecia até um prêmio.
Como não queria ficar ali mais nem um segundo, saí do quarto sem dar uma segunda olhada. Já tinha preenchido toda a cota de cena do crime por um dia inteiro, talvez até pelo resto do mês. Senti como se estivesse violando o túmulo de algum deus ao sentar no sofá daquele apartamento com Georg ao meu lado e vários policiais com cara de bravos passando por nós e conversando entre si.
– O que é isto? – perguntou franzindo o cenho.
– Um pedacinho de papel, dã. – respondi.
Fiquei virando o objeto tentando encontrar alguma coisa que indicasse que ele havia sido deixado pelo assassino da Jeu Terminé, mas não encontrei nada. Não acredito que enfiei minha mão no sangue pra nada.
– Não, Marcela, preste atenção aqui. – falou apontando para o que parecia ser alguns números aleatórios e muito pequenos no canto esquerdo encoberto pelo sangue – O que será isto?
– 22.5.10.13.14.22? Achei que fosse algum código de barra ou de conta. O que significa isso? – perguntei franzindo o cenho
– Você que é a especialista em Urei aqui. – respondeu jogando toda a responsabilidade de desvendar aquilo em cima de mim – Isso não é algum tipo de código do jogo igual aos de GTA que fazer um avião brotar do nada não?
– Em Urei não tem isso. Acredite, eu mesma já revirei o Google através desses códigos maravilhosos, mas não há nenhum. Vamos ter que perguntar para os outros jogadores em uma videoconferência no Skype, talvez eles saibam o que é. – sugeri.
– Então vamos logo, nosso voo de volta para Belo Horizonte é daqui a três horas. – falou levantando-se.
Georg tirou uma foto do papelzinho e colocou-o em um daqueles saquinhos plásticos de provas. Quando um homem da perícia com uma maleta prateada na mão e uma expressão entediada passou por nós, Georg entregou-o o saco. Rapidamente o cara guardou a evidência sem mesmo falar um ''muito obrigado''. Não precisa agradecer por me fazer brear minha mão de sangue, mal educado.
– Você já quer ir para o aeroporto? – questionei abismada seguindo-o para fora do apartamento.
– Claro, não podemos demorar. – respondeu apertando o botão de térreo do elevador.
– Escuta aqui, Doctor, você ama viajar pra lá e pra cá sem parar, mas se eu não comer uma boa refeição em vinte minutos vou morrer. – falei sentindo meu estômago roncar de fome.
– Você conhece algum restaurante por aqui? – perguntou franzindo o cenho.
– Não, uai! Sou mineira, nunca vim à São Paulo, gênio. – disse revirando os olhos – Vocês agentes não deveriam saber dessas coisas para uma emergência não?
– Eu sou dos Estados Unidos, Marcela, é minha primeira vez no Brasil. Mas a que tipo de emergência você se refere?
– Vai que algum bandido faz alguém de refém e só o solta se ganhar uma marmita bem gostosa? O que você dirá? ‘‘Desculpe senhor ladrão, mas não consigo achar um restaurante por aqui, posso somente te dar cinquenta reais para você fazer uma boquinha em algum barzinho antes de ser preso’’? – falei tentando imitar a voz séria de Georg, mas ele não prestava atenção, só ficava mexendo em algo no seu celular – Pare de mexer nesta droga! Você está ficando igual ao Ivan!
– O Ivan encontraria um restaurante a menos de vinte minutos à pé daqui para almoçarmos? – falou sorrindo de um modo vitorioso quase esfregando o celular na minha cara.
– Bovinu’s? Uma churrascaria? – perguntei saindo do elevador – Finalmente comerei algo descente!
– Aproveite enquanto pode comer essas coisas gordurosas, assim que pisarmos na sua cidade te colocarei em uma academia e em aulas de luta e de tiro. – falou.
Murmurei xingamentos direcionados à Georg e até mesmo à pessoa que teve a brilhante ideia de criar academias. Por sorte não parecia que ia chover, mas o vento frio fazia meu cabelo cacheado voar para todas as direções. Até evitava pensar no quão difícil seria penteá-lo depois. Além disso, eu ainda tinha que arrastar minha malinha roxa pela calçada irregular, o que exigia um grande esforço para não quebrar a rodinha nem acertá-la em alguma pessoa. Estava quase me arrependendo de não ter escolhido uma lanchonete para comprar algo quando chegamos ao Bovinu’s. Sentia tanta fome que podia chorar de felicidade ao ver, pela fachada de vidro, os garçons servindo aquelas apetitosas carnes.
Entrei na churrascaria sentindo aquele maravilhoso cheiro pairando suavemente pelo local. Como era uma hora da tarde, o lugar estava com as mesas quase todas ocupadas, só havia um lugar vago nos fundos do restaurante. Perfeito. Como era mais afastado, poderíamos conversar sem sermos interrompidos.
Naquele restaurante a comida era servida em self service, então aproveitei que o preço estava em conta e coloquei várias coisas diversificadas e até saudáveis em meu prato para que Georg não ficasse tagarelando sobre minha forma física. Eu não era esbelta, mas também não era gorda, oras! Só tinha um pouquinho de gordura na barriga a mais que algumas magrelas. Se estivéssemos na metade do século passado eu seria considerada magérrima, já que o padrão de beleza era outro.
Georg terminou antes de mim, já que eu comia devagar. Mas assim que fiquei satisfeita meus pensamentos se voltaram aos números misteriosos no papel. Estava morrendo de curiosidade em saber o que ele significava e não via a hora de finalmente chegar à minha casa para trocar, via Skype, ideias com os outros três caras para saber o que achavam sobre aquilo.
– Tem certeza que não é um código de Urei? – perguntou Georg apoiando as mãos no queixo.
– Absoluta. – afirmei convicta – Como disse anteriormente, não há códigos nesse jogo.
– Eu nunca tive tempo para jogá-lo, então você pode, por favor, me dizer como ele funciona? Não quero parecer um idiota ao vê-la conversando com os outros jogadores sem entender nada.
– É bem simples o jogo. Em Urei você forma equipes de quatro participantes e o objetivo é matar todos da equipe adversária. Todos os quatro têm um comunicador só deles que não deixa os inimigos ouvirem as conversas entre os integrantes, você aperta um botão no canto da tela e fala no microfone que dará certo. Nas partidas, ganha o time que tiver pelo menos um sobrevivente. Podemos usar armas e bombas para acabar com todos em um cenário escolhido aleatoriamente, então você sempre tem que estar preparado para sair de uma partida em uma cidade e na próxima acabar parando em algum deserto. – expliquei.
– Parece fácil. – murmurou.
– E é. – concordei – Se eu não gostasse de você diria que ia te ensinar, mas como tem gente querendo nos matar acho melhor você se viciar no jogo depois que resolvermos isso.
– Temos que achar os assassinos logo, não gosto da ideia de que pessoas estão planejando assassinatos de jogadores inocentes enquanto eu almoço. – comentou.
– Precisarei ter acesso a todos os documentos e arquivos sobre o caso. Sua agência tem hackers? – ele acenou positivamente com a cabeça e ou prossegui – Suponho que eles estão nos Estados Unidos, então não devem ter achado muitas pistas.
– O hacker do Jeu Terminé é excepcional, os sinais que eles mandam parecem vir que várias cidades em todo o mundo deixando impossível rastreá-los. Estamos tentando convocar mais pessoas que saibam invadir sistemas, mas é difícil que abram a porta ao verem que somos do governo. Nossa meta era conseguir pelo menos um em cada estado ou em cada país, porém não estamos obtendo bons resultados. Não se preocupe, deixe isso conosco preocupe-se apenas em achá-los dentro do jogo.
– Alguma dica de como fazer isso? – perguntei – Há mais de cinquenta milhões de pessoas jogando Urei, como quer que eu os encontre?
– É impossível encontrá-los. Eles que a acharão, Marcela, por isso é melhor você aprender rápido como lutar e atirar porque são coisas que você precisará.
– Fique calmo, eu aprendo igual ao Gabriel Vaughn do seriado Intelligence, não se preocupe. – afirmei convicta levantando-me da mesa – Agora sim podemos ir ao aeroporto.
– Já desisti de tentar entender suas comparações. – murmurou.
Georg queria pagar a conta, mas ri da cara dele e custeei minha parte. Não gostava que pagassem as coisas para mim, se eu tenho dinheiro é para usá-lo, não ficar dependendo dos outros como uma parasita. Além disso, por causa da investigação, minha conta bancária nunca esteve tão cheia.
– São uma e meia da tarde, estamos atrasados! – avisou.
– Se pegarmos trânsito eu assumo toda a responsabilidade. Mas tenho quase cem por cento de certeza que chegaremos ao aeroporto antes mesmo de chamarem nosso nome no microfone. – falei positivamente.
Pegamos um táxi e seguimos até o aeroporto sem pegar engarrafamentos muito demorados. Deveria ter eu mesma falado o destino já que, pelo sotaque americano de Georg, o taxista havia pensado que éramos gringos e nos cobrou a mais pela corrida na maior cara dura. Como se pagar quase setenta reais numa voltinha fosse comum por aqui!
Estava quase abrindo a boca para dizer ao Georg que toda sua preocupação com o horário era boba e que ainda tínhamos uma hora até o voo decolar, mas travei assim que avistei o lugar de despache da nossa companhia aérea. A fila estava enorme, parecia até quando tinha sopa de graça e os mendigos se concentravam no lugar para receber o alimento.
– Pense pelo lado positivo: nossos nomes ainda não estão sendo anunciados no microfone. – falei recebendo um olhar de pura raiva de Georg.
~♥~
Eu queria ser um urso naquele momento. Queria hibernar por todo o inverno – estação em que estávamos – e só acordar meses depois. O voo, apesar de ser rápido, havia posto um fim definitivo à minha vontade de andar de avião por pelo menos um ano. Além disso, o aeroporto de Confins era quase fora de Belo Horizonte e demorei uma hora para poder, finalmente, chegar em casa. Antes que pudesse destrancar o portão, a velha fuxiqueira da era minha vizinha me viu.
– Marcelinha finalmente arranjou um namorado? – perguntou sorrindo e mostrando sua dentadura – Esse homem é um pão, hein minha filha? Ah se eu tivesse meus vinte anos de novo, estaria cada dia com um amor diferente!
O nome dela era Catarina e deveria ter mais de setenta anos. Seu hobbie era colocar uma cadeira na calçada em frente à sua casa para observar o movimento da rua. Os cabelos já eram grisalhos e ela tinha muitas rugas de expressão no roto e um pouco de pele flácida nos braços. Sempre que a via estava usando algum vestido florido e sandálias ortopédicas pretas. Ela era uma pessoa legal e eu a adorava. Desde que não estivesse vigiando a minha vida.
– Ele não é meu namorado, senhora Catarina, é somente um amigo. – falei empurrando Georg para dentro a fim de evitar mais perguntas.
Abri a porta de casa e entrei já escancarando todas as janelas para ventilar o lugar. Assim que Georg foi para a sala ligar para os agentes dos outros jogadores, fui para o meu quarto trocar de roupa. Eu amava ficar de pijamas em casa porque era confortável e optei por uma calça comprida lilás e uma camiseta branca porque não queria que ele risse dos meus pijamas com estampas de animais fofinhos ou me visse nos que eram muito curtos. Aproveitei que estava sozinha e liguei para minha mãe para contar que estava bem.
– Alô? – falou minha mãe do outro lado da linha.
– Oi mãe, só liguei para avisar que cheguei em casa sã e salva.
– Que ótimo filhota! Amanhã você vai vir almoçar aqui, não é? Farei um delicioso feijão tropeiro do jeito que você gosta.
– Depois disso não dá nem para recusar. – concordei rindo – Vou desligar, estou morta de cansaço.
– Ok meu bem, te espero amanhã.
Assim que desliguei o celular, Georg bateu na porta do meu quarto. Conferi rapidamente se não havia sutiãs à vista e falei para ele entrar. Percebi que ele ficou olhando ao redor e analisando o cômodo e isso me deixou um pouco constrangida.
– Entre no Skype, os outros agentes irão colocar os outros três jogadores agora ao vivo. Pelo que me disseram, eles também têm novidades. – avisou.
Liguei o computador e peguei uma cadeira para Georg se sentar ao meu lado. Notei que ele se surpreendeu com o tamanho da tela e com meus equipamentos eletrônicos. Em menos de dez minutos abri o Skype e percebi que tinha os outros jogadores em meus contatos.
– Como...? – perguntei.
– Nós já sincronizamos suas contas para que possam sempre manter contato uns com outros caso haja alguma eventualidade. – respondeu.
Levantei rapidamente e corri para o banheiro deixando um Georg ainda me olhando confuso para trás. Olhei-me no espelho e soltei um palavrão ao ver minha pele morena um pouco seca por causa do ar condicionado do avião e meu cabelo cacheado bagunçado. Passei um pouco de água nos fios e enrolei algumas mechas no dedo indicador com creme para definir os cachos um pouco mais. Passei um hidratante no rosto e nos braços e um brilho labial para tirar o aspecto ressecado dos lábios. Claro que eu não iria aparecer na câmera – principalmente com Ivan me vendo – com o cabelo igual ao do Pennywise.
Quando voltei para frente do computador, havia uma notificação de chamada aparecendo na tela e a aceitei. Assim que a webcam de todos estava funcionando, tive que segurar a vontade de rir. O garoto japonês, Akihiko, estava com cara de quem acabou de se levantar, com o cabelo bagunçado e uma marca de travesseiro na bochecha. Domicio, o espanhol, estava com uma expressão séria e com olheiras arroxeadas sob os olhos. Ivan, como sempre, estava relaxado na cadeira com as mãos na nuca e um headfone vermelho no ouvido. Parecia até que ele estava dormindo, mas seus lábios se movendo no ritmo da música diziam o contrário. Senti saudade do MSN, em que eu podia clicar no botão de chamar atenção e a tela da pessoa tremia toda. Aposto que ele levaria um susto tão grande que cairia até da cadeira.
– Espero que tenham um ótimo motivo para me acordar às cinco da manhã. – falou o japonês em um inglês um pouco errado.
– Eu fui em uma cena de um dos assassinatos que teve aqui no Brasil, mais precisamente em São Paulo, e vi um papel com essa sequência numérica: 22.5.10.13.14.22 – falei – Vocês sabem o que isso pode significar?
– Eu também encontrei uma sequência no assassinato em Madri. Mas a minha era 6.9.17.18.19 – disse Domicio.
– Isso é um código. – falou Ivan com o sotaque russo atrapalhando meu entendimento do inglês..
Espera...Ele estava prestando atenção a nossa conversa?
– Isso mesmo. Eles usaram um código bem simples em que substitui-se a letra pelo número que ele corresponde no alfabeto. O da Marcela significa – Akihiko engoliu em seco antes de continuar – We Know.
– Nós sabemos? – murmurei em português.
Mas o que aquilo queria dizer? Após um segundo de raciocínio, percebi que os assassinos sabiam de nós, caso contrário não teriam deixado aquele recado após o assassinato. Senti como se uma mão gélida apertasse minha garganta impedindo-me de respirar. Eles sabiam que estávamos caçando-os.
– Então o meu significa First? Mas em que serei o primeiro? – questionou Domicio.
Antes que pudéssemos dizer alguma coisa, os olhos dele perderam o foco um segundo antes de um som alto de disparo parecido com o de uma explosão ferisse meus ouvidos e ecoasse por meu quarto. O corpo de Domicio caiu para frente e ficou imóvel. Havia uma marca de sangue respingado na parede branca, abaixo do quadro que mostrava o homem, sua mulher e a filha adolescente em uma praia qualquer.
Seu código significava que ele seria o primeiro de nós a morrer.
Fale com o autor