A Jogadora
8 Capítulo 7 - Conversa
Notas iniciais
Ok, certo. Não entre em pânico, não entre em pânico... Ai meu Deus! Eu estou morando com um assassino! Minhas mãos começaram a tremer e fiquei toda hora olhando para a porta esperando o momento em que Georg, ao perceber que eu havia descoberto tudo, entraria atirando em mim. Respirei fundo e contei até dez mentalmente. Porém, ao invés de me acalmar fiquei com vontade de socar alguém. Quem foi o idiota que falou que fazer isso acalma?! Roí a unha do dedinho de nervosismo. Pelo menos eu já estava em um hospital caso ele resolvesse me matar e teria um rápido atendimento.
– Giovana, me fale uma palavra que tem as letras g, e, o, r, g nessa ordem. – pedi tentando manter a voz calma.
– Georg? Pra que você quer uma palavra com o nome do seu namorado? Ah! Vai fazer um poema de amor para ele? – perguntou animada recebendo um olhar zangado meu – Ok, sem poema de amor. Tem a Georgia, eu acho que é a única palavra assim.
Obriguei-me a analisar melhor o papel e percebi que só havia escrito o nome de cinco jogadores, ainda faltava um que começava com a letra a. Georgia... Fazia sentido. Mas onde estava o username iniciado por i? Até agora as mortes estavam em ordem, então por que o assassino pulou justamente a penúltima letra que formaria aquela palavra?
Batuquei o lápis impacientemente no bloquinho tentando chegar a uma conclusão, mas nada se encaixava. Deveria ter jogado mais Detetive como minha prima. Ela sempre ganhava de todo mundo e já que eu odiava perder, ia me esquivando cada vez mais daquele tabuleiro. Mas sério, como raios eu iria saber que o mordomo matou a mulher com um candelabro no jardim em menos de cinco minutos de jogo? Impossível.
Senti algo gelado em minha bochecha e quase caí da cadeira tamanho o susto que levei. Fechei rapidamente o bloquinho e encarei a lata de refrigerante que Georg estendia em minha direção com um sorriso no rosto.
– Você parecia com sede então comprei para você como uma oferta de paz. – falou quando peguei a latinha.
– Como assim oferta de paz?
– Bem, lá na sua casa você estava toda estranha, então achei que eu tivesse feito algo que não te agradou e por isso ficava com medo ou algo do tipo de mim. Seja qual for o motivo, queira me desculpar, Marcela. – afirmou Georg, ainda dizendo meu nome como Marrchela.
Não sei se foi pelo sotaque ou por ele ter se desculpado sem ter feito nada, mas comecei a rir. Talvez ele não fosse um assassino, provavelmente eu estava direcionando todo o medo que eu tinha de ser assassinada para a pessoa que estava mais próxima, no caso o Georg. Afinal, ele não tinha dado nenhum indício de querer me fazer mal, muito pelo contrário. Quando disse no telefone que estava morrendo, Georg pareceu bem preocupado comigo e chegou pouco tempo depois em minha casa arfando pela correria. Se ele quisesse me matar teria enrolado para ver como eu estava e deixar o crime se concretizar, certo?
– Eu que sou neurótica mesmo, não precisa se preocupar. – falei sorrindo mais relaxada – Obrigada pelo refrigerante.
Fiquei olhando para ele, procurando alguma coisa que pudesse ter feito com que eu achasse que ele realmente quisesse me matar, mas não encontrei nada. Claro, eu podia ver a dobra na blusa azul clara social onde sua arma estava, mas ela não me incomodava tanto assim. Pelo menos já não o imaginava sacando-a e atirando em mim. Isso. Naturalidade. É disso que eu preciso para disfarçar melhor. Mesmo sabendo que ele não atiraria em mim agora, ainda mantinha o pé atrás com Georg. Porém, como minhas tentativas anteriores de não fazê-lo perceber isso deram muito errado, eu tinha que agir do modo mais natural possível, retirando a ideia dele ser um traidor de minha cabeça. Ao menos por um tempinho.
– Você é importante para mim, claro que tenho que me preocupar. – afirmou sorrindo.
– Podem se beijar, juro que não olho. – disse Giovana bocejando;
– Vá dormir, pirralha. – retruquei usando minha pose de irmã mais velha – É sério, caso contrário direi para as enfermeiras que você está com dor e precisará de anestesia geral.
– Você é tão chata! Não acredito que conseguiu um namorado legal! Como não o espantou ainda com seu péssimo humor matutino ou quando perde uma partida de Urei e fica trancada no quarto se remoendo de ódio?
– Boa noite, Giovana. – anunciei.
Arrumei a coberta melhor ao seu redor, pois seu machucado ainda deveria doer com alguns movimentos que forçassem os músculos feridos. Beijei sua bochecha, sentei na beiradinha da cama que ela havia deixado para mim e fiz carinho em seu couro cabeludo com as unhas – coisa que ela adorava. Logo, minha irmã estava dormindo com o celular ao seu lado. Guardei o aparelho em minha mochila para que ela não o derrubasse por acidente.
– O que quer conversar comigo? – perguntou Georg surpreendendo-me.
Ele estava sentado na cadeira que eu outrora ocupava. Seus braços estavam cruzados diante de seu corpo, sua expressão estava calma e curiosa. Georg era bonito, tirando toda aquela rigidez comportamental e a mania irritante de querer ser sempre pontual. Eram raros os momentos em que eu realmente o via relaxado, ser responsável pela vida de alguém desconhecido deveria ser um fardo assustador.
– Por que acha que quero conversar com você? – indaguei sorrindo.
– Se não quisesse não teria colocado sua irmã para dormir tão abruptamente nem teria trago um bloquinho de anotações. Por favor, me ajude a te ajudar, ponha-me a par das suas descobertas, meu trabalho é esse também. – pediu.
– Credo, você pareceu um psicólogo agora. Bem, vamos até o corredor, não quero correr o risco da Gio ou qualquer um desses pacientes fingirem estar dormindo e descobrirem o que está acontecendo.
No corredor havia médicos e enfermeiras andando constantemente, o que me fez sentir um pouco mais segura. Mas isso não queria dizer que eu pararia de apertar nervosamente meu bloquinho de anotações. Analisei a expressão curiosa de Gorg tentando não demonstrar minha desconfiança. Naquele instante pareceu-me bobeira esconder o que descobrira dele, pois se quisesse impedir que mais pessoas sofressem ataques iguais aos da minha irmã – ou até piores – eu teria que contribuir ao máximo para que todo esse filme ruim e instável acabasse logo. Sentia falta da minha vida monótona e desprovida de perigos tão reais.
– Descobri que os usernames dos últimos seis mortos estavam formando parcialmente uma palavra. Acho que ainda falta uma letra para completa-la, mas isso já é alguma coisa. Talvez os assassinos queiram nos passar alguma mensagem mais direta, como os códigos que eu recebi. – expliquei omitindo alguns fatos e estendi meu bloquinho em sua direção.
– Qual sua suposição? – questionou analisando o escrito.
– Acho que eles querem prolongar isso o quanto puderem, mas ao mesmo tempo desejam expor tudo que está acontecendo para a mídia o mais rápido possível. Quem quer que esteja encabeçando esse plano complexo, quer atingir e ‘‘destronar’’ a Entergame.
– Caso isso venha à tona a Entergame irá falir e repetindo o que eu disse nos nossos primeiros dias juntos, todo o mercado de videogames levará um grande golpe. Também estou com suposições, obrigado por compartilhar essa descoberta comigo, foi muito útil. – ele sorriu com sinceridade, expondo as pequenas rugas ao redor de seus olhos – Bem, o Christopher precisa ser avisado para se preparar para o golpe, é melhor ele já planejar um modo de contornar a situação e ter um discurso pronto para quando a mídia cair matando em cima dele.
– Tem como marcar uma reunião no Skype com todo mundo?
– Que horas? – perguntou olhando seu relógio de pulso.
– Agora se der. Quero o máximo de ajuda possível para não ter que vir visitar as pessoas que eu gosto em um hospital ou, Deus me livre e guarde, em um cemitério. – respondi estremecendo.
Fui surpreendida por um abraço um pouco desajeitado de Georg. Envolvi meus braços ao redor de seu corpo e percebi que eu realmente precisava de consolo, era muita pressão dentro e fora do jogo. Tinha que tomar cuidado para não sofrer machucados dentro do jogo e ainda precisava ser cautelosa para não fazer nada que fizesse os assassinos usarem ainda mais meus familiares como uma forma de me atingir.
Meus olhos começaram a arder e um bolo se formou em minha garganta quando lágrimas ameaçavam escorrer por minhas bochechas. Fazia realmente muito tempo que eu não chorava. Quando você cresce, parece que o direito às lágrimas tem que ser abandonado, era como se tornar adulto significava parar de chorar. Mas eu não estava muito afim de ser adulta naquele momento. Encostei a cabeça no ombro de Georg e deixei as emoções correrem livremente por meu rosto, silenciosamente.
– Desculpe-me. – sussurrei ao me recompor e limpei as bochechas.
– Sem problemas, chega uma hora que as emoções têm que ser libertadas de uma forma ou outra. Como não temos nenhum boneco para você socar, chorar é uma boa forma de aliviar a pressão. – falou enrolando um cacho de meu cabelo no dedo distraidamente.
– Obrigada, já estou bem melhor. – agradeci endireitando a postura e sorri – Ligue para todo mundo, por favor e vamos ver o que fazer.
Caminhei até a cama de minha irmã, analisando seu rosto sereno no sono e vendo a faixa que envolvia um pedaço de seu braço que estava com uma fraca marca de sangue. Peguei meu celular na bolsa e fiquei respondendo várias mensagens perguntando sobre o estado de Giovana, provavelmente minha mãe deveria ter espalhado a notícia para todo mundo.
– Eles concordaram a conversar agora. O Christopher também estará na chamada, temos que conversar com todos. – anunciou Georg dando-me um pequeno susto, já que não tinha ouvido seus passos.
– Não é melhor irmos para outro lugar, não? A Gio pode acordar e tem outros pacientes aqui também. Que tal o banheiro no fim do corredor? Lá não tem câmeras e teríamos que dar muito azar de alguém querer usá-lo nesse horário.
Fomos para o banheiro simples, branco e que tinha um forte cheiro de produtos de limpeza. Odiava aquele cheiro. Entrei no Skype e após dez minutos, todos já estavam conectados. O garoto japonês estava com olheiras arroxeadas, o cabelo bagunçado e a blusa preta amassada. Era possível ver um quadro atrás dele repleto de papéis, fotos e linhas vermelhas, como se ele estivesse em um filme policial ruim. Ivan, como sempre, estava ouvindo música em um headfone branco, usava uma camisa azul marinho que já vira melhores dias. Ele estava mexendo em seu celular enquanto conversava com o agente que fora designado a ele. Christopher trajava um impecável terno preto que parecia ter o preço da minha casa e não havia vestígios do sorriso que havia visto na primeira vez quando o encontramos em seu escritório em Nova Iorque.
– Boa tarde, dia ou noite. – falou Christopher.
– Vou direto ao assunto. Aqui no Japão, todas as mortes que tiveram antes foram em diferentes cidades, nunca duas vezes na mesma área. Porém, desde que voltei estão morrendo pessoas que moram próximas umas das outras. Esta semana, foram dois em Osaka. – seu rosto ficou extremamente pálido ao dizer essa última parte.
– Liguei para Ivan mais cedo – Ivan bufou irritado e largou seu celular por um segundo para me olhar com a sobrancelha arqueada – e ele me disse que as iniciais dos nicknames dos jogadores formavam algum tipo de mensagem. Infelizmente, a minha não está completa. Acho que a Jeu Terminé quer estender ao máximo o segredo do que estão fazendo, mas ao mesmo tempo querer chamar atenção para que tudo seja revelado. Eles devem estar esperando alguma coisa para darem o xeque-mate. Christopher, a empresa está desenvolvendo algum jogo novo?
– Não. – afirmou convicto, mas notei que sua expressão se fechou ainda mais. – A Entergame não pode sofrer um golpe desse neste momento delicado. Levem isso a sério.
Eu queria socar aquele cara. Minha irmã estava em um hospital e ele ainda achava que nós estávamos de bobeira? Que raiva! Georg deu tapinhas em meus ombros e relaxei o aperto que fazia em meu celular. Cretino.
– Eu não sou seu empregado. Se não acha que estamos levando isso com responsabilidade, levante sua bunda da cadeira de couro, saia do seu escritório seguro e venha para a vida real onde nossos familiares estão no hospital, pessoas estão morrendo e a qualquer momento nossas casas podem ser invadidas por um louco que deixará como única pista que esteve lá um tiro bem na sua cabeça. – falou Ivan pela primeira vez, desviando sua atenção do celular e encarando a câmera com os olhos queimando de raiva.
– Vocês têm até o Grande Torneio para acabarem com isso, agentes. Vocês estão trabalhando juntos com esses garotos e a garota, façam o trabalho direito, afinal estão sendo pagos! Não quero que minha empresa seja desmoralizada porque vocês não conseguiram fazer nada direito.
– Se está reclamando tanto, ponha mais pessoal para nos ajudar. Você está falando da ineficiência de nós seis, mas esquece-se que a Jeu Terminé deve estar com esse plano desenvolvido há anos, detalhado e com todas as possibilidades de erro pensadas. Domicio morreu por causa dessa porcaria, minha irmã está no hospital e tudo graças a esta merda que está acontecendo devido ao seu jogo. Tenha um pouco de decência, cale a boca e nos agradeça, porque estamos dando o nosso melhor aqui enquanto você fica quietinho em seu escritório em Nova Iorque tendo reuniões e mexendo no computador. – esbravejei.
Pontinhos pretos dançavam em minha visão de tanta raiva que eu estava sentindo naquele momento. Respirei fundo repetidas vezes enquanto ninguém dizia uma única palavra. Aquela deveria ser a hora que Christopher surtaria e me tiraria do caso. Uma parte de mim ansiava por isso, mas a parte maior preferia ficar por dentro de tudo que acontecia a ficar completamente no escuro tendo consciência das mortes.
– Vocês têm até o UTek. – falou Christopher saindo da chamada.
– Esse cara me dá nos nervos. Vocês viram que ele se fechou totalmente quando a Marcela perguntou se a Entergame estava planejando alguma coisa? Acho que é isso que a Jeu Terminé está esperando. – comentou o japonês.
– O que quer que eles estejam criando, será revelado no UTek. – falei curiosa.
– Então temos cerca de dois meses até o torneio, o que vocês, agentes, sugerem que façamos? – perguntou Ivan largando completamente o celular pela primeira vez.
Quando meus amigos iam jogar sério, acertavam a postura, pelo visto, Ivan largava o celular. Fiquei encarando Georg que estava apoiado na parede do banheiro pensando em algo.
– Treinem lutas corporais e aprendam a atirar, daqui um mês iremos fazer uma reunião pessoalmente, nós todos. A partir daí vamos pegar pesado, reuniremos as informações que conseguirmos e vamos fechar o cerco. Este mês vamos nos preocupar somente em juntar o máximo de informações que conseguirmos. – decidiu Georg.
Estava claro que de todos os três agentes, Georg era o chefe.
– A comunicação entre nós é primordial, vamos estipular um horário para falarmos no Skype todo dia. – falou o homem que acompanhava Ivan – Que tal às seis da noite?
Fiz os cálculos, pelo visto o horário aqui seria nove da manhã. Acordar cedo, eba.
– Tudo bem por mim. – afirmei.
– Ok. – disse o japonês.
– Marcela e Ishizaki, temos que tomar cuidado. Eu acho que tudo isso é uma merda maior do que pensamos. O cara que está no comando do Jeu Terminé, é alguém experiente e com muito dinheiro para cobrir seus passos. Estamos atrás de um peixe grande e tenho medo de nossa rede ser pequena demais para pescá-lo. – avisou Ivan.
– Geralmente quem tem muita grana tem muitos contatos importantes e é disso que devemos ter medo. Qualquer um pode ser comprado ou ameaçado por eles para fazerem o que querem. Nem mesmo o pessoal do alto escalão é confiável, vamos ter que passar a ser cuidadosos. Não contem tudo quando Cristopher ou qualquer um de fora esteja presente nas chamadas. Cuidado com as ligações, acho que poderão ser ou já estão grampeadas. – disse Georg.
– Se eles conseguem grampear os telefones devem conseguir ter acesso às conversas do Skype. Não há um modo seguro de nos comunicarmos sem expormos as novidades, não podemos esconder tudo e deixar os outros às cegas. – observei.
– Então só iremos contar tudo uns para os outros daqui um mês quando nos encontrarmos pessoalmente, certo? – perguntou Ishizaki – Pressupondo que sobreviveremos até lá.
– Sim. – falou o agente atrás do japonês – Então temos que fazer muitas descobertas para não desperdiçar nosso tempo. Lembrem-se que sempre há rastros, nem que seja um fio de cabelo, uma poeira ou risco fora do lugar.
~♥~
Não consegui dormir muito bem o restante da noite. Encerramos a chamada quase às uma da manhã e fiquei relembrando da nossa conversa. Não era hora de suspeitar de Georg, se ele me quisesse morta já teria feito há tempos, eu não tinha mais o luxo de desperdiçar tempo. Aliás, nenhum de nós tinha. Bocejei e terminei de escrever no bloquinho um resumo do que foi falado, com os pontos principais para tentar manter minha memória fresca e me impedir de cochilar novamente.
– Quer café? – perguntou Georg.
– Não, daqui a pouco o sol nasce e meu sono vai embora. Quando eu ficava lendo ou jogando por toda a madrugada me sentia muito mais desperta pela manhã. – respondi – Além disso, odeio café de hospital.
Georg também não havia dormido, mas lá pelas quatro horas havia comprado uma lata de energético. Segundo ele, tinha que me vigiar a todo momento e por isso dormir era inadmissível. Olheiras eram visíveis sob seus olhos, o cabelo estava bagunçado e suas roupas amassadas, mas eu deveria estar da mesma forma ou pior, então não poderia julgar.
– Que horas sua irmã será liberada mesmo? – perguntou.
Nesse momento, o médico entrou no quarto e sorriu para nós. Ele era careca e velho, assim como Giovana disse. Seus olhos eram verdes, muitas rugas profundas adornavam seu rosto e possuía uma proeminente barriga sob o jaleco branco.
– Sou o doutor Túlio, precisarei acordar a menina para ver como ela está. – ele falou analisando a prancheta e eu cutuquei minha irmã, que acordou assustada – Os batimentos cardíacos permaneceram constantes, isso é bom. Sente alguma dor?
– Não. – resmungou com a voz rouca de sono e esfregou os olhos.
– Consegue levantar o braço? – ao vê-la conseguir, balançou a cabeça distraidamente aproximando e conferindo os pontos – Vou te receitar alguns remédios para a dor e poderá ser liberada.
– Obrigada doutor. – agradeci encobrindo ‘‘graças a Deus’’ que minha irmã murmurou.
Menos uma preocupação. Liguei para meus pais e contei que Giovana tinha recebido alta e que a levaria para casa. Não passavam das sete horas e eu tinha certeza de que ambos tinham dormido muito mal à noite por causa da preocupação, então queria dar-lhes algumas horas para que descansassem um pouco mais.
Giovana pegou sua mochila de roupas que minha mãe havia trazido e foi se trocar no banheiro do corredor em que horas antes discuti planos com os outros jogadores. Senti as mãos de alguém em meus ombros e levei um susto. Virei-me rapidamente e vi Georg sorrindo enquanto começava a me fazer uma massagem.
– Você está muito tensa, Marcela. Vai dar tudo certo, vamos pegá-los e não terá que visitar nenhuma pessoa querida sua no hospital novamente. – falou apertando os meus músculos tensos.
– Que garantia tem disso, Georg? – perguntei com um sorriso triste – Ninguém pode afirmar isso. Esses caras podem ficar de tpm de uma hora para outra e decidirem sair atirando em todo mundo que gosto. Como saberei que estou no caminho certo
– Se estão querendo te matar é porque está. – respondeu tentando me animar.
– Georg, já estão me querendo morta desde o começo. – retruquei revirando os olhos.
– Então você tem um dom para investigação.
Dei uma risada um pouco sem vontade e vi minha irmã entrando no quarto usando um jeans e uma regata azul que combinava com o tênis preto. Ela estava com um aspecto bem melhor graças à maquiagem que havia passado.
– Vamos embora logo? Se ficar mais um pouco aqui é capaz de eu enlouquecer e ir direto para a psiquiatria.
Fomos até a recepção que ficava no primeiro anda e paguei o quarto em que minha irmã havia sido internada. Enquanto assinava a papelada de liberação, o celular de Georg tocou e ele se afastou para atende-lo. Tive um pressentimento ruim. Quando o telefone dele tocava nunca era coisa boa.
Porém a ligação havia sido rápida e ele ajudou a parar um táxi para nós. Gio afirmou que poderia irmos de ônibus, mas não quis arriscar de alguém acabar esbarrando em seu ferimento. A expressão de Georg era fechada e pensativa, o silêncio só era quebrado pela voz do motorista – um senhor já de idade, cabelos brancos e pele morena – conversando com minha irmã sobre o que tinha acontecido com ela.
Demoramos quase vinte minutos para chegarmos à casa de meus pais. O muro alto e verde claro e o portão branco faziam com que eu me lembrasse da época de escola quando saía de casa para ir ao colégio mais ou menos naquele horário. Paguei a corrida com um cartão de crédito e minha irmã foi a primeira a descer do carro para tocar campainha. Assim que saí do automóvel, Georg segurou minha mão fazendo com que eu o encarasse.
– Pedi que ficassem de olho nas pessoas que tinham o username começado por i e acabei de receber uma notícia não muito agradável. – falou com a voz baixa tentando ser casual.
– Ele morreu? – perguntei sentindo meu estômago revirar.
– Não. – fez uma pausa olhando dentro de meus olhos – Ele está desaparecido desde quinta feira, a família acabou de dar queixa.
– O quê?! – espantei-me – Esse não é o modus operandi da Jeu Terminé! Eles entram e matam, não sequestram pessoas! Isso não pode ser uma coincidência. O que será que está acontecendo?
– Não sei, mas isso não é nada bom. – respondeu sério.
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