A Jogadora

7 Capítulo 6 - Descobertas


Notas iniciais
Sim, eu sei, sou uma cretina sem coração. Desculpem-me pela demora, vou explicar melhor o que houve nas notas finais para quem tiver paciência de ler. Obrigada mesmo por não me abandonarem! ACarolRM ♥ Você é quase minha xará *-* Muito obrigada por ter dado uma chance à fic e ainda recomendá-la, gata! Pelos poderes de HUE, eu tenho a força! USAHUSH Não resisti xD Amei suas palavras, elas me mostraram que eu estava atingindo meu objetivo de deixar o Brasil bem ''abrasileirado'' Mat ♥ Vem sempre aqui, gato? USAHUSAH Muito obrigada pela sua recomendação linda e por ficar sempre me cobrando capítulos! Sem você, eu provavelmente demoraria muito mais para postar ♥ Você é um fofo *-* Vou ali pegar um lencinho de papel para poder me comover à vontade ♥ Obrigada também a todos que comentam, leem, assombram a história e favoritam! Vocês estão me fazendo mega feliz ♥ NOTÍCIA BOA! Estou arrumando os capítulos anteriores no meu computador para quando finalizar a história poder mandá-la para uma editora e quem sabe fazer um livro dela ;D Irei responder os comentários que ainda não respondi daqui a pouco ;D Respondendo a pergunta do capítulo anterior: Meu esporte favorito é a natação. Competi por quatro anos, mas tive que largar por causa do colégio :c Boa leitura, espero que gostem ♥

Eu ia morrer. Aposto que já havia alguém vindo ao meu encontro com uma arma silenciosa, pronto para dar fim à minha breve vida. Mas eu era esperta, tinha jogado jogos suficientes para saber que eu não iria estar ali quando a pessoa chegasse. Se Georg queria me apagar, beleza. Porém, quebraria aquela cara bonita ao ver que não tinha ninguém em casa.

Assim que ele resolveu ir à polícia pegar o cartucho da bala usada no atentado contra a minha irmã, eu me preparei para sair. Quando estava tentando vestir uma calça – que eu podia jurar que ainda cabia em mim – meu celular começou a tocar e a música eletrônica do Skrillex começou a ecoar por meu quarto. Será que aquele era o sinal para o assassino atacar? Fiquei olhando ao redor com o jeans no meio de minhas pernas prestando atenção a qualquer movimento. Esperava que não tivesse ninguém ali, porque seria difícil correr sem cair de cara no chão com a calça parcialmente vestida.

– Eu estou ficando louca. – murmurei indo pegar o aparelho – Quando tudo isso acabar e caso eu não tenha morrido, irão me internar em um hospício. Já estou até falando sozinha, credo.

Atendi a ligação e sorri ao ver que era Gabriela, minha melhor amiga, do outro lado da linha. Como eu havia sentido a falta dela!

– Você é uma grande filha da puta, Marcela. Com todo respeito à dona Bruna. – completou rapidamente – Estamos em semana de trabalhos pesados e você simplesmente não aparece na faculdade há dias! Perdeu totalmente a cabeça?

Eu não havia contado para ela ainda sobre o convite do falso Nick Fury. Sentia-me um pouco mal por não ter dito tudo que esteva acontecendo para Gabriela, mas aquilo seria melhor para ela. Se realmente estavam querendo me atingir pelas pessoas com quem eu tinha afinidade, não queria colocá-la na lista negra deles por isso evitaria manter muito contato. Quem sabe demais sempre se ferra nos filmes.

– Tranquei meu curso. – menti – Estou com alguns problemas na família e está tudo uma bagunça. Desculpe-me por não ter te contado antes.

– Marcela, esses jogos fritaram seu cérebro?! – gritou fazendo-me afastar o ouvido do celular – Demos o maior duro para entrar na Inforium e você cai fora no final do semestre? O professor de computação está fulo da vida porque a melhor aluna dele desistiu. Acho sacanagem o que fez, o cara te ajudou muito na faculdade, conseguiu aquele trabalho para você e você ainda teve a cara de pau de sair sem nem avisá-lo?

Quando eu pensei que não poderia me sentir ainda pior, aquilo me transformou na pessoa mais horrenda e desprezível do mundo. Luís era, na minha opinião, o melhor professor da faculdade e lecionava Sistemas Operacionais I. Eu era ótima em sua matéria e logo ele reconheceu meu potencial, abrindo diversas portas para minha futura carreira. Com tudo aquilo acontecendo, tinha até me esquecido de ir me desculpar e avisá-lo pessoalmente.

– Eu sei, ok? Não precisa bancar minha mãe! – retruquei irritada – Pisei feio na bola, mas agora não estou com um pingo de paciência para isso.

A linha ficou muda por alguns instantes, mas como ouvia o som da respiração ofegante de raiva da Gabriela, ela ainda não havia desligado. Éramos mais teimosas que mulas quando empacavam e ela sabia que não iria arrancar nada de mim por enquanto. Dei um suspiro profundo e tentei relaxar sentando-me na cama. Foi quando ela começou a rir. Ela tinha esse péssimo hábito de, quando nervosa, cair na risada e não parar até se acalmar um pouco.

– Você está certa, não deveria estar te pressionando assim. Quando estiver pronta para contar o que está acontecendo, vou estar aqui para ouvi-la. – falou.

– Pode deixar que assim que tudo terminar, iremos à alguma boate dançar como loucas e te contarei tudo. – afirmei – Boa sorte nos trabalhos, preciso ir agora.

– Espera! Tem algum cara envolvido? – perguntou animada novamente.

– Xau, Gabriela. – respondi rindo.

– Ai meu Deus! Tem um cara envolvido! Eu sabia! Veja se ele não tem um primo, amigo, parente ou até conhecido para me apresentar. Preciso me recuperar do desastre que foi o Antônio. – tagarelou fazendo-me revirar os olhos. Para ela, tudo que acontecia de diferente envolvia alguém do sexo masculino – Bem, o dever me chama. Quando você voltar para a faculdade estará tão ferrada que quase tenho pena do tanto de coisa que você terá que fazer. Quase.

Antes que pudesse falar mais alguma coisa, a linha ficou muda. Eu já tinha ficado tempo demais ali e todo som que eu ouvia já me fazia encolher de medo. Terminei de vestir a calça jeans com certo esforço, vesti uma blusa branca, sapatilhas pretas e logo saí de casa pegando minha bolsa. Por sorte, a duas quadras de minha casa, havia uma livraria ampla que quase sempre estava muito movimentada. Caso alguém atire em mim, pelo menos terá plateia.

Se eu quisesse descobrir quem estava brincando de Deus, teria que saber tudo sobre investigação e nada melhor que comprar livros para me ajudar nesse aprendizado. Eu amava ler, mas quase não tinha tempo, pois a faculdade, os jogos e o trabalho exigiam muito de mim. Porém, agora que estava com mais dinheiro na conta e relativamente sem muita coisa para fazer, decidi comprar todos os livros do Conan Doyle e da Aghata Cristie para aprender a resolver casos policiais.

A livraria era pequena, já que seu nome não era famoso e só estava ali há um ano, mas mesmo assim era linda. Várias citações maravilhosas de diversificados livros decoravam as paredes cor creme. As estantes de madeira escura estavam repletas dos mais variados temas e anos de publicação, o chão de carpete negro e macio fazia-me sentir vontade de tirar o sapato e andar descalça sobre ele e os vidros com película escura permitiam que víssemos tudo do lado de fora, mas ninguém nos via. Caso alguém suspeito estivesse se aproximando, eu perceberia e poderia sair antes que tivesse uma bala no meu crânio.

Assim que paguei os seis livros, fui direto para minha casa desconfiando de todos ao meu redor. Realmente, eu estava completamente neurótica. Revistei as trancas tanto do portão quanto da porta de entrada para ter certeza que ninguém havia invadido. Quando me assegurei que estava completamente sozinha, relaxei um pouco. Porém, logo fiquei tensa novamente. Havia se passado quase três horas e Georg ainda não tinha chegado. Precisava de algo para fazê-lo ficar sob minha vigia. De repente, senti uma forte dor no abdômen que me fez apoiar na mesa da cozinha e deixar os pesados livros no chão. Será que havia levado um tiro?

Olhei para baixo, mas não havia sangue manchando a minha blusa e praguejei entendendo o que estava acontecendo. Odiava minhas cólicas. Elas sempre vinham no pior momento possível e eram muito fortes. Procurei um medicamento na gaveta de remédios que mantinha no armário, mas não encontrei nenhum. Droga. Arrastei-me até minha cama e me deitei encolhida cobrindo-me com o cobertor felpudo roxo. Como a Natasha Romanoff conseguia lutar nesses dias toda linda e maravilhosa? Francamente, nunca mais acreditarei em nada vindo de cinema e de histórias em quadrinhos. Peguei meu celular de dentro da bolsa e fiz uma ligação.

– Georg! – falei alto assim que ele atendeu a chamada – Estou morrendo!

– O quê?! Tem alguém aí? Marcela, se esconda em algum lugar difícil de ser descoberto ou saia pela porta dos fundos agora! Chego aí em cinco minutos nem que eu tenha que roubar um helicóptero! – exclamou preocupado.

– Opa, opa! Acalme-se. – intervi revirando os olhos – Antes de vir todo afoito para cá, passe na farmácia e compre um remédio para mim. Estou morrendo de cólica.

– Você me fez ficar preocupado por causa de uma cólica?! – praticamente gritou em meu ouvido.

Eu estava com dor, não precisava de alguém me enchendo a paciência também. Aquilo era uma emergência, oras! Estava debilitada! Se alguém invadisse a minha casa eu não estaria em condições de aplicar os golpes de artes marciais. Não que eu soubesse algum, mas o desespero e a adrenalina podiam fazer maravilhas. Desliguei a ligação com Georg ainda possesso falando alto comigo. Pelo menos aquilo serviu de desculpa para fazê-lo voltar para casa. É como dizem: mantenha os amigos perto e os inimigos mais perto ainda. Como não sabia ao certo em qual categoria ele se encaixava, faria de tudo para tê-lo sempre sob meu olhar.

– Homens. – bufei – Quando sentirem cólicas aprenderão a não menosprezá-las.

~♥~

Georg estava nervoso comigo só porque tinha me expressado mal. Ok, provavelmente eu tinha exagerado um pouquinho, mas mesmo assim aquilo não era motivo para ele ficar com a cara emburrada toda hora que me via. Pelo menos ele tinha trago o remédio e eu já estava melhor meia hora após tomá-lo. Talvez ele não quisesse me matar e toda aquela neura era em vão.

Quando olhei para o relógio, percebi que já eram cinco e meia. Possuía apenas pouco mais de duas horas para ir ao hospital ficar com minha irmã. Tomei um banho, lavando o cabelo e passei quase trinta minutos tentando penteá-lo. Só Deus sabe a quantidade de trabalho que o meu tipo cacheado de cabelo causava. Vesti uma calça jeans desbotada e confortável, um moletom preto e uma sapatilha da mesma cor que a blusa, pois os ventos começavam a esfriar.

Enquanto Georg se arrumava, fui preparar um lanche para nós já que iríamos passar a noite inteira no hospital. Depois de tudo pronto, sentei-me no sofá e liguei a televisão para ver o telejornal. Era estranho saber que várias pessoas estavam morrendo e que quase ninguém sabia disso. Percebi naquele momento que eu sozinha não iria conseguir nada. Necessitava da ajuda dos outros jogadores.

– Você tem um meio de contactar o Ivan? – perguntei assim que vi Georg aparecer na sala e desliguei a televisão.

Pela primeira vez desde que ele havia chegado, seu cabelo não estava impecavelmente arrumado. Ele secava seus fios castanhos com uma toalha preta deixando-os bagunçados. Definitivamente ele ficava muito mais bonito sem aquele gel horrível.

– Sim. – afirmou confuso – O que quer com ele?

– Preciso de ajuda e acho que ele pode me auxiliar com tudo que está acontecendo. – respondi.

Georg discou um número no celular e me entregou o aparelho. Após vários ‘‘bips’’, pensei que ninguém atenderia. Mas quando estava quase desistindo, ouvi uma foz rouca e sonolenta do outro lado da linha.

Kto govorit? – falou Ivan.

– Oi, russo. – disse em português pela força do hábito e tive vontade de bater em minha testa ao ver Georg segurando a risada. Revirei os olhos e comecei a falar em inglês – Sou eu, Marcela, preciso da sua ajuda para desvendar os assassinatos e sei que você também precisa.

– Marcela? – perguntou com sotaque tentando se lembrar de quem eu era – Você tem algum problema, garota? Não sei se você faltou às aulas de geografia, mas existe uma coisa chamada fuso horário. São duas horas da madrugada aqui!

– Desculpe se interrompi seu sono de beleza, Bela Adormecida, mas o assunto aqui é sério. Você conseguiu algum avanço ou coisa do tipo?

Alguns segundos se passaram e não ouvia nada do outro lado da linha. Achei que Ivan tinha dormido novamente, mas ao escutar o farfalhar de papéis percebi que ele deveria estar procurando algo.

– Bem, aqui na Rússia sete pessoas já morreram desde o dia que cheguei sabendo de tudo. Busquei relações entre as vítimas e só encontrei que todos jogavam Urei. Mas tem algo que percebi sobre o nome dos jogadores. Busquei as mortes anteriores e parece que a inicial dos usernames deles formava a palavra otkryt’.

– Que raios significa isso? – perguntei confusa.

Para mim, eram apenas letras aleatórias colocadas juntas. Como quando eu e Gabriela, no oitavo ano, criamos um alfabeto próprio para passarmos bilhetinhos sem que ninguém soubesse o assunto e que se caso a professora pegasse, não pudesse lê-lo na frente da sala.

– Significa ‘‘descubram’’ em russo. Pode ser apenas impressão, mas fique atenta a isso. – explicou bocejando – Ah! Tome cuidado, DDGhul está quase te ultrapassando. Boa noite.

– Ei! Espe... – percebi que ele havia desligado na minha cara. Que cretino!

Bufei irritada e entreguei o celular de Georg, que mantinha um olhar questionador em minha direção. Apertei o lábio inferior nos dedos tentando racionalizar. Eu não podia ser ultrapassada no jogo por um pirralho. Necessitava jogar mais, quem sabe ao conseguir mais pontos consiga achar alguma pista? Além disso, seria muito bom esfregar na cara de Ivan que o passei no rank mundial. Metralhar seu ego seria algo realmente satisfatório. Infelizmente, só poderia começar a minha meta amanhã. Suspirei. Prioridades, Marcela.

O fato da Jeu Terminé matar seguindo um certo padrão para formar palavras era inesperado. Quer dizer, os caras não queriam ser pegos e davam dicas dos próximos crimes? Existiam milhares de usuários cujos nomes iniciavam com a mesma letra, mas mesmo assim! Se eu fosse sair metendo bala nas pessoas, tomaria cuidado para não deixar nada que indicasse meu próximo passo.

– E então, descobriu algo interessante? – perguntou com os olhos fixos em mim, estudando-me minimamente.

Ainda não tinha decidido se Georg era ou não confiável, portanto preferi guardar aquilo para mim. Vai que ele ache que eu estou chegando perto demais e adiante minha morte?

– Não. – menti – Ivan só ficou me xingando em russo. Sabia que são duas horas da madrugada lá?

Esbocei meu sorriso mais travesso, mas mesmo assim a desconfiança do Georg foi visível por alguns instantes. Minhas mãos começaram a suar frio ao ver seu olhar me analisar a procura de mentiras. Sua mão direita se deslocou para o bolso traseiro de sua calça social e acompanhei o movimento com os olhos. Ele vai tirar uma arma! Ai meu Deus! Não vou ter nem tempo de dizer adeus! Sinais vermelhos piscavam em minha mente e o pânico começou a me consumir. Disfarçadamente olhei pra meu quarto e ele, percebendo isso, aproximou-se de mim com um sorriso nos lábios impedindo minha rota de fuga.

Georg ia me matar em minha própria sala.

Senti a mão gélida da morte envolver meu coração que batia acelerado em meu peito. Minhas mãos estavam trêmulas e suadas, minhas pernas não obedeciam meus comandos de me pôr em pé e sair correndo. O pânico tinha me paralisado. Mas quando Georg deu mais um passo em minha direção, foi como se eu tivesse sido libertada das correntes invisíveis que me prendiam e levantei de uma vez só assustando-o.

– Eu sempre esqueço que essa calça não tem bolso traseiro. – comentou rindo e guardou o celular no bolso lateral – Vamos logo, temos que estar no hospital em quarenta minutos.

Ah. Ele estava só guardando o celular. Eu estava completamente neurótica e tive vontade de chorar de tanto medo que senti naquele momento. Ao invés disso, sorri o guardei o nosso lanche em minha bolsa.

– Vamos nessa. – falei fingindo entusiasmo – Só uma perguntinha básica: você tem os registros de todos que foram mortos no Brasil?

– A maioria está nos Estados Unidos, tenho só as dos últimos seis brasileiros mortos. – respondeu franzindo o cenho – Quer elas?

– Sim, por favor. – afirmei tentando fingir que não era nada demais.

Ele pegou sua pasta preta que estava na estante da sala e digitou uma senha para abri-la. Observei-o retirar exatamente seis pastas cor creme e logo trancar a maleta novamente. Georg ficou analisando-as por alguns instantes e logo me entregou. Arrumei-as para caber dentro de minha mochila de pano gasta que outrora fora branca, ao lado da vasilha com nossos lanches, alguns lápis borracha e um bloco de anotações. Pus o celular no bolso da calça e sorri como se tudo estivesse cem por cento bem. O que estava longe de ser verdade.

– Vamos então, já deve estar quase no horário. – falei dirigindo-me à porta.

Georg me seguiu, tranquei o portão quando saímos e caminhamos em direção ao ponto de ônibus. Nem em um milhão de anos eu iria ficar em um taxi com Georg. Se ele resolvesse me matar, o pobre taxista não poderia fazer nada para me ajudar, mas em um ônibus havia muitas pessoas. Se ninguém impedisse, pelo menos alguém ligaria mais rápido pra ambulância. Anos de jogos de raciocínio serviram para alguma coisa além de me irritar, esvair minha paciência e me fazer gritar de frustração quando não conseguia vencer.

Em menos de dez minutos o ônibus que queríamos chegou e percebi, com alívio, que ele estava lotado e só tinha três assentos livres separados uns dos outros. Sentei-me em um mais perto da saída próximo a janela ao lado de um homem cochilando enquanto Georg ficou na cadeira do meio na última fileira. Observei o sol se pôr e o céu adquirir uma linda tonalidade alaranjada. Eu amava aquele horário, pois ele dava início à noite que eu sempre admirei. Quando era pequena, deitava-me no jardim da casa de meus pais e ficava horas olhando as estrelas e a escuridão sentindo aquela fria brisa suave atingir meu corpo. Eu possuía hábitos mais noturnos que diurnos, meus projetos sempre evoluíam mais quando trabalhava de madrugada.

Era difícil de acreditar que há algumas semanas minha maior preocupação era não mandar meu chefe ir para o inferno, terminar todos os projetos e jogar muito para ser a melhor jogadora de Urei. O pior era que não podia ou não queria confiar em ninguém, pois caso demostrasse afeição para muitas pessoas com que convivia normalmente, a Jeu Terminé podia matá-las e eu não poderia viver com isso. Já bastava ser o motivo para minha própria irmã ter sido baleada. Além disso, não estava muito confiante de que Georg estava do meu lado. Teria que agir normalmente para que ele não desconfiasse de nada. Mas falar era mais fácil que fazer, afinal moraríamos juntos.

Dei o sinal e descemos. Fomos para a recepção do hospital e graças a tudo quanto é sagrado a mulher lesma não estava trabalhando. Retirei da carteira meu crachá e o coloquei percebendo que Georg fazia o mesmo. A moça-não-lesma atrás do balcão franziu o cenho para nós. Sabia que um paciente só poderia ter um acompanhante à noite, mas Georg tinha um distintivo que servia como um passe livre. Quando tudo acabasse, queria ganhar um também para furar a fila do cinema ou até mesmo a do McDonald’s. Já conseguia até me imaginar dizendo: ‘‘Este é um assunto policial. Me dê um Big Mac, batatas fritas e um refrigerante grande com gelo. Desculpe furar fila, mas é urgente.’’ Ah! Eu poderia me acostumar com isso.

Quando chegamos ao quarto de Giovana, ela estava mexendo com seu celular e rindo de alguma coisa boba que lia na tela. O mais estranho é que não havia ninguém com ela. Assim que me viu, seu sorriso diminuiu um pouco e ela bufou irritada.

– Sabe o quão chato é esse lugar? Não, você não sabe. Em Urei meu personagem demora só dois minutos para se recuperar de um tiro muito pior que este e eu aqui há quase um dia mofando entediada sem poder comer nada gostoso porque as enfermeiras não deixam. – tagarelou furiosa.

Ela estava com aparência melhor do que quando havíamos a visitado pela manhã. Seu cabelo estava espalhado e um pouco embaraçado, mas seu rosto havia perdido a palidez e sua expressão estava tranquila, mesmo desperta.

– Que dia a pirralha reclamona vai receber alta? Aliás, cadê nossos pais?– perguntei jogando meu cabelo ainda úmido em seu rosto pra irritá-la um pouco mais.

– Amanhã de manha eu acho. – respondeu afastando o cabelo – Se pelo menos meu médico fosse bonito eu poderia até gostar de ficar mais um pouco, mas ele é um velho careca. Papai teve que atender um cliente e minha mãe foi embora um pouco antes de vocês chegarem para descansar.

– É, pirralha, você não dá sorte mesmo. – falei rindo.

– Porque seu amigo está aqui? – perguntou franzindo o cenho, mas logo um sorriso malicioso se abriu em seus lábios – Ah! Saquei. Ele é seu namorado né Marcela? Não precisa ficar com vergonha de apresentá-lo para nossos pais, você sabe que papai é super tranquilo sobre isso.

– Ele não é meu namorado. – retruquei revirando os olhos. Por que todo mundo achava isso? Que coisa! – Georg, pode nos dar licença? Papo de mulher, coisa e tal. Vai analisar o hospital.

Olhei de modo significativo para ele que parecer compreender o que eu quis dizer: Veja se tem alguém aqui querendo me matar. Assim que ele saiu do quarto, sentei-me na cadeira que ficava ao lado direito da cama de Giovana e retirei as pastas, os lápis e o bloquinho de papel da bolsa rapidamente. Analisei a primeira ficha e anotei tanto o nome da vítima, Gabriel, quanto seu nickname – Gmtw .

– O que você está fazendo? – perguntou Giovana assustando-me.

– Estudando. – respondi enquanto anotava o segundo nome na folha.

– Se você está só estudando – ironizou – por que mandou seu namorado ir dar uma volta? E ainda deu a desculpa de ‘‘papo de mulher’’.

– Nós estamos conversando sobre um cara, isto é ‘’papo de mulher’’. – retruquei no mesmo tom de voz jocoso que ela fez na última parte – Além disso, ele não gosta de ficar preso em quartos de hospitais e pela última vez eu vou dizer: ele não é meu namorado, Giovana.

– Tudo bem então senhorita Eu-vou-falar-seu-nome-todo-para-parecer-séria. – resmungou ajeitando-se na cama e pegando seu celular novamente.

Cristo! Que menina mais irritante! Será que em meus tempos de adolescência eu também era assim? Esperei alguns segundos e quando vi que ela não iria mais me interromper, fiquei analisando as pastas, obviamente sem ver as imagens horrendas dos cadáveres. Eu não conseguia ver pessoas mortas na vida real sem ficar indisposta, foi por esse motivo que tirei a ideia de eu ser médica da cabeça de minha mãe assim que ela tocou no assunto faculdade.

Terminei rapidamente todos os arquivos e franzi o cenho. Ivan disse que a relação era com o nome das vítimas ou com os usernames delas no jogo? Batuquei o lápis impacientemente até conseguir me lembrar. Arrumei as iniciais dos nick’s dos jogadores para tentar formar alguma combinação possível. Porém, a única que deu certo fez meu sangue gelar e um súbito pânico me atingir. Estava ali a prova que tentei descartar, mas que estava me deixando louca. Encarei as letras para ter certeza de que meu cérebro não estava brincando comigo. Porém, estava correto. Escrito à lápis estava o nome do homem que deveria me proteger, mas que possivelmente me mataria na primeira boa oportunidade após ganhar minha confiança.

Gmtw

Edno1763

Osteicx

RobrtA

Gabi2314

Notas finais
Vish, agora ferrou. O barraco caiu, o circo pegou fogo, a cobra fumou e a jirimboca vai piar! USHAUHAS Estou com tantos planos para essa história ( a maioria vocês não vão gostar muito :v) As ideias estão fluindo tão bem e entrelaçando-se umas as outras que estou até surpresa *-* Pergunta do capítulo: Qual seu maior sonho? Momento explicações: Como alguns sabem, essas semanas eu estava cansa de escrever, a preguiça montou e um desejo de largar o mundo das fics me invadiu. Queria até apagar minha conta do site. Percebi que escrever tinha se tornado uma obrigação, não algo que fazia para relaxar. Eu estava morrendo de medo de decepcionar meus leitores com minhas histórias, pois vocês são tão bons comigo: me incentivam, me elogiam e até me dão puxões de orelha de vez em quando. Conversei com várias pessoas que leem as minhas histórias no facebook e percebi que eu ainda gosto de escrever. Ficar sem fazer isso me deixou irritadiça e muito nervosa. Criar histórias é como uma válvula de escape em meio a tanta pressão e problemas familiares que estou tendo e eu não poderia me privar disso. Li todos os comentários que recebi até hoje nessa fic e eles me animaram tanto que vocês nem tem ideia do quanto. Obrigada por me fazerem voltar a escrever, prometo tentar não decepcioná-los! ♥