A Irmã Perdida
1 Sou atacada em uma escola para freiras
Notas iniciais
Era meu primeiro dia de aula na nova escola. Eu, inocente, achava que iria dar tudo certo, ia ser um dia normal. Mas, no fundo, já sabia que nada dava certo comigo.
Já era a quinta vez que trocava de colégio. Não, eu não causava problemas. Quem causava era o meu pai e minha mãe, que eram donos de uma famosa loja e viviam para lá e para cá, sempre se mudando. Já se mudaram umas oito vezes, só que as três primeiras vezes era só temporariamente, e eu era pequena, não tinha que começar escolar e fazer novos amigos. Mas agora, essa é a realidade.
Além de ter pais que não ficam nem um estante parados no lugar, tinha mais dois irmãos. Gêmeos. Quer dizer, eles não eram MEUS gêmeos, mas entre si eram. Jake e Ian, dois demoniozinhos. E foi por causa deles que acordei.
– IAN! IAAAAAAAAAAAN! TÁ LOUCO MENINO? PARE DE QUEBRAR AS COISAS! – Gritou Lilian, minha empregada/babá dos demoniozinhos.
– PERAÊ! Eu não sou o Ian!
–Eu sou o Ian! – Gritou outra voz.
– Estamos realmente magoados com a senhora, que cuidou de nós a vida inteirinha e ainda mistura os nossos NOMES!
– Que chatinhos vocês dois estão! Vão logo se arrumar ai eu esqueço do que vocês fizeram. – Resmungou Lilian.
Bom, vamos dizer que eu as vezes esqueço quem são quem quando me deparo com meus irmãos, mas tinha certeza absoluta que eles tinham trocados os nomes. Eles são fãs de confusão.
Um minuto depois Lilian estava na minha porta.
–ACORDA! VAMO, VAMO, SEM CHORORÔ! SEU PRIMEIRO DIA DE AULA!
– Agora sei porque eles quebram coisas. – Disse baixo.
Eu suponho que ela tenha ouvido, pois um segundo depois saiu do quarto de cara amarrada e bateu a porta.
Me arrastei da cama e fui até o meu closet. Lilian tinha deixado separado o uniforme, mas nunca o tinha visto até hoje. Ok, já da para ver que era de freira (ou militar). Conforme a lista de regras, o cabelo deveria ficar preso, sem maquiagem, sem cores nas unhas, muito menos pulseiras, brincos e mochilas coloridas. Eu já não era fã disso, mas tudo bem.
O uniforme era tão desconfortável quanto já aparentava. Nos dias de educação física, as meninas deveriam vir com CALÇAS (isso mesmo) de moletom larguíssimas que fazia até eu sentir como se fosse um menino, camisas também largas que não deixavam nem mostrar o pescoço, e tênis pretos. Já nos dias normais (como hoje) era obrigado a vir com a roupa tradicional de feira, NUNCA com as pernas de fora, sempre com a meia calça BRANCA, e NUNCA de outra cor.
Já estava acabando com as esperanças de ter um dia agradável. Quando estava pronta, sai do meu quarto e desci as escadas. Não iria tomar café, estava sem fome. Fui direto ao carro onde Charles (nosso motorista) estava nos esperando. Tínhamos muitos servos pois, como podem perceber, meus pais quase nunca estavam presentes. Isso é o ruim de ser rica.
Finalmente, os demoniozinhos entraram no carro e partimos para a escola. Eles não calavam a boca, e Charles e eu observávamos e riamos.
– E como vai a Rose? – Perguntou um.
– Ah, não venha com ela na minha cabeça! Odeio aquela nojentinha, metida a...
– Quem é Rose? – Perguntei.
– É uma ex dele...
– Te interessa, Cefira? – Disse Ian, com a cara toda vermelha. E sim, meu nome é Cefira.
– Mas você só tem 10 anos na cara, garoto! Como pode namorar...
–Só porque seu primeiro namoro foi com 12 anos, não quer dizer que não possamos namorar também! E além do mais, você já tem 15 anos e não precisa mais cuidar de nossas VIDAS!- Resmungou o outro.
Fiquei calada, com uma cara de “Você quer me encarar, pirralhinho?”. E ele me encarou como se estivesse dizendo “Pode vir, vovó”. E eu voei para cima dele. Jake, que estava no meio de nós, nos separou. Ficamos calados até chegarmos à escola.
E ai que eu notei a realidade. Aquilo não era uma escola. Era uma prisão. Além de o local ser ENORME, preto, branco e uns tons de marrom vindo dos tijolos que não tinham cores para se cobrir, as janelas eram fechadas com grades de aço. Os portões da frente eram mais altos que a própria escola e em suas laterais havia torres onde ficavam os guardas de plantão. Eu simplesmente iria morrer lá.
– Tem certeza que é seguro? – Perguntou Charles. Ele era super comediante, eu sei.
– Acho que as grades deveriam cobrir toda a janela, ai teria bastante segurança. – Disse, meio chorando e rindo por dentro.
Depois de uma longa conversa/gritaria com os guardas para abrir os portões, entramos. Já estava pensando em voltar para o carro, mas já tinham fechado o portão. Estávamos trancados.
Entrei na sala, e antes mesmo de bater, todos os alunos estavam já sentados nas cadeiras e não moviam um músculo. Estranho. Fiquei o mais longe possível deles, sendo que era meio impossível, pois a mais próxima cadeira estava no meu lado e na minha frente. Um minuto depois, o sinal bateu. E junto veio um senhor de mais ou menos 50 anos, carregando uma maleta junto à ele.
– Bom dia.
–Bom dia , Senhor. – Resmungaram todos.
Depois disso, só o professor falou. Leu a chamada e continuou sua aula. Até um momento, que estava olhando para a porta de vidro, imaginando quando acabaria a aula, e vi vultos, sombras, como se fossem fantasmas. E depois, transformaram-se em um menino. Que olhou diretamente para mim com seus olhos negros e me chamou pela mão. Ele era incrivelmente bonito. Mas que diabos..?
– Senhor? – Disse, levantando a mão.
– Sim?
– Eu estou um pouco apertada... – Risinhos- Posso ir ao banheiro?
Ele afirmou com a cabeça, e quando eu sai da sala, estava praticamente correndo. “Onde está você? Onde está?” estava murmurando para mim mesma.
–Se está falando de mim, estou bem aqui.
Me virei rapidamente. O menino tinha surgido do nada! Minhas bochechas rosaram.
– Não devia seguir pessoas... – Resmunguei.
– E você tem consciência do que estava fazendo um momento atrás? – Respondeu, com um sorriso torto no rosto. Fiquei mais vermelha.
– Ta bom, ok,ok. Estava sim a procura de você. E...
–Temos que ir embora.- Interrompeu ele. Segurando a minha mão e me guiando.
– Você está louco? Eu nem sei quem você é! E o professor...
– Ele é um monstro. – Disse ele.- E não estou brincando. Esse colégio foi feito para os monstros terem comida no jantar, e você está no cardápio dessa noite.
– Ei, ei. Calma ai, você acredita nisso mesmo? – Parei e cruzei os braços, o encarando.
– Olhe, por favor, vamos rápido, quando chegarmos ao acampamento...
– QUE RAIOS DE ACAMPAMENTO É ESSE? JÁ TEVE A BRILHANTE IDEIA DE ME RAPITAR DA ESCOLA, E AGORA ME LEVAR PARA UM ACAMPAMENTO? EU TENHO DOIS IRMÃOS SABIA? NÃO POSSO DEIXÁ-LOS. – Explodi, quem esse menino pensa que é?
– É uma ilusão. – A voz dele foi abafada por estrondos vindos das salas. Meninas e meninos gritando por socorro, e o olhar de “Eu te avisei” do menino.
– Vamos, quantos mais rápido encontrarmos uma sombra que caiba nós dois, mais rápido saímos.
Não tive nem um tempo para contrariar, pois das escadas, uma mulher estava descendo, e não parecia feliz.
– Humm, então meu bem, você aqui de novo? Pare de roubar nosso banquete, estamos ficando com fome. – Ela disse, se transformando em um animal monstruoso. Da mulher estava crescendo penas vermelhas, no seus pés, garras que poderiam cortas um homem apareceram no lugar das unhas. Ela se transformou em uma Ave de Rapina com sardas. Depois notei que ela cresceu também, e agora tinha, no mínimo, dois metros de altura.
– Corre. – Disse o menino.
– AH é que eu vou correr e você vai ficar aqui de plantão, sendo comido por ela! – Apontei para a ave monstruosa. – Você não manda em mim...
– Ei, eu quero jantar, ok? – Resmungou a mulher.
– Cale a boca. – Respondi. E virei para o menino, que estava de boca aberta. – Só irei embora depois de pegar os meus irmãos e se VOCÊ vier junto, se não, eu fico aqui de plantão para o resto da eternidade!
Depois disso, fiquei emburrada e cruzei os braços.
O garoto estava estupefato. O monstro também, e logo depois, mais monstros chegaram, ficando mais estupefatos. Nico desviou um pouco olhar para o canto da sala, e seus olhos brilharam.
– Ok, ok. Pegamos seus irmãos, mas temos que chegar até aquela sombra ali. Se não, vamos ser comidos e ficar de plantão nas barrigas deles. – Ele sussurrou para mim. – No três, corremos para lá, ok?
Eu assenti com a cabeça. Ele segurou minha mão.
– Podem nos comer a vontade depois! Só deixe nós termos uma conversinha sobre quando nós pararmos no Hades! – Ele disse, e se virou para mim. – Um, dois... TRÊS.
Saímos correndo para a sombra. Os monstros aos nossos pés. Estávamos quase chegando lá. “Por favor, por favor” falava baixo. No momento que nós pisamos na sombra, fomos puxados para a escuridão e os monstros ficaram para trás.
Acordamos no meio de algumas montanhas. E abaixo estava um tipo de acampamento, com alguns chalés, que pela minha opinião, eram tipo, MUITO ESTRANHOS. Estavam organizados em forma de um U com uma fogueira no meio. Havia também campo de tiro com arco, uma arena de luta de espadas, uma parede de escalada com lava, um anfiteatro, estábulos, um arsenal, e uma casa de uns 3 andares, como uma casa de praia. Além dos campos de morangos em volta. Os adolescentes que lá estavam usavam camisas laranjas com algo escrito, mas não conseguia enxergar.
Então notei, onde estão meus irmãos? Já ia começar a gritar loucamente com o menino, mas então senti algo na minha panturrilha esquerda. Quando fui olhar, cai junto. Era como se uma faca tivesse sido fincada em minha perna e arrastada até o pé. O sangue já formava uma poça aos meus pés, e então o chamei.
– Ei, não precisa mais me chamar de menino, meu nome é Nico e... – Disse ele respondendo meu chamado, e então se virou. – O QUE É ISSO EM SUA PERNA? Ah não, não, não. Harpias malditas, por isso lavam louça aqui no acampamento! Tenho, tenho que te levar até Quíron.
Ele me pegou no colo e saiu correndo até o acampamento. Estava perdendo meus sentidos, desmaiando. Senti cheiro de comida e algumas luzes em volta de nós. Ouvi uma voz.
– NICO! Quem , quem que é?
– É ela. – Respondeu. E então desmaiei.
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