— Eles vão ficar tão felizes! – Nessie exclamou, eu quase conseguia ver sua aura brilhar de felicidade.

— Eu espero. – suspirei.

— Lá vem você com o seu pessimismo. – ela revirou os olhos.

— É só uma realidade da que eu possa encarar logo.

— Cala a boca. – reclamou, ficando brava comigo. – Eles vão ficar tão felizes como eu fiquei quando souberem da verdade.

Eu balancei a cabeça, concordando fisicamente. Mas a verdade é que eu não estava certa sobre isso. Eu gostaria de conseguir prever a reação deles, pois eu estava com medo.

Entramos no avião, e fomos para os nossos respectivos lugares.

— Precisa de um calmante? – Jacob perguntou, sarcástico.

— Acho que preciso. – suspirei, me encostando no assento.

— Acho que Ness tem um na bolsa... – ele falou, olhando na bolsa dela. O olhei, não acreditando que realmente estava com isso em mente.

— Sério? – perguntei, sem humor.

— Mas você não disse...?

Ele parou quando minha irmã lhe deu uma cotovelada.

Respirei fundo arrumando Harry na cadeira ao meu lado adaptado para bebês. Vantagens de ser rica.

Respirei fundo. Acho que eu precisava de um descanso antes de descer do avião. Deitei-me no ombro do Seth, e ele passou o braço ao meu redor carinhosamente, e eu me senti tão confortada que o sono veio rápido.

Eu estava na clareira dos meus pais, o chão sob o meu pé estava estranho. Era mato, mas a textura era como nuvem. Minha família não aceitava o fato de eu ser a Carlie. Todos me rejeitavam.

— Você é uma farsa! – eles acusaram, se recusando a me deixar me aproximar deles.

Eu chorava, com o coração apertado. Eu mal podia respirar direito. Os meus passos foram interrompidos quando choquei com uma barreira eletrizante, e fui arremessada para trás. Eu reconheci de imediato o escudo da minha mãe. Ela jamais usou em mim ou na minha irmã, mas eu tinha certeza que era ela.

— Por favor. – implorei entre lágrimas. – Acreditem em mim! Eu sou a Carlie!

— Mentira! – eles rosnaram.

E então Seth apareceu do outro lado do escudo.

— Seth. – arfei, feliz por ele estar ali. – Seth, me ajuda, por favor...!

— Vá embora! – ele disse, furioso. – Você não é a Carlie. Vá!

— Seth, sou eu! Lembra que estou disfarçada? – chorei, mas ele nem ligava para o que eu dizia.

— Vá embora!

— Não! Não! – comecei a ficar desesperada quando ele foi desaparecendo aos poucos, como o resto da minha família. – Por favor, não me deixe!

— Carl, acorde. – as vozes se transformaram em apenas uma. – Está tendo um pesadelo.

— Seth, não me deixe. – repeti, tentando me livrar desta ilusão que me deixaria louca se continuasse nela.

— Eu estou aqui. Eu nunca vou te deixar. – prometeu a voz. – Acorde, Carl.

Abri os olhos, assustada. Meu coração estava frenético, as batidas descompassadas e fortes que chegavam a doer.

— Carl, teve um pesadelo. – Seth falou delicadamente, limpando as gotas de suor em minha testa.

Assenti, mesmo não sendo uma pergunta. As pequenas quantidades de lágrimas no canto de meus olhos se espalharam quando apertei minhas pálpebras uma na outra.

Bocejei e fiquei ereta na cadeira. Nessie ainda ao lado de Jake.

Toquei seu braço, em vez do seu rosto, para ninguém me achar uma louca e lhe mostrei. Eu não precisava tocá-lo para lhe mostrar nada, mas era um costume desde pequena.

Ficou tão preocupada que meio que viveu a sua própria preocupação? Ele perguntou delicado, mas seus pensamentos tinham uma névoa de preocupação e agonia. Me puxou para me ninar em seus braços. Sabe que nunca faríamos isso com você, né?

Assenti, fungando. Eu conhecia minha família melhor do que isso. Sabia que eles não fariam tal coisa.

— Estou correndo sério risco de levar um soco na cara, mas – Jacob começou – a gente te avisou que não era para se preocupar.

— Calado. – falamos ao mesmo tempo.

— Nossa. – ele resmungou. – Não levam nada na brincadeira. – e continuou a acariciar o cabelo da Ness.

— Logo o avião vai pousar. – Seth falou, e isso me tranquilizou. Pelo menos, passei a maioria do tempo dormindo, em vez de acordada e ansiosa. Se bem que o sonho não foi lá essas maravilhas. Bom, serviu para o tempo passar mais rápido.

Vinte minutos depois, o avião anunciou pouso. Acho que nunca fiquei tão apavorada desse jeito por causa da minha família. Esse era um novo sentimento que eu vivia por causa deles.

Eu estava sim, nervosa. Por outro lado, também animada. Aliviada por contar a verdade e voltar a viver com as pessoas que amo. Feliz por passar o Natal com eles.

Olhei para Seth. Ele me dirigiu um sorriso de confiança, e funcionou.

— Está a uma hora da sua felicidade, Carl. Devia estar feliz. – Ness aconselhou enquanto saiamos do avião, com nossos filhos no colo. Seth carregando Jessy em sua casinha móvel.

— Não é que eu não esteja feliz. – me expliquei. – Estou apenas nervosa. Isso não vai ser qualquer coisa, né?

— Sem dúvidas. – concordou.

Seth e Jacob cuidaram das malas, mas nós duas tivemos que fazer uma paradinha no banheiro para trocar as fraldas dos bebês. Aproveitei também para fazer o cantinho improvisado da Jessy para ela se aliviar.

— Falta pouco. – Jacob deixou escapar, me deixando mais nervosa. Desde que Nessie acordou, proibiu ele e o Seth de falarem algo mais sobre isso para que não me deixasse mais fora de controle.

— Jacob Black, o que eu disse sobre isso? – ela o repreendeu.

— Desculpe. – ele falou assim que se deu conta das suas palavras anteriores.

— Está tudo bem. – falei, sem me importar muito. Já estava me acostumando com a ideia de não precisar mais me esconder. O nervosismo que vinha quando eu pensava na minha família não era mais tão assustador. Agora era mais de felicidade, e não pessimismo.

Respirei fundo, tentando ficar mais tranquila. A gente tinha alugado uma mini van.

— Mamãe me contou que está tudo pronto para amanhã. – Nessie me falou. Faltava uns quinze minutos para chegar a nossa... Hmmm... Antiga casa, em Boston. Bem, tecnicamente, é, pois a gente já tem a nossa própria casa.

— O que tem de especial para amanhã? – perguntei, confusa. Não era o aniversário de ninguém.

— Amanhã é a véspera de Natal, bobinha. – ela falou sorrindo.

— Ah, havia me esquecido. – admiti.

Esses últimos meses me fizeram ignorar o calendário. Eu não queria contar os dias para rever minha família, só queria que chegasse e pronto. No meu aniversário recebi apenas dois parabéns. E não foi pessoalmente. Mamãe e Jake não puderam ir me ver porque levantaria suspeita, já que também era o aniversário da Nessie. Jake me contou que todos tiraram um tempo no dia e foram até o meu túmulo simbólico que eles fizeram no quintal e deixaram flores. Achei um pouco mórbido, entretanto fiquei contente que não esqueceram de mim. Ele disse que mais parecia como um segundo funeral. Afinal, fazia tão pouco tempo. Ness e Mendy foram as que mais choraram, segundo mamãe. Nick ficou muito abalada também. Seth não apareceu para me desejar... bem, ao meu túmulo um feliz aniversário. Isso me chateou, mas o entendi.

Olhei para a neve, me surpreendendo que as ruas não estavam fechadas. Talvez tivéssemos algumas horas de sorte. A neve estava engrossando e em pouco tempo seria impossível sair.

— Sério? – perguntou, achando que era uma brincadeira.

— Quando eu falei que amanhã é Natal, ela olhou no calendário, achando que eu tinha mentido. – Seth contou a ela.

— Caramba...! – Jacob exclamou impressionado, do banco da frente. – Você estava mesmo... – ele parou, procurando por uma palavra certa. – Desligada da vida.

Dei de ombros, não me importando com isso. Concentrei-me em meu filho dormindo tranquilamente em seu bebê conforto. Meu anjinho. Me perguntei se Seth ficou muito tempo sem cuidar dele. Nessie me disse que ele ficou um bom tempo sem aparecer, e que Jake se transformava todos os dias para ver se ele não tinha se matado. Ele estava bem, na medida do possível. E quando voltou, se embebedou. Minha irmã me mostrou a imagem dele jogado no sofá, com uma garrafa de bebida alcóolica nas mãos, sua aparência de um alcoólico acabado. Foi horrível ver que ele não estava nem aí para a vida apenas por minha causa. Quando eu briguei com ele por causa disso, ele me perguntou “E não é o bastante? O amor da minha vida morreu, e eu não via mais razão para permanecer nesse mundo”. E ainda disse “Eu me sentia como mais um inútil entre sete bilhões”. Eu o abracei, chorando, e me desculpei por ter lhe causado aquela dor. E que se eu soubesse que isso aconteceria, nunca teria lhe escondido nada. Bem, ele nunca se conformou de eu não ter contado, então me abraçou e disse “Isso é passado. O importante é que você está viva e comigo”.

“Flash Back On”

—Carlie? – Seth chamou minha atenção. A gente estava assistindo TV.

—Sim?

—Me desculpe.

—Por...?

—Por quebrar a minha promessa. – ele disse.

Pisquei, perdida. Não fazia ideia do que estava se desculpando.

—Que promessa? – perguntei, me virando para olhar seu rosto.

—Se lembra quando reatamos, em Nova York?

—Claro. – respondi, um sorriso brotando em meu rosto. – Como poderia não me lembrar?

Seth sorriu, mas não chegava aos seus lindos olhos.

—Então, eu te prometi que nada, nunca mais iria nos separar. – sim, disso eu me lembro também. E agora sabia exatamente do que ele estava se desculpando. – E quebrei essa promessa.

—Seth, quem diria que aquilo aconteceria comigo? – perguntei, não querendo que ele carregasse essa culpa totalmente desnecessária. De repente uma raiva brotou em mim. – Não acredito que esteve se culpando sobre isso! – quase gritei, furiosa com ele, me levantando bruscamente.

—Carlie, esqueça isso. – ele falou, parecendo arrependido de começar o assunto.

—Seth, isso é tão masoquista!

—Carl, vem cá. – ele puxou minha mão em sua direção, e meu corpo caiu em seu colo. – Isso é porque eu te amo, OK? Não fique assim comigo.

—Então não fique assim você. Poxa, quando fazemos essas promessas, são por coisas que estão no nosso alcance. O que aconteceu não estava no alcance de nenhum de nós dois. – falei com biquinho manhoso.

—Eu sei. – ele sussurrou e me deu um selinho, o desmanchando. – Mas eu só quis desabafar. Tudo bem. Não vou falar mais sobre isso.

—E nem se culpar mais. – avisei.

Ele assentiu. Seu olhar de súbito estava arrebatador. Ele segurou minha nuca e me puxou para um beijo de língua. Me deitou no sofá e eu agradeci que Harry estava dormindo em seu quarto.

“Flash Back Off”

— Carlie. – Nessie me tirou do transe. – Chegamos. – ela falou saindo de dentro do carro.

Ainda de dentro, olhei para a minha casa. Bem, a casa dos meus pais. Os dois estavam do lado de fora, surpresos e felizes com a vinda da Nessie. Meu pai. Meu coração descompassou ao olhar seu rosto jovial. Ahh, meu querido paizinho. Que saudades dele. Com o seu sorriso alegre e perfeito no rosto por ver a filha e os netos.

Limpei a lágrima, saindo do carro.

— Hã, Edward. – Seth começou e colocou o braço ao redor de minha cintura quando cheguei ao seu lado e meu pai não parava de me olhar com um ar interrogativo. Semelhante ao dia que descobriu que não podia mais ler minha mente como qualquer outra. – Essa é a Angel, minha namorada.

Fiquei decepcionada por ainda ser retratada como sua namorada.

— Ela é uma híbrida também. A gente se esbarrou na floresta.

Meu pai assentiu.

— Prazer. – ele estendeu a mão.

— Prazer. – repeti, a apertando.

Mamãe tentava esconder um sorriso em seu rosto ao me ver.

— Bom — mamãe falou, batendo palma uma vez. –, vamos entrar?

A gente entrou e o espanto tomou conta de mim. A decoração estava incrível! Ok, tia Alice se superou esse ano. Parecia mais uma decoração grandiosa de shopping do que de uma mansão.

— Gostou? – papai me perguntou, vendo minha cara de chocada.

— Simplesmente... adorei! – exclamei.

Depois de alguns segundos, fiquei incomodada ao percebeu que ele me olhava. Parecia concentrado em mim, como se tentasse ler minha mente... ah, claro! O meu dom não o deixa ler minha mente desde os meus seis anos oficiais.

— Tem quatro quartos vazios nessa casa. – minha mãe falou, vendo que eu fiquei sem jeito diante do olhar do meu próprio pai. – Fiquem à vontade para decidirem onde vão dormir.

— Obrigado. – mamãe.

Um sorriso tremeu no canto de sua boca antes de ela se virar para a cozinha.

— Vou falar para os outros que vocês chegaram. – meu pai falou e se dirigiu a porta.

— Papai, temos telefone e celular. – Ness o lembrou.

O observei, uma sensação ruim crescendo em meu peito.

— Sei disso, bobinha. Só quero conversar com eles. Vejo vocês depois.

— Tchau. – respondemos ao mesmo tempo, mas ele já tinha ido.

— O que houve com ele, mamãe? – perguntei num sussurro, curiosa.

— Provavelmente está estranhando o fato de que não consegue ler a sua mente. – ela chutou.

— Faz sentido. – suspirei, compreendendo.

— E também estranho o fato de você chama-la de “mamãe”.

Congelei quando ouvi a voz do meu pai dentro da casa de novo. Caramba, desde quando ele fica as espreitas ouvindo a conversa dos outros? Será que não ler minha mente despertou um interesse que o levou a ouvir a conversa escondido?

— Hã... Eu perdi a minha mãe no parto. – menti, ainda nervosa. – E quando falei uma vez com a Bella no celular, eu contei a ela a minha história e ela me disse que eu poderia chamá-la de mãe, se eu quisesse. Disse que se estou com Seth, sou da família tanto quanto ele.

Eu poderia apenas ter dito que sou eu. Mas eu preferiria o nervosismo de contar para todos de uma vez só.

— Edward, sério? Ouvindo atrás das portas agora? – mamãe o repreendeu.

— Mas... – ele tentou se desculpar, mas minha mãe não deixou.

— Vá de uma vez fazer o que você ia fazer. – ela ordenou.

— Tudo bem. – ele resmungou de cara fechada e saiu.

— Não quero mais saber de você ouvindo as espreitas. Se quiser saber de algo, venha e pergunte.

— Desculpe. – falou sincero, pediu desculpas diretamente para mim também e se foi.

Não precisava falar assim com ele. Choraminguei para mamãe, só querendo correr até o meu pai e o abraçar.

Edward está desconfiado, meu bem. Ou você tinha que ter contado, ou ele não ia sossegar.

Vi que ela tinha razão, mas não gostei de vê-lo acanhado.

Os quatro me olharam tipo “Por que não contou a ele?.

— Quero contar de uma vez. – expliquei. – Eu quero tudo de uma vez, ou então vou passar o Natal com o rosto inchado de tanto chorar. Aliás, em que hotel os quileutes estão hospedados?

* * *

Mais tarde minha família de lobos e seus imprinting e filhos chegaram. Acharam melhor que passassem a noite aqui para não terem problema com a estrada. Estava denso e perigoso, talvez nem pudessem chegar.

— Não se preocupe. – Seth sussurrou, de modo que ninguém ouvisse. Bom, a não ser que alguém estivesse prestando atenção em nós. – Vai dar tudo certo.

Assenti e aceitei quando ele ofereceu um abraço.

Os quileutes estavam confortáveis, porém confusos. Os Cullen gastando tanto dinheiro para chamar todos para Boston ao invés de se reunirem em La Push. Ness me disse que tia Alice não quis abrir mão de sua decoração de Natal, então insistiu que o Natal fosse passado aqui. E desde que Renesmee persuadiu nossa família que queria absolutamente todos reunidos esse ano, conseguiram dar um jeito.

— Puxa, como aqui é enorme. – Disse Jared boquiaberto.

— Eu falei que ia gostar. – Kim disse, sorrindo. Ela viu nossa casa por fotos.

— Vou mostrar os quartos para vocês. – Nessie se ofereceu. – Fazer o papel da vovó Esme. – ela riu consigo mesma. – Você vem, C-Angel?

— Claro. – respondi e fui com ela para o segundo andar com os outros.

— Nesse andar tem dois quartos disponíveis, vocês ficam com eles, meninos. – Nessie apontou para o corredor, onde tinha os antigos quartos do Seth e do Jake. – Mostra para eles, Ang?

Sorri, pelo fato de ela também usar meu apelido do nome falso. Assenti e caminhei, nervosa com meus amigos no meu encalço. Era estranho eles não estarem me tratando informalmente.

— Este é o quarto do Seth e aquele é o do Jake. Pelo o que Ness me disse. – acrescentei, notando como ficou esquisito eu dar essa informação. – A casa não é minha, mas fiquem à vontade. Bem, eu vou lá com as meninas.

— Obrigado, Angel. – Sam me respondeu com sua voz grave, e isso me proporcionou um pouco de conforto. – Vamos nos acomodar.

Dei um sorriso fraco, me segurando para não contar a verdade. Me dirigi para o quarto de onde vinha um burburinho.

—... Tia Alice se recusou a abrir mão da decoração de Natal, então tive a ideia de trazer vocês. Desde que minha família não se importou, fiquei feliz que todos concordaram em vir.

Meus passos congelaram ao que eu cheguei na porta do meu quarto. Fortes emoções passaram por mim. Não tive certeza de todas, mas nostalgia e tristeza com certeza foram duas delas. Minha mão foi de encontro a maçaneta, incerta. Porém quando eu me dei conta, a porta estava aberta.

Fechei os olhos, me esforçando para não chorar. O meu próprio cheiro estava presente ali, significando que não houve limpeza depois da minha morte. Bom, o quarto nunca ficou sujo, mas o meu cheiro ali mostrou que não mexeram em nada meu, mesmo após eu me mudar de casa.

Minhas decorações ainda ali, já que levei a minoria comigo. Minha casa de casada seria diferente do meu quarto de solteira.

— Preciso tomar um banho.

A voz de Claire me despertou do meu devaneio, e eu saí dali e fechei a porta.

— Podem se revezarem no meu e no da Carlie. – Ness ofereceu. – Tenho certeza de que ela não se importaria.

Ela terminou de falar enquanto eu entrava em seu quarto.

Elas decidiram que enquanto duas tomavam banho, o resto iria comer algo.

Quando estávamos sozinhas no quarto, – Claire estava trancada no banheiro, e graças ao sistema a prova de som, o ruído era zero. – eu me sentei na cama da minha irmã.

Fechou a porta e veio até mim.

— Como você está se sentindo? – ela perguntou, afagando meu cabelo num gesto de carinho.

— Normal. – respondi, a fazendo rir.

— Está preparada? – perguntou.

— Estou. – falei, convicta. Esse seria o melhor dia da minha vida desde tudo que ocorreu.

— Estou tão feliz por você. – me abraçou.

— Obrigada. – eu tentei fazer minha voz sair mais alta, porém não passou de um sussurro.

— Por que não conta a todos agora ao invés de esperar a manhã de Natal? – ela indagou, brincando com uma mexa do meu cabelo falso.

— Eu estou preparada para fazer isso amanhã, não hoje.

Isso a fez rir outra vez.

— Mas estou aliviada de já estar aqui. – disse em contra parte, deixando uma lágrima cair.

Ela não disse nada, apenas me abraçou forte. Houve uma batida na porta, e meio segundo depois Derek a abriu.

— Hey, Nessie.

Derek! Que saudades dele!

— Fiquei sabendo que temos uma novata. E namorada do cachorro.

— Entre. – ela sorriu irônica. Ele a ignorou.

— Oi, gata. Meu nome é Derek. – ele estendeu a mão para me cumprimentar. – Prazer em te conhecer. – ele falou e eu a apertei. Em vez de apertá-la de volta, ele segurou-a e depositou um beijo ali.

— Que cavalheiro. – elogiei, achando graça nisso. Ah, que saudade do seu jeito engraçado de ser. – O prazer é todo meu.

— E tem bom humor. – ele apontou.

— Digamos que já passei um tempo com Seth, Ness e Jacob.

Derek gargalhou.

— Você é... como a Nessie? – ele perguntou, inseguro.

— Híbrida? Sou sim.

— Nessie, cheguei. – tia Alice gritou lá de baixo. – Não demore para descer.

Eu fechei minhas pálpebras, querendo evitar o choro. Mas já era tarde demais. A saudade vazou pelos meus olhos.

Eu sabia que isso seria muito estranho para Derek.

— O que há de errado? – ele perguntou, franzindo a testa.

Respirei fundo, sentindo outra lágrima cair, por mais que eu estivesse me contendo.

— Derek. – Nessie sussurrou, apressadamente. Sem ver outra alternativa, se levantou e correu para fechar a porta.

Sou eu. Carlie, se lembra?

Carlie? Que porra é essa? Você não estava morta? Carlie, meu amor, você está viva?

Derek! Derek! Gritei até obter sua atenção e seus pensamentos se aquietarem. Agarrei seu rosto em minhas mãos e o obriguei a olhar em meus olhos. É uma longa história e prometo te contar tudo. Mas resumindo, sim, estou viva. Ness, Seth, Jake e mamãe são os únicos que sabem, além de você agora. Ninguém mais pode saber, até amanhã. Ok?

Tive um leve receio de ele não ter me levado a sério quando seus pensamentos ficaram quietos, e algumas emoções passavam por ali, mas a que mais se estacou foi: felicidade.

E alguns segundos depois, fui capturada em um abraço de urso.

Carlie, minha Carlie. Você não faz ideia de como senti sua falta...

Alguns flashs de memória correram em minha mente, ele lembrando das vezes que ficou dias só correndo pela floresta, ou só sentado em seu quarto lembrando de mim e destruído pela falta que sentia. E como seu coração congelado explodia quando ficava brincando com Harry e Sarah... um pedacinho de mim que ficou para todos que me amam.

Aproveitei seu abraço ao máximo, lutando contra as lágrimas para evitar os olhos inchados e vermelhos. Mas abraçar meu melhor amigo depois de meses era uma sensação muito boa.

Cortei a ligação e me afastei assim que houve uma batida na porta. Rapidamente limpei as lágrimas.

Era tia Alice.

— Temos que fazer mais vezes um dia com as garotas. – ela tagarelou enquanto entrava. – Ah, oi. Você deve ser a Angel. Prazer, Alice.

— O prazer é meu.

— Esme chamou vocês para comerem. E temos que fazer os últimos ajustes na decoração.

Fomos. Quase congelei ao ver toda a minha família na sala de estar. Minha hesitação foi notada por papai e tio Jasper. Papai podia não ler minha cabeça, mas meu tio certamente ainda sentia o que eu sentia. E papai poderia deduzir alguma coisa a partir daí. Oooh, nervosismo.

Eu... a Angel foi cumprimentada por todos. Vovô Carlisle, vovó Esme, tia Rose e tio Em, e tio Jazz. Eles chegaram com Mendy e Heather, e Nick. Eu fiz um tremendo de um esforço para não chorar. Foi tão difícil ver minhas primas e não poder as cumprimentar como tal. Eu mal podia acreditar que a pequena Heather estava quase andando, e Nick já sabia ler e escrever seu próprio nome.

Tentei disfarçar que tio Jasper e papai me deixavam desconfortável. Minhas emoções a flor da pele me denunciavam de uma forma vergonhosa. Mas cadê a educação desses dois que nem sequer fingem?

Após jantarmos, resolvemos as pendências da decoração e nos ajeitamos para ir dormir.

Quem dera a ansiedade me deixasse em paz.

PDV Renesmee.

— Oi. Desculpe interromper. – falei entrando no quarto do Jake, onde ele conversava com os lobos. – Estou organizando meus calçados e um par deles está aqui.

— Não, estão no seu quarto. – Jacob discordou.

— Não, da última vez que os usei, eu estava no seu quarto. – insisti.

— Não, vem cá. – ele me puxou para o meu quarto e entrou no closet. – Está... aqui.

— Oh. – falei ao vê-los nas mãos do meu marido.

E então as minhas memórias lampejaram para quando chegamos de algum lugar e nos beijamos dentro do meu closet após eu tirar o sapato e provavelmente empurrar sem querer para debaixo da penteadeira.

Ele sorriu dando de ombros e me entregou.

— Vamos matar a saudade? – ele sugeriu, com um olhar malicioso, me puxando pela cintura.

— Matamos a saudade antes de virmos.

— Vamos de novo. – ele pediu. – Aproveitar que Edward está na casa de Jasper com Emmett e Carlisle.

Eca, posso te ouvir daqui, sabia?

Carl cortou o escudo na mesma velocidade que o colocou, seus pensamentos cheios de nojo por causa de mim e de Jacob. Revirei os olhos.

— Lamento, mas só vim pegar meus sapatos para emprestar a Claire. Eu ia esquecer se deixasse para amanhã.

Estiquei-me e dei-lhe um beijo nos lábios.

— Vai ficar na vontade. – sussurrei em seu ouvido.

— Isso é maldade. – ele acusou enquanto eu caminhava para fora do quarto.

Soprei-lhe um beijo, o provocando, e fui para o quarto. Logo ele saiu do closet e saiu do meu aposento. Antes de sair me lançou um olhar que somente eu poderia entender, e eu me arrepiei pelo significado daquelas írises de chocolate.

PDV Carlie.

Me revirei no meu saco de dormir. Eu não parava de pensar sobre meu futuro destino que seria me juntar a minha família outra vez. E desta eu esperava não precisar me separar de novo.

Acordei de madrugada com fome. Jessy dormia tranquila ao meu lado. Ela parecia não se importar comigo inquieta. Harry e Sarah estavam dormindo com meus pais. Nunca achei que veria Bella e Edward Cullen como avós bobões. E agora sempre que podem roubam nossos filhos de noite. Ri disso.

Suspirei. Será que tinha algum pacote de salgadinho no armário? Ou cereal? Ou alguma pizza congelada? Qualquer coisa gostosa e aceitável por uma vampira não imortal. Fui tirar minhas dúvidas.

— Me desculpe, Nessie. Mas vou comer o seu último salgadinho. – falei comigo mesma, como se ela fosse ouvir.

Ouvi passos quase silenciosos descendo as escadas. Apenas seu cheiro delicioso me deixou sabendo quem era.

— O que a madame faz acordada a essas horas? – ele perguntou, vindo até mim.

— Bem que eu queria estar dormindo. – comecei, e ele colocou seu corpo perto de mim. – Mas a fome me odeia demais para isso.

Ele riu e começou a beijar meu pescoço.

— E você, Sr. Músculos? – eu disse, tentando me concentrar contra os arrepios e outras sensações que eu ganhava de seus beijos calorosos.

— Preocupado com você. – murmurou contra a minha pele, e eu já podia sentir a umidade em minha nuca e minha testa. – E a fome me lembrou que eu queria comer. Aliás, eu estava dormindo – ele falou, se referindo ao fato de estar sem camisa -, e o frio não me incomoda.

— É que desse jeito eu posso te agarrar no meio da cozinha.

— Não seria nada ruim. – sussurrou em meu ouvido.

— Não é lá muito educado fazer coisas indecentes debaixo do teto dos meus pais.

— Tem razão, mas você torna isso muito difícil.

Eu ri, quase sem folego. E então seus lábios encontraram os meus.

Com o que está preocupado? Perguntei.

Em como está se sentindo com a sua volta. Fiz um esforço de manter o escudo, já que sua boca estava colada em minha orelha.

— Isso logo vai passar. – lhe garanti. Eu realmente comecei a soar quando ele começou novamente a beijar meu pescoço, segurando meu cabelo com uma mão, e a outra me puxava para mais perto pela cintura.

— Vamos para casa?

— Já estamos em casa. – falei ofegante.

— Estou falando da nossa casa. – ele afastou seu rosto para que pudesse olhar para mim. – Há alguns bons metros daqui.

Notei a malícia em sua voz.

Não foi preciso outro pedido. Andamos pelo condomínio, a rua deserta.

— É bom estar de volta. – falei fechando os olhos, sentindo o vento congelante da noite em meu rosto.

— É bom ter você de volta. – ele revidou, com um sorriso no rosto.

Sorri, dando um aperto em sua mão entrelaçada na minha. Nossos passos eram lentos, pois não estávamos com pressa de chegar.

— Harry vai ficar bem? – perguntei.

— Está brincando? Edward e Bella amam cada segundo quando ficam com as crianças. Temos que monitorar para que não mimem demais o Harry.

Ri disso.

Um silêncio cômodo se instalo entre nós, enquanto a noite nos envolvia numa sensação de intimidade. A mesma que senti quando fomos ao cinema. Era como se nada fosse capaz de nos flagrar ou nos interromper.

O silêncio nunca foi um problema com Seth. Sempre tivemos assunto, como bons melhores amigos. Mas quando não tinha, nunca era constrangedor. Apenas aproveitávamos a companhia um do outro. Só de ter sua presença já fazia valer o tempo.

— Como era? – ele rompeu a quietude. – Quero dizer, todos os dias, vinte e quatro horas, ficar dentro do quarto do hotel sem ter para onde sair?

— Sinceramente? Nunca achei que ficar no quarto mais chique e caro de Seattle fosse ser tão entediante e solitário. – respondi de imediato, me lembrando das horas assistindo séries e filmes, ou jogando no videogame, e até achei alguns entretenimentos interessantes, como jogos e cozinhar. – Nada do que eu fazia supria a saudade de nenhum de vocês. Tudo o que eu fazia remetia a um de vocês. Quando eu cozinhava, eu pensava em fazer você, Ness e Jake experimentarem. Quando eu jogava, imaginava quantas vezes eu passei a madrugada testando novos jogos com tio Em e quando você e eu fazíamos competição. Até para assistir. Perdi a conta do quanto eu chorei com filme de comédia e ação.

— Oh, meu amor. – sua voz saiu baixa, e ele me abraçou de lado. – Você nunca mais vai precisar se sentir assim. Farei tudo ao meu alcance para te proteger, e proteger ao nosso filho.

— Não tenho dúvidas. – sorri confortada com essa ideia.

Ele suspirou, e eu esperei que desabafasse.

— Se eu tivesse pensado melhor, eu teria descoberto antes que estava viva. – ele falou frustrado consigo mesmo por isso. – Nunca deixei de te amar, nunca deixei de sentir dor. Isso não deveria significar algo?

— Agora isso não importa mais. – falei e coloquei o braço em sua cintura. Ele me apertou de leve em seu abraço.

— Tem razão. – falou, e chegamos em frente à porta da nossa “mansão”. Era uma casa, mas ainda enorme. Mesmo que não era do tamanho da dos meus pais, ainda era uma as maiores do condomínio.

Ele abriu a porta para que eu entrasse primeiro.

— Como senti falta deste lugar! – falei, tirando meu robe que escondia meu pijama; um shortdoll. Apesar de ser comportado, ainda tinha seu toque sexy, porque em meu íntimo eu esperava que Seth me apreciasse em algum momento da noite.

E então minha barriga roncou.

— Droga, preciso comer algo.

Andei rápido para a cozinha, esperando achar pelo menos um salgadinho. O armário estava até com comida perecível.

— Tem comida aqui? – perguntei, abrindo a geladeira e a encontrando estocada. – Quem estava aqui?

Funguei e reconheci o cheiro fraco, porém ainda presente.

— Mendy e Embry. – ele me confirmou. – Não tinham privacidade em casa, então passavam o tempo aqui.

Pisquei atônita.

— Mendy e Embry estavam passando o tempo na nossa casa? – perguntei, incrédula ou chocada. Talvez os dois.

Ele assentiu, franzindo os lábios. Também parecia insatisfeito com isso.

— Eles estavam transando na nossa cama?!

Ele deu de ombros.

— Por que ninguém comprou uma casa para os dois em vez de darem a minha?

— Ei, relaxa. – ele pediu, vindo até mim e me agarrando pela cintura para juntar nossos corpos. – Quando soube que a gente vinha, que eu viria com uma namorada, ela tratou de trocar o edredom da cama. Esme se prontificou a fazer uma limpeza também. Está prontinha para nós.

Mordi o lábio, melhor com a ideia. Nunca pensei que me sentiria desconfortável de fazer amor na minha própria casa. Mas com a notícia de ter a cama sem resíduos sexuais de outro casal eu relaxei.

— Mas só se fizer um lanche bem gostoso para eu comer depois. – falei contra seus lábios. Pegou minhas pernas e amarrou ao seu redor.

— Fechado.

* * *

Eram seis e meia, e eu me esforcei para me levantar, pois só tirei uma soneca de uns vinte minutos na minha casa, mas hoje os preparativos deveriam ser finalizados. Chegamos na casa dos meus pais as cinco, e não tinha ninguém a vista. Seria constrangedor. Ainda mais que a fantasia ridícula da Angel não estava tão boa. O necessário para arrumar estava tudo na minha mala, no closet da Ness.

Após eu ajeitar melhor e ficar apresentável, não havia perigo de ir à cozinha, porque dormir e... hmm... fazer outras coisas fez minha barriga esvaziar. O que será que tem para comer? Hmmm, vamos ver...

— Bom dia, querida. – mamãe falou, entrando na cozinha. – Deixa que eu preparo algo para você.

— Obrigado, Bella. – falei e uma foto no armário me chamou a atenção. Era do vovô Swan e da Sue. Logo eles saberiam da verdade, e isso estava me matando de ansiedade.

E a vovó Reneé. Ela nem imaginava e jamais saberia que eu passei por tudo isso. Deve estar feliz com a sua vida em Jacksonville.

— Estão todos aqui, né? – perguntei, ainda com medo de dar algo errado.

— Sim. – ela respondeu. – Todos os quileutes, as meninas e os seus filhos estão acomodados em algum lugar da casa.

Suspirei, aliviada. Eu sabia da história dos frios e dos lobos, mas mamãe me contou de uma vez que Jake teve os ossos de um lado do corpo esmagados, vovô Carlisle que foi cuidar dele na reserva. Isso criou uma aliança entre Billy e vovô, por sua imensa gratidão em ajudar o filho.

As horas iam passando e aos poucos todos acordaram. Todos arrumados na véspera de Natal. Pedi para deixarem as crianças entretidas, e colocaram um desenho na sala de estar.

Respirei fundo, tentando conter minha taquicardia súbita. Peguei uma taça de vinho e um talher, e chamei a atenção de todos com um pequeno tinir das peças.

— Quero primeiro dizer que estou muito feliz na presença de todos, e agradeço por me receberem, uma estranha, na casa de vocês. Bem, todos nós sabemos que a vida dá voltas. As vezes a maré está normal, e do nada ela fica alta, e quando menos esperamos, ela volta para a sua calmaria. Nossas vidas são assim, uma hora estamos alegres, outra hora triste. E depois brigamos com quem mais amamos.

“E para uma mulher se sentir completa e feliz, ela precisa de pessoas para passar por coisas turbulentas. E para passar por momentos de vitória e de alegria. Para isso, é necessário um laço com quem ela ama.”

Nesse momento as lágrimas encharcaram os meus olhos.

“Com todos que ela ama. Com seu melhor amigo – olhei para Derek perto do sofá, e ele sorriu para mim. –, com uma figura paterna. – meus olhos teimaram em ir em direção ao meu pai, que por sua vez me olhou confuso mesmo com um olhar terno. – Essas coisas são muito importantes para que sejamos felizes. Afinal, o ser humano não é uma criatura solitária. Essa pessoa que está aqui – falei me referindo a mim mesma. Peguei uma respiração antes de continuar para o gran finale. – ela não se sente completa. – notei o olhar sério de Seth, e tratei de completar: — Ainda. – e aí estava o sorriso que eu queria.”

“Eu fiquei sabendo que vocês perderam uma pessoa muito importante para vocês. Sinto muito por isso. Mas também quero dizer que outra pessoa conhecida está prestes a morrer.”

Alguns arfaram, alguns murmuraram assustados, e eu percebi que pude ter sido um tanto radical em minhas palavras.

— Mas... Fiquei calmos. Ao contrário dessa morte que houve há alguns meses... essa é para o bem.

Agora alguns me olhavam como se eu fosse uma louca, e outros bem confusos.

— Pois na verdade, essa morte... essa morte significa um renascimento. – engoli com dor, um nó em minha garganta difícil de desfazer. – Um renascimento de uma mulher que pode ser feliz e completa outra vez. Com a sua família. – olhei para a minha família, que estava do meu lado direito. Eles ainda estavam com aquele olhar confuso e interrogativo. – E com seus amigos. – terminei, olhando para os Quileutes, que estavam do lado oposto da minha família.

Qual o próximo passo? Droga...

Busquei o olhar da minha irmã, e ela falou comigo.

Peça licença. Vá ao banheiro e voltei como Carlie Cullen.

Assenti.

— Eu preciso de um minuto. – falei e corri para o banheiro, deixando para trás um falatório que foi crescendo conforme eu fui me afastando.

Ness já tinha deixado a minha mala em seu banheiro, e eu me apoiei na pia, respirando fundo várias vezes para tentar fazer a tremedeira ir embora. Tive medo de ser uma síncope de nervosismo. Eu esperei por esse momento por meses, e agora que estou a poucos passos de fazer isso, minhas mãos não queriam cooperar. Tremiam como se eu estivesse levando um choque.

Mesmo assim, agarrei a peruca, me livrei da maquiagem, dos óculos e do aparelho. Ness pensou em tudo mesmo, já que tinha um óleo para cabelos cacheados que tratei de passar. Um tecido vermelho me chamou atenção debaixo da pia, sobre um par de salto da mesma cor. Peguei na mão, e o pano recaiu, mostrando um vestido vermelho longo e de tirar o fôlego. Sorri emocionada.

Não me importei com maquiagem, demoraria demais. Vesti ao menos o vestido para me livrar da breguice da Angel. Não pensei duas vezes: joguei a roupa no lixo. Era um ato simbólico de não precisar usar nunca mais aquilo para me disfarçar de outra pessoa. Até esse momento não percebi o peso em minhas costas.

Apoiei minhas mãos na pia importada, tentando me livrar do nervosismo.

— Se acalma. – sussurrei comigo mesma, com os olhos fechados. – Vai dar tudo certo. Isso é tudo o que você vem pedindo a Deus nos últimos meses.

Nada adiantou. Mas eu sabia que isso era momentâneo, que a partir do momento que todos me vissem e entendessem, voltaria tudo ao normal.

Então agarrei a maçaneta da porta e a abri.