As vozes eram claras como se estivessem falando ao meu lado. Tantas perguntas e indagações que eu mal via a hora de responder. Respirei fundo e desci as escadas, pronta para mostrar para todos quem eu realmente sou.

Quando eu apareci na sala, a atenção se voltou para mim. A reação que eu arranquei deles foi a melhor impossível. Eu não queria que ninguém chorasse, mas as lágrimas já tomavam conta de muitos pares de olhos ali.

Olhei nos olhos de Edward, meu pai, meu herói, pedindo desculpas silenciosamente. Mas ele não conseguiu devolver o olhar com nada além de choque.

Eu oficialmente poderia ser considerada uma aparição.

— A partir de agora, Angel está morta. Ahh, vocês não sabem como eu queria fazer isso a muito tempo. E com isso, eu... voltei.

Os que já sabiam estavam emocionados, e os que não sabiam ainda estavam esboçando suas reações de surpresa e incredulidade.

— Por praticamente meio ano eu tive que me confinar em um quarto de hotel. Nas últimas semanas fingi ser alguém que não sou para proteger a minha identidade, e por assim proteger quem eu amo. Tive que me fingir de morta durante o tempo que não apareci.

Antes de continuar, eu funguei e limpei as lágrimas de felicidade.

— E aqui estou eu. Vivi como morta por medo das consequências de continuar viva. E me convenci de que prefiro morrer lutando do que passar minha vida longe de quem eu amo.

Claire e Mendy choravam abraçadas. Vovô Swan, que sempre foi durão, estava derramando lágrimas. Todos ali estavam felizes, era evidente, e isso me confortou bastante. Aqueles sonhos que eu tive foram só frutos da minha imaginação boba e medo infundado.

Meu pai foi o primeiro a se aproximar de mim. Seus lindos olhos castanhos claros estavam cautelosos, e parecia temer que eu evaporasse caso se aproximasse rápido. O encarei, sentindo uma tremenda falta de olhar em seu rosto e apreciar o homem-exemplo que ele sempre foi na minha existência.

— Carlie, minha filha. – ele sussurrou antes de me pegar com seus braços frios de mármore num abraço que eu esperei por meses. – Precisamos esclarecer toda essa loucura. E sua mãe...

Papai, eu prometo que fizemos tudo com pesar em nossos corações, mas sempre pensando em proteger a nossa família.

Meu coração vacilou uma batida com a emoção forte que passou em sua mente ao chama-lo de “papai”.

Me deu um beijo na cabeça e me soltou, sabendo que haviam inúmeras pessoas que também queriam sua vez no abraço.

Vovô Charlie foi o próximo a se aproximar.

— Carlie, minha neta! – me agarrou em seu abraço, que mais parecia um ninho aconchegante. – Que diabos aconteceu com você? Você fez tanta falta que você nem imagina. – ele murmurou, parecendo tentar segurar o choro.

— Também senti muita falta de vocês. Prometo que irei explicar tudo logo.

Claire e Mendy vieram também, emocionadas, uma se apoiando na outra.

— Droga, menina, como você fez isso comigo? – Mendy me xingou, e me puxou para um abraço triplo.

Não falei nada, só retribuí.

— Carlie... por que você não nos procurou? – Carlie perguntou perdida.

— Desculpa. Desculpa. – era só o que eu conseguia dizer.

Logo em seguida foi tio Em com o seu famoso abraço de urso. Vovô Carlisle e vovó Esme num abraço triplo, tia Rose, Derek, que disse que foi muito pouco tempo para matar a saudade, e ainda com a sua mania irritante de me chamar de irmãzinha. Tia Alice e tio Jazz, e os quileutes.

— Hey, caras. – os cumprimentei quando tudo se acalmou e eles estavam conversando num canto.

— Carlie, que bom que está tudo bem com você. – Jared comentou.

— Sim, Seth estava morrendo de saudades. – Paul continuou.

Ri de sua fala camuflada.

— Muito obrigado por vocês terem vindo. – agradeci. – Significou muito para mim ter todos vocês comigo hoje. Eu mal vi a hora de já falar a verdade.

— Estamos muito contentes, querida. – Emily me abraçou de lado.

Sorri e pedi licença para falar com a minha família.

— Oi! – os cumprimentei, animada. – Estou de volta!

— E isso é muito bom. – vovó me abraçou.

— Que bom que está entre nós, minhoquinha. – tio Emmett disse, com o seu famoso sorriso.

— Muito bom. – concordou Derek e me deu um beijo na bochecha.

Sorri.

Fui falar com as crianças, abraçando e beijando todas elas. Quando me notaram, desviaram na mesma hora a atenção da televisão e ficaram extasiadas comigo ali.

— Por que não canta uma música, Carl? – Seth sugeriu quando viu que as crianças voltaram para a música natalina infantil.

Antes que eu pudesse protestar, Derek incentivou.

— Vamos lá, Carl. Sua voz é fantástica.

Fiquei ruborizada quando metade da sala concordou. Porcaria de super audições!

Concordei e eles comemoraram. Fui pegar meu violão no meu quarto. Quando desci, tinha um banquinho posicionado. Respirei fundo e terminei de descer as escadas.

Essa é uma que se assemelha ao que vivemos. Falei em pensamento para o Seth. O mesmo sorriu, e juro que nunca vi sorriso mais lindo do que aquele.

Taylor Swift – Love Story

Eles aplaudiram e bateram palma.

— E você tem uma voz incrível. – Sam elogiou. Sorri agradecida.

— Tão linda! A música se encaixou perfeitamente com a sua voz. – Kim falou, com um sorriso maravilhado no rosto.

— Obrigada, a todos vocês. – agradeci.

Nessie veio até mim e ocupou o banquinho que eu estava até agora.

— Um dueto? – ela sugeriu.

— Obrigado. – sussurrei aliviada.

Taylor Swift – Fifteen (dueto com Miley Cyrus)

Todos aplaudiram quando ela acabou. Sorrimos, feliz com isso. Foi melhor quando eu cantei o verso “Naquela época eu jurava que ia casar com ele algum dia, mas realizei alguns sonhos maiores”, e ela continuou “Abigail deu tudo o que tinha para um garoto que mudou de ideia” e nós duas continuamos “Nós duas choramos”. De certa forma encaixou em épocas das nossas vidas quando tivemos dificuldades com Jake e Seth.

— Como eu nunca soube que minhas netas têm talento para cantora?

— E atriz, e designer, e modelo, e...

— Já chega, Derek. – o interrompemos quando ele começou a exagerar. Todos riram. Não deixa de ser verdade. Nessie, com certeza, tem todos esses talentos, mas eu? Claro que não. – Ela tem. – falamos juntas novamente, apontando uma para a outra, e todos riram de novo.

— Tem que admitir que ele está certo. – papai falou. Eu não pude deixar de sorrir. Nem a Ness.

Reuni todos na sala de reuniões e deixamos os que não precisavam saber olhando as crianças. Basicamente as mulheres dos quileutes. Os lobos, óbvio que não ficariam de fora. Mendy bateu o pé e disse que queria saber. Conseguimos deixar Claire de fora. Vovô Swan já sabia das lendas e dos frios, então poderia saber.

Contei tudo desde o início. Ninguém me interrompeu até a última palavra contada. Os lobos queriam ficar a disposição para caçá-la, mas chegamos à conclusão de que seria mais prudente ficarmos quietos do que nos mostrar alerta e acabar passando a impressão de que os Cullen estão tentando proteger algo. Era mais do que o suficiente nossa família.

De repente olhei em volta, e percebi Jessy ausente.

— Cadê a minha gata? – perguntei, pois não a vi desde que cheguei.

— Estava com frio, arrumei seu ar condicionado e a coloquei de volta no quarto. – mamãe respondeu. – Gatos não são muito agitados no frio.

Assenti. Pedi licença e fui para o meu quarto. Peguei ela no colo, e ela apenas se espreguiçou em meus braços.

Houve duas batidas de leve na porta.

— Entre.

A porta se abriu, e Derek colocou a cabeça dentro do quarto.

— O que houve? – ele perguntou, preocupado. Entrou, fechou a porta e se sentou ao meu lado.

— Só fiquei preocupada com ela. Ela está preguiçosa no frio, mas não é típico dela. Vou levar ela no veterinário assim que a neve abaixar.

— Mesmo se fosse a hora dela, ela vai partir em paz. – ele falou, colocando o braço ao redor do meu ombro e me puxando para deitar no seu. – Você foi muito humilde a tirando da rua, e evitando que ela pegasse uma doença que poderia levá-la para a morte naquele lugar horroroso que é o mundo a fora. – ele falou perto do meu ouvido, me confortando. – Você a salvou. Tenha sempre isso em mente.

Fechei os olhos, balançando a cabeça. As lágrimas transbordaram. Eu não me importei. Deixei que suas palavras me passassem a verdade.

— Sabe o que é irônico? – perguntei depois de um momento em silêncio.

— O que? – ele perguntou, curioso.

— Eu sempre preferi cachorro ao invés de gato. – confessei, e ele riu.

— Carl, você é capaz de preferir até um crocodilo. – soltei um riso. – Você gosta muito de cachorro, mas o tamanho da sua bondade te deixa gostar até do animal mais feio do mundo.

Eu ri, sabendo que ele tinha razão. Uma vez, eu já pedi para meu pai me comprar um papagaio que estava com uma doença que o fez perder suas penas. Ele ficou com a gente por três meses ainda antes de falecer.

— Você também é assim. – apontei. – Você é o cara que faria um funeral por causa de uma formiga.

— Hey. – ele protestou. – Eu só fiz uma vez. Me senti muito mal por ter matado aquela pobre criatura.

Ri novamente, e me aconcheguei nos braços do meu melhor amigo com a minha gata em meus braços.

* * *

Já eram nove horas e ponto. Todos devidamente arrumamos. Bem, digamos que nenhuma, eu quero dizer nenhuma das mulheres ou garotas conseguiu escapar da ira da minha tia maluca. Todas as garotas ficaram tão lindas. Demorou, porém, finalizamos o serviço. Foi um trabalho em grupo.

— Você está linda. – Seth me falou assim que entrei na cozinha.

Sorri e fomos nos sentar. Mamãe comprou outra mesa idêntica, e a colocou colada na outra, dando a impressão de ser uma mesa mais comprida. Me sentei ao lado da minha irmã e do meu pai, com Harry na cadeira de alimentação dele entre Ness e eu. Mamãe ao lado do papai. Jacob do lado da Nessie. Seth ficou com a cadeira vaga do lado oposto da mesa onde eu estava, ficando de frente para mim. Collin e Brady aos seus lados. Sarah, assim como o meu filho, já tinha idade o suficiente para ficar num cadeirão. Duas gracinhas!

Enfim, estávamos todos reunidos. Felizes e com espírito de Natal. A gigantesca mesa, que – surpreendentemente – cabia todos, estava repleta de deliciosas receitas culinárias, feitas especialmente pela vovó, com a ajuda do meu pai, de Sue e Emily.

— Está muito bom. – Sam comentou enquanto terminava de engolir um pedaço de Chester.

— Obrigada, Sam. – vovó agradeceu, com um sorriso simpático no rosto.

— A parte menos chata de ter ficado no hotel foi fazer alguns hobbies. Eu jogava tantos jogos, assistia a tantos programas, aprendi tantas novas receitas, apesar disso em nenhum segundo eu deixei de me lembrar de todos você. – falei sincera. – Cada um de vocês é uma parte da minha vida, e fizeram falta.

Você fez falta, querida. – Sue corrigiu.

Sorri agradecida.

Quando deu onze e cinquenta e oito, nós nos apressamos para a contagem. E fizemos contagem regressiva de dez segundos para a meia noite.

— Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, três, dois, um... FELIZ NATAL!

Todos os casais trocaram um beijo, mesmo não sendo ano novo, ainda foi muito inspirador.

Lágrimas desceram pelo meu rosto quando minha felicidade não coube no meu peito.

Esse Natal foi perfeito.

* * *

— Jacob, você é muito sem graça. – joguei na sua cara quando ele acabou de contar uma coisa idiota.

Estávamos indo para a minha casa. Depois de casadas, mal passamos um tempo como cunhados a sós. Então nós quatro decidimos fazer uma tarde de jogos. E Jacob, sem conseguir conter seu instinto de ser besta, estava contando piadas... bestas.

— Ahh, diz aí. Foi engraçado. – ele insistiu, ainda rindo como um idiota.

— Não, não foi. – discordei, o olhando. – E por isso que eu não ri.

— Carl, você não tem senso de humor. – Nessie falou, defendendo o Jacob.

— Não, eu não tenho o senso de humor Jacob. – falei, fazendo Seth rir.

Rimos e continuamos o trajeto até minha linda casa.

— Por que os fantasmas são péssimos em contar piadas? – o olhei, à espera de algo idiota. – Porque eles são transparentes.

Eu não contive quando comecei a gargalhar. Essa sim foi boa.

— Olha aí. – ele apontou. – Você ri das minhas piadas.

— Não vamos discutir. – me recusei a lhe dar razão, porque Jacob com razão é um tanto perigoso. Seu ego poderia inflar demais.

Destranquei a porta e a abri.

— Meu. Deus. – Renesmee exclamou, entrando rapidamente.

Eu paralisei na entrada mesmo.

Minha casa... minha linda casa! Toda destruída...

O sofá rasgado, como se um animal tivesse fincado as unhas e deixado marcas. A mesinha de centro não tinha mais vidro, estava estilhaçada no chão. Minha enorme televisão jogada no chão com um buraco no visor. Meu soundround todo destruído, com marcas de soco e amassos. Meu notebook que eu mesma personalizei quebrado ao meio. Meus DVD’s de coleção e meu player acho que não teriam conserto nenhum.

— Quem fez isso? – sussurrei comigo mesma, em choque, indo até uma foto minha com o Seth caída no chão. Ela estava quebrada. Isso me deixou brava. Portanto tratei de focar em outra coisa. Podia pegar qualquer cópia e mandar revelar novamente, e comprar outro quadro mais bonito. O que me apavorou foi que havia arranhões no meu rosto, e estava rachado apenas onde meu rosto estava. Só uma pessoa faria isso. – Ela descobriu. – murmurei, ainda estática.

— Tifanny. – Jacob rosnou. – Como aquela vadia descobriu?

— Não faço ideia.

Seth me puxou para os seus braços. Eu não o culparia se ele tivesse dissesse “eu te avisei” mesmo eu sabendo que não o faria.

Imediatamente, Renesmee pegou seu celular e discou algum número.

— Pai. – falou assim que ele atendeu.

Nessie, querida?— ele perguntou, pois sua voz não estava lá muito agradável.

— Ela descobriu. – ela respondeu. – Tifanny sabe que Carlie está viva.

O que?

— A casa da Carl... só pode ter sido ela.

Eu percebi um papel perfeitamente dobrado, no meio da bagunça do sofá. Que uma vez já foi um sofá.

— E acho que deixou um... hmm... um bilhete. – ela deu ênfase.

O peguei e o abri.

Ótima tentativa. Uma salva de palmas para você e sua família que fizeram um belo teatro. Devia ter continuado morta, porque meus informantes me disseram sobre a sua volta. Um deles é apaixonado por você, e tentou esconder, mas o ouvi quando ele não sabia que eu estava por perto, discutindo consigo mesmo se me contaria sobre o que ouviu. Você acredita que, mesmo sabendo que o cachorro teve aquele troço por você, ele te ama? Você tem sorte, pois ele ia te matar ao meu pedido.

Pois bem, o pequeno estrago foi apenas um “oi”. Nos vemos em breve.

Engoli em seco, com a óbvia ameaça no final.

Sobressaltei-me quando a porta foi aberta abruptamente. Meu pai, meu avô, todos os meus tios e Derek entraram.

— Cadê minha mãe? – perguntei, e a partir daí não consegui mais segurar o choro.

— Ela está no hospital. – ele respondeu. – Pediram para ela cuidar de um paciente e eu vim mais cedo para casa. Esme, Rose e Alice estão com as crianças e Mendy.

De repente, ele me tinha em seus braços acolhedores.

* * *

— Carlie! – minha mãe falou assim que me viu quando passou pela porta da frente. – Rose me mandou uma mensagem de texto e eu vim correndo... – as palavras saiam tão rápidas que quase nem consegui assimilá-las. Sua frase foi cortada quando ela viu o estado da minha casa... – O que houve aqui?

Eu sabia que havia sido uma pergunta que ela não queria resposta.

— Ela deixou um bilhete. – falei, minha cabeça ainda deitada no peito do meu pai.

— Um bilhete? – ela repetiu, e Seth lhe ofereceu o papel, que agora me dava medo.

Ela leu em apenas dois segundos.

— Desgraçada! – ela grunhiu furiosa. O papel tornou a ser apenas um pedaço de papel amassado, em suas mãos.

Os quinze minutos que passamos procurando algum vestígio de algo mais perigoso plantado ali foi o suficiente para mamãe chegar. E foram o suficiente para eu não conseguir mais olhar para a minha própria casa naquele estado, então resolvemos ir. Seth quase insistiu em me levar para casa, mas eu estava bem para andar.

— O que faremos? – perguntei, no exato momento em que tio Emmett e meu pai entraram em casa. Já fazia meia hora que eles haviam ido tentar ir atrás da Tifanny. Tio Jasper apenas não foi porque eu precisei dele para me acalmar.

— Seu rastro parou logo no fim do penhasco da praia. – meu pai falou. A praia de que ele estava falando era bastante longe. – Ela entrou na água, então não teve como a seguirmos.

— Bem que eu queria ter dado uns tabefes naquela loira oxigenada. – meu tio comentou, seu divertimento nunca deixou sua voz. – Sem ofensas, Rose.

Ela assentiu.

Mais tarde, Seth e eu fomos dormir. Ficamos no meu quarto. Todos foram para a sua casa, sempre ficando em alerta máximo.

Seth e eu nos distraímos. Tenho que admitir, foi uma ótima distração. Minha mãe tinha o escudo no quarto o tempo todo, para assim, termos privacidade.

Era duas e alguma coisa da manhã, e Seth dormia tranquilamente ao meu lado. Nem acreditei, depois de tudo o que passamos. Ele só dormiu quando eu peguei no sono, ou melhor, fingi que dormi para não atrapalhar sua noite.

Me levantei, sem um pingo de cansaço. Eu precisava tomar uma água. Nem me importei de estar apenas com a minha camisola de Paris, escrita Bonjour! Afinal, mais parecia um vestido do que uma roupa de dormir.

— Argh, é uma merda mesmo. – resmunguei, cansada dessa perseguição dessa vampira louca.

Quando cheguei a cozinha, minha sede tinha passado. Fiquei com raiva de mim mesma.

Acho que eu ia dar uma volta por aí. Jessy miou do meu lado, eu mal tinha percebido ela ali. Se esfregou na minha perna. Agachei e fiz um carinho em seu pescoço. Peguei minha chave do portão do condomínio e saí de casa. Estava um vento gostoso, que me deixava arrepiada de tanto prazer.

As luzes do condomínio sempre acesas, afinal, cada um tinha sua própria liberdade de sair e chegar a hora que quisesse, e enxergar por onde passava.

Abri o portão com a chave magnética e encostei, ouvindo o click que um ouvido humano não captaria. As ruas também estavam tão desertas quanto a do meu condomínio, exceto um casal namorando em um pouco mais afastado. Acho que eles nem me notariam.

Continuei andando, até chegar no parque com a floresta incrível. E foi nesse momento que me xinguei por ter deixado o celular em casa. Se Seth acordar e não me achar, vai ficar maluco. Eu, com certeza poderia ser raptada por Tifanny. A minha liberdade pessoal agora está muito limitada, considerando que nada que eu faça posso fazer longe dos meus parentes. Ela ameaçaria a vida do meu marido, do meu filho, até da minha irmã por serem mais fracos que ela. Sem chance de Ness e eu ganharmos uma luta contra um vampiro.

Tudo bem. Eu prefiro morrer no lugar de quem eu amo do que alguém que eu amo morrer para me proteger. De qualquer jeito, se ela machucasse alguém da minha família, seria em vão, pois quem ela quereria, seria eu. Então para que alguém se colocar na frente da bala por mim, se sou eu quem ela sempre vai querer?

Boa metáfora! Aquela aula de português sobre metáforas foi útil para os meus pensamentos flutuantes.

Enfim, é a mim que aquela vampira idiota quer. E não minha irmã, meu filho ou Seth. Então, se ela fosse me pegar, que fosse agora!

Carlie, pare de pensar besteira.

Sacudi minha cabeça e dei meia volta em meus calcanhares para ir para casa.

— Carlie, que surpresa!

Virei-me, assustada com a voz súbita.

— Adrian?

— Não achei que te acharia aqui. – disse mais consigo mesmo. – Tifanny disse para ficar de tocaia, mas achei um absurdo que você sairia da proteção dos seus pais. Parece que ela te conhece mais do que você imagina.

— Ela não sabe nada sobre mim. – rosnei.

Pareceu gostar de como eu fiquei com raiva.

— Então... – ele foi falando, e dando passos despreocupados se aproximando de mim. Não gostei daquilo. – O que faz tão longe de casa a essas horas?

— Sem sono. – falei, dando passos para trás tentando evitar alguma aproximação do estranho comigo. Eu fiquei apavorada quando vi que seus olhos me olhavam... fascinados. Apaixonados. Como Tifanny escreveu na carta: que ele é estupidamente apaixonado por mim.

O desespero me tomou quando senti minhas costas em um abeto.

— Esperei tanto por esse momento. – ele sussurrou, com a mão no meu rosto, seu polegar acariciava meu rosto como se eu fosse uma pétala de rosa delicadíssima. Engoli em seco. O que ele cogitava estar fazendo, assediando uma mulher casada?

— O que pensa que está fazendo? – perguntei, o fazendo parar a uma distância razoável do meu rosto para me dar tempo de tentar escapar.

— Tornando meu sonho realidade. – ele falou, e fiquei desesperada quando seu nariz faltava apenas um ou dois milímetros para tocar no meu.

— Sonho? – zombei, tentando fazer algo para ele desistir disso. Eu não sabia se conseguiria lutar contra um frio.

— Eu te amo tanto. – ele murmurou baixinho. Quando trouxe seu rosto mais uma vez para o meu, abaixei e saí para o lado, se fosse um humano teria tido um encontro romântico com um tronco.

— Ficou maluco? – perguntei, não acreditando no quase ele foi capaz de fazer. – Sou casada! Tenho certeza que Tifanny não te poupou desse detalhe.

— Eu sei, eu sei. – ele falou, de repente furioso. – Você e o pulguento sofreram imprinting um pelo outro e blábláblá. – eu fiquei com raiva do modo que ele se referiu ao Seth. – Mas será que não dava para ficar com outro alguém? Alguém que não te prendesse, como ele está fazendo?

— Que?! Ele não está me prendendo!

— Sim, está sim. – ele cuspiu. – Não percebe que esse tal de imprinting é uma forma desses lobisomens ou sei lá o que, terem alguém que fique preso para sempre com eles? E eles contam isso apenas para que vocês se sintam obrigadas a ficarem com eles!

— Não é verdade! – rosnei, me lembrando do quão meu pai ficou furioso com o Seth por deixar escapar sobre o imprinting, e como Seth não queria me contar, que até esperou meu pai chegar, com esperanças de que eu esquecesse sobre isso. – Ele nunca quis que eu soubesse por causa disso! Por que ele não queria que eu me sentisse obrigada a ficar com ele!

— Era comigo que você devia ficar. – ele veio até mim em passos rápidos e me agarrou pela minha cintura. Minhas mãos chocaram em punho fechado em seu peito, prontas para lutar caso ele tentasse algo de novo. Seus olhos estavam suplicantes sobre os meus. – Eu posso te dar mais do que ele...

— Do que você está falando? – rosnei, tentando me livrar do seu aperto. E o filho da mãe se mantinha firme. Ahh, isso não é um bom sinal. Eu estava apenas de camisola. E numa floresta com um... quase estranho.

— Eu sou apaixonado por você desde o primeiro dia em que te vi. – ele confessou, e meu queixo caiu. Ele achava que se declarando para mim, iria mudar meus sentimentos pelo Seth? Coitado!

— Está plagiando o imprinting, é? – caçoei dele. – Pois fique sabendo que é bem mais diferente do que você imagin...

— Não é só esse estúpido negócio de lobo que faz apaixonar. – ele me cortou, parecendo prestes colapsar de raiva ou pelo seu amor não correspondido. – Todos temos sentimentos. Eu tenho sentimentos. – ele sussurrou, escorregando sua mão quente e carinhosa pelo meu rosto. Seus olhos acompanharam todo o trajeto do meu cabelo, e pararam em meus lábios. – E o que sinto por você é tão grande que menti para Tifanny dizendo que...

— O que? – rosnei, tirando com força suas mãos para longe de mim. – Você está com ela, seu idiota?!

Droga, ele deve estar sendo uma distração para Tifanny vir até mim e me matar. Droga!

— Você não me deixou terminar. – ele falou, sem se preocupar com o meu ataque de fúria.

Respirei fundo e estremecido, tentando levar minha raiva para longe de mim. Deu um pouco certo.

Ele esperou pacientemente enquanto eu me estabilizava novamente.

— Então... – ele esticou a palavra, ainda atento para ver se eu realmente estava mais calma – ela acha que eu vim matar o cachorro. Bom, aproveitando que você está aqui, eu... eu quero te propor algo interessante.

O brilho em seus olhos ao falar disso me deu medo. O que ele tinha em mente?

— Vamos sumir. – ele soltou de uma vez. – Ir embora, apenas nós dois. Deixar o resto para trás.

O encarei, a espera de ele declarar que é uma zoeira e que vai me matar de vez. Nada. Ele quis mesmo dizer aquilo.

— Você perdeu a cabeça. – falei como se dissesse que amanhã vai fazer sol.

Eu fiquei com medo quando vi seus olhos queimarem de ódio quando falei aquilo. E então desejei nunca ter dito tal coisa.

— Por que está zombando de mim? – ele perguntou, parecendo verdadeiramente machucado por dentro. – Eu estou tentando salvar a sua vida! E ainda te dar uma vida feliz e tranquila ao meu lado...!

— Nem pensar. – o cortei, tentando tirar isso de sua cabeça. ­– Estou muito feliz com o meu marido, e eu tenho meus parentes! Uma irmã, um filho. Não os abandonaria por nada nesse mundo.

Me virei para sair da floresta, mascarando meu medo em relaxamento. Com certeza não colaria para um vampiro.

E de repente, ele segurou meu braço com força, me fazendo parar e me virar para olhá-lo. Fiquei incrédula por tal ato.

— Escute o que vou dizer. – ele falou, num tom ameaçador. – Ou você fica comigo de uma vez por todas, ou vou dizer a Tifanny que você está viva de verdade!

Isso me deixou confusa. Muito confusa. Ela já não descobrira? E a destruição da minha casa?

— E ela não já sabe...?

Ele deu um sorriso de lado, satisfeito por ter prendido minha atenção outra vez.

— Eu a convenci de que você está morta mesmo. – ele continuou. – Falei que a híbrida que ela ouviu falar apenas se chamava Carlie por pedido do Seth, que queria lembrar-se da mulher que ele perdeu.

Minha boca se abriu, absorvendo o que ele disse.

— Sério? – perguntei, achando que era apenas um truque para eu ficar com ele.

— Por que você acha que ela não veio atrás de você ainda? Por que ela está esperando o momento certo? Claro que não! Eu a convenci de que você não está viva, mas posso dizer o contrário agora mesmo.

Fiquei apavorada com a sua ameaça. Eu tentei me desvencilhar de seu aperto para correr para casa e contar aos meus pais. Se ele não estivesse usando muita força! Não sei se meu poder alcançaria tão longe para chegar na mente de algum deles.

— Posso ligar para ela agora mesmo. – ele falou, pegando um telefone celular de seu bolso e o abrindo. – Fico aqui, te segurando, até ela chegar e arrancar a sua cabeça.

— Não me importo. – menti, quero dizer, meio que menti. – Se ela deixar minha família em paz, não me importo com o que ela fará comigo!

— Posso dizer isso a ela, e ela acabará com cada um da sua família. – ele falou, fingindo estar pensativo. – Um por um. Imagine. A morte dos Cullen foi causada pela filha deles. Seria interessante...

— Cala essa boca. – grunhi, ainda me debatendo para me livrar dele. Ele sorriu com a minha falha tentativa, e rapidamente, passou o braço que ele me segurava, em torno da minha cintura, colando nossos corpos. Droga, eu queria sair de perto dele. Meu estômago embrulhado ameaçava a colocar a janta para fora.

Como se lesse meus pensamentos, colocou o outro e assim eu estava presa. Totalmente vulnerável. Meus braços presos ao lado do meu corpo, com os seus braços me imobilizando. Nenhuma das minhas pernas subiria para lhe dar um chute na virilha, pois estava contra as suas.

E então ele me beijou. Eca.

Eu franzi os lábios quando sua língua pediu... implorou por uma passagem.

Me larga, imbecil! Esbravejei, já que minha boca estava ocupada, o deixando sentir cada partícula de nojo que eu estava sentindo. Se eu abrisse a boca para falar, ele aproveitaria e enfiaria sua língua nojenta na minha boca.

Ele parou o “beijo” com um estalo, e fascinado com o meu poder.

— Você me fascina. – ele sussurrou, e me beijou novamente. Droga!

Se você não me soltar, você vai se arrepender!

Estremeci de nervosismo quando ele desviou sua boca para murmurar em meu ouvido.

— Uma gata selvagem vulnerável... isso me deixa excitado.

Fechei os olhos, reprimindo a ânsia de vômito. Na verdade, até seria uma boa ideia vomitar.

— É agora ou nunca. – ele continuou a falar, agora era uma pergunta séria. – Fica comigo ou ligo para Tifanny e conto toda a verdade?