— Já está tudo pronto? – gritei, terminando de fechar a minha mala. Íamos até o aeroporto de carro, e o resto do caminho de avião.

— Só falta você. – Renesmee, irritante como sempre, tratou de me revidar.

Revirei os olhos e desci as escadas. Ela estava se despedindo de Claire.

— Prometam que tomarão cuidado. – ela pediu, pela milésima vez. Ela ficaria em casa com Embry, Mendy, vovó e vovô, junto das crianças. O restante estaria conosco.

— Nós prometemos. – Renesmee falou, também pela centésima vez. – Eu já disse: ela é apenas uma. Nós somos em muitos.

Claire não queria nos deixar ir.

— Claire, vamos perder o avião. – falei, abraçada a ela. – Cuide de você e do bebê, ok? Não fique ansiosa, não é bom.

— Se acontecer algo com alguma de vocês, eu mesma caço essa vampira e a mato. – ela falou embargada, me fazendo rir.

— Relaxa, Claire. – Derek a confortou, seu sorriso denunciando alguma piada para melhorar o clima. – Eu cuido deles todos, sabe? Se não fosse por mim, essa família já estaria perdida.

— Não vai ser preciso. – lhe garanti enquanto ela se afastava relutante de mim. – Ela já era.

Eu falei com tanta confiança que eu mesma acreditei. Fungou e assentiu com a cabeça.

— Vamos? – Seth perguntou, passando a mão ao redor da minha cintura.

Respirei fundo e assenti.


* * *


Abri meus olhos escutando a voz da aeromoça avisando que o avião estaria pousando. Bocejei e me estiquei. Ao meu lado estava o meu amor. Ele mexia em meu cabelo e analisava meu rosto.

— Quantas vezes tenho que dizer para não fazer isso? – perguntei, com a voz rouca, olhando em seus olhos.

— O que? – falou, inocentemente sorrindo torto.

— Odeio quando você me observa enquanto eu durmo. Isso é embaraçoso. – reclamei. – Eu devo estar muito bagunçada.

— Está linda. – ele sussurrou e me beijou na testa.

Suspirei com barulho e me aconcheguei em seu peito.

Paramos em uma lanchonete, pois no avião não me deu fome. Mas depois mudei de ideia e resolvi me alimentar além da caça. Não queria ter nenhum momento de fraqueza por fome.

— Não é muito bom, mas compensa. – falei, após engolir o terceiro pedaço do meu cachorro quente.

Eu não parava de pensar no meu filho. Eu queria apenas pegá-lo em meus braços e ir para onde ninguém jamais nos encontraria. Onde ninguém perturbaria. Eu jamais em um milhão de anos me arrependeria de o ter tido, mas as vezes durante essa tormenta eu penso que ter tido um filho pode ter sido muito arriscado. Parece que quanto mais eu oro para que meus amigos e família fiquem sãs e salvos, mais os coloro em risco.

Mas agora eu tinha que me manter focada. Se eu me distraísse com saudades e preocupações, alguém sairia ferido.

Suspirei longamente, olhando as pessoas que eu amo. Nessie, Jake e Seth estavam ao meu lado, também devorando algo. Dei uma olhada atrás de mim. Meus tios e tias, mamãe e papai estavam jogando futebol na área vazia. Eles riam, se divertiam.

Uma pontada de tristeza me bateu ao me lembrar novamente de quando os Volturi vieram, e depois tivemos alguns anos de paz, porém agora estão voltando. Será que esse seria o nosso destino?

— Você está bem? – Seth me acordou do meu transe. Virei a olhá-lo no mesmo instante, surpresa.

— Estou. – apertei sua mão, tentando mostrar certeza em minhas palavras. Nada de preocupar ninguém.

— Tem certeza? – ele passou a ponta dos dedos em minha mandíbula.

— Aham. – suspirei, e lhe dei um breve beijo.

Eu gostava de como a sensação dos nossos lábios juntos me trazia conforto.

Eu me assustei quando senti algo vibrar no meu bolso. E adivinha quem era?

Suspirei antes de atendê-lo.

— Claire, a gente está bem.

— Nossa, nem sabe para que e ligo e já vai falando assim comigo?

Suspirei. Decidi entrar em seu jogo.

— Tudo bem. Desculpa. O que você quer então?

— Não posso apenas querer falar com a minha amiga? Estou magoada.

— Você é tão fingida. – zoei. – É sério, logo isso acaba e a gente volta para casa. – prometi. – Agora tenho que ir.

— Okey, amiga. Se cuida, por favor. – ela pediu, sua voz denunciava que ela estava implorando.

— Claro, Claire. – respondi, revirando os olhos. – Depois de ligo.

— Tchau.

— Tchau.

E desliguei.

— Essa garota é muito preocupada. – Seth reclamou, e eu ri.

— Essa Claire é maluca. – Der riu da própria piada sem graça.


* * *


Uma e meia e ponto da madrugada. Era essa a hora marcada e ela ainda não estava lá.

— Calma, Carlie. – falei comigo mesma, me mexendo inquieta e nervosa. – Ela não vai demorar.

O parque estava deserto. Não havia ninguém por lá, e eu dei graças a Deus por isso.

A noite parecia fria, apesar da temperatura amena. Estava calmo ali, um clima ótimo para aproveitar mesmo na madrugada. As estrelas podiam ser vistas de forma nítida no imenso mar azul escuro, e o brilho encantava os olhos de qualquer um que as visse.

Eu não queria falar, mas ficar ali me dava arrepios. Apesar do lindo parque deserto, a futura presença de uma vampira sádica mudava tudo. Sei que minha família não deixaria nada acontecer comigo, mas não diminuía o pavor de ficar em um lugar “sozinha” com Tifanny.

— Pontualidade. – pulei ao ouvir sua voz a alguns metros de distância a minha esquerda. Há quanto tempo ela estava ali me observando? – Admiro isso nas pessoas.

Engoli em seco. Me faltaram palavras. O medo não me deixou fazer nada. Eu travei.

— O que foi, Cullen? – ela falou, se aproximando lentamente de mim. – Está com medo de mim?

— Não tenho medo de você.

Ela riu, e eu não soube se ela havia detectado a mentira na minha voz.

— Espero que não tenha trazido ninguém da sua família, como foi o trato.

— Eu não colocaria nenhum deles em risco por sua causa.

Ela riu, mas parecia estar se controlando para não perder a linha com minha língua afiada.

— Esperta. – murmurou baixinho.

— Outra coisa em mim que eu mesma aprecio: eu procuro obedecer ao que me mandam. – falei, secretamente me referindo ao fato de minha família ter dado a ordem de virem também. Tentei não sentir tanto medo ou não dar nenhuma brecha para me entregar na confissão camuflada.

— Hummm. – ela murmurou, continuando a se aproximar com cautela, nunca reto em minha direção, sempre para o lado ou para trás, surpresa com minhas palavras. – Pena que você não vai ter mais tanto tempo para apreciar essas suas qualidades, querida. – ela falou. Seu tom de voz se modificou um pouco; ficou mais amigavelmente falso do que já estava. – Porque este é o seu fim.

De abrupto ela me segurou pelo pescoço e me tirou do chão. O ar me faltou de imediato. E antes que ela pudesse fazer mais qualquer coisa, meu pai e tio Em apareceram e a seguraram.

— Sua pirralha! Eu sabia que não estaria sozinha! – ela gritou para mim, tentando sair do aperto dos dois. – Eu também não sou idiota assim.

E então dois jovens apareceram perto dali, e eu dei um pulo para trás de susto pela súbita aparição deles. E acabei caindo no chão.

— Peguem-na! – ela gritou, olhando para mim.

Arfei e tentei me arrastar para trás, mesmo sabendo que era inútil considerando que tinham dois vampiros de qual raça que fosse, prestes a me matarem.

— Não tão depressa. – tio Jasper apareceu por trás, e segurou um.

— Não vai encostar um dedo nela, seu desgraçado! – Seth segurou o outro com ajuda de Jacob.

— Carl, vem cá! – eu fui puxada para cima pela Nessie.

— Me larguem! – o vampiro rosnou, tentando se livrar de Seth e Jacob.

Não sabia o que havia acontecido. Estava escondida no ombro da minha irmã. Mas ouvi vagamente minha mãe sussurrar que esqueceram o isqueiro e então ela não estava mais lá. Ness ficou tensa de repente. Decidi olhar.

Eu me desesperei. Ela estava com Seth em suas mãos. Suas mãos posicionadas em sua cabeça num mata-leão, a qualquer força que ela colocasse poderia ser o fim da vida do meu amor.

— NÃO, POR FAVOR! – lhe implorei dando um passo em sua direção, e logo meu pai me prendia no lugar. Colocou seus braços ao meu redor, e os meus se prendiam aos lados do meu corpo. Minhas costas coladas ao seu peito, numa tentativa sucessiva de me manter no lugar. Eu sabia que Seth lhe pedira isso: me manter longe do perigo. – Largue-o. Eu faço o que você quiser!

— Carlie, não faça isso. – Seth engasgou, seu rosto vermelho por conta da pressão em seu pescoço. Meu coração se apertou, e eu não conseguia concentração o suficiente para expandir o meu poder e ler sua mente.

— Já que estamos negociando, vampirinha... – Tifanny começou, como se estivesse falando sobre um filme sem graça. – Eu não vou largá-lo, mas também não vou machucá-lo.

O alívio me preencheu com a surpresas dessas últimas palavras, apesar de não confiar nela. Afinal, Seth ainda estava em seus braços.

Eu sabia que minha família não deixaria nada acontecer ao Seth, mas eles não podiam fazer nada arriscado. Com apenas um movimento e seu corpo sem vida cairia no chão...

— Eu o liberto... se mordê-lo.

Fiquei atônita. Eu não poderia mordê-lo. Se só com o cheiro do sangue de Derek já me descontrolei uma vez, morder alguém seria mil vezes pior.

— O que me diz? – Tifanny perguntou, me olhando desafiadoramente.

Engoli em seco, meus olhos presos no meu amor. Eu não conseguiria. Eu tinha certeza. Mas que escolha eu tinha?

— Carl, você sabe que não consegue. – meu pai falou junto ao meu ouvido. Sua voz era de aviso, e não de dissuasão. Ele me apoiaria no que eu decidisse, apesar das consequências.

Eu tenho que tentar. Não posso deixá-lo simplesmente morrer. Consegui projetar essas palavras em sua cabeça, sem tirar os olhos de Seth. A dor do meu pai de me ver passando por isso me envolveu, e eu me senti terrível em estarmos nessa situação.

Só quero você segura, meu bem. Ele me assegurou, me deixando saber que não achava nada disso minha culpa.

Tifanny sorriu diabólica. Ela queria que eu falhasse, queria que eu mesma matasse o homem que eu amo.

— Pense bem. – a voz do meu pai saiu baixa, e cautelosa, enquanto ele me soltava. Tive que me segurar para não correr para seus braços quentes.

Minha respiração estava pesada, por mais que eu tentasse estabilizá-la.

— Carlie, não faça isso. – Seth implorou. Ele não temia por si próprio, mas sim o quanto eu iria sofrer se não conseguisse parar.

— Eu tenho que tentar. – falei, dando passos cautelosos até os dois.

Eu não desgrudava meus olhos, agora de Tifanny, calculando o jeito que ela o segurava, tentando pensar em alguma forma de tirá-lo. Mas eu não era tão forte e muito menos tão rápida quanto ela. Droga. Iria mesmo ser do jeito dela.

— Carl, não faça isso consigo mesma. – implorou outra vez. O ignorei.

Quando eu estava frente a frente com ele, ela o soltou, dando um passo para trás, porém atenta a mim e ao meu pai atrás de mim.

— Não... – Seth sussurrou, numa voz falha, provavelmente sabia que eu faria de tudo para tê-lo vivo, até me arriscar a isso. Mas eu tinha que parar, eu precisava parar. Era o amor da minha vida em frente a mim.

Me perdoa.

Perdão se eu não conseguisse parar, por não ter atendido ao seu pedido desesperado. Coloquei a mão direita ao lado esquerdo da sua cabeça, e a outra em sua nuca.

Fechei os olhos e afundei meus dentes em seu pescoço: nunca havia sentido nada tão delicioso e extasiante em toda a minha vida. Aquilo era inexplicavelmente prazeroso. O melhor sexo que tive na minha vida perdia para essa sensação. Eu me sentia viva, poderosa. Um urso? Nem se comparava. Um leão da montanha? Ficava no chinelo. Nem se compara. Nada se compara.

O fluxo corria pela a minha boca garganta abaixo, e eu queria mais. Eu queria que o meu corpo explodisse de satisfeito, que eu suspirasse pesado de estar cheia. Eu não conseguia parar. Eu simplesmente... não conseguia. Era bom demais. Viciante demais.

— Carl, pare. – Seth pediu, com as mãos em minha cintura, me empurrando firme para trás.

Eu tentei, juro que tentei, mas eu estava num tipo de delírio que tinha nome: frenesi. Meu pai já falara sobre isso comigo, e era exatamente o que estava se passando. Eu estava presa nesse maldito frenesi. E por conta disso, grudei mais ainda seu corpo ao meu, não querendo espaço entre nós.

Gemi ainda com os dentes em seu pescoço, tentando sair daquela maldita e deliciosa armadilha.

Escorreguei minha mão que estava em seu rosto para o seu peito, e mesmo minha cabeça me ordenando a continuar, empurrei seu peito com força por causa da minha fúria, o fazendo cair no chão. No meu desespero de me afastar para trás, para longe de seu sangue extremamente atrativo, tropecei em meus próprios pés e caí. Ofegante, e não acreditando que consegui parar, me afastei e fiquei aliviada de sentir meu pai me pegando do chão.

Senti vergonha quando ele me olhou, e eu senti o líquido do sangue escorrendo pelo canto da minha boca. Seus olhos ficaram imediatamente negros, mas eu reconhecia seu autocontrole.

Meus olhos voaram para Seth, temendo Tifanny tê-lo pego de novo. Ele estava no chão, me olhando orgulhoso. Eu fiquei incrédula. Ele devia estar agora mesmo me odiando por ter feito o que fiz.

Tifanny estava nos braços dos meus tios, se contorcendo como se tivesse levando choques.

Olhei ao redor e vi mamãe com uma fúria selvagem em seus olhos. Ness estava com Jake, mais afastados. Eu não via Derek, mas não conseguia encontrar minha voz para perguntar dele.

— Sua vadia nojenta, eu sabia que não viria sozinha! – Tifanny rosnou, em meio aos tremores.

De repente dois vampiros lutavam contra tio Jasper e tio Emmett.

Não sei como que tio Jazz, Seth e Jake conseguiram derrotá-los, pois havia escondido a cabeça do pescoço do meu pai, como uma covarde que sou. Se acontecesse algo com algum deles, eu me culparia muito. Assistir à luta era demais para mim.

Mas agora estava um pouco melhor. Faltava apenas Tifanny, que não conseguia usar seu poder contra nenhum de nós graças a mamãe.

— Sua desgraçada! – mamãe lhe deu um soco na cara. – Isso é para você aprender – ela chutou a dobra de seus joelhos, a fazendo cair ajoelhada ao chão de grama da praça. – a não mexer com a minha filha!

E arrancou sua cabeça com as próprias mãos.

Meus joelhos cederam ao chão. Minha boca escancarou, vendo o corpo morto de Tifanny decapitado. Um peso que eu nem sabia que carregava nos ombros evaporou, e eu pude respirar livre novamente.

— Oh, meu Deus. – lágrimas de descrença desceram pelo meu rosto. Finalmente minha família e eu estávamos livres dessa ameaça persistente igual chiclete na sola do sapato. Papai veio me levantar do chão, e abraçou um corpo mole de alívio e cansaço. Eu não conseguia tirar os olhos do cadáver.


* * *


Depois foi explicado que Derek teve que sair correndo antes de eu morder Seth, pois seria um problema ele se descontrolar. Seth e Jacob ficaram para jogar fogo no corpo decapitado. Meus pais e tios foram na frente com Der, e nos deixaram para cuidar do resto.

— Eles estão demorando. – apontei, começando a ficar aflita.

— Relaxa, olhe! Eles estão logo ali. – disse, e dava para ver os dois andando na frente do carro. Havia acontecido algo, Seth não estava com a cara muito boa.

— Seu idiota. – Seth exclamou, entrando no carro após ele. Ele não estava muito contente. Estava emburrado ou furioso, na verdade. E Jake apenas se divertindo com a situação. – Essa porra dói! – e fechou a porta com força.

— Jacob, Jacob. O que você fez para Seth estar xingando desse jeito?

Ele nunca foi de xingar. Pelo menos, não na minha frente.

— Ahh, eu apenas encostei um palito quente nele. – Jacob deu de ombros e deu a partida no carro.

— Um palito? – perguntou, incrédulo. – Ele jogou uma tocha acesa em mim!

— Jacob! Você quer que eu fique viúva, matando o meu marido? – abri um sorriso de lado, brincalhão.

— Cegos por aí é o que não faltam.

Me estiquei no banco e lhe dei um soco no braço.

— Droga, menina! Você bate igual homem. – sibilou Jacob, esfregando o braço.

Sorri, orgulhosa de mim mesma. Voltei a me encostar no banco.

— E como está se sentindo, Carl? – Jacob perguntou, agora voltando a prestar atenção na estrada.

— Muito aliviada. – suspirei e fechei os olhos, me lembrando de que não seríamos mais incomodados por Tifanny. – Agora ela não pode mais machucar nenhum de nós, mal posso acreditar nisso.

— Sim, isso é um alívio enorme. – concordou Renesmee e Seth, junto a Jacob.

— Agora, vamos logo, por favor. Quero chegar rápido em casa. – bocejei e me deitei na janela.


* * *


— Carlie, Nessie! – Claire e Mendy gritaram assim que passamos pela porta da frente, e correram para nos abraçar.

— Eu disse que ficaríamos bem. – falei, retribuindo o abraço.

— Bem, tirando que Carlie teve quase um ataque de pânico e tropeçou bem na hora que deveria fugir. – Renesmee caçoou da minha cara.

— Que mentira! – revidei. – Eu não tive um ataque de pânico. – ela abriu a boca para falar, mas continuei rapidamente. – E nem um quase ataque de pânico. Eu apenas me assustei com o vampiro que apareceu subitamente na minha frente, e eu tropecei. Não tem nada a ver com pânico. Não mesmo.

— Ain, senti tanto a sua falta. – Claire me abraçou novamente. – Cheguei até a pensar que nunca mais te veria.

— Estou aqui. Relaxe.

Ela riu e se afastou.

— Quero ver meu filho. – declarei, o que eu estava querendo desde antes de chegar.

— E a Sarah? Também quero vê-la. – Nessie disse.

— Estão lá em cima, no segundo andar. – vovó Esme disse, entrando pela porta da frente. – Oh, meus queridos. Como estão? – ela abraçou a mim e a Renesmee, e depois Seth e Jacob.

— Melhores do que nunca. – Nessie garantiu, e eu refleti seu sorriso.

— Vamos ver nossos filhos. – puxei Nessie pela mão escadas acima, e senti Seth e Jake atrás de nós duas.

Chegamos ao meu quarto e abri a porta. Na cama de casal estavam as duas crianças dormindo profundamente uma do lado da outra, parecendo até irmãos.

Seth e eu fomos sentar ao lado de Harry, enquanto Nessie e Jake sentavam perto da Sarah.

Harry dormia tão tranquilo em seu sonho, que era lindo vê-lo escapando da terrível realidade. Eu gostava de ver ele assim. Desse jeito, ele não precisava se preocupar com nada. Não precisava enfrentar o mundo a fora agora. Uma criança de quase um ano que parecia ter três.

O que será que Harry viria a se tornar no futuro? Um híbrido, vampiro e lobisomem? Ou humano e vampiro? Humano e lobisomem? Os três juntos ou misturados?

— O que acha que eles vão se tornar quando crescerem... ou sei lá quando? – sussurrei, não querendo o acordar.

— Não sei. – ele sussurrou. Colocou o braço ao redor da minha cintura, e apertou de leve.

— Tenho medo. – minha voz falhou.

Nessie e Jake me olharam, como se aquilo também os tivesse afetado. Eles estavam numa posição tão linda. Sarah estava deitada, Nessie estava deitada de lado ao lado dela, Jake por trás dela, com a mão em sua cintura. Seth estava deitado um pouco afastado de Harry, e eu estava sentada entre os dois, apenas observando meu anjinho dormir.

Comecei a cogitar se seria mais seguro que Harry ficasse um tempo longe dos vampiros. Eu tinha medo de minha família ativar algo no gene dele, e ele tivesse uma transformação precoce. Igual aconteceu anos atrás com a vinda de tantos vampiros para a mansão em Forks, e lobos se transfiguraram antes do tempo, porque precisavam cumprir com seu dever de proteger os humanos dos frios.

Seth, vamos sair um pouco? Precisamos conversar. Falei mentalmente para ele.

— Vamos. – ele falou, se levantando, e depois me puxou pela mão para me ajudar. – Podem cuidar dele enquanto estiverem aqui?

— Claro que sim. – Nessie respondeu, sorrindo educadamente, acariciando a feição da filha. Eu não conhecia tia mais bobona que minha irmã. E podia apostar que ela diria o mesmo de mim.

Seth pegou minha mão e descemos as escadas.

— Aonde vão, posso saber? – papai perguntou, do sofá, aonde estava com a mamãe, assistindo a um filme.

— Vamos passear pelo condomínio. Meus tios já foram embora? – falei, parando.

— Foram para casa. E Mendy também. Eles têm sua própria casa, querida. – mamãe respondeu, rindo. Às vezes eu era tão acostumada a tê-los em casa, que as vezes esquecia de que não morávamos mais juntos.

— Sim. – suspirei. – Acho que nunca vou me acostumar com a ideia.

Ou talvez sim... pensei comigo mesma, sobre o meu pensamento que tive no quarto.

Eles riram e voltaram sua atenção um para o outro, ao invés de para a TV.

Seth e eu continuamos nosso caminho para fora de casa, mas desta vez para a quadra de basquete. Eu não queria que meus pais ouvissem a conversa. Não agora.

Chegamos lá, havia alguns garotos tentando acertar a cesta num jogo livre.

— O que quer conversar, minha linda? – ele perguntou.

— Sobre o futuro do nosso filho. – declarei. – Não quero que o fato de estarmos perto de vampiros interfira em qualquer coisa no crescimento dele. Quero dizer...

Dei uma breve pausa enquanto nos sentávamos em um banquinho. Ele se sentou, e me puxou para sentar no seu colo.

— Eu amo demais a minha família, mas eu quero o melhor para o Harry.

— Eu te entendo, amor. – ele acariciou meu cabelo. – Eu também não gostaria de que o crescimento dele alterasse em algo.

Suspirei longamente. A ideia de deixar a minha família era de partir o coração, mas a de Harry se prejudicar era pior ainda. Assim como os quileutes se transformam na presença de vampiros, Harry ou Sarah poderiam ser afetados também. Eu não suportaria ver meu filho se tornando lobisomem tão cedo, ou crescendo rápido demais aos aparente três anos. Como uma mãe pode lidar com isso? Já é difícil esse crescimento natural, imagine um afetado.

— O que acha de ficarmos alguns anos com a nossa própria casa, em um lugar afastado da minha família? – sugeri. Por enquanto eu estava assim, relaxada. Mas depois... viria o terremoto. – Para que o nosso filho tenha um lugar onde crescer, apenas nós três? Sabe, eu me lembro de quando fomos para a ilha da mamãe, foi muito bom ficarmos nós quatro, sozinhos. Deu tempo de crescermos como pais e filhas. Deu muito certo, apesar da distância ser uma droga total.

— Minha tagarela. – ele sussurrou, sorrindo um pouco, e me deu um selinho.

— Então?... – perguntei, querendo saber o que ele achava disso.

— Temos que conversar com os seus pais, primeiramente. Quero dizer, em segundo lugar, já que a vida é nossa e o filho também, então somos nós que vamos decidir isso. – ele falou. – Mas a opinião deles também é muito importante.

— Acho que eles vão ficar chateados. Agora são avós. – ri. – Ficar longe dos netos não vai ser fácil.

— Ei, vocês dois! – ouvimos a voz de Renesmee um pouco distante, e olhamos em sua direção. Ela estava com Jake.

— Ei, casal apaixonado.

— Olha quem fala. – ela me retrucou, nos observando de cima para baixo de brincadeira.

— Todos somos. – Jacob falou, acabando com aquilo, e rimos. – E então, o que estão conversando?

Ele se sentou e puxou Nessie para o seu colo, também.

— Por favor, não me digam que é sobre sacanagem. – ele dramatizou, fingindo cara de nojo.

— Claro que não, seu pervertido! – exclamei, não tão alto. – Afinal, aqui não é o melhor lugar para isso.

— Argh! – os dois fizeram ao mesmo tempo.

— É como dizem, quem procura, acaba achando o que não deve. – dei de ombros, rindo.

— Mas agora falando sério. – Jake disse. – O que estavam conversando?

Suspirei de forma pesada.

— Estamos pensando em passar umas temporadas fora. – soltei.

— Como assim? – Nessie franziu o cenho em confusão.

— Queremos um futuro seguro para Harry. – Seth explicou.

— E aqui não estamos seguros? – ela perguntou confusa.

— De certa forma, sim. – me precipitei a falar. – Sabemos que com a nossa família, estaremos sempre seguros. Mas estamos falando sobre Harry ser lobisomem, sobre o que ele pode se tornar na presença de vampiros.

— Estamos com eles desde que nasceram, será que pode alterar algo, mesmo assim? – falou ela, parecendo afetada com as minhas palavras.

— Não sei, mas não quero arriscar meu filho apenas para não me magoar. – respondi fraco. Sim, essa era a única escolha que eu poderia fazer.

— Pensando por esse lado... – Jake começou, olhando para minha irmã. – Acho que Carlie está certa. Sarah pode estar desprotegida perto de vampiros. Não sabemos se ela tem o gene, mas Leah está aí.

— Temos que falar com o papai e a mamãe. – comentei. – Eles não vão gostar muito da ideia, mas a vida é nossa.

— Tem razão. – suspirou ela.

Deitei no ombro de Seth e tentei me distrair olhando para os garotos do condomínio jogando dentro da quadra. Estava deixando minha cabeça pesada. Deixando-me culpada por causar essa dor neles. Mas é a vida do meu filho que poderia estar em risco.


* * *


PDV Renesmee.


Eram quase dez e meia quando decidimos voltar para casa. Fiquei surpresa de os meninos ainda estarem dormindo. E meus pais ainda na sala, namorando.

Aquilo que Carl disse não saia da minha cabeça. Eu estava pensando seriamente nisto. Será mesmo que eu estava colocando minha filha em perigo ao ficar com a nossa família? Eu temia profundamente que sim.

Meus pais decidiram passar a noite fora para dançar. Derek sequestrou nossos filhos para o porão, pois queria os ensinar a jogar. Melhor. Assim eu conseguiria conversar com Jake sem precisar esconder nada.

— Vem, vamos conversar. – o puxei para o meu quarto. Ele se deitou na minha cama após se livrar do tênis e da camiseta, e eu me livrei da calça jeans.

— É sobre aquilo que a sua irmã falou? – ele perguntou, me olhando.

— Eu fiquei um pouco preocupada. – admiti. – Será que Sarah não está correndo perigo com a nossa própria família por perto? Isso parece sem sentido, falando assim, mas ainda se encaixa no que estou dizendo, no caso.

— Não sei, meu amor. – ele suspirou, fechando os olhos. – Eu realmente não sei o que pensar. A ideia de deixar Sarah virar loba tão cedo não me agrada em nada.

— Nem a mim. – me joguei na cama ao seu lado. – Está decidido. Vamos conversar com eles, amanhã. Assim que a gente acordar.

Ele concordou.


PDV Carlie.


— Está decidido, então. – falei, tirando minha calça e colocando uma blusa de frio. – Amanhã falaremos com meus pais. Tenho certeza de que eles nos apoiarão.

Seth assentiu.

Acordei de manhã com os amores da minha vida ao meu lado. Não estava com coragem de levantar, pois além da preguiça, eu não queria enfrentar a possível discussão. Mas adiando isso ou não, geraria a mesma coisa, então para que deixar para mais tarde?

Me levantei da cama, meio sonolenta, e rodeei a cama.

— Seth, meu amor, acorde. – sussurrei perto de seu ouvido, o balançando de leve. – Temos de conversar com os meus pais.

Depois de alguns segundos insistindo, ele finalmente despertou. Fui dar banho no Harry e o coloquei em seu cantinho no quarto de brinquedos. Não havia como ele se machucar.

Desci as escadas depois de sair do banheiro após um delicioso banho. Entrei na cozinha e dei um sorriso fraco ao ver meus pais, Seth, Jake e Nessie sentados na mesa de jantar, que as vezes costumávamos nos reunir para conversar algo.

— Chegou quem faltava! – exclamou Nessie, sorrindo.

— Estou aqui. – falei, me sentando ao lado de Seth.

— Então? O que era tão urgente? – mamãe começou, me olhando.

— Bem, mãe, não sei como começar isso... – cocei minha cabeça com a mão que estava apoiada na mesa. – Nessie, quer ser voluntária?

— Bem... Carl e eu estávamos pensando sobre o futuro de nossos filhos, e chegamos a conclusão de que não queremos que o crescimento deles seja afetado por morarmos com vampiros.

Meus pais abriram a boca para discutir, ao mesmo tempo, mas me antecipei.

— Queremos morar apenas nós três e... Hmm, eles três por um tempo como uma família, assim como fizemos.

O olhar no rosto dos meus pais fez um arrependimento amargo derramar dentro de mim. Aquele olhar era tudo o que eu menos queria.

— O QUE?

Olhei para a direção da voz. Derek.

— Mas vocês... são muito jovens ainda. – a voz dela tremeu.

— Mamãe, somos mães agora. – minha irmã falou primeiro. – Temos responsabilidade o suficiente e você sabe disso. Não pode nos negar de construir nossa própria vida, assim como fizeram.

Ela a olhou sem falar nada. Tenho certeza de que ela estaria chorando se fosse humana.

— Não quero que vocês vão. – ela sussurrou.

— Vai ficar tudo bem, mamãe. – murmurei, e fui abraçá-la com a Nessie.

— Vocês estão mesmo partindo? – Der sussurrou, desolado. — Como assim? Para onde? Por quê? O que houve?...

— Derek! – Nessie chamou sua atenção, o fazendo calar a boca.

— Não sabemos ainda, mas é para a segurança de nossos filhos. – completei.

— Que? – ele franziu o cenho em confusão.

Explicamos tudo a eles. Apesar de tudo, nos compreenderam.

— Não acredito que estão nos deixando! – ele nos abraçou, e retribuímos no mesmo instante.


PDV Bella.


Não acredito que minhas filhas vão morar longe.

— Eu sei que é difícil, amor. – Edward tentou me fazer sentir melhor. Elas tinham saído um pouco para a casa dos tios delas, enquanto eu ainda estava sentada na mesa em que acabamos de ter a discussão. – Mas as criamos corretamente. Agora temos que ter forças para lhes dar asas. Elas sabem que têm suas raízes para voltarem quando quiserem. Para nós.

Solucei sem lágrimas. Eu não queria as deixar ir.

— Eu sei que é difícil, B. – Derek falou comigo. – Mas elas são mulheres. Sabem o que fazem da vida.

— Tem razão. Eu vou dar meu apoio.

Der e Edward sorriram, orgulhosos de mim.

Eu sei que não estava sendo fácil para nenhum dos dois. Era apenas uma máscara para esconder a dor e a chateação.


PDV Carlie.


Havia se passado apenas uma semana desde a nossa decisão. E como era para a segurança dos bebês, não queríamos demorar, e passávamos os dias em casa, como se tivéssemos nos mudado. No começo eles ficaram chateados por não irmos mais vê-los, mas depois compreenderam o que queríamos. Papai já havia comprado as casas em Waco. Uma cidade mais afastada, porém, nada nublado em excesso. Éramos livres para sairmos no sol. Iríamos partir logo, e só iríamos nos ver na despedida. Talvez seja exagero da nossa parte, mas era como nos sentíamos seguras.

Eu me sentia culpada pela Nessie, por trazer isso à tona. Mesmo que isso tenha dado um click em seus pensamentos, eu que iniciei o assunto. Brady ficou terrivelmente confuso, e Ness por sua vez o chamou para morar com eles. Ele não pensou duas vezes em aceitar.

— Não acredito que estão nos deixando. – mamãe me abraçou, e depois a Nessie.

— Vai ser melhor para nós, mamãe. – Nessie falou, e papai me abraçou. Ele não dizia nada, mas eu sabia como ele se sentia.

Minha família se despediu não tão longamente de nós seis. Uma despedida chata e dolorosa, porém necessária.

Última chamada para o voo 724.

Senti um aperto no coração ao ouvir a voz.

— Acho que é a nossa deixa. – suspirei, lamentando. Seria muito difícil acostumar longe deles. A gente nunca se separou desse jeito. Mas confesso que as últimas vezes fez essa despedida ser menos dolorosa do que deveria ser.

— Se cuidem, crianças. – tia Alice falou, grudada ao tio Jazz, que sorria tristemente. Também era difícil para ele.

— Adeus. – tia Rose quase chorou.

— Não, isso não é um “adeus”. – Nessie corrigiu, enquanto pegávamos as malas.

— É um “até logo”. – completei sua frase, pegando Harry e Seth as malas.

Acenamos enquanto prosseguíamos para a sala de embarque.