A Infância de Inu Yasha
18 Capítulo 18: Entre confusões e ósculos
A garota corre por entre as árvores na direção em que supõe que o amigo que salvara sua vida e a de sua mãe estivesse. Ao ver a trilha respingada de sangue que se formou no chão da floresta ela se desespera mais e aperta o passo. Tinha a impressão de que não ia chegar nunca ao seu destino, mas para sua alegria ela estava errada. A uma certa distância pôde visualizar o hanyou, este estava sentado e recostado a uma árvore, seu ferimento ainda sangrava e seus olhos jaziam fechados. A garota se aproximou devagar, temendo o pior.
Ao ouvir um som de alguém se aproximando, o híbrido abre vagarosamente os orbes dourados fitando a menina à sua frente. Perguntava-se por que ela estava ali, será que era tola o suficiente para arriscar ser expulsa do vilarejo por ficar perto dele?
- Inu Yasha... Não devia sair andando por aí, está muito ferido. – ela fala com preocupação se pondo ao lado dele.
- Bah, estou bem! Daqui a uns três dias estarei curado. – ele desdenha olhando para outra direção.
- Desculpe... – ela diz num sussurro.
- O quê? – ele indaga confuso, a encarando.
- É por minha causa que você está assim... Foi para salvar minha mãe...
- Não seja boba! – ele interrompe – Por acaso não ficou feliz por sua mãe estar a salvo?
- Sim, claro! – ela responde de pronto – Eu agradeço muito por tê-la salvado.
- Então fim de papo! Não precisa se desculpar por isso! – apesar de seu costumeiro tom, ela entende o que ele quis dizer.
- Você... depois que estiver melhor.... Você vai embora? – ela pergunta triste.
- Sim.
- Entendo... – responde encarando o chão – Pelo menos... – ela recomeça olhando pra ele – Você poderia ficar até estar curado... Aqui mesmo, longe do vilarejo. Eu cuidarei de você até estar bom. – termina sorrindo, levemente corada.
Ele pensa em negar, mas ao ver a animação dela resolve aceitar. Afinal, não poderia mesmo sair andando por aí no estado em que estava.
- Está bem... ficarei por aqui. Mas só até estar bem para andar.
Haru segurou seus ímpetos de pular de alegria naquela hora. O olhou feliz e se levantou rapidamente:
- Vou buscar algumas coisas pra tratar desse ferimento.
- Não precisa!
- Como não? Você está sangrando até agora. – ela repreende.
- Já disse que não precisa de nada disso! – retruca emburrado.
- Você quem está sendo teimoso agora. – ela diz brincalhona, ignorando os protestos do hanyou partiu para o povoado intentando buscar ervas e outras coisas.
Com tudo aquilo a garota até se esquecera da confusão que se instalara no vilarejo uns instantes atrás. Mas ao chegar lá, via que as pessoas voltavam às suas tarefas, que agora incluiriam o conserto das casas quebradas pelo ataque do youkai. Alguns rumores a cerca do retorno de Inu Yasha ainda eram ouvidos pelas redondezas, mas visto que ele partira tão repentinamente quanto chegara as pessoas não davam mais tanta importância ao fato. Correu até sua cabana pegar algumas coisas que lhe seriam úteis.
[...]
Novamente só, o hanyou lembrava-se das palavras ditas pelo youkai a quem derrotou a pouco. Não conseguia tirá-las da cabeça desde o término de sua luta com o demônio devorador de humanos:
“– Os humanos são as criaturas mais medíocres e mal-agradecidas que existem, mesmo que você salve suas vidas arrumarão um jeito de odiá-lo mais tarde.”
Aquelas palavras mostraram-se verdadeiras tão logo quanto foram pronunciadas... Aqueles humanos o odiavam...desprezavam... Por quê? Por quê? Mesmo depois de tanto tempo ainda não conseguia entender o motivo de tanto ódio... O mesmo se dava pela parte dos youkais... o viam como se fosse um inseto a ser pisado... Daquele dia em diante, assim que fosse embora daquele lugar de más lembranças, nunca mais se envolveria com outro humano novamente... Ficaria longe dessas criaturas que não o desejavam por perto e não teria piedade daqueles que o desafiassem... Ao menos pretendia realizar seu intento...
Sons de passos apressados o tiram daqueles pensamentos. O cheiro familiar não o deixava se enganar de que era Haru se aproximando. A garota aparece com alguns tecidos e ervas curativas em mãos, se aproxima do hanyou com estes e o fita esperando que este tome alguma atitude ou diga algo. Ele a olha de volta sem aparentemente entender:
- O que foi? – pergunta grosseiramente, a sobrancelha arqueada.
- Preciso cuidar desse ferimento.
- Bah, já disse que não preciso disso! – ele teima.
Mas no que o hanyou achou que podia ser teimoso, Haru se mostrou muito mais. Por mais que ele negasse veemente a ajuda, ela insistia incansavelmente. Aquilo talvez não terminasse nunca se a garota não tivesse ameaçado chorar, resultando no hanyou acabar cedendo ao seu pedido. Estranhamente assim que ele aceitou, a garota desfez a expressão chorosa quase imediatamente...
Ela fica alguns instantes olhando o híbrido como se esperasse alguma coisa, deixando este um tanto desconcertado com a observação:
- Por está me olhando assim?
- É que... como vou fazer os curativos..? – ela pergunta olhando das ervas em sua mão para o haori do hanyou. Este finalmente entende a insinuação, como pôde se esquecer de um detalhe tão pateticamente vital?
Sem dizer uma palavra mais o hanyou começou a despir-se da parte de cima do haori vermelho e logo depois da gi branca que usava interior a esse, revelando os profundos cortes feitos pelas garras do youkai em seu peito. A garota que apresentava-se totalmente rubra tentava encarar um ponto distante em outra direção, sem muito sucesso porém. Ainda um pouco nervosa começava os cuidados tentando a todo custo ignorar a visão a sua frente. O hanyou parecia disperso enquanto fitava a paisagem ao redor, na verdade estava um tanto desconfortável com a situação, porém procurava não demonstrar.
A menina não pode deixar de notar que cicatrizes de lutas anteriores eram inexistentes em seu corpo, lembrou-se então de quando o hanyou disse que se curaria em três dias e imaginou que aquelas profundas marcas provavelmente também sumiriam sem deixar vestígio. Pegou-se imaginando como seria ter um corpo tão resistente, que se curasse tão rápido e nem sequer deixasse cicatrizes. Repreendeu-se mentalmente por pensamentos tão levianos e tentou se concentrar no que fazia, apesar tão simples tarefa parecer tão difícil naquela hora.
[...]
Após terminar o que viera fazer, a garota havia partido para o vilarejo dizendo que se ausentasse-se demais as pessoas certamente desconfiariam de algo. O hanyou continuava recostado à mesma árvore, como lhe custava fazer qualquer movimento mais amplo optou por continuar no mesmo lugar de anteriormente. Matinha os olhos fechados intentado descansar um pouco, porém as palavras e cenas daquela luta ainda lhe assombravam a mente. Aquilo realmente o havia incomodado, intentava em ir-se logo daquele lugar tão logo estivesse melhor, talvez assim voltasse a estar em relativa paz.
Mas outro fato daquela luta lhe veio a memória naquele instante... O golpe que havia efetuado contra o inimigo, um golpe impensado, dado num momento de desespero. Olhou as próprias garras ainda com odor do próprio sangue e do inimigo incrustado nelas. Ficou ainda um tempo tentando entender o que acontecera lá... Sem sucesso, porém, decidiu se conformar e, relativamente contente, aceitar que tinha descoberto um novo golpe.
Tornou a fechar os orbes dourados, desta vez conseguindo pegar no sono...
OoOoOoOoOoOoOo
Somente o som dos pássaros e da leve brisa a balançar as folhas das árvores podia ser ouvido naquela calma manhã que apenas se iniciava. Mas um som mais característico, de passos sobre as folhas secas se torna audível. Ainda que não um som alto, lhe era o suficiente para que a sensível audição o fizesse despertar.
Ao abrir os olhos, apesar de não precisar fazê-lo para saber que era Haru quem chegava, o hanyou vê a garota com uma cesta em mãos, um singelo sorriso estampava seu rosto.
- Ah, desculpe. Eu te acordei? – balbucia sem jeito.
- Não. – é só o que responde o híbrido.
- Deve estar com fome. Trouxe-lhe algo pra comer. – lhe diz mostrando a cesta, para logo em seguida sentar no chão próximo a ele.
Entrega-lhe uma das guloseimas e o fita enquanto lhe diz com um sorriso:
- Foi minha mãe quem fez. Ela queria lhe agradecer por tê-la salvo.
O hanyou nada responde, só permanece um tempo fitando a amiga que tanto se preocupava com ele, lhe fazia lembrar de sua própria mãe... A garota, constrangida com a observação tenta começar um assunto:
- Dormiu bem? – pergunta rapidamente.
- Ah...sim. – não era totalmente verdade, mas não tinha por que preocupá-la por tão pouco.
- E os ferimentos...?
- Estou bem!! – se impacienta um pouco.
- Não precisa ficar bravo. Só me preocupo com você! – ela também já começava a se irritar com a teimosia do hanyou.
- Bah! – limita-se a responder.
- Creio que também não vai me deixar ver se os ferimentos começaram a cicatrizar ou não. — ela diz desalentada. O hanyou arqueia a sobrancelha:
- Está louca pra me ver tirar o kimono de novo não é? — ele diz com um sorriso no canto dos lábios. Era meio desatento, mas não bobo, percebia como a garota havia ficado sem jeito antes, tentando desviar o olhar a todo custo.
- O-o quê?! — ela gagueja, agora corando furiosamente, o que fez com que o sorriso no rosto do hanyou se expandisse ainda mais ao ver o constrangimento da garota.
Ela ao perceber que ele escarnecia dela, faz um ar bravo e começa a dar pequenos golpes no peito do hanyou com os punhos fechados.
- Seu bobo! — ela fala ainda vermelha.
- Hey! Vai bater num cara ferido? — ele diz rindo enquanto a segura pelos pulsos.
Naquele momento, seus olhares se cruzaram e a garota não conseguia desviar seus orbes dos dourados a sua frente. O hanyou igualmente fitava aqueles olhos castanhos que não se desviavam dessa vez como das outras. Aos poucos a distância entre ambos foi diminuindo. O híbrido soltou os pulsos da garota, ainda sem desviar os olhos dos dela.
Haru finalmente acaba com a distância entre eles, colando seus lábios aos do hanyou. Este arregala os olhos, surpreso com a atitude inesperada da amiga... Intenta afastá-la, mas esta não deixa, agora envolvia o pescoço do hanyou com seus braços para que este não se afastasse. Este por fim desiste de afastar a garota de si e corresponde ao beijo, nunca havia feito aquilo antes, apenas seguia seus instintos. Envolveu-a pela cintura puxando-a mais para si.
Haru não poderia descrever naquele momento o que sentia ao sentir aqueles lábios nos seus. Seu coração batia como se fosse sair de seu peito a qualquer momento. Sentia o calor dele ali, junta a ela, como nunca achou que poderia.
O hanyou por sua vez se via ainda confuso com o ato, mas não podia negar que uma sensação boa o invadira naquele momento, apesar de não ter certeza do que estava fazendo. Quando enfim o ar lhes faltou tiveram que cessar o beijo. Ainda se fitavam, ambos corados, sem conseguir pronunciar nenhuma palavra...
Quando perceberam que ainda estavam abraçados desvencilharam-se rapidamente, cada um desviando o olhar para direções opostas. A garota tenta quebrar o clima desconfortável:
- Eu... vou voltar ao vilarejo antes que dêem por minha falta. — levanta-se em esperar resposta e ainda sem o olhar novamente vai em direção do dito cujo vilarejo.
O hanyou, ainda confuso, tentava entender o que havia acontecido ali. O que ela tinha feito? Afinal ela era sua amiga... não era? E que sensação quente e boa seria aquela que o invadira naquele momento e que o fazia querer que aquele instante se prolongasse muito mais...?
A garota por sua vez andava a passos lentos se lembrando de cada momento daquele beijo. Seu coração ainda batia muito forte até agora. Seu rosto ainda não recuperara a cor habitual, estando levemente rubro. Tocou os lábios, ainda descrente que aquilo tudo acontecera, deu um pequeno sorriso e continuou sua caminhada de volta pra casa...
[...]
Depois daquilo a garota voltou algumas vezes pra ver como o amigo estava e lhe trazer algo para comer. Porém ela não falava nada sobre o acontecimento anterior, e o hanyou apesar de também não comentar nada, estava ainda confuso e curioso em saber o que teria significado aquilo, situação pela qual passava pela primeira vez. A garota, porém apresentava-se muito arredia, evitava encará-lo nos olhos e sempre fazia visitas rápidas e logo em seguida voltava ao povoado dando desculpas de que não deveria demorar-se ali.
O hanyou não entendia o por que daquele comportamento repentino, talvez ela tivesse se arrependido do acontecido... mas ela não lhe dava chances de perguntar.
Haru voltava para casa, encontrando a mãe nesta. A genitora pediu informações sobre o estado do hanyou e pareceu feliz em saber que ele estava bem. Mas como mãe ela não pôde deixar de notar uma mudança na filha, era vaga com as palavras e parecia sempre estar dispersa em pensamentos, disfarçando tal comportamento quando lhe dirigiam a palavra.
- Aconteceu alguma coisa filha? – pergunta com preocupação.
- Não mãe. Não aconteceu nada. – mente – Mas, por que a pergunta?
- Você está estranha.
- Deve ser sua imaginação. – desdenha, voltando sua atenção à tarefa de separar os grãos de arroz de uma cesta.
A verdade era que a menina não tinha coragem de voltar a encarar o hanyou depois daquilo, e se sentia uma covarde por isso. Ela tinha medo que ele pudesse lhe dizer que aquilo foi um erro, lhe dizer que não devia ter acontecido, ou que simplesmente não a via como nada menos do que uma amiga. Suspirou como se com isso pudesse afastar seus pensamentos e tentou se focar na tarefa, torcendo para que sua mãe não desconfiasse e nem lhe perguntasse nada.
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