A Infância de Inu Yasha
17 Capítulo 17: Ataque
Notas iniciais
O silêncio daquela caminhada recaía sobre a dupla de maneira aterradora; o que parecia incomodar um bocado a Haru, mas certamente não incomodava ao hanyou, já acostumado ao silêncio, por viver sozinho tendo apenas a Myouga como ouvinte, porém, nunca fora muito de conversas afinal. Silêncio este, porém, que fora quebrado por um som estrondoso, ao que a garota assustou-se até:
- O que foi isso? – pergunta temerosa.
- Sinto cheiro sangue... muito sangue. – responde farejando o ar – Vem do vilarejo, foi atacado... – termina com uma calma assustadora.
- Oh não... – ela balbucia, temendo por todos na vila, mas especialmente por uma pessoa – Mamãe! – após dizer isso ela corre a toda até o povoado, deixando pra trás um indeciso hanyou.
Sem muito em que pensar ele a segue, pois junto ao cheiro de sangue, sentia misturado a ele o cheiro de um youkai. Ao chegarem, porém, se deparam com a bizarra cena de um enorme demônio destruindo o local, intento este já metade concluído. Casas despedaçadas faziam parte do cenário, contrastando com corpos mutilados espalhados pelo chão. O youkai matinha muito sangue em suas garras e sua face, um braço humano ainda jazia entre seus dentes...
Haru assistia a cena horrorizada e de tempos em tempos mirava o hanyou com desespero no olhar, como que silenciosamente pedindo-lhe ajuda.
O púbere ainda não sabia o que fazer quanto à cena que presenciava. ‘Será que lhe importava a vida daqueles humanos? Desejava salvar-lhes? Embora estes fossem hostis com ele, desejava sua morte?’ Todas essas questões passavam por sua mente em meros segundos apenas. Perguntas difíceis, para as quais não tinha resposta. Desejava naquele momento ter a frieza e segurança que seu meio-irmão parecia demonstrar no dia em que se conheceram, assim certamente não estaria naquele dilema... Mas assim certamente aqueles humanos ficariam abandonados à própria sorte...
Poderia facilmente virar as costas e partir, mas não o fez... O por quê dessa decisão ainda lhe era incerta, mas julgava ser por que uma amiga que precisava de sua ajuda dependia dessa decisão. Pois esta desejava proteger alguém que lhe era importante, assim como o hanyou também o quisera quando sua própria mãe estava às portas da morte... O grito da mesma amiga lhe tira dos devaneios repentinamente:
- MAMÃE!!! – ela grita com lágrimas nos olhos.
Ao olhar na mesma direção da púbere, o hanyou pôde visualizar o youkai cuja estatura facilmente passaria dos cinco metros de altura, este segurava uma assustada mulher em apenas uma das mãos. Ia levando-a em direção à enorme boca, onde outros tantos humanos já haviam encontrado seu fim.
A humana fecha seus olhos ao ver a proximidade com os enormes e afiados dentes do youkai aumentarem a cada segundo. Mas torna a abri-los quando sente ser jogada com força ao chão. Notou ainda estar presa entre os dedos da enorme mão do youkai, porém esta não estava mais presa ao seu braço.
O youkai atordoado olha para o que sobrou de seu braço decepado. A humana também tentando entender o que se passava olhava em volta até ver um garoto a olhar desafiadoramente para o youkai que a devoraria, pelo sangue em suas garras certamente fora ele quem a tinha salvo... Ela não entendia por que outro youkai a salvara.
Haru corre em direção a sua mãe, as lágrimas ainda manchavam seu rosto, porém seu sentimento era agora de alívio em ver sua ente bem. A ajudou a liberta-se da mão sem vida do demônio e lhe deu um terno abraço.
- Mamãe! Que bom que está bem.
- Sim, mas... O que aconteceu? – pergunta confusa.
- O Inu Yasha salvou a senhora. – ela lhe respondeu agora com mais lágrimas de felicidade.
A mulher estancou ao ouvir aquele nome. Voltou a olhar o garoto que a salvara e pode então reconhecê-lo. Era ele mesmo, o filho da princesa ao qual todos julgavam estar morto, e a qual ela mesma desejava que os boatos estivessem certos. Não pode segurar as lágrimas ao pensar que havia sido salva por aquele a quem não só ela, mas todos do vilarejo chamavam de monstro.
- Venha mamãe, vamos para um lugar seguro. – a voz da filha a ‘desperta’ e as duas procuram um abrigo por perto.
O youkai olha para seu oponente tentando entender o motivo da interrupção.
- Por que me atacou? Por que protegeu a humana? – ante a não reposta do outro, o youkai pareceu analisá-lo com mais atenção – Ah, entendi. Você é um hanyou. – após isso passou a gargalhar estrondorosamente, ignorando o braço decepado e o sangue que escorria abundantemente do local.
Inu Yasha cerrou os dentes e os punhos após a citação do youkai. Preparou-se para atacá-lo novamente, e assim que teve chance o fez. Pulou para cima do oponente, as garras preparadas para outro golpe, porém, o youkai desviou dele facilmente, acertando-o em seguida com suas enormes garras jogando-o para longe sem muita dificuldade. O hanyou se chocou contra algumas casas causando mais destruição e levantando uma espessa poeira.
- Como um hanyou ousa me desafiar e ainda fazer isto a meu braço!? – o youkai falava como se a perda do braço fosse nada mais que um contratempo passageiro.
As pessoas olhavam espantadas, ainda confusas com a briga entre youkais. As que ainda estavam ao alcance do demônio que os tinha atacado inicialmente aproveitaram a distração deste para fugirem e buscarem abrigo seguro. Outras olhavam de longe, curiosas demais para fugirem e salvarem suas vidas.
O hanyou levanta-se do meio dos escombros, meio atordoado. Não conseguia imaginar como o youkai desviara e contra-atacara tão rapidamente. Pôs-se novamente em posição de ataque e correu até o oponente novamente.
- Sankon Tessou! – gritou o golpe, certo de que desta vez acertaria o inimigo.
Qual não foi sua surpresa quando seu golpe nada fez além de alguns arranhões no enorme e volumoso corpo do youkai. Este aproveitando a proximidade do oponente, segurou o hanyou com aquela mão que ainda lhe restava, lhe envolvendo com os fortes dedos que terminavam em garras. Apertava cada vez mais a mão, arrancando alguns gemidos do hanyou, que tentava com todas as forças se soltar.
- Você é patético. Vindo me desafiar achando mesmo que podia vencer. – fala entre gargalhadas – Por que afinal um hanyou estaria defendendo humanos? – pergunta mais para si mesmo que para o outro.
- Cale a boca! – responde com dificuldade, conseguindo após muito esforço, libertar uma das mãos e cravando as garras na mão do youkai.
O mononoke, bravo, joga o hanyou longe, que desta vez consegue cair em pé no solo. O híbrido respira com dificuldade e ainda tenta recuperar o fôlego depois de ter quase sido esmagado pelo oponente. A certa distância, algumas pessoas cochichavam umas às outras, crendo que os youkais não as ouviriam:
- Quem é aquele? – uma voz masculina perguntava.
- É o filho da princesa, não se lembra? — uma outra voz lhe respondia.
- Aquele hanyou?
- Sim. Parece que ele voltou. – não se distinguia se seu tom era amedrontado ou indignado.
Após o longo silêncio que se seguiu entre os dois guerreiros enquanto se analisavam e indiretamente puderam ouvir os receios e mediocridades daquelas pessoas, o demônio sorria sarcasticamente como se houvesse descoberto um grande segredo:
- Agora entendo. – o sorriso sombrio tomando conta de sua face bestial – Então já conhecia essas pessoas... Será que pretendia ganhar o respeito e compaixão delas vindo aqui salvá-las?
O hanyou estreita os olhos e aperta os punhos, fitando furiosamente o inimigo a sua frente escarnecer dele, tentava-se convencer que aquelas palavras nada tinham de verdadeiro, que eram unicamente uma tentativa de irritá-lo...pois estava dando certo...
- Acha mesmo que qualquer coisa que fizer fará com que elas mudem a maneira como o vêem? – o youkai continuava a falar, ignorando a irritação do hanyou que aumentava a cada palavra – Os humanos sempre o verão como é....um demônio, um monstro que vai matar seus filhinhos assim que tiver chance. – sua voz escarnecida demonstrava seu prazer em ferir o inimigo com suas palavras. – Os humanos são as criaturas mais medíocres e mal-agradecidas que existem, mesmo que você salve suas vidas arrumarão um jeito de odiá-lo mais tarde. Por que não faz o que qualquer youkai verdadeiro faria, mate a todos eles...apesar de não ser um, ao menos deve ter um pingo de orgulho, já que tem metade do sangue youkai.
Inu Yasha tentava não dar ouvidos ao que seu oponente falava. Com certeza estaria apenas tentando atordoá-lo com tantas questões e se aproveitando de um momento de fraqueza para vir a lhe atacar. Mas não podia negar a veracidade que aquelas palavras impactantes pareciam ter, não podia dizer que não se sentia tentado a ceder ao desejo de ver aqueles humanos pagarem pelo que o fizeram no passado. Esforçava-se porém, em afastar tais pensamentos, pois assim só estaria cedendo a provocação do inimigo. Este não seria no entanto o único motivo do hanyou segurar seus ímpetos de realizar tal vingança, era também por que em realidade não sentia tal ódio que fosse capaz de tirar a vida daqueles seres fracos. Sentia por vezes algo parecido à pena sem sentido de alguém que vê um inseto pateticamente voando em direção a uma tocha sem se dar conta do perigo, sentimento que se mesclava a um desprezo quase orgulhoso, fundado na altivez sem limites.
Tendo tais resoluções em mente, de que não se deixaria levar por aquelas palavras, o hanyou volta a enfrentar o youkai:
- Cale a boca! Eu vou acabar com você! – sentencia antes de correr para lhe golpear novamente.
Mas o youkai novamente desvia do ataque e lhe acerta com as garras afiadas, fazendo-lhe profundos cortes no peito e lançando longe o hanyou que se chocou violentamente contra uma árvore.
- Vejo que realmente não passa de um hanyou fraco e desprezível. Mereces morrer tanto quanto esses humanos! – ele avança rapidamente contra o rival o prensando com suas garras contra a arvore em que tinha batido há pouco.
O híbrido podia sentir a pressão esmagadora da enorme mão do youkai, quase partindo a arvore atrás dele ao meio. O sangue escorria em fino filete de sua boca, sentia o ar ser tirado de seus pulmões e seus ossos pareciam a ponto de quebrar.
- Por ter sangue misturado com o desses humanos... por ser em parte como eles... Por isso vais morrer! – o youkai tinha a seriedade raivosa em seu semblante enquanto intentava apertar mais as garras para assim matar o oponente.
Seu sangue... novamente era julgado por ele, como sempre fora a vida toda. Não importava se ficara mais forte, se destruía diversos youkais fracos, se podia matar um humano com apenas uma mão se quisesse, sempre era julgado e condenado tanto por humanos quanto por youkais pelo mero líquido carmim que agora manchava suas vestes. Sua vontade era mostrar aquele ser e para todos que o quisessem saber, do que aquele sangue era capaz.
Como num ato insano usou o braço que havia conseguido libertar à muito custo do agarre do youkai e molhou suas garras em seu próprio sangue. Sem ao menos saber se seu intento daria certo, se aquela idéia repentina daria resultado lançou seu sangue em direção ao inimigo. O líquido se tornou em diversas navalhas vermelhas e afiadas a penetrarem na pele do youkai, lhe causando múltiplos ferimentos.
Este, ferido e surpreso com o ataque, solta o hanyou enfim. Inu Yasha estava tão surpreso quanto o youkai, fitava as próprias garras tentando entender como uma idéia que parecia tão absurda realmente havia dado certo.
- Mas o que é isso? – balbuciava o youkai, confuso.
- Eu não disse que acabaria com você? – respondeu o hanyou com um sorriso confiante, apesar de se levantar com uma certa dificuldade.
Aquilo de certa forma abalou o youkai, pode ser que o inimigo tivesse algum trunfo escondido ainda. De qualquer maneira ele também estava seriamente ferido, seria sensato acabar de uma vez com a luta.
- Vai pagar por isso hanyou! – ele grita enquanto corre novamente em sua direção.
- Vamos ver! – retruca o híbrido, imitando o gesto do inimigo. Seria sua última chance, provavelmente não suportaria outro golpe do youkai.
Os dois oponentes corriam em direções opostas, um indo de encontro ao outro. Aquela empreitada acabou por culminar no choque dos corpos dos dois guerreiros. Cena da qual não se distinguia o vencedor. Os aldeões do desolado vilarejo ainda observavam a luta curiosos, espectadores imparciais, não se preocupando realmente com o vencedor da luta mas somente com o que seria deles ao término desta. Haru da mesma maneira via de longe o que se passava, esta porém se afligia quando via o amigo em apuros e a todo o momento tinha ímpetos de ajudá-lo mesmo sabendo que não seria útil, apenas sendo impedida pela mãe que jazia a seu lado.
Os dois guerreiros continuavam estáticos se encarando. Não se sabia de quem era o sangue que os banhava... Até que o youkai cospe um pouco do líquido carmim... o mesmo que cobria o braço do hanyou, que agora atravessava o corpo do demônio, traspassando seu coração. O híbrido retira energicamente as garras, agora cobertas de sangue, de dentro do inimigo derrotado. O observa cair de joelhos ao solo, sua expressão de espanto, sua boca cheia de afiados dentes aberta, porém sem conseguir pronunciar nenhuma palavra... enfim tomba morto ao chão, derrotado pelo hanyou que tanto julgou fraco...
Assim que se certificou que o oponente realmente havia morrido, o hanyou cai de joelhos ao chão, sucumbindo à dor dos ferimentos e ao cansaço. Haru, se desvencilhando da mãe corre em auxílio do amigo.
- Inu Yasha! – ela chama agoniada enquanto o ajuda a se pôr de pé.
Os aldeões pouco a pouco saíam de seus esconderijos, ainda fitando a cena com receio. Um deles, um rapaz, se aproxima da dupla. Haru o reconhece imediatamente e fica feliz em pensar que ele veio ajudá-la com o amigo ferido, afinal ele nunca lhe negara nada. Mas ela se surpreende ao vê-lo com uma expressão raivosa e indignada enquanto vem em sua direção e começa a falar:
- Haru, saia já de perto dele! – ele praticamente grita.
- Tatsu! – ela ainda estava atônita com a reação dele.
- Depois de tudo aquilo, ainda vai ficar perto desse monstro? – obviamente ele referia-se a luta de agora a pouco.
- Ele salvou minha mãe e todo o vilarejo! – ela retruca indignada.
- Sim, ele a enganou direitinho... – retrucou – É óbvio que ele fez isso para ganhar nossa confiança e voltar pra cá!
- Quem é você? – pergunta por fim o hanyou, estreitando os olhos. Alguma coisa naquele garoto lhe parecia familiar...
- Então não se lembra de mim.. Não deve se lembrar mesmo de todas as suas ‘vítimas’. – ele fala sarcástico. Em seguida vira seu rosto para o lado, mostrando melhor o lado direito da face, onde podem-se visualizar três cicatrizes em forma de garras.
O hanyou se surpreendeu momentaneamente, mas lembrou-se do garoto...O garoto que o provocara a alguns anos atrás e que em troca recebeu aquela cicatriz. Um pouco de orgulho, por assim dizer, lhe invadiu neste momento, havia conseguido deixar uma marca permanente no outrora inimigo, e assim ele nunca esqueceria o que aconteceu a nove anos atrás, e essa sensação de incapacidade e frustração lhe era um castigo para a vida toda.
- Não acredito que teve coragem de voltar aqui. – ele continua Mas agora poderei acabar com você de uma vez por todas.
- Feh, você não conseguiu escapar do meu ataque antes. Por que acha que agora vai sair vivo? – retruca estalando as garras, apesar de se pôr em pé com uma certa dificuldade.
Tatsu sorri. Um sorriso vitorioso e sarcástico... Era tudo o que ele precisava: uma ameaça.
- Ouviram isso?! – grita para que todos no vilarejo pudessem ouvir – Ele disse que vai me matar!! Agora vão dar seus votos de confiança a um monstro como ele?! – e voltando a encarar o hanyou, fala para que só ele pudesse ouvir – Você não devia ter voltado!
Ao olhar para as pessoas, Inu Yasha pôde ver o impacto daquelas palavras nos moradores do antigo vilarejo. Algumas mulheres abraçavam seus filhos, como se quisessem protegê-los de um monstro. Outras pessoas o olhavam com medo, e outras ainda com desprezo e ódio. E depois de ainda ter salvado-lhes a vida arriscando a própria, aqueles olhares eram infinitamente piores do que seriam a alguns anos atrás.
- Tatsu pare com isso! Você sabe que isso é mentira! – grita Haru interpondo-se entre os dois.
- Você mesma não ouviu o que ele disse? – lhe respondeu calmo.
- Não o transforme no monstro agora! Se não fosse por ele todos nós estaríamos mortos! – ela brada.
- E quem garante que seu plano não era nos matar depois?
- Eu não acredito no que está dizendo!! – ela grita exasperada.
- Haru, fique quieta aí e me deixe acabar com esse monstro que a enganou! – ele grita virando-se para o lugar em que outrora estava o hanyou.
Vendo que este não se encontrava mais lá, sua raiva aumentou:
- Onde está você seu covarde!! – grita aos quatro ventos.
Haru, preocupada com o amigo ferido, olha em volta, porém sem conseguir localizá-lo. Olha interrogativa para as pessoas próximas e uma criança aponta timidamente uma direção. A púbere então corre na direção indicada. Ele não devia ter ido muito longe com aqueles ferimentos, e isso a preocupava.
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