A Infância de Inu Yasha
16 Capítulo 16: Retorno
Notas iniciais
Enquanto era carregada nas costas do hanyou, Haru se via perdida em pensamentos. Ela se lembrava da época em que eram apenas crianças, há nove anos a trás, quando ela nem sequer sabia o que significava a palavra ‘hanyou’, quando ela nem se importava com coisas como essas – fato este que não mudou apesar do passar dos anos — . Enquanto a paisagem passava com velocidade perante seus olhos, sua mente vagava por épocas anteriores a essa...
--------------- Flashback---------------
Já fazia dois dias que seus pais haviam proibido-a expressamente de se encontrar ou sequer falar com o hanyou. Ela se encontrava sentada sob uma pedra grande que havia no meio do vilarejo, pensativa, imaginava o que Inu Yasha estaria fazendo agora. A uma certa distância, um grupo de meninos brincava com uma bola surrada. Ela nunca era incluída nas brincadeiras por ser menina, e as meninas de sua idade a achavam muito energética para brincar com elas, em suas brincadeiras pacatas de casinha e suas simulações da futura vida adulta – o que era e ainda é a essência das brincadeiras infantis.
Logo ela foi tirada dessas divagações, quando avistou o hanyou ao longe. Ele parecia triste, estava só como sempre. Antes de conhecê-lo ela já o havia visto dessa mesma maneira: de longe. E ele estava sempre sozinho, ela não entendia por que os outros garotos não se aproximavam dele, para a menina ele parecia um garoto como qualquer outro. Agora que o conhecia estava mais certa ainda de que ele era uma boa pessoa e realmente não compreendia por que as pessoas o chamavam de monstro.
Continuou observando-o e pensando no quanto eram parecidos, os dois estavam sempre sozinhos... mas no caso dele, ele não tinha escolha. Ela permanecia olhando-o sem poder se aproximar, se o fizesse seus pais a puniriam e provavelmente diriam ao hanyou coisas tão ou mais horríveis do que seu pai dissera naquele dia que os viu juntos. O que ela menos queria era ver um amigo triste por sua causa. Viu quando ele se dirigiu em direção à árvore em que costumava ficar quando desejava estar só, onde achava que não o incomodariam com ofensas ou com seus olhares ferinos.
Uma voz repentina a tira de seus devaneios de um sobressalto:
- O que faz aqui sozinha? – era a mãe da menina que, vendo a filha solitária e pensativa se preocupou e foi ver o que se passava. Sentou-se na pedra ao lado da garota e esperou que esta lhe respondesse a pergunta inicial.
- Mãe. Por que não posso brincar com o Inu Yasha? – ela pergunta, direta. A mulher pareceu surpresa com a pergunta inesperada:
- Nós já falamos sobre isso...
- Mas eu não entendo... – diz melancólica.
- Ele não é como nós.. – ela tenta explicar de maneira que a criança entenda – Ele é um hanyou...
- O que é um hanyou? – pergunta curiosa.
- Significa que ele não é nem humano nem youkai, ele é uma mistura dos dois. E você se lembra que os youkais são muito perigosos, por isso você não deve ficar perto dele... ele pode ser perigoso... – apesar de não entender perfeitamente a ciência daquelas palavras, a garota entende que as outras pessoas tinham uma idéia errada de seu amigo.
- Isso não é verdade. Ele é legal mamãe, ele não é perigoso.
- Por acaso está me chamando de mentirosa? – a mulher diz com reprovação. A menina leva as mãos à boca ao perceber o que disse:
- Não, mãe...eu.....
- Não se deixe enganar por ele. – e levantando-se ela conclui – Não quero mais ouvir falar desse assunto, e é melhor que não me desobedeça e nem a seu pai. – ela diz com o tom de repreensão de uma mãe, que expressa preocupação e carinho disfarçados por uma expressão séria para que a filha percebesse que não estava brincando.
- Está bem mãe. – ela responde, triste, olhando para o chão.
Doía o coração de uma mãe ver sua filha triste, mas estava fazendo o que achava ser certo e que seria para o bem dela. Achava que um dia ela ia entender o significado das palavras que lhe foram ditas. A mulher assim se retirou para dentro da cabana, voltando a seus afazeres.
Haru olhou em direção a árvore que abrigava o híbrido uma última vez, pensando sobre tudo aquilo. Apesar do que sua mãe dissera, ela ainda via o amigo da mesma forma. Ela tinha certeza de que ele não lhe faria mal, para ela não tinha importância ‘o que’ ele era e sim ‘quem’ ele era.
----------Fim do flashback ----------
As memórias que tivera naqueles simplórios minutos a fizeram lembrar que sempre estivera certa ao pensar que um dia reencontraria seu amigo de infância. Resolveu então iniciar uma conversa pra quebrar todo aquele silêncio que imperava entre eles:
- Inu Yasha? – chama.
- O que? – responde sem parar sua carreira em direção ao vilarejo.
- Sabe... – pausou escolhendo as palavras – Depois que a sua....a princesa Izayoi morreu. Você não apareceu mais no vilarejo...
- Eu não tinha motivo nenhum para voltar lá. – respondeu, grosso.
- Sim, é verdade... – disse um tanto triste, sabia que ele tinha razão – Quando você foi embora e não apareceu mais... Todos disseram que provavelmente você tinha morrido. Mas eu sempre acreditei que estivesse vivo...
- Feh, eu não morro tão fácil. – se gabou.
- “Que bom.” – respondeu em pensamento, dando um singelo sorriso. Coisa que o hanyou não viu por estar de costas para ela.
- Estamos chegando. – ele avisa.
Haru olha para frente e vê o vilarejo se aproximando, estava chegando em casa, mas não estava muito feliz por isso. Quando estavam a uma certa distância Inu Yasha pára de correr e faz sinal para que a garota desça. Ela assim faz, apoiando os pés no chão percebe que a dor no tornozelo direito havia diminuído muito, agora conseguia andar, ainda que mancando um pouco.
- Você não vem? – ela lhe indagava com o olhar triste.
- Você sabe que todos lá me odeiam. E eu não vou voltar para esse lugar. – sua expressão não era de ódio, e sim de mágoa, e Haru podia sentir também uma certa tristeza nele.
Ele deveria ter sofrido muito enquanto vivia naquele vilarejo, cercado por pessoas que o odiavam e desprezavam. Ela não podia culpá-lo por não querer voltar pra lá, mas se ele se virasse agora e partisse, ela temia que nunca mais voltaria a vê-lo. Novamente virando-se para o hanyou, olhou dentro de seus olhos âmbares e pediu com receio da resposta:
- Você....poderia vir aqui amanhã...? Não precisa ir até o vilarejo, eu te espero aqui...- ela se atrapalha um pouco nas palavras – É que eu... queria te ver de novo... – ela cora, não sabia por que estava dizendo isso, mas era o que ela sentia.
O hanyou fica um pouco surpreso com o pedido da amiga, ele fica meio sem jeito de lhe dizer que na verdade não quer mais nenhum envolvimento com humanos, e chegar perto de vilarejos estava incluído... Mas ela era sua amiga, como diria isso a ela sem que a magoasse? E nesse momento também se lembrara da reação do pai da garota há nove anos atrás, se voltasse a ocorrer ela poderia ficar em apuros e por sua causa novamente.
- Eu não sei.... – disse hesitante.
Mas antes que qualquer um dos dois pudesse dizer mais alguma coisa, ouvem-se vozes vindas do vilarejo. Prestando-se mais atenção notava-se que estavam procurando-a, chamavam incansavelmente o nome da garota, deviam estar muito preocupados. Haru olhou na direção do povoado observando o caos que se instalava por seu sumiço. Ao voltar seu olhar pra trás, Inu Yasha não estava mais lá. A jovem ainda fitava o lugar outrora ocupado pelo hanyou e uma grande tristeza lhe invadiu, voltou seu olhar para o vilarejo e começou a caminhar em direção deste.
Assim que foi avistada pelos aldeões, um novo tumulto se originou por eles todos correrem em sua direção ao mesmo tempo.
- Ali está ela, encontrei! – gritou um deles.
A garota até se assustou momentaneamente quando viu aquela ‘multidão’ correndo em sua direção. Não imaginava que sentiriam tanto sua falta. Provavelmente sua mãe, preocupada com o sumiço da filha durante um dia inteiro havia convocado todo o vilarejo para procurá-la, apesar de ser meio exagerado, era a maior prova de amor de sua ente materna se preocupar tanto com sua ‘cria’. Logo se aproximaram dela envolvendo-a com perguntas e cuidados.
- Calma gente! Eu estou bem. – ela diz sem jeito.
- Sua mãe disse que você tinha sido devorada por um youkai. – disse um garoto se aproximando dela e tomando uma de suas mãos.
- “Mamãe..” – pensou com reprovação – Eu estou bem, Tatsu. Não precisa se preocupar. – ela diz com gentileza disfarçada, desvencilhando-se de sua mão.
Tatsu era um garoto pouco mais velho que ela. Ele vivia atrás da garota, sempre tentando conquistá-la de alguma forma, lhe fazia elogios, dizia que um dia se casaria com ela. Isso muito a irritava, quanta pretensão. Porém achava que talvez ele realmente poderia ter alguma intenção sincera, por isso não o afastava, apesar de não lhe dar nenhuma liberdade.
- Está ferida? – ele pergunta.
- Hã...? – lembrando-se só então da torção no tornozelo, ela completa, automática – Ah sim, eu caí. Mas está tudo bem.
Depois de convencer os aldeões de que estava tudo bem com ela, finalmente pôde voltar para casa, onde sua mãe a aguardava apreensiva – seu pai já havia falecido dois anos atrás. Ao vê-la lhe deu um abraço apertado e lhe contou tudo o que aconteceu, inclusive sobre o ataque dos bandidos – afinal sua mãe queria saber o que havia se passado com a filha esse tempo todo – porém, ocultou o detalhe do hanyou. Se ela contasse sobre ele, sua mãe nunca mais a deixaria sair de casa sozinha novamente para que não o reencontrasse. O que fora um pouco difícil era explicar como havia conseguido fugir deles, para tanto diminuiu o número de bandidos de cinco para apenas dois. Quando enfim a mulher parou de interrogar-lhe, a jovem foi se deitar para dormir, sem nem jantar, pois não tinha fome. Naquela noite também não conseguiu dormir, muitas coisas se passavam em sua mente, e principalmente uma incerteza...se veria seu amigo de infância novamente...
OoOoOoOoOoOoO
No amanhecer do dia seguinte, mal o sol saía Haru já se punha de pé. A garota se arruma com um singelo kimono azul com flores de sakura desenhadas, prende os cabelos negros com uma costumeira fita branca e sai de seu quarto, enfim. Após cumprir alguns afazeres para sua mãe ela dá uma desculpa qualquer e dirigi-se por entre as pequenas casas do vilarejo até chegar em uma enorme pedra que ficava nos limites do mesmo, ficando um pouco afastada deste. Ela se senta sobre a rocha determinada a esperar o tempo que for preciso até que o hanyou decida aparecer. Afinal ele não dissera que viria... mas também não dissera o contrário. Ainda restava uma esperança...
[...]
Horas depois a menina continuava sentada no mesmo local. Seus olhos castanho-claros fitavam com tristeza a floresta à sua frente, esperando que alguém surgisse do meio das árvores... ainda a mesma espera de horas atrás, mas não desistiria tão facilmente, ainda tinha o dia pela frente....
Mas sua espera mostrou-se inútil. Naquele momento sentiu-se a criatura mais patética do mundo, esperando por algo que nunca chegaria. Seus olhos quiseram lacrimejar, mas segurou o impulso. Quando já ia levantar-se para partir, uma idéia maluca passou por sua cabeça, na verdade não era nem uma idéia, era insanidade mesmo. Saiu correndo floresta adentro;... ia encontrá-lo de qualquer jeito, nem que fosse para esmurrá-lo até não agüentar mais.
[...]
Após um tempo de corrida cansativa, parou para tomar fôlego. Notou que não conhecia aquele lugar — “Por que árvores têm que ser todas tão iguais?” – pensava a garota enquanto, confusa tentava identificar a direção pela qual viera. Andou um pouco em silêncio e, apreensiva olhava para os lados como se algo a espreitasse das sombras...
De repente um vulto pula em sua frente, fazendo a garota cair sentada no chão, tamanho foi seu susto.Ela abre lentamente os olhos, temendo ser um youkai. Porém quando vê o hanyou parado à sua frente a fitando curioso, não sabia se sentia alegria, alívio ou vontade de socá-lo pelo susto e pela espera.
- O que faz sozinha na floresta novamente? – ele lhe indaga visivelmente irritado.
- Eu vim te procurar. – ela diz levantando-se e admitindo uma postura ligeiramente nervosa.
- Me procurar!? – ele se pergunta, confuso – Por quê?!
- Você não apareceu hoje! – seu tom era triste, embora tentasse disfarçar o máximo possível.
- Eu não disse que apareceria! — ele retruca cruzando os braços.
-É...não disse.. – o tom da garota era quase um sussurro, mas com sua audição apurada o híbrido pôde ouvir bem. Ela mantinha seus olhos escondidos sobre as franjas que lhe recaiam sobre a face. O hanyou pode então sentir um cheiro salgado... lágrimas... – Você... – sua voz saía embargada e suas mãos tremiam. Ela levanta seus olhos com raiva, o encarando. Estes cheios de brilhantes lágrimas – VOCÊ NÃO DÁ A MÍNIMA PRA MIM NEM PRA NINGUÉM!!! SÓ SE IMPORTA COM VOCÊ MESMO!!! – volta a chorar abundantemente escondendo o rosto entre as mãos, após gritar essas palavras.
Inu Yasha fica completamente sem reação. De alguma maneira as palavras dela o atingiram, mas o que mais o incomodava era que agora havia conseguido fazer sua única amiga chorar. Não suportava ver mulher nenhuma chorando; nem ele sabia ao certo o por quê do choro daquelas criaturas tão frágeis o incomodarem tanto. Aproxima-se cuidadosamente e fala com uma voz mais suave:
- Isso não é verdade.
A garota pára temporariamente o pranto e presta atenção às suas palavras.
- Você é minha única amiga, claro que me importo. Por isso que não quero que venha sozinha pra floresta, pode ser perigoso.... – disse medindo suas palavras dessa vez.
- Por que não apareceu então? – ela pergunta chorosa.
- Bem... eu... – acaba se enrolando um pouco para explicar – Você sabe que não gosto daquele vilarejo... E depois seus pais poderiam ficar bravos com você por minha causa... – resolveu não mencionar o fato de que planejava se afastar dos humanos, achando que isso não fosse realmente ajudar.
Aproximou-se mais da menina, enxugando-lhe algumas lágrimas com as costas do dedo indicador:
- Você continua chorona. – disse divertido.
Ela conseguiu abrir um sorriso com a lembrança. Num impulso se jogou nos braços do hanyou, lhe dando um terno abraço. O púbere, completamente sem reação ponderava no que fazer, nunca tinha estado em igual situação antes. Então, meio hesitante retribuiu o abraço, tomando o cuidado de não feri-la com suas garras. A jovem podia sentir o calor daqueles braços e sentia uma imensa felicidade a invadindo, podia até esquecer o fato de ter ficado uma tarde inteira esperando-o, mas apresentava-se extremamente difícil ignorar as batidas de seu coração que aceleravam mais a cada minuto. O hanyou logicamente percebeu a exaltação da menina, e interpretava-a como medo talvez, ou mal-estar.
- Você está bem? – lhe indagou, forçando-a a encará-lo.
- ...Sim – conseguiu balbuciar agora totalmente rubra.
- Você não parece bem. – diz com inocência parecendo esquecer completamente a proximidade entre ambos – Está doente? – pousa uma mão sobre a testa da garota pra ver se tinha febre.
Haru achava impossível ficar mais vermelha do que supunha estar, pois podia sentir seu rosto queimando furiosamente.
- Melhor voltarmos ao vilarejo. – a voz do hanyou a tira das divagações – Vejo que você se perdeu de novo. – completava repreensivo.
Desvencilhou-se da garota e começou a caminhar em direção da já conhecida aldeia. A garota ainda permanecia parada naquele mesmo lugar, as cenas de apenas alguns segundos atrás ainda repassavam em sua cabeça como se duvidasse da veracidade delas. O hanyou vendo que a púbere não o seguia chama sua atenção
- Você vai ficar parada aí?
- Ah, estou indo. – lhe responde de pronto correndo em sua direção após acordar da dispersão mental em que se encontrava.
Notas finais
Tentei colocar um pouco sobre a Haru e também tentar mostrar um pouco do que ela sente. Fiquei muito na dúvida quanto a esse capítulo, pois fiquei imaginando se o Inu Yasha agiria mesmo assim...
Mas acho que se fosse pra fazer uma garota parar de chorar creio que sim... (não sei se perceberam, mas o fraco dele é mulher chorando xD).
Fiquei feliz por ainda ter uma pessoa que seja lendo, espero q continue acompanhando ^^v
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