A Indomável

9 Capítulo VIII - Caçada (Brian Phillips Rowlland)


Vejo na escuridão um vulto se mexer, correndo de um lado pro outro em minha frente, parecendo um filme trash de terror dos anos 60's, onde a assombração aparecia momentaneamente em flashs.
Me apoiei sobre os cotovelos, forçando a vista, tentando me focar na imagem que cintilava em minha frente. Até ela surgir num solavanco em cima de mim me arrancando um arfar de susto.
Ela sorri novamente pra mim. Eu não pude evitar revirar os olhos.
- O que você quer?
Ela nada responde, apenas se aproxima sobre mim como um gato, de repente parecendo não pesar nada.
- Eu sabia que você iria vir comigo. Você me pertence
Ela diz simplesmente, me dando um beijo molhado nos lábios, pressionando sua língua contra a minha, me forçando a abrir a boca. Soltei um gemido de repugnância que foi reprimido por ela.
Até acordar, sendo lambida por um cachorro.
- ARGH!!
Um focinho gelado empurrava meu rosto pra cima e pude ver, tapando minha luz uma criatura minúscula de cabelos longos de maria chiquinha e me olhando emburrada com os braços cruzados.
- O que você está fazendo aqui? — gritei indignada.
Lizie andou pela sala vazia da minha quitinete alugada.
- Quero ficar com você — ela murmurou ainda emburrada de sobrancelhas torcidas.
- Esqueça! — resmunguei me levantando do colchão onde estava deitada. Espiei em um relógio de "cabeceira" improvisado que eu havia dormido apenas duas horas aquela noite.
- Mas...! — ela me seguiu suplicante — Quero me vingar também!
- Se vingar pelo que? Por roubarem seu algodão doce?
Lizie se jogou no colchão onde eu estava deitada. Totalmente derrubada, o que me provocou uma pontada no estômago.
Dei a volta pra encará-la de frente e ela pressionava os lábios, segurando o choro.
- Hey, Lizie. Eu estava brincando.
Ela abaixou a cabeça, forçando os punhos contra o lençol do colchão.
- Um daqueles caras matou minha mãe — ela sussurrou.
- O que?
Me sentei no chão, em sua frente.

- Me conte mais sobre isso, Lizie.
Ela virou o rosto novamente, agora emburrada.
- Não vou contar nada pra você.
Suspirei revirando os olhos. Ela era mais marrenta do que eu imaginava. Dessa vez me sentei em seu lado no colchão e a olhei firmemente no fundo dos olhos.
- Eu prometo que vou te ajudar — sussurrei. Ela então arregalou os olhos castanhos que espiralavam em espectros ora caramelizados, ora com cor de mel.
- Você jura?
- Eu nunca quebro uma promessa. Quando eu digo nunca, é nunca!
Ela soltou o ar num sopro, esvaziando as bochechas coradas e coçando a nuca, espalhando os cabelos cor de caramelo.
- Mamãe ia comprar hamburguer pra nós. Eu queria um BigMac com batatas, e era a primeira vez que eu comeria um daqueles em toda a minha vida. Ela quase nunca tinha dinheiro pra gastar comigo, e quando tinha... Ela comprava algumas coisas que "ele" a ensinou a usar.
Torci as sobrancelhas confusa, abrindo a boca pra perguntar quem seria "ele", mas antes disso ela prosseguiu me interrompendo.
- Eu era muito nova, mas pelas discussões que ela tinha com ele, eu imaginava que ela devia pra algumas pessoas, ele nunca cansava de jogar isso na cara dela. Mas aquela vez era especial, era meu aniversário e ela disse que queria me dar algo especial mas ainda sim, estando confortável diante do seu bolso no momento.
Fiquei feliz em estar saindo com minha mãe, somente eu e ela. Fazia muito tempo que não andávamos assim. Porém durou pouco tempo pra até termos companhia. Assim que atravessamos a Fifty Avenue, dois caras nos pararam, apertaram o braço de mamãe apontando pra bolsa dela. Conhecendo nosso bairro como conhecia, sabia que aquilo era mais um assalto qualquer e que podia ficar tudo bem se ela entregasse o dinheiro que ela guardava.
Me agarrei em sua saia e acenei com a cabeça pra que ela entregasse o dinheiro, não me importava mais o BigMac, só queria que ela ficasse bem...
Lizie fixou os olhos em nada, absorta em pensamentos, os olhos retrocediam há anos atrás.

As mãozinhas pequenas buscavam os pêlos do cãozinho que arfava com a lingua de fora em seu lado.
- Mamãe entregou a bolsa pra eles que contaram todo o dinheiro dela e depois cuspiram em seu rosto, dizendo que aquilo não era suficiente pra pagar o que ela devia, aí eu assimilei um pouco daquilo com as discussões que ela tinha com... Aquele cara — Ela torceu o nariz com desprezo e continuou: — Mamãe disse que iria pagar o restante depois... Mas aqueles caras não estavam de brincadeira...
Ela parou de mover a mão sobre o pêlo do cachorro, de repente ficando estática. Me assustando com os olhos grande caramelos de dar medo.
- Um daqueles caras olhou pra mim sorrindo, me pegando pela mão e me levando até o outro lado da avenida, eu me lembro da voz e das palavras dele como se fosse ontem "Quer seu BigMac, garotinha?".
Ela parou de repente, engolindo em seco e virando o rosto com os olhos fechados.
- Antes de saírmos de lá pude ouvir mamãe gritar em alto e bom som "Não, Brian! Não!" — Suas feições se contorceram em dor e ela fungou profundamente antes de continuar — Eu tive meu BigMac.... Porém voltei pra onde estávamos e só vi o corpo de mamãe. Deitado de bruços, frio, sem vida.
Estremeci com suas últimas palavras. Lizie parecia tão adulta, tão fria, tão indiferente e ao mesmo tempo tão segura de si.
- Eu quero que ele morra! Apodreça no inferno junto com as merdas que ele vendia pra acabar com a vida das pessoas! — ela gritou torcendo as sobrancelhas.
Me levantei, andando silenciosamente pelo imóvel vazio.
- Hey, Amélie?
Olhando pra uma janela que dava vista pra um beco sem saída, coloquei as mãos na cintura e observei atentamente.
- Brian, você disse? Brian Phillips?

Me virei devagar pra encará-la e ela fazia que sim com a cabeça.
Sem dizer absolutamente nada, virei as costas e saí, a largando berrando atrás de mim.

-x-
- Hey Tess!
- Nada disso, não conte comigo pra isso. Não conte! — Tess repetia balançando as mãos com unhas vermelhas e adornadas com pulseiras barulhentas.
Ela caminhava entre as quinquilharias coloridas de seu apartamento.
- Ok! Não me ajude! Mas eu gostaria de saber o que houve com Lizie. Isso você não pode me negar.
Ela girou-se sobre os calcanhares, formando no ar um desenho feito pelo seu hobbie de seda transparente salmão. Se jogou num puff cor de vinho e acendeu um cigarro.
- Na verdade, encontrei Lizie com seis anos de idade. Um bezerrinho desmamado! — ela gargalhou entredentes batucando na ponta do cigarro, fazendo cair as cinzas — Ela parecia um bichinho assustado, estava imunda, fedia e estava agarrada com aquele bicho sarnento que não desgruda dela. A trouxe pra cá e lhe dei abrigo, ela passou a me chamar de tia, a escondi e a protegi por muito tempo.
- Ela fala sobre uma pessoa... Se referindo a ele como, "ele" simplesmente. Quem é?
Ela estreitou os olhos, torcendo o nariz com repulsa, assim como Lizie o fizera.
- Assim que a trouxe pra cá, passados dois dias mais ou menos um homem e dois filhos vieram bater em minha porta, me agredindo tanto verbalmente como fisicamente, reclamando a falta de Lizie e me ameaçando queixa por sequestro. Chamei meus amigos e eles me ajudaram com os brutamontes, mas era inevitável como Lizie tinha ficado na presença dos três. Eu lhe perguntei quem eles eram e ela não me respondia absolutamente nada, ficou tempos sem comer e não dormia temendo que eles voltassem e fizessem algo contra mim.
Em um dia que Lizie finalmente tinha caído no sono, fui cobri-la e ela balbuciava enquanto dormia, implorando pra que não lhe batessem, que não batesse na mamãe dela, e que ela iria obedecer e ser uma menina boazinha pra não fazerem nada a sua mãe. Ela falava muitas vezes em "sentar no colo do papai" pra salvar a mamãe dela, e que ela não ia contar nada pra ninguém, ela jurava várias e várias vezes que não iria contar à ninguém.

Aquela noite Lizie teve febre e suadouro, a enrolei numa coberta minha e deixei com que dormisse em minha cama. Logo em seguida mandei meus amigos terem uma conversinha com o tarado do padrasto dela e depois disso nunca mais tivemos notícia do safado.
Soltei um grunhido do revolta e Tess concordou comigo com a cabeça.
- Lizie gosta de mim, e me vê como uma tia, por ter cuidado dela. Mas não como uma mãe. Primeiro pelo fato de que nunca escondi minha profissão de ninguém, muito menos dela, e essa não era exatamente a visão que Lizie tinha de uma mãe — Tess tossiu uma risada — E também porque eu a dei proteção e ensinei tudo o que precisava saber, digamos que afeto e carinho não é um de meus pontos fortes.
Cocei meu braço, enquanto eu me encostava na parede, assimilando tudo o que Tess me contava, Eu inspirava o cheiro de jasmim com lavanda de incensos que vinha do lugar. Ali não era exatamente o que eu chamaria de lar, porém eu me sentia bem ali, dentre tantos lugares, e Tess, foi quem mais me apoiara até o momento.
Ela passou os dedos pelos cabelos avermelhados e encaracolados me olhando com um sorrisinho.
- Você quer mesmo que eu te ajude?
- Você sabe que sim.
Ela se levanta, finalmente me estendo a mão literalmente.
- Tome esta chave. Espero que saiba o que está fazendo.
-x-
Brian Phillips. Brian Phillips. Brian Phillips.
O nome não saía da minha mente, e eu mesma não queria que saísse, eu o repetia como um mantra, como uma canção divina macabra.
Era tarde da noite e seria mais uma noite que eu passava em claro. Eu repassava várias vezes cálculos matemáticos que eu costumava exercitar em meu antigo trabalho no banco, em minha antiga cidade. Em minha antiga vida.
Treinava minha mente e equilibrava meu corpo, focada somente naquele nome que girava em minha mente em looping. Meus dedos buscaram a chave que estava presa à um cordão no meu pescoço. Eu iria executar o meu plano o mais depressa possível.
Me lembrava então das palavras do simpático amigo de Tess:

- Você é realmente uma garota adorável. Sabe como lidar com uma arma de fogo?
Mordi o lábio inferior e dei de ombros erguendo as sobrancelhas. Ele pegou minhas mãos enquanto tombava o cigarro no canto da boca coberta por um bigode grisalho. Os olhos verdes levemente caídos percorreram pelos meus, parecendo me criticar.
- Mocinha, tens mãos de quem nunca sequer pegou numa arma.
- Eu posso aprender muito rápido — soltei minhas mãos rapidamente do seu aperto.
Ele balançou a cabeça revirando os olhos.
- Só estou te quebrando este galho porque tu és amiga da minha adorada Tess.
- Eu sei disso — sussurrei.
- Tenho esses modelos mais leves pra tu começar, já que seu braço ainda não é tão firme assim — Ele jogou uma Beretta novinha sobre a mesa. Pude reparar que ele dividia sua loja entre uma loja de armas escondida clandestinamente e de fachada uma loja de ferramentas.
Desviei meus olhos pra seus artigos de ferramentas e de jardinagem, sorrindo ao captar o que eu realmente queria.
- Eu quero um daqueles — apontei, e ele sorriu pra mim, pela primeira vez.
- Vejo que me enganei à seu respeito, mocinha.

Repassando mentalmente tudo o que eu tinha, finalmente me deitei e descansei.

-x-
Haviam se passado seis horas seguidas, e eu mantinha-me na mesma posição, sentada numa cadeira desconfortável com um binóculo à tira-colo, sempre desviar minha atenção uma vez sequer da matriz de supermercados Rowland, que pelo que eu soube, também eta usada como mercado narcotráfico às escondidas.
Finalmente o filho da puta deu as caras! Não pude evitar que estava eufórica, eu realmente não fazia a mínima idéia de quem era aquele cara e realmente nunca tinha o visto na vida, mas um "sensor" dentro de mim gritava dizendo que era ele. E que não havia dúvida alguma.
Esperei mais e a escuridão da noite já começava a me atrapalhar. Girei meu pulso e vi que já passavam das oito. Era a hora ideal.
Peguei uma mochila, enfiei com desleixo o binóculo dentro dela e me esgueirei pelo telhado do prédio abandonado onde eu estava.
Eu sentia a adrenalina de mais de mil ataques cardíacos, minhas mãos tremiam adoidadas, e tive que controlar meus passos pra que eu não tropeçasse com os joelhos tão inconstante daquele jeito. Nada poderia dar errado.

- Hey Phillips, os rapazes já saíram pra fumar, posso ir também?
Um homem corpulento de meia idade passava por uma porta no momento que eu entrara, me obrigando a me esconder atrás de uma parede.
- Argh! Suma da minha frente você também. Ande logo antes que eu mude de ideia.
O homem saíra na mesma hora em que houve a resposta. Encarei dentro da mochila o que Tess havia reservado pra mim. Era a minha hora.
Rastejei pela sala onde eu estava no andar de cima do prédio do supermercado e espiei por um janela de persianas até ter certeza de que todos os homens dele estavam lá fora. Todos fumavam inertes.
Respirei fundo e abri suavemente a porta da sala onde eu sabia que estava Brian Phillips, e logo que entrei por completo, assumi uma nova personalidade. Definitivamente não era mais eu.
- Merda, já disse que você pode ir! — ele resmungou enquanto digitava submerso em um notebook preto.

Caminhei devagar ao seu lado, como um gato persa, arranhando as unhas da minha mão mecânica em uma mesa, provocando um barulho irritante que o fez erguer a cabeça.
- UAU! Meu aniversário é só em três meses!
Sorri abertamente, a máscara de fato me incomodava um pouco, mas o incômodo era recompensado pela expressão de satisfação dele.
- Digamos que eu sou um presentinho adiantado de alguém que gosta muito de você — gargalhei me sentando no colo dele.
Ele se deliciava, me comendo com os olhos. Quando ele subia a mão pelas minhas coxas, passando pelo pompom do meu rabinho de coelho e subindo até o fecho da roupa em minhas costas, me levantei dano uma risadinha estridente.
- Nananinanão, seu danadinho! Querendo comer o lanche antes da hora?
Ele sorriu maliciosamente, entrando no meu jogo.
- O que você quer fazer, sua safada?
Me virei de costas pra ele sensualmente o puxando pela gravata.
- Vamos para a outra sala, preparei uma surpresinha especial pra você.

Ele lambeu os lábios olhando para o meu bumbum enquanto eu caminhava o arrastando até a sala onde eu estava anteriormente.
- Hmm, algemas?
Fiz que sim com a cabeça, enquanto sorria e chamando com a ponta dos dedos pra que se sentasse numa poltrona reclinável.

Minha sorte era que as luvas negras da fantasia chegavam até os cotovelos sendo longas o bastante pra esconder minha mão mecânica.
Ele se sentou confortavelmente e eu então prendi seus pulsos nas extremidades da poltrona, acariciando lentamente seu corpo com um sorriso imenso estampado no meu rosto, mais de alivio que de tentativa em seduzi-lo.
- Quem mandou você aqui, heim, gracinha?
- Sou um presentinho da gerência da casa de Madame Tess — disse afinando a minha voz.
Me aproximei dele e sentei novamente em seu colo, de frente pra ele, enquanto ia abrindo botão por botão de sua camisa.
- Então me diga, você anda sendo um menino malvado ultimamente não é? — perguntei fazendo um biquinho e voz infantil.
- Muito malvado! — ele sussurrou em êxtase, e eu ia aos poucos começando a sentir sua excitação entre as minhas coxas, me provocando ânsias internas.
- E o que você anda fazendo, pra ser um menino tão malvado? Me conte pecado por pecado, mocinho. Está na hora de sua confissão — sussurrei em seu ouvido enquanto tirava um chicote fantasioso com tiras de couro falso.
- Você não vai querer saber, boneca — ele sofreu pra se levantar e beijar meu pescoço.
Ergui meu tronco pra encará-lo, sorrindo dessa vez suavemente.
- Aí é que se engana, eu vou adorar saber. Adoro uma história bizarra antes do sexo.
Ele mordeu o lábio inferior sorrindo deliciado.
- Adoro uma mulher sanguinária.
Me levantei de seu colo e sussurrei "Você ainda não viu nada".
Peguei um creme de cereja e despejei em seu peito, ele tremeu com a temperatura gelada.
Passei meu dedo sobre o peito lambuzado e provei um pouco do creme.
- Vai me contar uma de suas histórias ou vou ter que te torturar? — sussurrei brincalhona.
Ele riu enquanto caminhei até a porta a trancando.
- Eu adoro acertos de contas, ainda mais quando se tratam de mulheres... — ele piscou pra mim, e eu fingi um sorriso em resposta — Elas ficam muito mais saborosas depois de geladas, você sabia?

"O corpo de mamãe de bruços, gelado e sem vida..."

Espantei os pensamentos por um momento com uma piscada repentina.
- Você não iria me matar não é, gatinho? Eu posso ficar bem geladinha se quiser.
Ele olhou cada parte do meu corpo como se fosse devorá-la.
- No seu caso eu prefiro bem quente.
- No meu caso, você prefere viva, não é?
- Sim, sem dúvida.
Sorri sombriamente de repente, dando uma lambida demorada em seu peito.
- É uma pena — disse com a boca quase cheia.
- Uma pena?
Dei uma pausa e tirei minha máscara preta, sorrindo lentamente conforme suas feições iam se desvaindo aos poucos.
- Por que você já me matou — sussurrei separando sílaba por sílaba em seu ouvido, e retirando a máscara preta que eu usava.
- Eu conheço você — ele murmurou torcendo as sobrancelhas e inflando as narinas.
- Claro que sim — me apoiei em seu orgão por cima da calça pra me levantar, lhe arrancando um grunhido de dor.
Puxei o arco de orelhas falas de coelho em cima de minha cabeça e olhei fixamente pra ele.
- Se lembra de uma noite em que você e seus amiguinhos andavam com o carrinho do papai e resolveram bater em certos "judeus"? — fiz aspas no ar.
Ele sorriu, explodindo em ódio, se debatendo na poltrona fixa no chão.
- Maldita! Você não morreu!
- Engano seu! — murmurei com a cabeça baixa, o encarando de baixo — Você me matou mil vezes, desde aquele dia. Agora é sua vez.
- E o que vai fazer? Me dar um chute no saco? Me chamar de broxa? — ele gargalhou.
Tirei da mochila embaixo de uma mesa, o que eu guardara como "surpresinha" da noite, sabia que aquilo iria me convir.
Puxei o fio da extensão e liguei em uma tomada próxima.
- Que porra é essa?! — ele gritou, se debatendo ainda mais.
Enquanto ligava a cerra giratória fazendo uma barulho intenso e irritante, puxei minhas luvas pretas, exibindo um dos meus pulsos. Um deles pelo qual eu me envergonhava tanto, porém não naquele momento.
- Muito obrigada por me conceder um braço mágico como esse — sussurro, abrindo e fechando minha mão esquerda, e a analisando

- Esse modelo era o mais avançado que tinham na loja, porém ele não fora testado antes e é muito forte, capaz até mesmo de esmagar um crânio humano sabia? Sou uma super mulher, graças a você! — sorri abrindo os braços, enquanto ele gritava se debatendo.
- Ahh e pelo que eu me lembre, você isolou essa sala de som, não é mesmo? Pra evitar que ouvissem suas vítimas lamentando enquanto você mandava seus capangas os torturarem. Você não gostava dos lamentos deles não é? — caminhei ao seu lado e sussurrei em seu ouvido — Hoje você é a vítima irritante.
- Sua cadela filha da mãe! Eu vou matar você como deveria ter feito da outra vez!
- Lamento por isso, mas você realmente devia ter me matado!
Ergui a cerra giratória no ar, e desci sobre uma de suas pernas, um pouco acima de seu joelho.
Ele gritava dilaceradamente.
- É estranho ter algo tirado de você não é?
- MALDITAAAAAAAAAAAAA! — ele agonizava, gritando a ponto de suas veias do pescoço se dilatarem.
- Oh espere! Você me tirou duas coisas, minha mão... E o amor da minha vida — murmurei enquanto caminhava para a outra perna e descendo a cerra da mesma forma, o fazendo gritar ainda mais dolorosamente.
O barulho da cerra em atrito com o osso era horrível, agudo... Ensurdecedor. Mas a minha fúria me deixava surda a ponto de não ouvir quase nada, a não ser seus gritos que me deliciavam.
Desliguei a cerra e a deixei em cima de uma mesa, sorrindo e olhando pra ele enquanto ele gritava pelas duas pernas perdidas.
- Corra! Corra o mais depressa! — gargalhei.

-x-

- Você vai me pagar, sua desgraçada! — ele dizia num fio de voz.
Joguei a cerra dentro da mochila e a fechei colocando uma alça em um ombro, o soltando da poltrona e prendendo as duas mãos atrás das costas.
O arrastei então, pelo telhado ao lado da janela, onde eu havia entrado. A cada passo que eu dava ele soltava um urro de dor.
- Onde você está me levando, sua vadia?
Dei um sorriso, enquanto acomodava a alça da mochila em meu ombro. Ciente de que nenhum capanga estava nos observando. Espiei por cima dos ombros o rastro de sangue que saia das pernas amputadas de Brian, eu o arrastava pelas correntes das algemas e dando pausas curtas. Ele era muito pesado!
Brian era um homem que poderia ser considerado atraente, se fosse simpático podia-se dizer que ele era capaz de ter qualquer mulher à sua disposição. Ele era um quase ruivo, tinha barba rala e um rosto quadrado bem desenhado, os cabelos eram castanhos claros e encaracolados, porém curtos. Era uma pena ver um homem assim se desfalecer tão humilhantemente.
O empurrei de um muro baixo que ficava atrás do estoque do supermercado, ele caira de cara no chão, impossibilitado de se defender da queda pelas mãos presas nas costas e de se levantar pela falta de pernas, os dentes da frente quebrados foram inevitáveis.
Puxei seu rosto pra cima pelos cabelos, enquanto ele cuspia sangue. Gargalhei e sussurrei.
- E agora garanhão? Como acha que vai pegar alguma mulher sem os dentes da frente.
Vi seus olhos revirarem dentro das órbitas, o sangue que ele perdia era muito, por isso eu precisava agilizar de qualquer forma, queria ele bem consciente e ele não podia morrer. Pelo menos não ainda.
- Desgraçada... — ele balbuciou abrindo a boca numa corda de saliva e sangue se esticando dentro de seus lábios.
O arrastei por mais ou menos uma quadra, o lugar era perfeito e o melhor, era deserto.
Estávamos em uma rua sem saída que era vista tranquilamente da janela da minha quitinete e o encostei no muro pichado.
- Desgraçada. Está feliz?

Cruzei meus braços em sua frente.
- Ainda não.
Dei uns passos pra trás, buscando em meu decote a chave que Tess me dera, buscando cegamente pelo cadeado enorme e enferrujado de uma portinhola de ferro cruzado.
- Os seguranças de Tess resolveram aderir à um novo tipo de segurança que envolve cães. Você sabia?
Ele deslizou os olhos cansados para o que eu tinha em mãos agora. Era deplorável sua situação, ele mal respondia aos meus insultos. Somente me fitava com uma faísca de raiva que pousava em seu olhar cansado.
- Conheça Thor e Dalila — apontei pra dois hotweillers que eu segurava firmemente na coleira.
- Você acha que vai sair impune disso? — ele sorriu discaradamente — Sua cadela imunda, você ainda vai apodrecer e vai morrer como deveria ter morrido antes. Como eu matei seu namoradinho — ele sussurrou uma risada que mais parecia um tossido de cachorro velho.
Fechei meus olhos, lembrando dolorosamente da ultima imagem que tive de Cesar.
- Não importa se eu vou morrer, ou se algum de seus amiguinhos vai me matar depois, o importante é qu eeu posso me deliciar agora com essa visão — apontei pra ele — Você parece um monte de lixo, um olhar suplicante de um mendigo. Você conseguiu se assemelhar com as pessoas que você costumava matar, só que muito pior, pois você me parece muito mais inutil agora. Essa sim é uma visão que nunca vou esquecer.
Lambi os lábios como ele havia feito ao mencionar sobre as mulheres que matava. Ele somente estreitou os olhos.
- Um aviso prévio, Thor e Dalila não comem há alguns dias — olhei para os dois cães que por pouco não me arrastavam, me fazendo tremelicar no lugar, ambos muito fortes e salivavam olhando o sangue do toco das pernas de Brian.

- Vá se foder, sua puta! Solte logo esses vira-latas, já que você é tão mulher. Prove isso! — ele sorria, mesmo exausto, ainda me afrontando.
Inflei as narinas e pressionei os lábios. Aquele rosto ao mesmo tempo que era tão distante era tão familiar pra mim, e era tão doloroso olhar pra ele e assistir em flashs cenas do pior dia da minha vida.
- Agora já chega — virei meu rosto e fechei os olhos, soltando de uma vez só Thor e Dalila, que avançaram num ímpeto sedento sobre as pernas de Brian.
- VOCÊ VAI ARDER NO INFERNO SUA DESGRAçADA! — Ele gargalhava e gritava de dor, enquanto eu virava de costas pra ele. Seus gritos aos poucos sendo silenciados pelos cães, que arfavam e mastigavam com voracidade.
Me estiquei, colocando a mochila nas costas, sem olhar pra trás. Aquela não era a Amélie de antes, porém eu gostava dessa Amélie. Uma Amélie que ouvia pedaços de carne serem rasgados por dentes caninos afiados, e ainda sorria, satisfeita. Caminhando de volta pra casa, procurando ter uma noite um pouco mais tranquila, ou pesadelos que não me ferissem mais tanto. Eu rezava pra que finalmente a imagem de Cesar morto em minha frente se suavizasse e desse lugar pr'aqueles olhos que eu tanto amava.
Era só caminhar, ignorando os gritos, ignorando o barulho atrás de mim. Ignorando a dor.

Ponto de vista desconhecido. — Senhor, está tudo bem?

Uma voz masculina me perguntava, mas eu nada via. Oh droga, como minha cabeça doía!
- Sim, estou — respondo cegamente.
Ouço barulho de folhas de papel se movendo. E enfim alguém se aproximando.

- O senhor sofreu queimaduras de segundo e terceiro grau, e um olho ainda está ferido. Mas felizmente nada se alterou interiormente, seu estado vital é constante, e assim que tiver alta poderemos lhe encaminhar pra uma clínica de cirurgia plástica pra reparar alguns... Err... Detalhes...
O rapaz que falava comigo salivou por um instante. Eu tinha ataduras por todo o meu rosto e me sentia respondendo à alguma voz imaginária.

- Em alguns instantes lhe daremos mais alguns analgésicos e...
- Posso me ver? — perguntei o interrompendo bruscamente.
O rapaz hesitou. E eu repeti a pergunta.
- Bem, o senhor ainda vai levar um tempo pra se recuperar totalmente, o seu rosto tem... — ele folheia novamente alguma coisa — O seu rosto tem 70% de queimaduras e...
- Quero me ver. Rápido, tire essa coisa de mim — movi minhas mãos para o meu rosto ainda coberto.
Ele suspirou e se aproximou de mim, puxando constantemente e de modo ritmado as ataduras.

Aos poucos minha visão foi clareando. Definitivamente meus olhos estavam doloridos e um deles nem abria.

- Tem algum espelho? — perguntei ainda deitado. O rapaz suspirou novamente derrotado.
Ele esticou o braço em cima de uma cômoda, e pegou um espelho pequeno e me entregou.
Peguei o pequeno cabo do espelho e o virei devagar para o meu rosto. Categoricamente até finalmente me encarar.
A criatura monstruosa que me encarava no espelho definitivamente não era eu. Aquele monstro me encarava assustado, um olho fechado e todo retorcido, a pele estava inteiramente vermelha e enrugada, os lábios nem existiam mais. Qualquer movimento facial que eu executava era doloroso.
- Santo Deus! — exclamei enquanto me examinava.
- Eu disse, senhor. Seus ferimentos levara, algum tempo pra se recuperar por completo.
- Não importa — sussurrei. — Perdão, senhor. Não importa? — o jovem médico me perguntou.
- Sim, o que é a aparência perante à Deus, não é mesmo?
O rapaz deu de ombros, forçando um sorriso.
- Pois bem. Me alcance aquele manto e minha bíblia.
O rapaz torceu o nariz e me olhou de cima à baixo.

- Preciso agradecer como sempre faço todas as manhãs.
Ele observou eu me sentar na maca e colocar o manto branco sobre os ombros. Fechei os olhos por uns minutos, sentindo o rapaz se sentir incomodado à ponto de querer sair do quarto. Até que ergui uma de minhas mãos para impedi-lo. Sorrindo então eu lhe disse:

- Preciso voltar a minha vida normal. Quero ter alta.
O rapaz piscou atordoado.
- Não senhor... Queri dizer, padre. Como eu disse, os seus ferimentos e...
- Nenhuma dor é grande o suficiente para um homem não ser capaz de aguentá-la. Jesus mesmo aguentou muito mais que meras queimaduras.
- Eu sei, mas...
- Por favor, meu jovem.

Ele suspirou novamente.
- O senhor não pode esperar até amanhã pelo menos?
- Quanto mais tempo eu perco aqui, menos eu posso saber sobre o incêndio em minha clínica.
- Deixe isso com os policiais, padre. O senhor deve cuidar de sua saúde no momento.
Suspirei, abaixando minha cabeça.
- Você não entende. Nenhum policial é capaz de resolver o que houve com minha clínica, nenhuma lei física explica aquele incêndio, eu sinto isso.
O rapaz coçou as têmporas, com uma mão na cintura.
- O senhor assume as responsabilidades que virão, padre?
Sorri e fiz que sim com a cabeça.
- Então assinarei sua alta — ele balançou a cabeça derrotado e frustrado.
- Só preciso saber uma coisa — comecei antes que ele saísse do quarto.
- Sim, padre?
Me levantei, ficando de pé finalmente.
- Houveram mais algum sobrevivente do incêndio, fora eu?
O jovem médico olhou para o lado, onde havia a porta e pediu pra que eu esperasse um segundo. Logo voltando com um outro homem, que me olhou disfarçando a repulsa.
- Como se sente, padre?
- Bem, e o senhor? — Sou Edward Christopher, delegado do departament...
- Por favor, meu jovem. Podemos ir direto ao assunto e ignorar as apresentações?
O homem salivou e acenou com a cabeça.
- Pois sim, temos aqui uma cópia dos registros de internos da clínica que o antigo diretor havia feito, Senhor Pascoal.
Concordei com a cabeça enquanto ele ia falando.
- Bem — ele esticou um livro preto pra que eu pudesse analisar — Aqui temos todos os nomes e fotos de cada um. Destes 79 internos, conseguimos localizar os corpos de 45, e de 13 outras pessoas que julgamos ser funcionários ou enfermeiras.
Deslizei meu olho que estava aberto por cada detalhe daquele livro imenso. Os identificados possuíam um 'x' vermelho sobre sua foto. Era atordoante ver como tantas pessoas morreram.

- Parece uma carnificina — sussurrei indignado, folheando o álbum.
- Sim, senhor — o delegado concordou — O senhor teve muita sorte em estar vivo, o fogo se alastrou muito rápido.
- Sorte? — sorri — Não, esta foi a mão de Deus sobre o meu caminho. E um sinal de que tenho uma missão daqui por diante.
O delegado forçou um sorriso e fingiu concordar.
Ainda folheando o álbum, uma das fotos me chamou a atenção.
- O que significa esse círculo com um traço no meio sobre a foto?
O delegado esticou os olhos para o álbum e balançou a cabeça parecendo assimilar algo.
- Bem, marcamos isso nas fotos dos internos que estão desaparecidos.
Fixei meu olhar para o interno em questão. Seu olhar era triste, o rosto era pequeno de traços extremamente delicados e uma boca rosada desenhada, mas a atenção se concentrava nos cabelos longos, lisos e extremamente negros, com uma franja longa que caía sobre um dos olhos.
- Essa aqui está desaparecida? — apenas confirmei.
O delegado fez que sim com a cabeça.
Fechei o álbum e o entreguei novamente.
- Era só isso que eu precisava saber.
- O que pretende fazer, padre? — Ora, recuperar meu cordeiro perdido do rebanho — sorri, sendo seguido pelo delegado e pelo jovem médico — Amélie Sandersen pode não parecer, mas apresenta e corre sérios riscos.

O delegado abriu o álbum na página onde eu estava, fitando a foto de Amélie, até seu pomo de Adão se mover. Era inevitável não ver a luxúria que escorreu sobre seus pensamentos no exato momento.
- Não hesite em me chamar para ajudá-lo a capturá-la, padre.
Ele esticou o braço e me deu um cartão.
- Não hesitarei. Muito obrigado.