A Indomável
10 Capítulo IX - Silêncio
Ouço alguns ruídos vindos do outro cômodo do meu minúsculo apartamento. Limpo vestígios de saliva no canto do meu rosto e observo brevemente que eu estava dormindo sentada numa cadeira, e coberta por uma jaqueta providenciada por Tess que eu usava de vez em quando.
Os ruídos se cessavam toda vez que eu me movia, me provocando a estranha sensação de estar sendo observada.
Dessa vez tomei todo o cuidado de soltar a jaqueta sobre a cadeira em silêncio absoluto e caminhei na ponta dos pés, me preparando pra qualquer coisa. Qualquer coisa.
Eu me sentia ultimamente como um gato escaldado, fugindo entre bueiros, ruelas e me escondendo em cantos escuros, qualquer pessoa me parecia uma ameaça, qualquer rosto me era desconhecido, qualquer ruído parecia me aproximar ainda mais da morte.
Minha espinha inteira pareceu então uma tala de gelo quando eu finalmente vi uma sombra projetada na parede. E sim, ela se movia com cautela, sabendo que eu estava por perto, ou sabendo que estava fazendo barulho.
Prendi totalmente minha respiração, e rezei silenciosamente, apesar de não ser exatamente uma devota à qualquer religião, muito menos baseada nas desventuras que têm acontecido comigo ultimamente, rezei mesmo assim, pra que meu coração inquieto não pudesse ser ouvido. Fechei um olho e agarrei firmemente um canivete butterfly que eu escondia numa costura da calça, do lado interno da coxa.
Assim que saí de trás da parede onde eu me escondia, a sombra se esconde atrás de um balcão. Algo me dizia então que aquela sombra parecia ter diminuído o tamanho de repente, porém ainda assim eu tinha medo.
Me aproximei ainda mais, preparando pra soltar o canivete armado assim que uma ameaça surgisse. Porém a única ameaça grande o bastante pra me amedrontar foi um monstrinho sanguinário de maria chiquinhas e um cachorro escandaloso e hiperativo de orelhas longas, que se escondiam atrás de um velho balcão.
- Merda! O que você tá fazendo aqui? — perguntei histérica, citando cada palavra bem devagar.
- Hey, você ia me retalhar? — ela arregalou os olhos para o canivete, antes que eu o guardasse novamente.
Virei de costas pra ela e repeti a pergunta.
- Bem, vim te trazer um lanche. Mas se não quizer tudo bem eu posso levar de volta — ela resmungou, apontando com o queixo para uma sacola sore o balcão.
- Não estou com fome — sussurrei. Porém meu estômago vibra e resmunga em alto e bom som o que eu evitava admitir.
- Não é o que eu ouvi — ela deu uma gargalhada.
Revirei os olhos e abri a sacola, vendo um hamburguer embrulhado e uma garrafa de refrigerante.
- Você não cuspiu nisso, cuspiu?
Ela dá de ombros.
- Talvez.
Balanço a cabeça e ignorando a piada dou uma abocanhada faminta no hamburguer.
Lizie sentou-se sobre o balcão, alizando as longas mechas castanhas de cabelo e me olhando de baixo.
- Queria te agradecer — ela sussurrou numa meia voz recolhida. Por pouco não ouço absolutamente nada.
- O quê? — engasgo teatralmente, olhando com os olhos arregalados.
- Bem, eu soube o que aconteceu — ela dizia olhando para o chão, sem me olhar nos olhos uma só vez, coçando o cotovelo levemente — E eu queria... Agradecer. Muito obrigada.
Estreitei os olhos, observando como ela estava acanhada e transparecia realmente estar agradecida.
- De nada — sussurro apenas, terminando meu hambúrguer.
Alguns segundos de silêncio se passam, uma encarando disfarçadamente a outra. Eu via que ela abria a boca pra falar algo e quebrar o silêncio, mas a hesitação a tomava e ela permanecia quieta. Até que eu tomasse a atitude depois de um gole de refrigerante.
- Como você soube?
Ela revirou os olhos e fez com a cabeça como se dissesse "Dã!":
- Você não tem TV não?
Olhei em volta apontando meu apartamento semi-vazio e ela toma como se fosse uma resposta.
- Imaginei que diria isso — ela sorriu — Por isso comprei isso também pra que você não ficasse por fora das novidades — ela me deu uma piscadela e me jogou um jornal do dia.
Abri a primeira página do jornal, a olhando de lado e vendo que ela sorria.
Senti uma pontada fina no estômago assim que vi o nome do afamado mercado Rowlland jogado na lama, logo na primeira manchete num furo duplo: A morte "misteriosa" de Brian Phillips e a descoberta do templo de drogas que havia escondido em seus estoques. Haviam mais drogas lá que mercadorias para um mercado.
- Você matou dois coelhos numa cajadada só! — ela exclamou demonstrando falsa empatia — Ninguém iria suspeitar de uma coelhinha de gravata num lugar onde tem mais prostitutas que pedras no chão.
Arregalei os olhos, sentindo de repente um calafrio.
- Como você sabe sobre a roupa?
- Eu conversei com tia Tess — ela sorriu, e eu me aliviei.
O fato ainda me deixava estupefata. A foto de Brian envolto num lençol branco ensanguentado, a manchete dizendo que seu corpo fora encontrado em pedaços, todas aquelas atrocidades que antes eu veria num noticiário e ficaria enojada, hoje, apontavam pra mim. Eu era a assassina fria dessa vez, a psicopata.
Fechei de repente o jornal, fechando os olhos e tentando enganar o torpor que me tomava de repente. Lizie me olhou confusa.
- Onde está Tess?
- Onde estaria? No bar, é claro.
- Preciso falar com ela.
-x-
- Você conseguiu — ela sussurrou, dando uma tragada longa num cigarro e soltando anéis de fumaça no ar através dos lábios perfeitos em carmim.
- Parece que sim.
Ela sorriu categoricamente, enquanto espiava de vez em quando o ensaio de suas garotas em um palco grande.
- Você me parece uma mulher forte, Amélie. Realmente estou impressionada e me impressiono cada dia mais com você.
- É muito bom ouvir isso de você, Tess.
Ela deu mais uma tragada, me olhando de lado e sorrindo suavemente.
- Há anos, a "polícia" — ela fez aspas no ar, dando ênfase à inutilidade que essas autoridades tinham naquele lugar — Tentava capturar a família Rowlland, e você simplesmente chega no principal alvo, o mata, e ainda ajuda a polícia.
Me encolhi de repente. Eu sabia onde ela iria chegar.
- Você sabe que corre perigo daqui por diante, não sabe?
Suspirei demoradamente e fiquei ereta, olhando em seus olhos castanhos.
- Sim, eu sei. E não me importa.
Ela balançou a cabeça, rindo.
- Eu me importaria — ela sussurrou, como sempre muito sátira. Por fim, jogando o toco de cigarro no chão e o apagando com a ponta do sapato.
Ela se apoiou sobre o balcão e apontou com o queixo para Lizie, que tagarelava com os bartenders os fazendo rir.
- Não sei como fez isso, mas Lizie gosta de você e criou uma afinidade extremamente rápida com você, ela não é de fazer isso. Na verdade ela nunca fez isso, nunca simpatizou com ninguém tão rápido, e nunca se entrosou com ninguém tão rapidamente como foi com você. Ela a tem como uma heroína.
Não pude evitar um sorriso suave enquanto eu a admirava de longe. Algo em mim também palpitava um sentimento por Lizie, algo em mim era despertado por ela. Algo maternal.
- Eu também gosto de Lizie, apesar dela ser um tanto irritante — sussurrei entre uma risada e outra.
Porém senti a voz de Tess mudar de repente, me obrigando a olhar pra ela fixamente.
- Por isso, se você a magoar ou fizer algo contra ela. Eu acabo com você.
Ela disse isso baixo, entredentes e depois sorriu. Sorriu! Como se tivesse acabado de me dar um bom dia.
- Eu não farei nada contra ela — murmurei firmemente, estreitando os olhos.
- É o que eu espero.
Ela então sai de trás do balcão, caminhando em direção ao palco, onde algumas strippers estavam rebolando desajeitadamente.
- Hey, Lizie! — gritei a chamando, ela virou o rosto balançando as madeixas em maria chiquinhas.
- Você sabe me dizer onde fica a loja de Johnny? — perguntei sorrindo.
Ela fez que sim com a cabeça, correndo em minha direção com o cachorro no colo.
-x-
Depois de quase meia hora ouvindo Lizie tagarelar eu podia ver aos poucos o bairro onde ficava a loja de Johnny.
Ela soltou Tobias, ou Toby, seu cachorrinho no chão e apontou ao longe para loja.
- Eu disse que sabia onde ficava! — ela comemorou sarcasticamente.
Antes que eu pudesse responder à altura, pelo canto dos olhos captei uma imagem familiar. Estranhamente familiar.
A pessoa me olhou de repente, parecendo insegura e confusa, por trás da barba por fazer que mais parecia o Capitão Caverna, e dos olhos cansados, havia algo que me puxava bruscamente pro passado como um soco no estômago.
Ele então parou e me olhou fixamente, meio incerto e desconfiado sussurrou:
- Amélie?!
Estreitei meus olhos, ainda não acreditando no que via. Foi inevitável que a voz da antiga Amélie saltasse da minha garganta.
- Tio?!?
Ele sorriu, agora tendo certeza do que via. Antes que me desse conta, já estava no meio de seus braços enormes e afáveis.
- Amélie, minha pequena! Achei que estivesse morta! — ele murmurou abafado.
Me afastei pra olhar seu rosto cansado. Me esquecendo por instantes de Lizie que nos assistia confusa e emburrada ao longe.
- Eu te procurei por todos os cantos dessa maldita cidade, Amélie. O que houve com você? Vamos pra casa.
Me afastei por completo, no momento. O encarando séria.
- Não vou voltar.
Ele arregalou os olhos, tentando suplicar.
- Mas, Mely! Você precisa voltar!
Fechei meus punhos no canto do corpo.
- Não posso, tio. Aquele lugar só me prendia, não posso voltar pra onde eu era uma impossibilitada.
Meu tio por um momento parecia desolado, coçando as têmporas, forçando as sobrancelhas à se unirem.
- Amélie, você precisa voltar, sua mãe...
- Ela me abandonou! Me deixou à deriva num sanatório!
Seus lábios estavam pressionados.
- Eu não posso voltar — sussurrei.
- Mas Amélie, sua mãe...
- Precisa de mim? — bufei.
Ele tomou fôlego.
- Amélie Sandersen! Sua mãe... Está morta!
Tudo em minha volta simplesmente girou, e pareceu desabar. Eu esperava ansiosa por um sorriso brincalhão no rosto do meu tio enquanto ele me dava a notícia. Palavras lentas iam ecoando na minha mente. "Ela já estava doente..."
Só me lembro de me virar pra Lizie e gesticular lhe pedindo que fosse brincar numa praça ali perto e depois de tatear um banco e me sentar olhando de frente para o meu tio.
- Foi muito rápido, Mely.
Pressionei os punhos sobre minhas coxas.
- O que ela tinha? — perguntei roboticamente, tentando me conter e não chorar.
- Eu não sei bem ao certo, mas ela tinha um tumor não-maligno no útero. Porém ocorreu um erro médico.
- Erro médico? — ergui meu rosto para encará-lo.
- Bem, o médico que a operou cometeu um grande engano e...
Fechei meus olhos e pressionei meus dedos em minhas têmporas.
- O que aconteceu, tio?
- Depois da cirurgia — ele deu uma pausa longa — Sua mãe reclamava muito de dores abdominais, enjôos, vômitos, e teve de retornar ao médico pra reclamar principalmente de...
Ele parou, olhando para os lados e se aproximando.
- Eu sei que é muito forte o que eu direi, mas, ela defecava pelos órgãos genitais, algo que era fato que não era nada normal.
Arregalei os olhos, horrorizada. Meu tio mantinha um comportamento discreto e minha mãe muito mais ainda, se ele chegou ao ponto de saber sobre esse fato, era sinal de que o problema era definitivamente grave. E eu não sabia de nada...
- Porém o médico disse que algumas alterações eram normais e não lhe deu muita atenção. Isso durou apenas três semanas.
- Tio! Eu preciso saber quem é esse médico! — me desmanchei em prantos, não evitando de falar tão alto.
Meu tio me olhou atordoado.
- Minha querida, eu não me lembro o nome dele. Mas venha comigo, acho que alguns documentos de sua mãe estão no carro, mas não se preocupe, entrei com um processo contra ele, já está correndo. Vai ficar tudo bem.
Espiei ao longe, e vi Lizie, correndo atrás de Tobias, alegremente.
- Não, tio. Não vai ficar nada bem. Ele matou minha mãe.
Uma pontada no estômago me tomou de repente. Será que eu não agi de modo egoísta ultimamente?
- Amélie, eu não me lembro do nome dele. Só sei que é um italiano de sotaque forte, um rapaz jovem e...
Me levantei bruscamente deixando meu tio falando sozinho e me direcionei à Lizie, a puxando pelo braço e sussurrei em seu ouvido.
- Entre na loja e fique com John.
- Mas...
- Mas nada! Faça o que eu digo, voltarei pra te buscar.
Ela fez um bico e depois entrou na loja de Johnny pisando duro.
- Vamos tio, me mostre os documentos e exames de mamãe.
Meu tio me olhou de soslaio enquanto íamos andando pelo estacionamento logo a frente. O sol dava a sensação de torrar todos os carros. O banco do carro de meu tio era de couro o que piorava essa sensação de calor infernal.
O carro do meu tio era uma perfeita bagunça, e era óbvio que ele ainda tinha a papelada de minha mãe no carro dele, pois ele sempre guardava todo o tipo de papel naquele carro.
Busquei em todos os lugares, e ele me ajudara. No porta-luvas, embaixo dos bancos, dos tapetes, em todo o lugar. Mas não achávamos nada.
Ele se sentou no banco do motorista, com a porta aberta, se esticando derrotado e espalhando a mão imensa sobre o rosto.
- Como era o nome do desgraçado, mesmo? — ele praguejou.
- Tio, você entrou com um processo. Deve saber.
- Eu deixei isso com meu advogado, sabe como eu sou avoado com essas coisas.
Choraminguei baixo.
- Você não tem o telefone desse seu advogado?
Ele buscou no bolso o celular e discou, colocando-o em seguida perto do ouvido.
- Diabos! — Ele praguejou alto, fechando o celular com força — Está desligado!
Suspirei profundamente, esfregando minhas têmporas que latejavam como nunca.
- Como era o nome... Como era...? Petruquio... Petrônio...
Próximo ao câmbio do carro, um pedacinho de papel amassado me chamou a atenção, me fazendo gelar de repente com tamanha coincidência.
Enquanto meu tio ainda tentava se lembrar, murmurando alto seu pensamento. Estiquei meu braço e enfiei minha mão num vão aberto do câmbio. Meu coração disparava enlouquecidamente.
Tive de ler várias vezes, até ter certeza do que se tratava realmente.
- O nome dele... É Pietro Ottavio...? — sussurrei incerta.
Meu tio tirou a palma da mão da frente do rosto e me olhou assustado.
- Sim! SIM! É isso mesmo!
Olhei novamente para o papel em minhas mãos e murmurei.
- Quando é mesmo que temos a audiência com o nosso doutor?
-x-
- Amélie, não suje seu vestido! — minha mãe ordenou. Simplesmente ordenou.
Ela se aproximara, esticara o braço pra mim e me entregara um cupcake, olhei pra mim mesma e me senti uma princesinha. Meu vestido era rosa com tule branco e pedras brilhantes, eu usava uma sapatilha branca, e olhei no mesmo momento para o cupcake de chocolate em minha mão e imaginei o estrago que ele seria capaz de fazer em meu vestido.
Minha família teria um jantar com o governador, meu pai era um amigo dele e eu não podia fazer feio, era isso que minha mãe repetia muitas e muitas vezes pra mim durante o dia inteiro em que ela me arrumou pra parecer a mais linda das filhas de todos os caras importantes que apareceriam nesse jantar. Mas a única coisa que eu queria era me divertir, apenas isso. Mas era a pior coisa que eu devia pensar no momento em que limpei minha boca com a manga do vestido.
Minha mãe me chamou depressa, pra irmos logo, pois papai já estava no caro nos esperando. Lhe dei a minha outra mão da qual a manga não estava suja, ela estranhou mas não disse nada pois estávamos com pressa.
Enquanto meu pai me apresentava pra todos aqueles homens importantes, suas esposas e filhos e filhas arrogantes, que me olhavam como se sentissem um mal cheiro debaixo do nariz.
Eu escondia minha mão direito de todos. Sempre quando ia os cumprimentar estendia a mão esquerda. Até que uma menina loura de olhos gigantes se aproxima e escancara com sua voz aguda, perguntando o que estava escondendo. Eu só mexo a cabeça fazendo que não. Ela então puxa meu braço e expõe dando gargalhadas histérica o meu braço manchado de marrom na manga do vestido lindo de princesa que eu usava.
Só consegui ver os olhos da minha mãe quase sair fora das órbitas. Já era de se esperar que assim que o jantar terminasse, aquilo custasse um castigo.
- Eu não lhe disse pra não sujar o vestido?
- Mas não sujei o vestido, mamãe — resmunguei estrangulada pela água do chuveiro que cobria meu rosto.
Meu pai recriminava e murmurava algo de fora do banheiro pra minha mãe, mas eu não conseguia distinguir com perfeição.
- Oswald! Veja o que ela fez? E eu ainda havia dito pra ela não se sujar!
Minha mãe apontara pra mim, enquanto me esfregava debaixo do chuveiro com vestido e tudo.
- Agora esfregue esse vestido enquanto toma banho! — ela dizia enquanto encharcava meu cabelo de shampoo.
Esfreguei minhas mãozinhas pequenas e gordinhas na manga que estava suja, vendo a água marrom escura descendo pelo ralo. Me segurei pra não chorar enquanto ela esfregava com força as minhas costas. Eu não podia dizer nada, afinal eu a fiz passar vergonha.
Apenas estiquei meus olhos pra cima e vi meu pai balançar a cabeça em desaprovação e saiu sem dizer uma palavra sequer.
Mamãe terminou de me dar banho e depois me deixou no meu quarto, assim que terminei de vestir o pijama.
- Fique aí e reflita um pouco sobre o que você fez.
Foi a única coisa que ela me disse e me deixou fechada no quarto. Lembro de ter adormecido e logo em seguida meu pai apareceu, me dando um beijo na testa de boa noite e deixando algo pra mim sobre minha cama ao meu lado. Acordei e vi um bombom com algo amarrado.
Era um bilhete escrito: "Sua mãe me mandou entregar isso, ela sente muito e disse que te ama"
Limpei uma lágrima que caiu em minhas bochechas assim que minha mente voltou para o presente.
- O que foi? — Lizie me perguntou, subindo na varanda onde eu estava sentada no muro.
Balancei a cabeça e sorri.
- Sabe, minha mãe morreu, mas não consigo me lembrar muito dela sendo, sabe... Mãe.
Lizie forçou um sorriso e concordou comigo.
- Minha mãe também não era uma mãe que pudesse se dizer que era a mais amorosa do mundo, mas eu não podia reclamar, afinal ela fora criada daquele jeito, eu via que ela fazia o que podia.
Soltei meu fôlego num sopro, até as lágrimas se soltarem junto.
- E sabe o que é mais engraçado? — Lizie continuou, olhando para o céu da minha varanda — É que são as poucas vezes que ela foi uma boa mãe são as que eu mais me lembro.
Meus lábios tremiam enquanto eu observava Lizie. Tão pequena, tão frágil e ao mesmo tempo tão decidida. Éramos nada mais nada menos que duas garotinhas na mesma situação, órfãs e sem memória alguma do que o que poderia ser uma família.
Não tinha certeza do que me moveu, mas puxei com força o braço de Lizie. E a abracei.
Ela hesitou por um momento, mas logo enroscou suas mãozinhas macias no meu pescoço enquanto eu envolvia meus braços pelo seu corpinho esquálido.
- Am... Mélie? O que houve? — ela gaguejou indecisa, porém não soltou um minuto sequer do meu pescoço.
- Não é nada — sussurrei afundando meu nariz nos cabelos de Lizie.
- Você não está no seu normal — ela murmurou dando uma risada.
Era estranho sentir o abraço de Lizie reciprocamente, ela me apertava conforme eu apertava ela, o coraçãozinho batendo tão forte e tão rápido, me senti por milésimos de segundo com um sentimento bom que tomava conta de mim, talvez o primeiro sentimento bom que tivesse me tomado por inteira de um modo tão rápido assim.
- Sabe — sussurrei depois de fungar e limpar minhas lágrimas — Meu noivo e eu queríamos muito ter uma filha, e sabe como seria o nome dela?
Lizie esticou o pescoço e me olhou nos olhos, movendo os ombros e fazendo que não com a cabeça.
- Lizie. Ele mesmo havia escolhido — sussurrei alegremente ao ver o sorriso que isso extraiu do rosto de Lizie.
- É mesmo?
- Sim, mesmo.
Ela abaixou o olhar, temendo não tocar no assunto, mas mesmo assim o fazendo.
- Você amava muito ele, não é?
Num só fôlego despejei minhas lágrimas em uma enxurrada.
- Mais do que a mim mesma.
Lizie não fez nada além de me abraçar novamente.
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