A Imortal

7 Verdades


Pessoas começaram a aparecer em volta da minha casa, e a cada momento que achava que não chegaria mais ninguém, outra pessoa se juntava aos que tumultuavam meu quintal. Eles gritavam, riam, mostravam suas armas para a janela em que estávamos assistindo toda essa babaquice. Alguns deles até mesmo fingiam se estrangular, se cortar, se bater.

—Por que eles estão agindo assim?

—É normal- respondeu Kylor com desprezo- te avisei que Caçadores são nojentos. Eles estão comemorando, alguns dali é a primeira vez que vêm Imortais. Dois ainda? Muita história para contar.

—Como se mata um imortal?

Os barulhos só aumentavam, Kylor me tirou dali, e ficamos na sala, onde apesar de ainda haver barulho, eram mais baixos que na cozinha.

—Não temos tempo para isso Carrie –ele suspirou, preocupado- mas caso algo aconteça, você tem que saber onde se prevenir. O jeito tradicional de matar um Imortal é arrancando seu coração. Esfaquear, furar, ou seja o que for não adianta. O coração tem que estar fora do corpo. É extremamente difícil. Mas há outro jeito. Existe um cristal, mors lapis. É literalmente pedra da morte. O conhecimento desse cristal foi passado apenas aos Imortais, eles são extremamente raros e pode demorar séculos para ser cultivado, isso porque seu uso era exclusivo nosso, apenas alguns anciãos sabiam como cultivá-los e passavam esse conhecimento aos descendentes confiáveis. Os cristais eram usados por Imortais que não queriam mais viver, e era completamente indolor, fazíamos várias coisas com ele, seja transformar em um tipo de sal para temperar a comida ou fazer um chá, e o consumo dessas coisas causa uma morte tranquila. Os Caçadores os descobriram e colocam pequenas quantidades em suas armas de fogo. Não sei como é o estoque deles, já que eles não podem produzir, mas é letal. Uma bala dessa e você agoniza até morrer. Seu corpo vai tentar curar o ferimento e não vai conseguir, vai ser desesperador.

O barulho aumentava, como se os Caçadores buscassem um lugar onde poderiam nos ver. Eles rondavam a casa, gritando e comemorando. Duas das casas ao lado da minha estavam em construção, e na outra morava um casal de idosos. Esperava que algum desses fossem chamar a polícia.

A gritaria aumentava. O telefone começou a tocar. Ouvia barulhos de carros chegando. O telefone estava tocando. As pessoas batiam nas latas de lixo de metais que estavam na rua. Suas gargalhadas aumentavam. O telefone tocava. Eles cantavam uma música em uma língua que não conhecia. Riam mais. O telefone.

Não conseguia pensar.

—CARRIE –assustei, Kylor estava praticamente debruçado sobre mim- Não se perca. Atenda o telefone e tente ignorar o resto.

Fui no automático até o telefone, seguindo à risca a ordem de Kylor.

—Carrie.

—Mãe?

—Me escute com atenção: não saia da casa –o desespero era visível em sua voz- há um feitiço protetor na casa, nas portas e nas janelas. Contando que você não abra para ninguém, tudo ficará bem. Só aguente um pouco, nós vamos resolver.

—Mãe do que você está falando? Como sabe o que está acontecendo aqui?

—Mesmo que veja alguém que você conheça, não abra nada! — ela parou por um momento e mandou alguém se apressar -nós vamos resolver tudo, não vamos demorar. Sei que deve estar confusa, ainda mais sozinha, mas...

—Não estou sozinha.

Ela se calou.

—Carrie –seu tom passou de desespero a preocupação-quem está com você? Se for Annie ou Louis você precisa esconde-los imediatamente! Essas pessoas que estão na porta vão matar qualquer um que te ajudar!

—Não são eles mãe, é um... -olhei para Kylor- outro tipo de amigo.

Isso pareceu apenas a apavorar mais.

—Não confie em ninguém! Já estamos indo.

Então ela desligou.

Kylor perguntou o que aconteceu, e contei tudo a ele. Naquele momento não desconfiaria da única pessoa que poderia me ajudar. Talvez eu me arrependa, mas ali, decidi que confiaria nele.

E Kylor percebeu, ele sorriu agradecido. Então se sentou no sofá, cruzou as penas e relaxou.

—Deveria tirar um cochilo?

—Desculpe?

—O feiticeiro, seja quem for, provavelmente já está resolvendo a situação. Tudo que podemos fazer é esperar.

—Oi? Você já olhou lá fora- gesticulei- não há como se livrar tão fácil dessas pessoas.

—Não se preocupe –ele respondeu, tranquilo- os feiticeiros são nossos aliados, ou seja, inimigos dos Caçadores. Eles sabem como lidar.

—Como pode ter certeza? Você mesmo falou que muita coisa mudou.

—Isso não, acredite. Se tornar feiticeiro é jurar devoção a qualquer Imortal.

— E se...

—Carrie, apenas relaxa.

—Minha mãe estava desesperada no telefone Kylor.

—Por você ter descoberto a verdade, não pela situação em que se encontra –ele suspirou, como se fosse óbvio- vai ser divertido descobrir porque ela escondeu isso de você.

—Divertido? Como assim divertido?

—As preocupações mortais me divertem. As decisões também, são como se não vissem o quão fútil são -ele me deu um tapinha no braço- daqui a um tempo você vai entender o que eu digo, e vamos rir disso juntos.

—O que te faz achar que estaremos juntos “daqui a um tempo”?

—Hum, o fato de todos que você conhecer estarem mortos menos eu? -ele fechou a cara- qual é Carrie, vai me dizer que ainda não acredita em mim.

Eu acreditava. Esse era o problema. Desde o momento que ele me contou, sabia que não importa o quanto negasse, algo mudaria minha mente. E foi exatamente assim.

Foi quando me ocorreu que Kylor esteve sozinho todo esse tempo. Ele desprezava os humanos então provavelmente não interagiu com nenhum e apenas vagou de lugar em lugar procurando por um semelhante. Isso me deu pena, conseguia imaginar o alívio dele quando me encontrou, mas não passava disso, imaginação. Nunca iria querer passar pelo que ele passou, não queria perder as pessoas que amo.

Estávamos tão concentrados em nossos pensamentos e conversas que só percebemos que todo barulho havia cessado quando minha mãe entrou pela porta. Eu me assustei, e Kylor apenas continuou no sofá, a olhado curioso.

Minha mãe me abraçou com urgência, abraço esse que não retribui.

Então outra pessoa passou pela porta, aquele velhinho que estava a minha casa.

—Ah -Kylor se levantou, o analisando- um feiticeiro! Faz anos que não vejo um.

—Me chamo Fell, senhor- o feiticeiro abaixou a cabeça em um sinal de respeito- é ótimo ver mais um de vocês vivos.

—Fico feliz que pense assim- Kylor colocou a mão em seu ombro- agora pode me contar o que fez para se livrar de todo aquele lixo?

—Criei uma ilusão -contou Fell, orgulhoso- na mente deles vocês saíram correndo pela porta. Vão conseguir fugir e eles vão passar alguns dias procurando, mas eventualmente vão retornar para essa casa. Talvez o truque não funcione duas vezes.

—Assim que vi seu feitiço de proteção soube que era talentoso- era estranho ver Kylor sendo tão amigável- quase que nem eu passo.

—Peço perdão, o feitiço tem a intenção de barrar tanto Caçadores e seus subordinados quanto Imortais. Não esperava que fosse surgir algum, mas a mãe de Carrie insistiu que eu os colocasse ainda assim.

—A mortal?

O feiticeiro fez que sim. Kylor se virou, analisando minha mãe com curiosidade. E ela ainda me segurava.

—É melhor você começar me contando qualquer que seja sua história, mãe. -ela me soltou, com um olhar preocupado- por que escondeu algo assim de mim?

—Eu precisava te proteger de alguma forma.

—Eles sempre falam isso- disse Kylor enquanto fingia analisar os móveis- patético.

—E quem é você mesmo? -minha mãe perguntou, Kylor nem mesmo a olhou- eu estou falando com você!

—Ele não gosta de humanos, mãe. É um Imortal.

—Impossível –ela se virou para mim- os Imortais estão extintos.

—E o que eu sou?

Perguntei, e tristeza passou em seu olhar.

—Carrie eu posso explicar –ela me guiou ao sofá e se sentou ao meu lado, Fell ficou parado perto da porta, como se a vigiasse e Kylor finalmente dirigiu seu olhar a ela, interessado- Quando conheci seu pai, sabia que foi amor à primeira vista. Foram os melhores anos da minha vida, até eu engravidar. Foi então que ele me contou, toda essa história. Me disse que não tiraria a minha escolha, mas que gerar o filho de um Imortal, ainda mais sendo humana, não seria possível. Ele recomendou que eu abortasse, mas que não me impediria caso decidisse ter. E essa foi minha escolha. Antes de desaparecer ele me apresentou ao Fell, e então eu nunca mais o vi...

—Ele provavelmente foi caçado- Fell interrompeu, triste- Carrie, eu não sabia que você desconhecia sua história, nunca aprovaria isso.

Ele lançou um olhar de repreensão à minha mãe, e então continuou:

—Seu nascimento foi mais arriscado para você do que para sua mãe. Você nasceu Imortal.

—O que? -Kylor o olhou, incrédulo- isso é impossível. A imortalidade surge em diferentes idades para todos, mas nunca em crianças. É parte do acordo divino, crianças têm que ser crianças.

—Imagino que você saiba o jeito de burlar esse acordo –Fell e Kylor trocaram um olhar que só eles compreenderam, mas decidiram não compartilhar qualquer que fosse seu significado- enfim, para salvar sua vida, Carrie, conjurei uma magia que atrasaria seu despertar. Por isso seus cabelos são brancos, essa magia funciona como uma troca, ela pega algo seu e quando não há mais nada, ela se esvai. Mas estranhamente a única coisa que mudou em você, foram seus cabelos.

Kylor parecia assustado com toda essa revelação, mas se manteve calado. Já eu, estava apenas chocada, como minha mãe pôde esconder algo tão grande assim de mim.

—Por que você não me contou isso antes? -questionei.

—Do que adiantaria contar? -ela então olhou para Kylor- os Imortais vivem apenas para fugir.

Kylor revirou os olhos, com desprezo.

—Carrie, não me arrependo nem mesmo por um segundo de não te contar. Se pudesse, ainda atrasaria mais, o quanto for possível para que você tenha uma vida comum –ela segurou minha mão- seu pai me contou histórias Carrie, houve uma época em que os Imortais lutavam entre si, havia um homem que desejava ser maior que até mesmo Deus. Ele matou sua própria espécie, dizimou cidades humanas e até mesmo os Caçadores o temiam. A morte dele foi necessária...

—A morte dele só serviu para dar foças ao Caçadores -era a primeira vez que vi Kylor respondendo uma humana, ainda que ele direcionasse seu olhar para mim- não importa o quão profano ele era, graças a ele, havia ordem.

—Você é insano –minha mãe disse, Kylor não se importou, mas Fell fez uma careta, mal humorado- se alguém como ele ainda estivesse vivo...

—Você não sabe nada sobre os Imortais, humana –dessa vez seu olhar ia direto à minha mãe- todos nós temos que pagar por nossos pecados em vida, a morte é um alívio.

—Então por que você ainda vive?

—Nunca vou deixar que seres tão inferiores me matem! -ele olhou para mim- enquanto houver mais de nós, eu vou continuar existindo.

—Você tem que compreender Evelyn, todos os Imortais que sobreviveram vivem sua vida em luto –comentou Fell, reflexivo- eles prefeririam viver governados por alguém insano como foi o Rei Maldito do que viver sendo caçados.

A expressão da minha mãe se suavizou.

—Olha, eu entendo que você esteja preocupado com a Carrie, e disposto a protege-la. Agradeço por isso –ela olhava para Kylor, com expectativa- mas não quero que ela leva o tipo de vida que vocês levam. O tipo de vida que meu marido levou.

—Infelizmente mãe, você não pode decidir isso por mim. Igual não poderia esconder o que escondeu também. -Segurei sua mão de volta, ainda que brava, entendia seus motivos, mesmo que não concordasse- Esse “tipo de vida” não é uma escolha, depois de hoje sei que não tem como eu continuar a viver normalmente, depois de tudo que descobri. Eu não sei o que tenho que fazer daqui pra frente, não sei como dar o primeiro passo, mas sei que se eu não fizer nada eu vou estar em risco. Depois de ver aquelas pessoas, foi apavorante imaginar que se eu estivesse sozinha, se eles pudessem entrar, eu não saberia nem mesmo lutar. Não saberia porque me atacavam, o que fariam comigo. Vocês saberiam, mas eu, cairia no escuro.