A Imortal

8 Novos Ares


Tirei, irritada, mais algumas peças de roupas do meu closet e as joguei na mala, minha mãe pacientemente as retirava de lá, e dobrava, como eu deveria estar fazendo. Mais cedo em uma conversa entre minha mãe, Fell e Kylor foi definido que eu me mudaria. Eu não participei da conversa, nem da decisão.

—Ainda não concordo com isso –falei irritada- não fiz nada de errado, então por que sou eu quem tem que fugir?

—Você não está fugindo –minha mãe me respondia, sem nem mesmo me dar atenção, pois focava nas minhas coisas- está sobrevivendo. Além disso protegendo as pessoas que você ama. Os Caçadores não vão nos machucar, contando que nós não sejamos vistos com você.

—Ainda assim, não quero ficar sozinha.

—Eu não posso ir com você Carrie. Fell e eu vamos te proteger de todas as formas possíveis.

Me sentei ao lado dela na cama.

—Não mãe, eu não quero estar sozinha- segurei o choro- se eles me acharem e a cena que aconteceu aqui hoje se repetir, não posso estar sozinha.

—Eles nunca mais vão te achar.

Suspirei, sabia que isso não era verdade. Sabia que passaria o resto da minha vida, ou ao menos uma grande parte dela, fugindo. E minha mãe também.

Desde o momento que nós subimos para o meu quarto, ela estava impaciente, demonstrava ansiedade e nervosismo. Supunha que era pelo ocorrido, então não perguntei nada. Mas isso já estava me incomodando.

Terminamos de organizar minhas coisas em silêncio e depois decidimos fazer algo para comer. Iria embora na manhã seguinte, e ainda definiríamos onde seria minha nova casa.

Tivemos uma noite tranquila, nenhuma de nós dormiu, fizemos tudo que normalmente fazíamos. Pedimos sushi, assistimos filmes e jogamos jogos. Mas ainda assim, minha mãe não agia como ela mesma, como se não conseguisse se concentrar em mais nada além do que a incomodava. Novamente não perguntei, se houvesse mais alguma coisa para revelar que estava a incomodando esse tanto, preferia que ela falasse no momento em que estivesse pronta.

De manhã a campainha tocou, não precisava ir até a porta para saber que era Kylor quem estava do outro lado.

—Tá com tudo pronto? -ele perguntou entrando, assim que minha mãe o deu passagem –Fell e eu garantimos que o lugar onde você vai ficar não seja encontrado.

—Tá pronto, se puder levar para o carro –apontei para as malas- e onde é esse lugar?

—Na min...

—Não responda –minha mãe falou assuntando nós dois -não me deixe saber a localização.

—Esperta.

Kylor sorriu orgulhoso e foi em direção ao carro, carregando minhas malas.

—Por que você não pode saber? Como vai me visitar?

—Nos dias que for te visitar vou pedir ao Fell que me leve usando uma venda, é melhor que eu não saiba porquê... -ela hesitou, olhou para mim e suspirou -há algo que preciso te contar Carrie...

Então ela olhou para Kylor, e depois d volta para mim, com um olhar mais assustado.

—Da próxima vez, vamos ter uma conversa.

Apenas acenei com a cabeça, não iria insistir. Talvez nem mesmo queria saber.

Depois de nos despedir entrei com Kylor no carro, por uns dez minutos foi um silêncio total.

—A gente pode conversar se quiser.

Kylor por fim disse, e achei estranho pois jurei ver uma expressão preocupada em seu rosto.

—Sobre o que?

—Você não tem nenhuma dúvida? -ele me olhou por um segundo, mas logo voltou a tenção para estrada- sobre os Imortais eu digo.

Pensei em toda aquela história que ele me contou no carro. Sim, eu tinha dúvidas.

—O que é o Concelho? Quem são os Anciões? Quem entregou o segredo da mors lapis? O que é o purgatório?

Ele riu, aliviado.

—O Concelho é nosso governo e nossa igreja, eles governavam de acordo com os mandamentos das divindades e os passavam para o povo. Bom, eles não existem mais, claramente. Os Anciões eram os Imortais que tinham apenas uma função: proteger nosso segredo, cultivar e quando achasse conveniente, eles distribuíam a mors lapis para quem julgavam necessário. Eram grandes sábios na verdade –ele sorriu- é bom falar sobre isso, estou dando uma aula de história.

Eu sorri de volta, dessa vez, acreditando em cada palavra. E ele continuou:

—O segredo foi revelado por um dos Anciões, um dos principais. Enfim, ela achou que os Imortais deveriam chegar ao fim, de alguma forma ela criou um ódio da própria espécie. Quando ela revelou tudo aos Caçadores, se ofereceu de cobaia para provar que era verídico o que falava. Mas antes que isso pudesse ser realizado, foi descoberto seu plano e o Concelho a prendeu. Ela era a única anciã mulher, causou um alvoroço na época, e por culpa dela dispensaram várias mulheres de cargos altos. Enfim, ela foi mandada ao purgatório... -ele deu uma pausa, suspirou e continuou, apesar de parecer não querer falar disso- haviam prisões para Imortais, lugares reforçados, com uma segurança muito bem treinada, só era possível sair de lá quando cumprisse sua pena. O purgatório era ainda pior. Não havia seguranças, e ainda assim era impossível escapar. Os prisioneiros do purgatório eram levados cada um para uma gruta, em algum lugar deserto. Eram acorrentados e sua única companhia era uma goteira de água, que pingava o tempo inteiro. Não havia alimento, nem pessoas para conversar. Muitos quando saiam de lá iam direto aos anciões e consumiam a mors lapis. Muitos saiam loucos e eram presos novamente. O Concelho, apesar de torturar os Imortais, nunca os matava. Isso sempre teve que ser uma escolha nossa.

—E o que aconteceu com a anciã?

—Não sei, a guerra começou pouco depois da revelação dela. É bem provável que ela nunca foi resgatada do purgatório. E se foi encontrada lá por algum Caçador ou Imortal, ela provavelmente foi assassinada.

Hesitei na próxima pergunta que faria, mas ainda assim a fiz.

—Você já foi preso no purgatório? -ele me olhou por um momento, e não consegui definir o que sua expressão dizia- não precisa responder se não quiser...

—Já fui. Estamos chegando.

Ele não deu uma brecha para que eu perguntasse o motivo, ou nada mais. Após uma hora de estrada chegamos a uma floresta, que parecia não ter lugar para a passagem de Kylor mas ele entrou mesmo assim. Continuamos conversando sobre os Imortais, apesar de não mencionarmos novamente o purgatório. Em mais alguns minutos chegamos a uma casa enorme, literalmente no meio do nada. Não havia lugar algum próximo, e estava cercada apenas pela floresta.

—Esse lugar está todo enfeitiçado, não se preocupe. Também tem armadilhas por todo lado, vou te cadastrar no sistema para que nenhuma acione quando você passar sozinha.

—Esse lugar é enorme –olhava em volta- Kylor, eu vou enlouquecer aqui sem companhia.

—Sem companhia? -ele riu por um momento- você achou que te deixaríamos sozinha? Essa é minha casa Carrie. Eu moro aqui.

Não respondi. Mas estranhamente era confortável o fato de ele estar ali. Entramos e a casa parecia um palácio moderno. Ele me guiou pelas escadas e, no segundo andar me apontou uma porta.

—Aquele é seu quarto -então ele apontou para a porta da frente- e aquele é o meu, pode ficar à vontade para ir até lá se precisar de algo. Se se sentir entediada pode ficar à vontade para olhar pela casa também, nenhum lugar é proibido, mas se for lá fora me avise.

Ele me cadastrou nos sensores da casa e também salvou um número no celular dele. Em momento algum me senti desconfortável e apreciava a liberdade que ele estava me dando.

Meu quarto também era incrível, era uma suíte enorme, com closet, mesa de estudos, uma tv gigante e até mesmo um mini frízer. Suspirei ao pensar que essa seria minha nova vida por um tempo. Bem, com todo esse luxo não seria difícil se acostumar, mas tinha certeza que sentiria falta da minha independência. Meu celular vibrou com uma mensagem e olhei.

Kylor S.: Apenas testando o número.

Carrie: Não mentiria isso.

Kylor S.: Claro. Quando tiver tempo, gostaria de começar seu treinamento.

Carrie: Treinamento?

Kylor S.: Sim, você ainda está despertando, precisamos descobrir suas habilidades e te ensinar a enfrentar os Caçadores.

Carrie: Amanhã depois da aula podemos tentar.

Kylor S.: Você ainda vai à escola?

Carrie: Óbvio! É meu ano de formatura, não vou sair agora.

Kylor S.: Tudo bem, eu te acompanho. Amanhã começamos então.

Por um momento achei que ele tentaria me convencer o contrário, mas mesmo sabendo do perigo ele nem mesmo comentou sobre. Não pude evitar um sorriso, parece que não perderia tanto minha liberdade como achei que seria. Por fim digitei, e respondi sua mensagem com apenas uma palavra:

Carrie: Obrigada.