A Imortal
9 Anel da Mente
Como não dormi na noite passada, foi só encostar na cama que apaguei. Quando acordei já estava de noite, me levantei, tomei um banho e logo saí do quarto. Decidi não incomodar Kylor, e passei direto por sua porta. Voltei ao primeiro andar. Na sala principal havia uma mesa de sinuca no centro, um sofá na ponta e vários quadros de artistas provavelmente famosos e que deveriam valer mais que minha casa. Continuei seguindo e não foi difícil achar a cozinha. Não comi nada o dia todo, e estranhamente não tinha fome, mas ainda assim decidi fazer algo para comer. A geladeira e os armários estavam todos cheios, como se toda essa comida tivesse sido posta ali recentemente.
Peguei um pacote de chips e um refrigerante e continuei andando pela casa. Passei por uns três banheiros, uma sala de jantar, um cinema, e mais um quarto até que uma das portas me chamou atenção. Fui até ela no fim do corredor, estava escuro, mas enxergava perfeitamente. A sala era como um museu, haviam tantas armas a mostra, alguns livros e joias também, mas as armas eram algo predominante ali.
—Sabia que esse seria o primeiro lugar que você encontraria –Kylor disse acendendo as luzes, o que machucou um pouco meus olhos- agradeceria se você pudesse não comer aqui.
Terminei meu refrigerante e dobrei o pacote de chips.
—O que é esse lugar?
—São coisas que guardei ao longo dos séculos, apenas itens que julgava de importância.
—Tem mais armas que tudo aqui.
—As armas foram os itens que mais tive contato –me toquei nesse momento o quão pouco eu sabia sobre Kylor- eu tenho algo para você.
Foi só aí que reparei que ele segurava uma pequena caixa delicada. Ele a abriu e lá haviam dois anéis, eles eram um azul turquesa, e eram finos como uma agulha.
—Anéis?
—São anéis da mente –ele explicou, enquanto tirava um e me entregava- eles são enfeitiçados para que as pessoas que os usem consigam se comunicar mentalmente. É uma magia extremamente antiga, e acho que nem mesmo existem mais deles, por isso os guardei. A única pessoa que pode tira-lo do seu dedo é você mesma. Bem, eu achei que seria útil.
—Ele é lindo –falei enquanto o colocava, e Kylor já estava com o dele em mãos- é útil sim, sempre deixo meu celular para trás.
Que bom que gostou.
Eu ouvia sua voz, mas sua boca não se movia.
É fácil usar, apenas pense que quer falar algo comigo.
Então o fiz.
Você já pensou em adotar um gato? Esse lugar é enorme.
Ele riu.
—Não via o porquê de ter um, sempre estava me mudando. Mas se quiser, pode ficar à vontade – ele disse, dessa vez fora da minha mente- vamos usar a cominação mental em casos de urgência, ok? Não quero esquecer como se conversa.
Dessa vez quem riu foi eu.
—Verdade, você só conversa comigo né.
—Claro que não! Também converso com o Fell, e tenho certeza que você me viu trocar algumas palavras com sua mãe!
—Tenho que admitir que isso foi impressionante, não imaginava que você fosse capaz de conversar com humanos.
—Prefiro evitar, é claro. Mas há algumas situações que não tem jeito.
—Por que evita?
—Você já teve um cachorro?
—Não é possível que vá comparar cachorros com humanos.
—Já teve?
Suspirei.
—Sim, já tive.
—E o que aconteceu com ele?
—Morreu.
—Como você se sentiu?
—Me senti mal, claro. Onde você quer chegar?
—Ainda não percebeu? Para os Imortais, os humanos são como cachorros para vocês. Eles vivem muito menos que nós, e sofremos muito quando morrem. Então não é melhor não ter um cachorro? Evita um sofrimento futuro.
—Eu entendo, mas não concordo –ele me analisou por um momento como se fosse me interromper, mas não o fez- mesmo que tenham uma vida curta os cachorros são uma das melhores companhias que poderia pedir. Mesmo que morram cedo, e você fique abalado com isso, por sua causa aquele cachorro pode ter morrido feliz, com memorias boas e uma vida confortável. Você seria responsável por isso, com o passar do tempo o sofrimento vai acabar e tudo que vai restar são as memorias dos momentos felizes que viveram.
—Seu pensamento é bonito, mas com o passar do tempo vai perceber que é uma fantasia. -Ele sorriu para mim, empático- Quer conhecer o resto da casa?
Decidi não prologar o assunto, afinal parecia que ele já tinha sua cabeça formada.
—Claro.
Ele me mostrou a piscina, onde ficava o jardim, me explicou seus quadros, muitos deles feitos por amigos. Me mostrou uma passagem secreta para fora da casa. Literalmente havia de tudo lá, três cozinhas, quadras de tênis, basquete, vôlei. Haviam duas piscinas e tantos quartos que perdi a conta.
Começou a amanhecer e decidimos dormir um pouco antes de ir à escola, mesmo que eu não me sentisse nem um pouco cansada, o que era estranho.
Acordei com Kylor batendo levemente na porta, e me avisando que deveríamos ir já que o caminho é bem longe. Me arrumei relativamente rápido e descemos. No caminho para a escola conversamos o tempo todo, e descobri que mesmo não gostando dos humanos, Kylor adorava a nossa música. Ele me contou que tinha vontade de ir em shows. Entre outras coisas, descobri também que ele, assim como eu, amava doces e tinha um carinho especial pelo café americano, que de café mesmo leva bem pouco. E por fim, ele tinha um humor duvidável, mesmo tentando ser engraçado vez ou outra, parecia aquele tiozão de família que só faz piada clichê. Apesar de que foi algo divertido de ver, alguém com uma aparência tão jovem falando de uma forma tão velha.
Descemos do carro após estacionar e andamos juntos, já que ele tinha aula de história assim como eu. Na verdade, os horários de Kylor, tirando uma aula, era todo como o meu. Muitas pessoas nos olhavam enquanto passávamos, Kylor aparentava não dar a mínima e me surpreendi ao notar que eu também não. Isso até Annie se aproximar de nós e sussurrar no meu ouvido o que eu estava fazendo andando com “esse cara”.
—Ham... Acho que somos amigos agora.
Respondi e ela me olhou confusa.
—Do nada?
—É que... Um gato –ela levantou uma sobrancelha- um dia na rua um gato me arranhou, foi bem feio. Ai Kylor estava lá e deu uma olhada, me acompanhou até em casa também.
—Carrie, faz uma semana que conhece esse cara e da última vez que chequei, você se sentia assustada pela presença dele.
Kylor riu ao meu lado, o que chamou atenção da Annie.
—Então seu nome é Kylor? -ela se dirigiu a ele- Se vai fazer parte do nosso grupo de amigos, vamos ter que te avaliar antes.
Ele não respondeu, o que a irritou.
—Ele é tímido -soltei, antes que ela se estressasse mais- não fala com ninguém aqui, mas logo ele se acostuma.
Você sabe que não vou falar com eles em momento algum né?
Ele disse em minha mente.
Você anda com a gente agora, interagir é o mínimo.
Respondi.
Eu ando com você. Não tenho nenhum proposito nesse lugar além de te proteger. Pouco importa o que pensam ou não de mim aqui, contando que eu esteja do seu lado.
Não respondi dessa vez, e não foi apenas porque Annie me cutucava exigindo uma resposta para alguma pergunta que ela havia feito, mas porque fiquei sem o que falar.
—Então?
—Pode repetir a pergunta?
Pedi.
—Por que não estava em casa? Nem atende o celular? -ela me olhou preocupada- Louis me contou o que aconteceu na praia, e quando fui na sua casa sua mãe falou que tinha acabado de chegar de viagem, que você não estava lá, e que ela estava muito cansada para conversar. Achei estranho.
Me toquei que novamente havia esquecido o celular.
—Ah sim –olhei para Kylor, ele apenas fez que não com a cabeça e eu logo entendi que precisaria inventar alguma mentira- na verdade eu não estou morando lá mais, é apenas por um tempo. Minha mãe está bem abalada por um... tio. Um tio nosso está bem doente e eu estou ficando com ele, é por um tempo até que ele melhore.
Ela me olhou desconfiada.
—Hm, ok então. Me passa o endereço dele, vou visitar.
—Não! -ela se assustou com minha resposta imediata- é que ele não gosta de jovens.
—Ele sabe que você é uma né?
—É diferente, é que eu e ele somos da mesma espécie... -Kylor me cutucou- família! Somos da mesma família.
—Tudo bem então -era visível que ela não havia comprado a história- podemos ir dar uma olhada no seu vestido para a festa hoje depois da aula?
—Hoje não dá, vou treinar com ele –Annie, novamente, me olhou confusa- baralho, vou treinar baralho. Para matar o tempo dele sabe.
—Tanto faz, só começa a atendar minhas chamadas –ela disse, brava- é o mínimo pelo menos. Te vejo no intervalo.
Então ela saiu, sem esperar minha resposta.
—Mas vamos para a mesma aula...
—Pelo menos ela é esperta –Kylor disse e olhei para ele com cara fechada- não acreditou em nenhuma palavra que você disse.
—Você poderia ter me ajudado.
—Você não pediu ajuda. Mas deveria, é péssima mentindo.
—Sim, sou. Eu não costumo mentir.
Ele riu.
—Bem vinda a sua nova vida.
Quando chegamos na sala, mesmo que brava, Annie havia guardado um lugar para mim ao lado dela, e Kylor se sentou logo atrás.
—Cadê o Louis?
Perguntei assim que me sentei, pois normalmente os dois se encontram no início da aula.
—Não vi ele hoje ainda, acho que se atrasou -então ela se virou para mim, ignorando totalmente o professor que falava à nossa frente- você não pode me dizer ao menos porque está andando com esse esquisito?
Cuidado com o que vai falar a partir daí, consigo ouvir qualquer coisa dentro dessa escola. Se focar um pouco até mesmo fora.
Ignorei o aviso de Kylor.
—Eu já te contei o porquê.
—Você não está com pena de ele andar sozinho não né? O cara é o maior rude que já conheci, ele merece andar sozinho, e muito mais!
—Ele não é péssimo, quando o conhece melhor.
Agradeço.
Não tem nada melhor para prestar atenção, Kylor?
Nada útil.
Suspirei.
—Qual é Carrie, eu entendo que ele é bonito, mas não se deixa levar!
—Ah –me lembrei- falando nisso, você acha que consegue arrumar um convite para ele? A festa da sua irmã, digo.
—O que isso tem haver? Mesmo que eu falasse que não, Aline provavelmente vai liberar a entrada dele. O Louis vai literalmente surtar quando souber que você vai para a festa com esse sem noção arrogante.
—Ele está bem atrás da gente Annie.
—Não é como se ele pudesse escutar, e mesmo que escute eu pouco me importo.
Suspirei mais uma vez, mas agora prestávamos atenção na aula, mesmo que vez ou outra Kylor corrigia algum fato falado pelo professor. Seu argumento: eu estava lá, e não foi dessa maneira. Meu argumento: quem faz a prova é o professor então pouco me importo como realmente foi. Ele soou ofendido por alguns segundos, mas logo voltou a tagarelar em minha mente e cogitei seriamente tirar aquele anel.
No intervalo Louis não apareceu e Annie foi a sua procura. Não nos encontramos mais durante a aula, e Kylor e eu fomos embora. Mais uma vez conversamos o caminho todo até em casa.
—Existem dois Caçadores na escola.
—Como sabe disso?
—Desde a primeira vez que pisei aqui notei isso. Não consigo identificar quem são, imagino que por ser um lugar que está sempre cheio, ou eles sabem com quem se misturar. Então não fique andando por aí sozinha.
—Hoje você sentiu algum próximo?
—Estranhamente hoje não senti nenhum. Eles estão armando algo.
Conversamos mais um pouco sobre outras coisas, mas logo chegamos. Na entrada da casa estava minha mãe, com uma venda pendurada no pescoço e Fell, sorridente ao seu lado.
—Olá senhor Kylor –ele fez uma pequena reverencia respeitosa- Carrie, tem passado bem?
—Sim, obrigada por perguntar. Mãe, tem alguma coisa acontecendo?
Minha mãe estava pálida, e pude jurar que a vi tremer um pouco.
—Bom, temos que conversar. Acho que o momento é esse. -Então ela olhou para Kylor- Gostaria que essa conversa fosse privada.
—Vamos dar uma volta Fell- Kylor chamou e os dois voltaram ao carro- vou ter que ir bem longe para não escutar nada aqui. Qualquer coisa me chame Carrie, eu volto correndo.
Sorri para ele e os dois saíram. Eu e minha mãe entramos na casa.
—Vocês parecem se dar bem.
—É.
—Que bom – e a preocupação voltou ao seu rosto- Carrie, melhor se sentar. O que eu vou te contar agora, mais ninguém pode saber.
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