A Imortal
11 Outro
Não dormimos essa noite, e não estava nem um pouco cansada. Como estávamos acordados Kylor decidiu que poderíamos começar o treinamento. Fomos até a academia da casa. Ele me explicou o que poderíamos fazer, e me disse que a única forma de descobrir tudo era no treino. Correríamos todas as noites quando chegássemos da aula, pois assim poderia conhecer qual limite de velocidade eu teria. Lutaríamos também, segundo ele era algo que precisava aprender, além de como controlar minha força. A parte que eu menos gostei nisso foi o fato de que as lutas seriam reais, Kylor jurou que seria bom, pois minha cura é algo que preciso treinar também, mas como uma criança fiz birra falando que não queria me machucar, o que só o fez rir. Ele me ensinou o básico da luta, já que nunca tive muito contato com isso, e corremos um pouco também antes de dar a hora de ir à escola.
—Eu tenho uma pergunta –falei, quando já estávamos no carro- como descobrimos nossa individualidade?
—Ah, você sabe sobre isso. Muito bem. A individualidade, como se tivesse vontade própria, aparece para nós quando necessitamos dela. É aí que descobrimos.
—Você tem alguma?
—Eu uso uma, consigo invadir sonhos.
—Claro –me lembrei de quando sonhei com ele- então aquele sonho que tive, foi intencional?
—Totalmente, precisava chamar sua atenção. É uma habilidade bem útil na verdade, eu consigo fazer o que quiser em um sonho, transformar no ambiente que quiser, e tudo que faço com alguém lá dentro, reflete no corpo da pessoa aqui fora. Foi assim que curei o braço da líder de torcida.
—Aquilo foi você!? -o encarei chocada- por que não me contou?
—Você não acreditaria –ele me olhou, e desviei o olhar, era verdade- eu vi a situação, achei que você seria punida então tentei concertar. Quando ela desmaiou a visitei em um sonho e a curei. Infelizmente não antes de ela te dedurar.
—Agradeço mesmo assim.
Ele sorriu para mim e mudamos de assunto, novamente conversávamos até chegar na escola.
(...)
Estávamos indo para aula de geopolítica, quando vi Louis vindo em nossa direção, com a cara fechada.
—Primeiro: Carrie, você é uma irresponsável. Como passa por toda aquela situação e não tem a decência de ligar para avisar que está bem? -ele começou a andar ao meu lado, ignorando minhas indagações- e segundo: quando Annie me contou que estava andando com esse cara achei que fosse uma pegadinha. Você tem caquinha na cabeça é?
Kylor o olhou, indiferente, e continuou andando. Louis não se importou.
—Desculpe, você sabe como sou com celular. Eu ia avisar, ficou tudo bem no final, não vi mais aquele cara.
Menti na cara dura, não podia coloca-los em perigo.
—E sobre ele?
Louis apontou para Kylor.
—Viramos amigos, apenas aconteceu.
Ele abriu a boca para responder, mas Annie se aproximou e falou antes.
—Ah, vejo que ele continua aqui –ela olhou feio para Kylor, que nem mesmo se importou- bom dia amigos.
—Está de bom humor? -perguntou Louis, a dando um beijo na testa.
—Claro, Carrie e eu vamos provar os vestidos hoje depois da aula.
—Vamos? -questionei.
—Sim! E não vai me dar bolo, faltam menos de 10 dias para a festa.
Olhei para Kylor, sabendo que tínhamos combinado de treinar.
Você quem sabe Carrie, acho que não tem problema pular um dia ou outro de treino.
Ele disse em minha mente. Suspirei, sentia que sair para comprar vestidos era algo tão sem importância se comparado a tudo que estava passando. Mas fiz que sim com a cabeça para Annie, que se animou ainda mais.
Annie e Louis conversavam comigo como se Kylor não estivesse ali, o que aparentemente não o incomodou. Vez ou outra ele falava alguma coisa comigo na minha mente, mas nem mesmo parecia se importar com a conversa, e estava mais atento ao ambiente.
Quando chegamos na sala Annie se sentou comigo e Kylor atrás. Dessa vez não ficamos conversando e realmente prestamos atenção, já que a semana de provas se aproximava.
No intervalo o esquema foi o mesmo, nem Louis nem Annie dirigiram a palavra a Kylor, isso parecia deixa-lo satisfeito, mas me incomodava. Tanto quanto incomodava quando Kylor os ignorava também.
Está tudo bem?
Ele perguntou em minha mente.
Tudo, só me incomoda um pouco vocês se ignorarem.
Bem, isso é algo que você vai ter que superar. Desculpe, mas tenho zero interesse nos seus amigos.
Eu sei.
Mais uma coisa, senti dois Caçadores hoje por aqui.
De novo? Como faz isso, não sinto nada.
Acho que desenvolvemos isso com o tempo, ou talvez com o trauma. Temos a habilidade de sentir nossos inimigos. Provavelmente você não considera ninguém aqui ameaçador.
Realmente, não considero.
Deveria rever isso.
—Ca? -Louis me chamou- Terra chamando.
—Hm? O que foi?
—Não ouviu nenhuma palavra?
—Desculpe, viajei.
Louis suspirou.
—Estava falando do Tate, ele te procurou também, ligou para você e mandou mensagens, então veio me perguntar se estava tudo bem.
—Quem é Tate?
—Sério? -Annie questionou- o amigo do Louis que você passou seu número.
—Ah, ele.
—E então? -Louis continuou- o que vai fazer sobre ele?
—Provavelmente nada, não estou com cabeça para isso agora.
Notei que Kylor dessa vez prestava atenção no assunto sem ao menos disfarçar. Annie também notou.
—O que está acontecendo? -ela perguntou- você parece distante.
—Nada, juro –menti- estou apenas preocupada com as provas.
—Tudo bem se não quiser falar, mas inventa outra. Nunca precisou se preocupar com as provas.
—Realmente é isso, acumulou com a situação do meu tio também.
Ela me olhou, ainda sem acreditar, mas não questionou novamente.
—Acha que consigo faltar a prova de vestidos de vocês hoje?
Louis questionou, mudando o assunto.
—Nem pensar! -falei- não vou passar por essa tortura sozinha.
—Saco –ele suspirou.
—Vocês dois me ofendem. –Annie disse.
O intervalo acabou e todos foram para sua sala, dessa vez apenas Kylor e eu tínhamos aula juntos então seguimos caminhos diferentes.
Eu andava pelo corredor quando de longe vi uma garota, ela fez um sinal para mim, como pedindo que me aproximasse. Então Kylor chegou ao meu lado e a garota ficou pálida. Ela notou que minha atenção ainda estava nela então mexeu a boca, entendi a frase “não confiável”, mas não tinha certeza que era isso. Ela então apontou para Kylor e simplesmente sumiu no meio dos alunos que passavam, o que era estranho porque não tirei meus olhos dela nem por um segundo. Simplesmente a perdi. O que foi aquilo?
—Você viu isso? -perguntei Kylor- aquela garota ali agora, você viu?
—Não, do que está falando?
—Estranho.
Ele me olhou preocupado, e olhou algumas vezes para a direção que apontei. Em vão, não havia nada lá mais.
Deixamos isso de lado e seguimos nosso caminho, cheguei à conclusão de que quem quer que fosse ela, apareceria novamente.
Quando acabou a aula Annie e eu estávamos esperando Louis perto do carro dele. Pedi a Kylor que não nos acompanhasse dessa vez e prometi à ele que o chamaria se algo acontecesse.
—Cadê seu novo amigo? -perguntou Louis se aproximando.
—Ele teve a sorte de conseguir fugir dessa –brinquei, não queria causar mais desavenças alguma entre eles- infelizmente não foi o mesmo para nós dois.
—Aguardo ansiosa pelo dia que vou ser valorizada –respondeu Annie, entrando no carro- vamos logo.
Louis me olhou, pedindo socorro. Retribui o olhar com o mesmo pedido em mente. Entramos no carro e fomos.
Já na terceira loja, não aguentava mais. Louis deu um jeito de achar seu terno na primeira que fomos, para sua sorte ele foi logo aprovado por Annie e Louis foi embora, me lançando um olhar malandro. Estava o amaldiçoando até agora, a atenção de Annie estava toda em mim, e ela decidiu que não aceitaria nada menos que o vestido perfeito.
Na quinta loja, finalmente, encontramos um que a agradou. Paguei e saímos de lá, eu exausta e Annie mega saltitante, satisfeita consigo mesma. Foi quando eu senti. Minha cabeça doía de uma forma insuportável, me senti prestes a desmaiar, não conseguia nem mesmo ouvir Annie do meu lado, que gesticulava com uma expressão preocupada. Então me ocorreu, já havia sentido aquela dor antes, no mesmo dia que conheci Kylor.
Há mais um Imortal.
Disse na mente de Kylor, ele imediatamente me respondeu perguntando onde eu estava e pedindo para que eu não perdesse a consciência, que ele sabia o quão difícil era, mas tinha que me esforçar.
Estava realmente muito difícil, mas a dor estava diminuindo, quanto mais eu aguentava, menos doía.
Olhei para Annie, precisava tirar ela dali.
—Desculpe- falei com esforço- acho que minha pressão caiu. Você pode ir na frente? Vou me encontrar com Kylor.
—Eu te acompanho.
—Por favor Annie, vai.
Ela me olhou, sabia que algo estava errado, mas saiu andando. Mesmo que vez ou outra olhava para trás, eu sorria, tentando esconder a dor que estava sentindo. Quando a perdi de vista, me sentei na rua, escorei minha cabeça na parede da loja que acabamos de sair e apenas com o olho olhei em volta, quando o achei, havia um homem com a mão apoiada na sua testa, ele estava ajoelhado e seu olhar estava fixado em mim.
Ouvi Kylor ao meu lado me chamando e nesse momento soube que tudo estava bem, fechei meus olhos e a última coisa que vi foram aqueles olhos azuis claros do homem que me encarava.
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