A Imortal

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Notas iniciais
MIL DESCULPAS pela demora na postagem desse cap. Tive que editar ele e por um grande problema chamado faculdade demorei mais do que achei.

Acordei na minha cama, Kylor estava do lado, bem próximo a mim.

—Que bom que acordou, como está se sentindo? -ele veio em minha direção e me ajudou a sentar- dizem que as primeiras vezes tendo contato com algum Imortal são sempre as piores.

Acho que ele não percebeu o quão próximo estava, consegui sentir sua respiração quente em minha bochecha.

—Carrie?

—Eu estou bem.

—Sério? Está um pouco vermelha –ele colocou a mão na minha testa, e passou para as bochechas- está quente também.

Meu rosto corou. O que era isso? Me afastei dele.

—Estou bem, juro –me levantei- o que aconteceu com aquele cara?

—Ah, ele está preso em uma cela no porão. Assim que cheguei ele desmaiou, acho que dois Imortais de uma vez foi demais.

—Um momento, tem uma cela no porão?

—Claro que sim. Que ir lá?

—Você prendeu um Imortal em uma cela?

—Sim, foi o que eu disse.

—Kylor?

—Oi.

—Você está maluco? Por que prendeu ele? Você não sabe do que ele é capaz.

—Exatamente por isso, não sei do que ele é capaz.

O analisei por um momento.

—Você sabe que vai ter que soltar ele, não é?

—Quem sabe...

—Vamos –falei saindo do quarto- ele pode estar assustado, probrezinho.

—O que? -ele me seguiu- Por que está com pena dele? Eu que o trouxe para minha casa em segurança, podia muito bem ter deixado ele desmaiado na rua.

—E se ele for igual eu? Pode não saber de nada, imagina como pode ser assustador acordar em uma cela, sem nem ter noção do motivo –notei que não sabia para onde estava indo então deixei que Kylor passasse a minha frente e o segui, ele riu, baixo –se ele já estiver acordado?

—Relaxa Carrie, não vou machucar ele. Deveria se preocupar mais consigo mesma.

Quando chegamos no porão logo o vi, seus cabelos louros brilhavam com a pouca luz que entrava ali, ele estava deitado em uma cama dentro da cela que mal o cabia visto que ele era bem alto. Estava acordado e olhando diretamente para a porta, seus olhos azuis claros continham um ar de curiosidade.

—Demoraram.

Disse apenas isso, em um tom tranquilo. Ele se sentou e cruzou as pernas.

—Desculpe- falei me aproximando- Kylor, onde está a chave da porta?

—Espere, –ele respondeu e se sentou em um sofá que havia lá, de frente para a cela, e disse ao Imortal- comece a falar.

—O que quer saber? -Kylor não respondeu, apenas continuou o analisando- Que seja. Meu nome é Adam Prime.

Conhecia aquele sobrenome, Prime. Mas de onde? Não me lembrava.

—E vocês? -ele perguntou- também deveriam se apresentar, faz muito tempo que não vejo outro Imortal.

—Ah, então você não é novo nisso –falei, e ele me analisou por um momento- ham, bem. Sou Carrie. E esse é Kylor.

Apontei para ele, que ainda estava sentado analisando Adam. Vi algo brilhando no sofá perto do seu bolso, a chave. Provavelmente caiu, a peguei, tão rápido que ele não conseguiu impedir. Abri a cela.

—Desculpe por isso- falei- pode sair se quiser.

—Que nada, também prenderia vocês se fosse o oposto –ele se levantou, mas não saiu. Ele apenas encarou Kylor- eu te conheço? Seu rosto não me é estranho.

—Quantos anos você tem?

—27.

—Então não conhece. Faz bastante tempo que não tenho contato com Imortais, antes mesmo de você nascer.

—Ela não é Imortal? -Adam, ainda na cela, apontou para mim.

—Sim, mas é algo novo –Kylor se levantou, como quem domina a sala- pode sair.

Adam saiu, como se realmente apenas esperasse a autorização.

Notei quando ele passou por mim que seu braço era repleto de tatuagens, não consegui ver todas, mas uma chamou a minha atenção, era o desenho de uma balança, em um lado havia um coração e no outro não havia nada. Mas estranhamente o lado que não havia nada era o que estava tombado, como se fosse o mais pesado.

—Então, de onde você é?

Perguntou Kylor saindo do cômodo, Adam o seguiu e eu também.

—Para ser sincero, não sei. Eu vivia na Organização, mas eles me expulsaram durante o meu despertar, 7 anos atrás. Vaguei aleatoriamente por vários lugares, até aqui.

—Organização? -perguntei.

—Você não sabe o que é?

—Nunca ouvi falar.

—É onde os Imortais vivem. Um espeço subterrâneo, do tamanho de uma cidade. Todos nós sabemos de lá, é nosso refúgio.

—Eu não sabia –olhei para Kylor, ele continuava andando, mas parecia tenso- Kylor?

Ele não se virou, continuou andando.

—Kylor! -andei mais rápido e segurei seu braço- você sabia sobre isso?

—Claro que não -ele disse, parecia confuso, e então olhou para Adam- onde é esse lugar?

—Bem, não sei. Fui expulso então os feiticeiros apagaram a localização da minha mente. A não ser que você seja convidado, é impossível encontrar lá. Mas é estranho, todos os Imortais sabem sobre a Organização.

—Quantos Imortais existem lá? -Kylor não parecia mais confuso, e sim irritado- se não estão extintos, por que estão se escondendo?

—Algumas centenas, mas não passam de 500 –Adam pensou um pouco- não tenho certeza, faz muito tempo que perdi contato. Estão se escondendo porque não tem como lutar. Eles esperam uma deixa, esperam por alguém, mas não sei muito sobre isso, apenas Imortais participam dessas reuniões e bem, não durei tempo suficiente para isso.

Kylor apenas saiu, irritado. Não falou nada comigo nem com Adam, apenas saiu andando deixando nós dois parados ali com cara de paisagem.

—O que foi isso?

Adam me perguntou.

—Ele acreditava que os Imortais estavam extintos, e que eu seria provavelmente a última. É compreensível estar abalado.

—Entendo. Realmente é, ficar sozinho nesse mundo é bem ruim, e olha que fiquei por apenas 7 anos.

—É bem triste que os Imortais se escondam assim dos Caçadores, pelo que ouvi falar nós somos fortes, não há porque fugir.

—Não é só dos Caçadores que eles se escondem.

—Tem algo mais?

—Não posso dizer com certeza.

Comecei a andar em direção a sala, e Adam me seguiu.

—Como pode não ter certeza?

—Existe uma outra criatura na terra, que tememos muito. Mas pode ser só lendas também, não sei dizer. Como disse, fui expulso antes de completar meu despertar.

—Por que foi expulso afinal?

Ele riu.

—Esse é um ponto meio fraco, posso contar enquanto tomo um café?

—Tudo bem –sorri, e fui até a cozinha com ele me acompanhando- aparentemente temos tempo, até que Kylor volte de onde quer que ele tenha ido.

—Vocês são próximos?

Ele perguntou, enquanto ligava a cafeteria e eu pegava algumas capsulas para ele escolher.

—Eu diria que sim, se não fosse por ele, talvez nem estaria viva hoje.

—Entendo. Faz muito tempo que despertou?

—Ainda estou no processo –ele escolheu a capsula, e eu pegava uma xícara- tenho 18 anos.

—Nossa, é uma péssima fase.

—Ah, obrigada pelo consolo.

—Disponha –ele colocou a xícara na cafeteira- vai querer?

—Não, ando sem apetite ultimamente.

—Comum –ele sorriu- só para avisar, ele não volta, mas comer sempre é bom.

Sorri.

—É um hábito que não quero mesmo perder.

—Bem, vamos a história -ele disse se sentando, tranquilo- a Organização é como se fosse uma ditadura, eles precisam controlar o povo de alguma forma e escolheram essa. Apenas os anciões e o concelho podem fazer qualquer questionamento ali dentro, seja em público ou no privado...

—Espera, ainda existem anciões? E o concelho? Achava que eles governavam pacificamente.

—O concelho não governa mais, nosso líder, Abe Prime, aceita suas sugestões, mas é ele sozinho quem decide.

—Prime? Como você?

—Bem, ele é meu tio.

—Seu próprio tio te expulsou?

—Na verdade nunca tivemos uma relação, e só descobri que ele era meu tio depois de já ter sido expulso. Meu sobrenome e meus familiares só me foram revelados naquele momento, antes disso até onde sabia eu não tinha família, meus pais morreram e foi isso, fui deixado lá.

O olhei, com pena, se não fosse por minha mãe, poderia estar na mesma situação.

—Essa é a primeira vez que alguém olha assim para mim.

—Assim como?

—Hum... Empática? -não respondi, não deu tempo, pois ele continuou –enfim, quando comecei a despertar achei que seria designado para a função de ancião, ou conselheiro, mas me colocaram como sábio. É basicamente um bibliotecário nessa sociedade. Não queria essa posição, queria mudar aquele lugar, não acho que deveríamos viver daquela forma. Em uma conferência pública que teve decidi expressar isso, estava tão indignado que não me contive. Imediatamente fui expulso, um feiticeiro apagou minha memória sobre a localização da Organização, e me foi entregue minhas coisas, no meio dela tinha uma carta que revelava o meu sobrenome e minha relação com o líder. Talvez nem mesmo ele soubesse, prefiro pensar assim.

—Que situação péssima...

—Acho que tudo acontece por uma razão, talvez estivesse destinado a encontrar vocês -ele me analisou por um momento- a propósito, são apenas vocês dois mesmos?

—Sim, como disse Kylor não achava que existiria mais alguém, e ele não gosta de humanos então interage apenas comigo e um feiticeiro.

—Vocês têm um feiticeiro? Que demais!

O olhei curiosa, mas ele não falou mais nada. Quando terminou seu café fiz um tour com ele pela casa, pedi para que ele não saísse ainda pois do lado de fora era repleto de armadilhas, expliquei que Kylor tinha que cadastra-lo quando ele voltasse. Adam ficou bem empolgado com a casa inteira, os únicos cômodos que não o mostrei foi aquele pequeno museu de Kylor, imaginei que fosse algo mais privado, e seu quarto, já que nem mesmo eu estive lá.

Chamei Kylor mentalmente algumas vezes o questionando onde ele havia ido, ele não me respondeu nenhuma delas, e já tinha desistido de perguntar, até que ouvi sua voz em minha mente.

Está tudo bem aí? Desculpe por sair assim e te deixar sozinha com alguém que não conheço.

Tudo bem, Adam é bem simpático na verdade. Onde você está?

Houve uma pausa. Estava na biblioteca da casa, e Adam rondava o lugar, animado, também me ignorava completamente.

Com Fell, não vou demorar. Qualquer problema me chame, tudo bem?

Não respondi, por algum motivo me irritou que ele tivesse me deixado de fora de qualquer que seja o problema que ele estivesse resolvendo. Também me preocupou a forma que ele havia saído.

Acabei passando o resto da tarde com Adam, ele separou vários livros da biblioteca e deixávamos em seu quarto. Limpamos o ambiente também, tirando meu quarto e supunha que o do Kylor, todos os outros estavam empoeirados. Acabamos nos dando muito bem, ele me contou sobre a Organização e como ele odiava lá, pois era o único órfão do local, e sempre era diminuído por isso. Como viviam apenas Imortais ali, todas as crianças que nasciam tinham seus pais, ou pelo menos sabiam quem eram. Senti pena por ele, mas um alívio também como se ele realmente estivesse destinado a nos encontrar. Ele me contou que era muito bom em lutar, pois todos os Imortais eram treinados para isso, mas que sua paixão mesmo eram os livros, quando ele saiu da Organização se formou em uma faculdade de literatura, mas após isso acabou se isolando novamente, e estava realmente feliz por encontrar outros como ele. Me questionei nesse momento se todos os Imortais tinham um problema com humanos, visto que Adam também não tinha nenhum por perto.

O deixei em seu quarto por fim e subi para o meu, soube que acabamos de firmar uma amizade, e isso me deixou feliz, esperava que o mesmo pudesse acontecer com o Kylor.

De novo. Não parava de pensar nele, tudo de bom que acontecia comigo esperava que ele experimentasse também. E pior, estava estranhando sua ausência, mesmo nas raras vezes em que estávamos distantes, ele ainda mandava recados constantes em minha mente.

Decidi tomar um banho e enquanto estava na banheira jurei ter ouvido vozes. Ignorei e calmamente terminei de me lavar. Quando sai, ouvi passos, e uma porta se fechando, logo a frente da minha. Kylor.

Nem mesmo sequei meu cabelo e fui até lá, bati na porta, ele demorou um pouco, mas logo a abriu.

—Aconteceu alguma coisa? — perguntou com naturalidade.

—Aconteceu. Você! -meu cabelo estava encharcado, molhava minha roupa e pingava no chão- não pode sumir assim sabe.

Ele se virou, voltando para o quarto, mas deixou a porta aberta. Entrei e a fechei atrás de mim, era a primeira vez que estava no quarto dele. Sua cama era enorme, havia uma grande janela com vista para o jardim e uma banheira a frente da mesma, vi uma outra porta que supus dar para o banheiro. Havia um quadro logo acima da sua cama, flores brancas o preenchiam, iluminadas pela lua. Haviam livros por toda parte, o quarto seria impecavelmente organizado se não fosse pelos livros espalhados.

Ele se sentou na cama, e então me olhou.

—E que diferença faz? -perguntou.

—O quê?

—Se eu sumir.

—Você realmente está me perguntando isso?

Ele não respondeu, apenas continuou me olhando. A luz do quarto não estava acessa, mas nós dois podíamos ver tudo tranquilamente. Me sentei ao seu lado.

—Muita diferença -respondi- já me acostumei com você, acostumei com sua voz na minha mente, com sua presença, com as nossas conversas aleatórias no carro, até mesmo com seu jeito rude com humanos. Não sei o que está passando na sua cabeça agora, entendo que possa estar frustrado por descobrir da Organização, mas isso não muda muito.

—Claro que muda, além do fato de tudo que acreditei por décadas era mentira, agora sei que você tem um lugar para ir –ele desviou o olhar- um lugar que eu não seria bem vindo.

—Por que não?

—Qual é Carrie, vago a muito tempo por esse mundo, se eu fosse bem vindo naquele lugar, com certeza já estaria lá.

Realmente, me lembrei sobre quando ele me contou que já foi preso no purgatório e me questionei qual seria o motivo disso, e se teria alguma relação com o fato de ele não estar agora na Organização. Fiz uma nota mental de perguntar isso ao Adam depois.

—Bem, de qualquer forma, se você não for para lá, eu também não vou.

Ele me analisou por um momento, mas logo desviou seu olhar novamente.

—Não pode falar isso, você é uma Imortal, tem que estar com seus semelhantes.

—Eu já estou.

—Carrie, acredite, é mais seguro que você vá para esse local. Ainda está no seu despertar, talvez eles te encontrem.

—Você não entendeu? Não quero ir, então risque da sua lista de preocupações o fato de que eu possa te deixar.

—O quê? -ele perguntou, surpreso e ainda sem me olhar- não estou preocupado com isso, apenas quero o melhor para você.

—Claro. Você pode parar de olhar para esse chão e olhar para mim? -ele não se moveu, delicadamente peguei seu queixo e movi seu rosto em minha direção- não vou sair do seu lado, você me estendeu sua mão, e eu não vou soltar. Sem contar que é perda deles não ter alguém como você.

Ele ainda tinha uma expressão de surpresa em seu rosto, mas sorriu para mim. Soltei seu queixo e dessa vez ele continuou me olhando.

—Obrigado. Não sabia que podia me ler tão bem –ele admitiu, e eu sorri- então, o que achou desse Adam?

Puxei um travesseiro e me deitei, virada para ele. Contei sobre nosso dia, e as coisas que Adam me contou. Kylor parecia mais relaxado, conversava e ria, me contou que assim que chegou cadastrou Adam no sistema de segurança, porque ele parecia um cachorrinho ansioso para uma exploração, eu ri, já que conseguia imaginar a situação.

Kylor chegou a deitar no mesmo travesseiro que eu enquanto conversávamos, e ficou assim por um tempo. Não percebi quando meus olhos começaram a se fechar, ali deitada na cama dele, com ele ao meu lado. Não percebi quando me aconcheguei em seus braços, e ele me abraçou carinhosamente. Não percebi que após dias, eu senti sono, e estava confortável em dormir.