A Imortal

13 Ataque


Alguns dias tinham se passado depois daquela noite. Quando acordei, Kylor dormia do meu lado, seus cabelos pretos caiam sobre o seu rosto, ele estava com uma expressão tranquila, seu corpo estava relaxado e seus braços musculosos descansavam à minha volta. Me lembrei de pensar o quanto ele era bonito, mesmo vendo de perto, não havia nenhum um defeito. Fiquei deitada com ele até que ele acordasse, sabia que ele não dormia muito, sabia que não precisamos dormir, mas não queria tirar dele nem mesmo um minuto do seu raro sono. Bem, essa foi a desculpa que usei para observá-lo um pouco mais. Quando ele acordou, me pegou no pulo, olhava diretamente para o seu rosto, como se estivesse hipnotizada, não desviei. Ele apenas riu com isso, e não fez mais nada.

Nada.

Estava deitada na cama lendo um livro, ou fingindo ler já que ultimamente não consigo parar de pensar no Kylor. Era segunda de madrugada e ainda não havia dado a hora de ir à escola. Kylor, Adam e eu estávamos treinando todas as noites. Inicialmente os dois treinavam tudo comigo, mas agora Kylor não luta mais.

No início ele e Adam revessavam para lutar comigo, eram lutas realmente agressivas. Kylor nunca me machucava de verdade, seus golpes doíam, mas era só, ele não chegava a me fazer sangrar, nem nada do tipo. Também não lutava comigo com espadas, ao contrário do Adam, ele fazia tudo isso, lutava até que eu não aguentasse mais.

Em um dos dias estávamos lutando com armas, ele conseguiu tirar minha espada de mim, e apenas ele estava armado, inicialmente eu desviava bem dos seus golpes, mas em um momento de distração ele estava a minha frente, com a espada levantada já para golpear. Usei meus braços para defender meu rosto do golpe, e ele não desviou, fez um corte tão fundo no meu braço que dava para ver o osso. Adam apenas disse que não era nada, para continuarmos o treinamento, peguei a minha espada para voltar a luta, mas Kylor interferiu. Ele estava muito bravo, e começou a brigar com Adam, que perdeu a paciência e proibiu Kylor de assistir suas lutas comigo. Depois disso, ele decidiu que não lutaria também, e deixou essa função com Adam.

De qualquer forma, Adam era um ótimo professor, ele sempre exigia perfeição de tudo que eu fazia, ao contrário de Kylor, Adam sempre fazia questão de me levar ao meu extremo.

Me levantei e fui tomar um banho, sabia que não conseguiria focar naquele livro mesmo. Já na banheira podia ouvir conversas no andar de baixo. Mesmo que tenham se passado poucos dias, nós três nos tornamos incrivelmente próximos. Adam e Kylor, de alguma forma, se tornaram melhores amigos. O único momento que eles não estavam juntos era quando estavam comigo. Uma das vezes foram até visitar Fell juntos, que claro ficou encantado com o Adam e muito feliz por ter mais um Imortal no nosso grupinho (ele realmente falou dessa forma). Fell se apegou muito ao Adam, dizia que seu jeito e aparência o lembravam de alguém muito especial, que ele não via a tempos. A relação foi reciproca, de qualquer forma, Adam tinha um fascínio por feiticeiros.

Depois do banho desci as escadas, a conversa animada não havia parado em momento algum, e quando cheguei na cozinha os dois estavam lá. Adam tomando um café, e Kylor apenas sentado. Me sentei na mesa também.

—Atrapalhei algo?

Perguntei.

—Que nada –Adam respondeu animado- na verdade estava falando de você, melhorou bastante nas lutas.

—Na velocidade também -Kylor completou, com orgulho. Apesar de não lutar mais com ele nós continuávamos correndo- talvez encontrar um Caçador agora não seria tão ruim, queria ver você em ação.

—Bem, prefiro evitar isso. O Adam pode permitir que você volte a ver as lutas.

—Não, eu não gosto.

—Mesmo se gostasse, eu não deixaria –Adam o olhou feio- você interfere demais.

Kylor apenas suspirou.

—É mesmo –Adam falou de repente- poderia me emprestar um dos seus carros hoje? Tenho um compromisso.

—Tudo bem –Kylor deu de ombros- pode escolher qualquer um.

Adam saiu animado, Kylor tinha uma coleção impressionante de carros, todos luxuosos.

—Então- eu disse- a festa da Aline é esse fim de semana.

—Você vai?

—Claro. E você também, pedi à Annie que arrumasse um convite.

—Acho que isso explica uma líder de torcida me parando no corredor para falar que meu nome estava na lista.

—Você não me contou isso.

—Não achei necessário, nem sabia do que ela estava falando.

Aquela pontada de novo. Não fazia sentido algum, sempre que alguma garota conversava com ele, ou falava dele, eu sentia isso. Um pouco de raiva, mas algo a mais. Sabia que Kylor não ligava, e sempre ignorava qualquer uma, então isso que eu estava sentindo era completamente irracional. Suspirei, quando foi que perdi a razão ao se tratar desse homem?

—Quer comer alguma coisa? -ele perguntou, me tirando dos mus pensamentos- está olhando para esse café com muita vontade.

—É, mas não é café que quero.

—E o que é?

—Ainda estou descobrindo. Vamos?

Não dei uma brecha para que ele falasse algo mais. Depois de se trocar nós fomos a escola, o carro nunca ficava silencioso, pois sempre estávamos conversando, mesmo que seja apenas cantarolar alguma música que estava na rádio, nunca havia silêncio entre nós. Hoje não foi diferente.

(...)

—Você não vai acreditar!

Annie se aproximou de nós dois animada. Ela já havia se acostumado com a presença de Kylor, segundo ela ele era como uma sombra minha, apenas estava ali e não havia muito que se fazer. Lembro de não ter gostado da comparação, mas Kylor a achou engraçada.

—O que aconteceu?

—O professor de literatura conseguiu férias, e o substituto dele é simplesmente divino. Um homem maravilhoso. Tudo nele é lindo, sua voz, seu corpo. Ele é todo tatuado ainda, extremamente sexy...

—Certo, vou te interromper. Primeiro: como pode saber disso, a aula nem começou ainda, e segundo: você tem um namorado que é tudo isso, lembra?

—Tive que chegar mais cedo hoje, Aline veio assinar uma autorização de disputa entre as líderes de torcida e não quis perder carona. Coincidentemente vi o professor substituído e o diretor na secretaria. Não tive a intenção de ouvir nada, claro –segurei a risada, uma mentira muito mal contada- E qual é, meu namorado não é nem a sombra daquele homem.

—Aí! Essa doeu até em mim.

—Desculpe, não me expressei direito. Louis é maravilhoso, mas nosso relacionamento permite que adoremos outros homens –ela balançou a cabeça, satisfeita- extremamente saudável.

—Sinto que isso só beneficia você...

—Concordo –disse Louis atrás da gente- quem é o azarado da vez que caiu nas graças da minha namorada?

—Ah, Louis. Está aí a quanto tempo?

Annie perguntou, e segurou sua mão, com naturalidade.

—Desde o “meu namorado não é nem a sombra daquele homem”.

—Entendi, bem, é o professor substituto- ela respondeu tranquila- até você vai ficar caidinho quando ver.

—Aguardo por isso. -Louis riu e deu um beijo na bochecha dela.

O relacionamento desses dois é realmente conturbado.

Kylor disse em minha mente.

Teve uma discursão parecida quando você chegou na escola também. Já me acostumei com eles.

Você já namorou?

Essa pergunta, do nada?

Fiquei curioso.

Não, nunca.

Entendi.

Ele deu uma pausa.

Não vai me perguntar de volta?

Dessa vez a pausa foi minha.

Não.

Apenas disse, não tinha interesse em saber as aventuras que esse homem já teve, levando em consideração sua idade, provavelmente não foram poucas.

Quando chegamos na sala Annie falava sobre as atrações da festa, eu fingia prestar atenção quando sentei ao seu lado, e Kylor, como sempre, sozinho atrás.

Olha para frente.

Ele disse, e ouvi uma risada baixa atrás de mim. Adam entrava sorridente na sala.

Ah não. Ele não fez isso.

Eu ri também.

—Bom dia turma -começou Adam, fazendo com que a sala se calasse- meu nome é Adam Prime, vou ser o professor substituto de vocês por um tempo. Ainda não conferi todo o material que já foi passado para vocês então caso eu esteja muito avançado, por favor me falem. Estou aberto a dúvidas também.

Haviam vários murmúrios na sala sobre a aparência dele. E uma das meninas levantou a mão.

—Sim?

—Não vi uma aliança no seu dedo, professor -falou a garota.

Ele me olhou confuso, abaixei a cabeça para rir e não dei qualquer que fosse o suporte que ele procurava naquele momento. Quando levantei ele olhava para Kylor, que provavelmente ria também.

—Desculpe -Adam finalmente disse- vou responder apenas as perguntas gente, caso alguém tenha alguma pergunta, sinta-se livre para fazer...

—Então, você namora? -a mesma garota perguntou, e algumas outras levantaram a mão.

—Perguntas referente a matéria, por favor.

Todas as meninas abaixaram a mão. Adam suspirou, aliviado e começou a aula. No final, quando saíamos Kylor parou em sua mesa e os dois começaram a conversar. Ambos me olharam, esperançosos, mas não parei, preferia evitar as perguntas que Annie faria.

—Sua sombra não vai te perseguir hoje?

—Já falei para não se referir a ele assim.

Ela deu de ombros. Sentamos na mesa de sempre no refeitório, e logo Louis também chegou.

—Ué, cadê sua sombra? -perguntou.

—Sério? Vocês dois são péssimos.

—Ele está conversando com o professor novo.

—Conversando? Aquele cara sabe conversar?

Revirei os olhos.

—Para ser sincera não ouvi ele conversando mesmo –Annie disse pensativa- talvez ele apenas ficou lá, com cara de paisagem encarando a beleza daquele homem.

—O Kylor é gato também- disse surpreendendo a mim mesma- quero dizer, quando ele chegou aqui você o comparou a um deus grego.

—Isso foi antes de ver sua personalidade horrível. Nem me lembro como é a voz dele.

Suspirei, não havia como discutir com esses dois.

Pouco tempo depois Kylor se sentou na mesa, acompanhado do Adam. Isso atraiu a atenção de todos no refeitório, olhei para os dois a balancei a cabeça negativamente. Adam me olhou.

—O que foi? -perguntou.

—Professores não podem sentar junto com alunos.

—Na verdade não devem, poder pode sim.

—Não Adam, não pode.

—O professor é você, ou eu, mocinha?

—Mocinha? -o olhei feio.

—Não adianta discutir, apenas deixe ele fazer o que quiser. -Kylor falou.

Annie estava perplexa vendo a cena, e Louis parecia assustado. Estranhamente assustado.

Kylor os olhou, mas como sempre, meus amigos foram ignorados, diferente da reação do Adam.

—Está tudo bem? -ele perguntou.

—Ah –Annie o olhou sem jeito- está. Esse cara aí que nunca fala, então assustamos um pouco.

—Entendi- disse Adam, apenas, e então se virou para mim –Carrie, me deixe ver suas anotações depois, esse cara aqui não faz nada.

Ele apontava indiscretamente para Kylor, que o ignorou.

—Com licença -uma funcionária se aproximou, e se direcionou ao Adam- desculpe, não te mostraram onde fica a sala dos professores?

—Mostraram sim- ele respondeu- Por quê?

—Bem, professores não podem almoçar com alunos.

—Na verdade, não devem, mas nada proíbe.

—Proíbe sim, senhor.

—Que nada- ele balançava as mãos, tranquilo, sem se importar com a atenção que recebia- um professor próximo de seus alunos é sempre melhor, não acha?

—Não. -Ela respondeu- pode me acompanhar por favor?

Adam olhou para Kylor, que deu de ombros e depois para mim.

—Vai logo- disse apenas- não cause problemas.

Ele levantou como uma criança triste e saiu andando atrás da funcionária.

—O que foi isso? -Annie praticamente berrou- por que não me falou que conhecia ele?

—Bem, você não perguntou.

—Desde quando eu preciso perguntar!??

—Desculpe, ele e Kylor são amigos, então o conheci assim.

Ei!

Se quer desmentir, vai ter que falar.

Tudo bem, me use em suas desculpas. Mas você ainda mente mal.

—Que seja.

Ela apenas disse e depois voltamos às aulas. Nem Annie nem Louis tocaram no assunto novamente.

Kylor e eu fomos embora, e quando chegamos em casa Adam já estava lá.

—Preciso de um favor –disse ele assim que entramos.

—O que? -perguntou Kylor- Afinal, por que decidiu ir para aquela escola?

—Vocês fizeram parecer tão divertido!

—Você não frequentou o ensino médio?

—Não como vocês, estudávamos na biblioteca. Fico entediado aqui sozinho quando vocês vão.

Kylor o analisou por um momento, mas não falou mais nada.

—Bem, preciso saber o que vocês já estudaram, então você poderia me ajudar a organizar o plano de aula Carrie? -concordei com a cabeça- e tem mais uma coisa, conversei isso com Kylor mas não com você, há Caçadores lá.

—Sim, Kylor já tinha notado isso também.

—É, eles provavelmente sabem sobre você, Kylor e agora sobre mim, e estão usando nossa energia para que a gente não consiga identifica-los. Senti hoje várias vezes a presença deles, como se me observassem, mas não sabia dizer quem era. Por isso queria que ficássemos juntos, achei que assim talvez conseguiria achar melhor.

—Pois é, você deveria entrar como aluno, e não professor.

—Você sabe que tenho um diploma da faculdade, não é? Pretendo usar.

—E o que você sugere? -perguntei- até o momento a presença de Caçadores lá não nos ameaçou, e é meu último ano.

—Foi como você disse, até agora –falou Kylor –vou olhar com Fell se teria algo que nos ajude nisso.

—Ótimo.

Adam abriu a boca para falar mais alguma coisa, mas ouvimos um barulho do lado de fora. Os dois saíram na minha frente, alertas. Quando cheguei fora Louis estava lá parado, com um olhar assustado. Quando ele me viu começou a andar, mas fui mais rápida.

—Pare! -falei indo até ele, que imediatamente parou- o que foi esse barulho?

—Meu carro- ele apontou para a entrada, onde ele estava estacionado- assim que cheguei aqui algo saiu do chão, e o pinel estourou.

Olhei para Kylor, que deu de ombros. Louis havia caído em uma das armadilhas.

—Afinal, o que você está fazendo aqui?

—Faço a mesma pergunta –ele falou bravo- por que está com esses dois?

—Essa é a casa do Kylor, estamos visitando –ele me olhou desconfiado- pode responder a minha pergunta?

—Tentei te ligar, mas você não atendia, te vi saindo da escola e fui atrás.

Ele soava desesperado.

—O que aconteceu Louis?

—Annie sofreu um acidente, vamos até o hospital.

—O que? Como isso aconteceu?

—Você tem algum estepe? -Adam interrompeu- a gente pode concertar isso, mas se não der eu acompanho vocês até lá.

—Não! -Louis adiantou- eu tenho o estepe, agradeço a ajuda, mas não precisa ir com a gente.

Kylor ficou o tempo todo parado em silêncio, e observando os dois concertarem o carro. Louis tremia, mas tentava ser útil para Adam, que tentava o acalmar.

—Talvez devêssemos cadastrar o Louis também- falei baixo para Kylor- agora que ele sabe daqui.

—Não -ele respondeu, seco- nenhum humano vai ficar aqui, visitar, ou seja o que for.

—Kylor...

Não completei a frase, dava para ver pelo seu olhar que ele não mudaria de ideia. Os dois haviam acabado o conserto e subir com Louis no carro. Adam e Kylor observaram o tempo todo, sem falar uma palavra, até que sumíssemos de suas vistas.

—Louis, você não quer que eu dirija? -disse, ao reparar que ele tremia muito- talvez seja mais seguro.

—Não, está tudo bem.

—O que aconteceu com a Annie?

—Ela caiu da escada, estava ajudando as líderes de torcida a carregar o equipamento e caiu.

—E por que você veio correndo até aqui?

—Ela pediu por você. Quando sai Aline chamava uma ambulância.

Suspirei, preocupada. Annie era como uma criança quando machucava, fazia questão que sua família estivesse à sua volta, e ela considerava Louis e eu família.

—Certo.

Disse apenas, ele não parecia querer conversar, apenas chegar logo. Compreendia isso, Louis se preocupa tanto com Annie que qualquer coisinha o causava desespero. O carro andava, em um silêncio pesado, foi quanto senti. Uma repulsa enorme, me fazia até mesmo arrepiar, eu tive vontade de vomitar, como se algo podre me acompanhasse, e eu vi. Um, dois, três homens a frente, eles seguravam uma besta, e apontavam direto para o carro. Empurrei o volante de Louis, que no susto e na falta do sinto bateu a cabeça, sua cabeça sangrava e ele desmaiou.

O carro parou, abaixei o banco de uma forma que Louis não ficasse visível. Aqueles homens se aproximavam, ainda apontando sua arma em nossa direção. Da distância que eles estavam não conseguiam ver quem dirigia, passei por cima de Louis, que estava desacordado, e saí pelo lado do motorista, torcendo para que ele não fosse visto.

Aqueles homens que estavam à minha frente eram Caçadores, conseguia dizer apenas pelo sentimento de nojo, o sentimento de perigo, que fazia todo meu corpo se arrepiar. Me afastei o máximo possível do carro, e me vi cercada. Como se estivessem escondidos, várias outras pessoas saiam da estrada. Era um lugar deserto, havia apenas a estrada e o gramado aberto à sua volta. Perdi a conta de quantos vinham em minha direção, eram tantos que não conseguir conter o nojo, abaixei a cabeça e vomitei, o que fez alguns rirem. Quando olhei novamente, haviam centenas se aproximando, não poderia voltar pois sabia que eles matavam pessoas que andam com Imortais, e Louis estava completamente indefeso no carro.

Eu tremia, diante daquele exército, foi quando algo brilhou na minha mão. O anel.

Kylor, estou cercada por Caçadores.

Onde?

Desespero. Assim que a voz de Kylor soou em minha mente, o sentimento de desespero me preencheu.

Na estrada, não sei dizer exatamente onde.

Quantos deles?

Centenas.

Ele não respondeu. Senti algo gelado em minhas costas.

—Não se mova –disse uma voz feminina- isso que você está sentindo é a mors lapis. Sabe o que é?

Fiz que sim com a cabeça.

—Ótimo -ela continuou- você vai vir com a gente, e qualquer movimento em falso, vou perfurar você com ela.

Olhei para a garota, e era a menina que vi na escola, a que falou sobre Kylor não ser confiável.

—Grant vai ficar bem animado quando ver quem encontramos aqui- falou um homem se aproximando- quem diria, Carrie Wanrov.

A garota mantinha a pedra nas minhas costas, mais pessoas se aproximavam, algum deles pulavam e dançavam comemorando a “caça”. Sabia que poderia fugir dali, não conseguiria lutar com todos, apenas o suficiente para escapar. Mas não com Louis. E não o deixaria para trás, então por hora, iria com eles.

Eu já estava cercada, haviam Caçadores atrás de mim, a minha frente e aos meus lados. Uma comoção começou entre eles, e os gritos de comemoração, viraram gritos de medo. A garota e homem não saíram do meu lado, mesmo questionando o que estava acontecendo se mantinham em posição.

—Há um Imortal com uma energia insana aqui –se aproximou um terceiro Caçador, também repleto de armas, era a primeira vez que via a mors lapis , ela era de uma coloração rosa bebê, com pontos escuros, era uma bela pedra, dava vontade de tocar- Grant não vai perdoar se deixarmos ela escapar, vamos leva-la e o restante luta.

Grant. Supus que esse seria seu líder.

Uma brecha se abriu entre aquele círculo que me cercava e vi Kylor. Quase não o reconheci, ele estava repleto de sangue, e com uma expressão de ódio que me fez querer correr. Os Caçadores que estavam longe dele, tentavam se aproximar para lutar, e os que estavam perto, tentavam fugir sem sucesso. Em uma mão ele segurava uma espada, e na outra, nada. Ele segurava os Caçadores com sua mão livre e eles simplesmente caiam mortos.

Quando ele me viu, seu olhar mudou, passou para medo, pavor, culpa. Era como se ele me pedisse desculpas. O círculo se fechou, e o perdi de vista, mas o Caçador ao meu lado não.

—Acerte ele- falou a garota atrás de mim- ele está cercado, não conseguiria desviar.

O Caçador levantou sua besta, se me inclinasse um pouco conseguia ver a brecha, havia um espaço suficiente para que a flecha passasse, como se fosse feito para acertar seu alvo, com perfeição.

Não iria deixar. A garota atrás de mim estava focada no outro Caçador, e não percebeu quando empurrei meu cotovelo em seu rosto. Não havia colocado tanta força, mas de alguma forma seu rosto se amassou, e ela caiu morta, sendo rapidamente cercada pelo seu sangue. Não deu tempo de sentir culpa. Corri até o Caçador com a besta, ao se defender ele tentou atirar em mim, mas desviei de alguma forma, pulei em cima dele e com apenas a mão esmaguei seu rosto. Alguns outros corriam em minha direção, havia uma adaga no corpo do Caçador já morto, a peguei.

Era como uma dança, a faca se movia sozinha em minha mão, a cada um que se aproximava, ela cortava com precisão, meu corpo desviava de todos os golpes, se aproximar de mim o suficiente para machucar era impossível. Queria chegar até Kylor, haviam tantos Caçadores à sua volta, e tantos corriam em minha direção, que não conseguia me aproximar sem me machucar.

Não me cansava, quantos mais vinham, mais rápido eu me movia, mais precisa eu estava.

—Não! Ela não! -ouvi um Caçador gritar ao longe- mira no outro.

O olhei, ele gritava para um dispositivo de comunicação, mas olhava em direção a uma torre de vigilância. Estava longe, muito longe. Conseguia ver a sombra de uma pessoa, conseguia ver ela se movimentar, mudando seu alvo.

Não conseguiria chegar a tempo até lá. Vi Kylor ao longe, e não pensei em nada, apenas corri.

Senti facas me perfurarem por todo o caminho, ouvia pessoas gritando “ela não”, mas isso não os impediu. Estava com tanto sangue que não sabia diferenciar qual era meu, e qual era deles. Kylor se assustou quando me aproximei, estava tão focada naquela pessoa na torre que conseguia ouvir o gatilho da besta sendo puxado. Sorri para Kylor, que sorriu de volta, aliviado, o puxei pelo pulso, ficando de frente para ele e seu olhar de alívio foi substituído no mesmo momento em que senti uma pontada gelada passar pela minha nuca, e atravessar meu pescoço.

Ódio, desprezo, dor. Foi o que vi nos olhos de Kylor, até que tudo fico preto.