A Imortal
14 As Flores
Ouvia gritos agonizantes, só queria que parassem. Por que estavam gritando com tanto medo? Por que não calavam a boca?
—Kylor, espere! -Adam?
—Não. — por que Kylor soava tão frio? Que voz era essa?
—Vamos embora, tem muitos deles.
—Você pode ir.
—Vou tirar ela daqui – disse Adam e logo senti mãos geladas a minha volta, ouvi o barulho de algo se quebrando e então uma dor insuportável, algo estava sendo puxado do meu pescoço- Kylor, acho que você vai querer ver isso.
Ouvi passos se aproximando de mim, pessoas corriam, mas esses passos caminhavam.
—O quê? Como isso... -Kylor parecia chocado- como ela está se curando?
—Achei que você soubesse responder essa, nunca vi ou li nada parecido. Será que a pedra não era autentica?
—Não sei. Leve-a embora daqui, não deixe que a vejam.
—E você?
—Vou garantir que nenhum desses vermes escapem com vida.
—Nenhum? Você não vê quanto têm?
—Irrelevante, principalmente agora, não posso deixar que escapem.
—Deixe de ser idiota, apenas vamos.
Sem resposta, mas os gritos não paravam. Eram cada vez piores.
—Tudo bem, faça como quiser. Vou tirar Carrie e seu amigo humano daqui.
Ouvi um ruído de desaprovação quando ele disse humano, mas não houve uma resposta. O ambiente todo fedia a sangue, era como se a morte estivesse ali, do meu lado.
Não ouvi mais nada, e por um tempo foi assim. Abri meus olhos, não reconhecia aquele lugar. Me sentei olhando em volta, estava deitada na grama. Conseguia ouvir o barulho do mar, vários tipos de flores estavam à minha volta, todas brancas. Estava em um grande campo, com diversas flores o cobrindo, borboletas voavam, mesmo sendo a noite, tudo brilhava com muita intensidade. O céu estava brilhando com uma quantidade impressionante de estrelas, de uma forma que nunca havia visto.
—Oi.
Não precisava me virar para saber quem era, reconhecia a voz de Kylor. Ele se sentou ao meu lado, cruzando as pernas.
—Você precisa acordar, sabe.
—Não estou acordada?
—Não.
—Eu não morri?
Ele olhou para baixo, triste.
—Ainda não sei dizer. Desculpe.
—Então isso não é real? Está acontecendo apenas na minha mente?
—Sim, está acontecendo em sua mente, mas não significa que não seja real- ele me analisou- esse lugar já existiu, há muito tempo atrás.
—É lindo.
—Sim, queria que você visse. Aqui era meu refúgio, hoje não passa de terra, foi totalmente destruído em uma de nossas batalhas, mas não fui capaz de me esquecer dele.
—Bem, obrigada por me mostrar.
—Existem muitas coisas para você ver ainda, então preciso que você acorde.
—Eu estou acordada.
—É um sonho, Carrie.
—Não sei acordar.
—Apenas abra os olhos.
Ele sumiu, toda aquela bela paisagem se tornou apenas uma escuridão. Certo, precisava abrir os olhos. Os fechei novamente e quando abri estava no quarto do Kylor. Ele estava lá também, sentado em uma cadeira ao lado da cama, sua perna balançava ansiosamente e ele olhava para a janela.
—Ei –me sentei na cama, e ele se virou assustado- ainda é um sonho?
Ele se levantou, e veio em minha direção, seus braços me envolveram. Ele me apertava, seu rosto estava no meu pescoço e consegui sentir sua respiração quente.
—Não, dessa vez é real- ele sussurrou, ainda com sua cabeça enfiada em meu pescoço- é real.
O abracei de volta e ele ficou ali, apenas quieto por um tempo.
—Por favor, nunca mais faça algo assim- ele finalmente disse, me soltando- isso foi muito imprudente.
—Desculpe?
—Carrie, estou vivo a centenas de anos, você realmente acha que eu não seria capaz de desviar de uma flecha?
—Eu não pensei, apenas agi...
—Claro que não pensou!
—Por que está irritado agora?
—Porque o resultado poderia ser outro, você...
A porta então se abriu, e Adam entrou, com uma expressão preocupada.
—Ouvi vozes –disse apenas.
Fell logo em seguida apareceu atrás dele também.
—Carrie, que ótimo. Estava prestes a falar com sua mãe, estávamos preocupados que você não acordasse.
—Vocês não comunicaram minha mãe?
—Achamos melhor não, apesar de que ela ligou algumas vezes, afinal, você ficou dois dias em coma.
—Dois dias?
—Sim –Kylor disse, desviando seu olhar doo meu- depois que te visitei em sonho não consegui mais entrar, você acordou dois dias depois.
Para mim, pareceu que foi no mesmo momento.
—Pode explicar como isso aconteceu? -perguntou Adam, ainda mantendo distância- Como uma Imortal sobreviveu a um ataque direto da mors lapis? Testamos a pedra, ela era autêntica.
—Adam, eu...
Tinha uma ideia do porquê nada aconteceu. Mestiça. Não me senti pronta para contar para eles, mas achava que deveria.
—Você não precisa falar, Carrie –Kylor disse.
—O quê!?
—Sobre o que você é.
—Você sabe? -o olhei assustada- desde quando?
—Desde sempre, eu acho.
—Do que raios vocês estão falando? -Adam avançou um pouco em minha direção, mas ao olhar para Kylor ele se afastou novamente- o que você é?
Suspirei.
—Tudo bem, mas antes- olhei para Kylor- como você sabe?
—Desde a primeira vez que vi sua mãe, te deixando na escola.
—Me deixando na escola?
—Foi antes do seu despertar.
—Oi?
—A história é simples, eu senti uma Caçadora, a segui e me surpreendi quando notei que era uma Wanrov, você estava com ela, mas sabia que não era uma Caçadora, já que não senti nada. Queria saber mais, e quando passei naquela escola alguns dias depois, você estava no seu despertar. Comecei a me questionar porque uma Caçadora estava andando com uma Imortal, ainda mais da família fundadora. Quando descobri que ela era sua mãe tudo fez sentido...
—Você é uma Wanrov? -Adam me olhou, assustado- De sangue?
Olhei para baixo, constrangida.
—Percebi que você descobriu sobre isso quando parou de falar seu sobrenome. -Kylor disse.
—Por que não me contou?
—Achei que você quem deveria me contar.
—Por que continua ao meu lado?
—Não já tínhamos esclarecido isso? Não importa sua família, você é uma Imortal, e uma amiga.
—Espera –Adam interrompeu- ainda que sua família seja de Caçadores, isso não explica porque você sobreviveu. Ou você fez o juramento?
—Nunca! Eu não entendo muito bem, mas pelo que minha mãe me explicou, os Imortais foram criados pelas divindades e os Caçadores da família fundadora, para se tornarem capazes de lutar, fizeram um pacto com demônios. O juramento faz com que se torne um Caçador, mas a família fundadora tem um pacto direto, então o juramento apenas os tornaria mais forte.
Adam estava me olhando, com uma expressão de choque. Kylor também, apesar de tentar esconder a expressão de surpresa em seu rosto. Fell apenas suspirou.
—Preciso sair daqui.
Adam disse, e saiu do quarto, sem olhar para ninguém.
—O que...?
—Você acabou de relevar uma informação que nenhum Imortal jamais soube- explicou Fell- Quando sua mãe me contou sobre o pacto, tive que jurar não contar nada a ninguém, e venho cumprindo isso. Mas não jurei que impediria caso outra pessoa tentasse contar, é uma informação muito importante.
—Por quê?
—As divindades criaram tudo -começou Kylor- acreditávamos que os Caçadores também haviam sido criado por elas, mas descobrir que não foram muda toda a história. A existência deles não vai apenas contra os Imortais, vai contra as divindades também, o que significa que eles nunca poderão realmente nos destruir.
Não consegui esconder a confusão em meu rosto, e Fell continuou:
—Apenas seres criados pelas mesmas entidades podem levar a extinção do outro. Por exemplo, humanos podem ser a causa da extinção dos animas, já que ambos foram criados pelas divindades. Mas Caçadores não podem ser a razão da extinção dos Imortais, eles foram criados por algo que apesar de serem frutos das divindades, também vão contra elas. Demônios nunca podem acabar com nada que elas criaram, seria considerado uma afronta. Ou seja, não importa quantos Imortais os Caçadores matem, sempre vão haver mais.
Ouvimos um barulho alto no andar de baixo, o que Adam fazia?
—Eu vou dar uma olhada nisso- Fell disse- se sentir alguma coisa me procure Carrie, apesar de você parecer estar bem, não muda o fato de que ficou em coma por dois dias, vamos conversar mais tarde.
Assenti e Fell saiu do quarto, novamente me deixando sozinha com Kylor. Não o olhei. Ele sabia o tempo todo, e de alguma forma isso me incomodava.
—Carrie, não desvie o seu olhar.
—Eu estava com medo de te contar algo assim, e você sabia esse tempo todo...
—Por que teria medo de me contar? O quão mais claro eu preciso ser para que você entenda que é importante para mim?
Suspirei, mas o olhei, por que sua expressão estava tão triste? Estiquei minha mão e a coloquei sem seu rosto, ele se assustou com o toque, mas não o afastou.
—Desculpe, por não contar. E por ter me arriscado dessa forma também...
—Era o que eu queria ouvir- seu olhar suavizou- agora prometa que não vai fazer nada assim de novo.
—Não posso.
—Carrie, ainda existem outras formas de nos matar, não seja imprudente porque a mors lapis não o faz.
—Ainda assim, não posso prometer.
—Eu realmente não sei o que fazer com você.
Sorri, sabia que se fosse em uma situação contrária, sua postura seria a mesma. Ele me encarou por um tempo, me aproximei de seu rosto, mas ele desviou o olhar.
Segurei seu queixo gentilmente com minha mão, o fazendo me olhar novamente, e continuei me aproximando. Nossos lábios estavam quase juntos, senti uma leve pressão do seu rosto tentando se afastar, mas o contive com minha mão em seu queixo.
Eu o beijei, após alguns segundos ele me retribuiu, até que o beijo virou urgente, suas mãos agarraram minha cintura com necessidade, ele me puxava para mais perto, me fazendo ficar acima dele. Minhas mãos estavam em sua nuca, e as dele subiam por dentro da minha blusa. Não importava se estávamos sem ar, ou o quanto aquilo estava feroz, estava tão bom que não queríamos parar. Tirei sua blusa, seu peito estava gelado, minhas mãos desciam pelo seu abdômen extremamente musculoso até chegar em sua calça, a desabotoei, o beijo ficava cada vez mais urgente, ele tirou minha blusa e me deitou na cama, ficando em cima de mim, me olhava com tanta paixão que aquilo me assustou um pouco. Ele tirou o cabelo que caia no meu rosto e o colocou atrás da orelha, e então voltou a me beijar, suas mãos brincavam na minha cintura, uma subiu para o meu seio e parou por lá.
Então subitamente ele se levantou, e me olhou assustado.
—Não podemos fazer isso.
—O que?
Ele se levantou, pegou a blusa que estava jogada na cama. O volume em sua calça era visível, por que pararia?
—Kylor –ele estava saindo do quarto, mas parou na porta- o que foi?
—Ainda não. Não vou fazer nada que você se arrependa depois.
—Por que eu me arrependeria disso? -ele saiu, fechando a porta atrás de si- Kylor!
Me levantei, mas me sentei na cama novamente. O que raios...
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