A Imortal

2 Olhos Negros


—Carrie, acorda você está atrasada.

Para variar...

—Bom dia mãe- disse levantando meio zonza

—Bom dia querida- ela disse me dando tapinhas para levantar- Não tenho como te emprestar o carro hoje, você vai ter que ir de ônibus. Se demorar vai perder.

Fiz minha higiene pessoal, uma maquiagem básica. Nasci com cabelos brancos e olhos azuis bem clarinhos, quando mais nova insistia em pintar de um castanho claro, mas com o passar do tempo me cansei disso e aceitei deixa-lo natural. Uns falam que é defeito, outros que é qualidade. Minha opinião? É apenas ok, mas vale mais a pena o natural do que me cansar sempre tendo que pintá-lo. Desci às pressas, visto que se perdesse um ônibus, não havia outro tão cedo.

—Não vai comer Carrie?

—Como na escola mãe.

Saí correndo para o ponto. Mesmo que tenha conseguido chegar a tempo, ainda me atrasei para a escola.

Já haviam fechado a entrada principal, então dei a volta para entrar pelo estacionamento, quando entra uma BMW preta quase me atropelando. Olhos negros. Foi tudo que eu vi, até que me cabeça começou a doer. Uma dor insuportável e eu cai.

(...)

Acordei na enfermaria com Annie e Louis, meus melhores e talvez únicos amigos, sentados ao meu lado com olhares preocupados.

—O que rolou? A quanto tempo tô aqui?

—Já estamos no quarto tempo.- respondeu Louis com um sorriso amarelo.

—Nós quem perguntamos o que aconteceu Carrie- disse Annie mais ansiosa.

—Minha cabeça começou a doer no estacionamento eu cai. Não precisa se preocupar eu estou bem, foi meio do nada acho- disse me levantando da cama-Vamos indo? Não comi nada ainda e não quero perder a chance no intervalo.

O olhar de Annie mostrava que ela sabia que escondia algum detalhe, mas ela sorriu e se levantou. Não achei relevante contar sobre o carro, ou a pessoa dirigindo, afinal talvez nem intencional foi, e eu estava no meio do caminho. Sabia que se comentasse sobre meus amigos iam fazer um escândalo na escola até achar o responsável. Uma dor de cabeça desnecessária.

Minha única dúvida realmente era como havia chegado na enfermaria.

Annie e Louis namoram a uns dois anos, somos os três amigos desde criança, então quando começaram a namorar não foi desconforto nenhum em nossa amizade.

Louis foi para seu andar enquanto eu e Annie íamos para a aula do Sr.Whitherlon, o professor de geografia.

—Chegou um garoto muito gato na escola- Annie falou enquanto subíamos as escadas –ele passa bastante do padrão dos meninos daqui, mas foi bem rude com todo mundo. Ignorou até os que o cumprimentava. Isso prova como gente bonita demais se acha, por isso que amo meu namorado padrãozinho e gentil.

Dei um sorriso, concordando com a última parte.

—Talvez ele prefira não se misturar.

—Cara, ele devia ao menos falar com alguém.

Entramos na sala.

—Vocês estão atrasadas. -o Sr.Whitherlon falou sem se virar.

—Desculpe- eu dei a iniciativa- estávamos na enfermaria.

—Sentem-se, e espero que não se repita.

Nós nos sentamos, e pelo canto dos olhos vi duas coisinhas negras me observando. Virei, nunca havia visto aquele garoto na escola...ou na cidade. Realmente poderia afirmar que nunca o vi, um rosto daqueles não é algo que me esqueceria.

— Esse é o garoto novo- disse Annie olhando na direção em que eu olhava- bonitão né?

Não respondi, apenas afirmei com a cabeça e voltei a prestar atenção na aula, algo que era realmente difícil sentindo seu olhar em mim. Aqueles olhos, ele era o cara da BMW e não tenho dúvidas de que meu desmaio foi por culpa dele. Não sei explicar, mas foi.

(...)

Quando se tem 7 horários de aula, o intervalo é o momento mais esperado, ainda mais na fome em que eu estava. Peguei minha bandeja e fui para a mesa de sempre, acompanhada de Annie e Louis. Começamos a comer e riamos da história de Louis sobre o fim de semana deles em um acampamento que Annie puxou uma cobra a confundindo com um cipó.

—Ainda bem que não era venenosa- ela falou.

—De que adianta? — ele riu- você quase teve um ataque cardíaco...

Interrompemos nossas risadas quando o novato entrou na cantina, a atenção se voltou toda para ele, algumas pessoas o convidaram a se sentar na mesa, mas ele nem mesmo os olhava. Ele olhava para mim, e vinha em minha direção. Sem falar nada se sentou na nossa mesa, todos olharam para nós por alguns segundos, mas logo o barulho de conversas voltou a encher o ambiente.

—Hm, oi? -Annie o cumprimentou, confusa.

Sem resposta, ele apenas me encarava, como se não houvesse mais ninguém na mesa. Me analisava com uma visível curiosidade, como se me estudasse. Estava desconfortável, ele sentou na nossa mesa e nos ignorou? Me analisava como se fosse um rato em experimento.

—Ei- por fim chamei sua atenção- você não tem educação? Pare de me encarar, e responda quando alguém fala com você!

—Peço desculpas- ele respondeu, e Annie me lançou um olhar surpresa até porque era raro eu me estressar- não vou ignorar você.

—Desculpe, mas eu te conheço?

—Acredito que não. Apesar de que eu conheço você.

Ele ajeitou seu sanduiche na bandeja, começando a comer. Não senti vontade de perguntar mais nada, honestamente, estava assustada. Peguei meu celular para mandar mensagem ao meu grupo de amigos. Comecei a digitar para mudarmos de mesa quando chegou uma mensagem:

Annie: "O que foi que aconteceu aqui?"

Louis: "Ele tava te tarando?"

Carrie: Quando eu descobrir te conto Annie, e Loius, espero que não. Esse cara me assusta.

Annie: "Porque esse garoto se sentou com a gente? Carrie, tem certeza que não o conhece?”

Carrie: Já disse que não.

Louis: "Ele sentou com a gente porque a Carrie é gata."

Annie:" Um deus grego senta na nossa mesa e vocês não ficam nem ai."

Louis: "Mas eu sento aqui todo o dia '-' "

Carrie: Acho que não é de você que ela tá falando.

Annie: "AFFE"

Louis: “Alguém viu o cara se mandar?”

Tirei meus olhos do celular e olhei a minha frente onde ele estava sentado, não havia mais ninguém.

—Sinistro- comentou Louis- eu estava sentado do lado dele e nem vi ele se levantar.

—Também nem ouvi nada- Annie acrescentou- Ei todos vocês viram ele né? Vai que é um fantasma.

—Não viaja- disse dando minha última mordida no sanduíche- fantasmas não existem, a gente só estava entretido e não viu ele sair.

—Você é tão cética que chega a ser sem graça.

—Em contrapartida a Annie acreditaria até em unicórnio se alguém falar que viu um- completou Louis.

O sinal tocou e voltamos a sala, silenciosamente torcia para que não me encontrasse com aquele garoto de novo, mas sentia que aquela estava longe de ser a primeira vez.

Ao fim das aulas estava indo para o estacionamento encontrar com Annie e Louis que iam me dar carona, quando o grupo de torcida do time de futebol para na minha frente.

—Oi Carrie- cumprimentou Tasha, a líder- o garoto hoje que sentou na sua mesa, quem é?

Suspirei, conhecia Tasha o suficiente pra saber onde esse dialogo pararia.

—Desculpe Tasha- tentei ser educada- não o conheço também. Agora se me dá licença.

Tentei seguir meu caminho, mas ela entrou na minha frente, novamente.

—Não seja rude, só te fiz uma pergunta.

—Se você tá curiosa, pergunte a ele- suspirei- eu realmente não sei!

—Que falsa... — uma das garotas murmurou.

Mas Tasha me deu passagem.

Passei por elas, e de alguma forma que não sei explicar senti todos os seus movimentos quando Tasha esticou sua mão em direção ao meu cabelo. Me virei e segurei seu braço, não na intenção de uma briga, apenas para me proteger. Por isso me assustei quando ouvi um estalo, e Tasha gritou de dor. Seu braço havia quebrado, senti seu osso se partindo na palma da minha mão.

Como isso era possível? Eu mal a toquei. Suas amigas assustadas a puxaram de perto de minha, e saíram enquanto ela chorava. Eu fiquei imóvel, olhando toda a cena, com uma imensa interrogação no rosto.