A Imortal

6 A Caça


Sábado. O melhor dia da semana, ainda mais com o sol que surgia na manhã. Minha mãe passaria a semana fora em uma viagem de negócios, por um lado achei bom, ficamos em um clima desconfortável desde aquela visita.

Iria para a praia com Louis, e estava animada, não havia forma melhor de esvaziar a cabeça. Quando ele chegou na minha casa, já estava pronta igual uma criança esperando na entrada.

—Não vai levar sua prancha de surf? — ele perguntou enquanto pegava minha bolsa e abria a porta do carro.

—Não. Você fez parecer fácil. Vou vender aquilo na primeira oportunidade.

Qualquer atividade aquática interessava Louis, e ele era ótimo em todas. Quando o vi surfando decidi que era algo que queria aprender, na minha primeira tentativa me assustei com as ondas e acabei parando do outro lado da praia, em uma área privada, na segunda tentativa, acabei longe demais, em mar aberto. Nunca mais tentei, ainda mais com Annie falando sobre como era perigoso e podia estar em área de tubarão.

Assim que chegamos na praia Louis encontrou um coqueiro que fazia sombra e nos sentamos ali em baixo.

—O que você trouxe de comer? — perguntou.

—Apenas sanduíches e alguns doces. E você?

—Energético -ele tirou alguns da bolsa- estava contando que você traria algo.

Eu ri, sabia que ele não levaria mesmo, por isso trouxe tudo em dobro. Entramos no mar, apostamos corrida, perdi e ainda tomei um caldo. Depois desse episódio decidimos sair, e um garoto veio em nossa direção. Louro, alto, tatuado. Gato.

—Louis! Quanto tempo cara. Vi de longe e sabia que era você! -Eles se cumprimentaram com um toque, olhamos logo atrás dele havia um grupo de surfistas- essa é a famosa Annie?

Ele olhou pra mim.

—Não -respondi, e sorri- apenas amiga do casal.

—Massa. E ela não liga de saírem só vocês assim?

Eu ri, e Louis também. Realmente achávamos engraçado quando alguém fazia esse tipo de pergunta.

—Não cara –Louis respondeu- Carrie é uma irmã de pais diferentes, amizade de berço. Ela é muito próxima da Annie também.

—Legal -começamos a andar de volta ao coqueiro, e ele nos acompanhou- e seu namorado Carrie, é do tipo ciumento?

—Tate, se quer descobrir se ela é solteira é só perguntar.

Louis revirou os olhos abrindo um energético e pegando um sanduíche na minha bolsa.

—Eu sou –respondi, antes de Tate falar algo- Solteira, digo.

—Que bom- ele sorriu- então não vê problema em me passar seu número, eu suponho.

Eu ri, mas passei meu contato e ele sorriu satisfeito.

—Você e Louis se conhecem de onde? Não me lembro de te ver com ele.

—Ah, éramos do mesmo time de natação no fundamental –Tate me analisou- eu me lembro de você na escola. Infelizmente tive que me mudar. Voltei para a cidade esses dias.

Os dois começaram a conversar sobre essa época em que nadavam juntos. Percebi que estava sem meu celular e interrompi Louis para pegar a chave do carro, pois ia buscar. Ele não se incomodou, e logo voltaram ao assunto.

No caminho pelo canto do olho vi uma sombra, me virei e aquele homem que me observava no Dom estava ali. Ele não se importou nem mesmo em disfarçar quando olhei em sua direção, e continuou direcionando seu olhar para mim. Tentei ignorar e continuar andando, mas ele, a passos curtos e devagar, me seguia, como se apenas não quisesse me perder de vista. Peguei o celular, e voltei para onde estava, tentando ignorar o homem que sabia que me acompanhava.

Quando cheguei, Louis imediatamente soube que havia algo errado.

—O que aconteceu? — me olhou preocupado- Ca, você tá branca.

—Tem alguém me seguindo- sussurrei, mesmo sabendo que da distância que ele estava não me escutaria- aquele homem de ontem está aqui.

—O que te fotografou? -fiz que sim com a cabeça, e Louis olhou em volta, logo o encontrou, pois a pessoa não se preocupava em esconder- vamos ligar para a polícia.

—Estamos em maior número -falou Tate se aproximando, provavelmente entendeu o que estava acontecendo- vamos confrontar o pervertido.

Não achava que ele era um pervertido, de repente a história de Kylor passou por minha mente, e se fosse verdade e aquele homem estivesse envolvido, isso realmente poderia ser perigoso.

—Não -balancei a cabeça, não contaria sobre essa viagem de Imortais e Caçadores, mas não os deixaria se arriscar- ele pode estar armado, não sei. É melhor recorrer a polícia.

Louis ligou, e passou todas as informações, mas não ficamos lá para ver o homem ser preso. Estava tão quieta que Louis preferiu me levar embora. Tate disse que me ligaria para ver como estou e pediu para que eu salvasse seu número, caso precisasse de algo. Apenas assenti, toda minha energia para flerte havia se esvaído e a única coisa que passava em minha mente era a possibilidade daquele homem estar ali para me matar. Eu nunca perdoaria Kylor por colocar esse tipo de baboseira em minha cabeça.

Quando chegamos Louis insistiu em entrar comigo, mas neguei. Ainda pensando na possibilidade de colocá-lo em perigo avisei que caso algo suspeito acontecesse novamente eu iria contar para ele e ligar de novo na polícia. Apesar de não parecer convencido, ele aceitou ir embora, o que me deixou aliviada.

Tranquei a casa inteira e acionei todos os alarmes, imaginava que não ajudaria muito, e que aquele alarme no máximo alertaria minha mãe que havia algo errado. Eu não sabia praticamente nada sobre Imortais, e muito menos sobre Caçadores. O que eles eram capazes? Como pará-los? Quem eram seus aliados? Nada, não sabia as respostas. E a pergunta mais importante: por que eu estava tão certa que aquele homem estava envolvido com algum desses seres?

Olhei pela janela, já era a décima vez desde que cheguei em casa. Nada. Suspirei e finalmente decidi ir para o banho. Talvez ele esteja sendo interrogado pela polícia, talvez tenha sido preso, uma opção que me agrada mais. Ouvi batidas na porta, batidas fortes e insistentes. Me vesti muito rápido, mal me sequei e enquanto descia as escadas meu cabelo escorria molhando a mim e ao chão. As batidas não cessavam, ao contrário, apenas aumentavam e ficavam mais fortes. Peguei um taco, que duvidava ser de muita ajuda e perguntei quem era. Sem resposta, mas as batidas pararam.

Um. Dois. Três. Nada. Contei até dez, e nada.

Suspirei, me convencendo que estava tudo bem, e quem quer que estivesse ali havia ido embora. Até que ouvi.

—Carrie, abre a porta. -foi um alivio enorme perceber que conhecia essa voz.

—Kylor?

Larguei o taco e fui em direção a porta, logo em seguida a abrindo. Ele estala lá, parado, respirando sem folego como se estivesse exausto. Estava feliz em vê-lo ali, era a única pessoa que poderia responder as minhas perguntas.

—Tem alguém me seguindo.

—Eu sei- ele respondeu- ele está na parte de trás da sua casa...

Não o deixei terminar e corri até a janela da cozinha. Lá estava ele, há uma distância considerável, parado. Quando apareci na janela um enorme sorriso se abriu em seu rosto, como se debochasse da minha tentativa de fuga. Como se dissesse que nada o pararia. Como se afirmasse o quão fraca eu era, o quão inútil. Me afastei da janela, em pânico. Até que sentir duas mãos nos meus ombros.

—Calma –Kylor disse, com um tom de voz suave, nem mesmo o tinha percebido se aproximar- ele não está aqui para te matar. Também não pode entrar aqui, sua casa foi enfeitiçada. Não reconheço que feitiço é, mas ele não consegue entrar e até mesmo eu tive dificuldade.

Não respondi, me mantive calada, tentando acalmar minha respiração. Então Kylor continuou.

—Ele é um observador. Faz parte dos Caçadores, mas sua função é achar a presa, e não a deixar escapar até que um de seus superiores chegue. As vezes são Caçadores que assumem o posto, as vezes algum outro subordinado. Quanto mais caça eles acham, mais recompensados são. Houve uma época em que os observadores eram nossos aliados, o que eles mais almejam é a imortalidade- ele suspirou- queria saber o que os Caçadores os deram para nos trair.

—Como me livro dele? -finalmente perguntei.

—Não tem jeito, os observadores são humanos. São psicopatas que não se importam com nada além de si, e fazem o necessário para conseguir o que quer. Mas ainda são humanos. A não ser que eles matem alguém, ou nos fira, não podemos fazer nada.

—O que acontece se fizer?

—Somos castigados. Quando os Imortais surgiram houve um acordo de paz entre as divindades: pela segurança dos humanos, nós seremos estraçalhados caso machuquemos algum. Somos mais fortes, rápidos, e não morremos. Se decidíssemos fazer mal aos humanos eles não teriam chance. Por isso, só podemos lutar com aqueles que se tornaram Caçadores, que juraram o nosso fim. -ele parou, ponderando se me contaria aquilo ou não, mas ao continuar decidiu que sim- no início ignoramos esse mandato e por ser Imortal o castigo é ainda pior, quando mechemos com humanos inocentes, todos os nossos ossos são quebrados, órgãos amassados e isso ocorre durante dias, dependendo da gravidade de seu ato, semanas.

Queria perguntar se isso já aconteceu com ele, se era uma experiência particular. Mas não o fiz. Nem mesmo imaginava o que poderia ser essa dor, e fazer alguém relembrar disso não era um desejo. Ouvimos um barulho e fomos até a janela. O observador jogou uma pedra ali, para atrair nossa atenção e quando a conseguiu ele tirou de sua bolsa uma adaga negra com detalhes vermelhos em sua lâmina, nos mostrou e sorriu vitorioso. Ele a fincou no chão, e então foi embora.

— O que foi aquilo?

—Um aviso de que ele foi dispensado. Aquela adaga é o símbolo dos caçadores. Eles já estão aqui.

Fiquei sem ar. Não sabia o que faria se Kylor não estivesse ali, provavelmente ligaria para a polícia assim que o visse. Talvez nem ficaria em casa. Estava grata por sua presença, mas...

—Por que você veio até aqui? -sabia a situação em que eu estava, e me assustei ao perceber que só sentia a necessidade de fazer essa pergunta agora- como sabia que eu poderia estar em perigo?

Ele me olhou culpado.

—Eu te acompanho desde o dia em que cheguei nessa cidade Carrie. Se não fosse o feitiço que envolve sua casa provavelmente eu conseguiria ter entrado antes e você poderia já estar em segurança- ele olhava pela janela, ainda alerto- agora a gente precisa de uma fuga, faz anos que não enfrento os caçadores e não pretendo descobrir que tipo de novas armas eles têm. Que tal você começar contatando o feiticeiro que enfeitiçou sua casa, ein?

—Não conheço nenhum feiticeiro.

Ele me analisou por um segundo.

—Você conhece, só não sabe sua real identidade. -Ouvimos risadas e nos afastamos da janela- acho melhor pensar bem, porque sem ele, não vamos sair daqui.