A Ilha do Sherdacé (Hastorn)
5 Capitulo 4
Passado algum tempo, Harold estava pensativo, talvez devesse colocar alguém com Conrad. Mandou Helder providenciar isso. Já havia começado a esfriar e os primeiros flocos de neve começaram a cair. Helder desceu até as masmorras e interrogou o velho fedorento, que espantado disse:
—Um prisioneiro cego?
—Sim.
—Tenho... Uns sete. Mas qual é o interesse nesses pobres infelizes?
—Quero alguém que faça companhia ao anão.
—Sabe que posso arrebentar a porta da cela a qualquer momento não é?- Falou o velho debochando.
Na penumbra das tochas que iluminavam precariamente o lugar, Helder levanta a touca da capa negra que usava e mostra o rosto, onde uma cicatriz que começava no fim da sobrancelha direita e terminava no seu olho, agora branco devido à cegueira.
—Acha que me assusta com isso meu rapaz?- Falou o velho rindo. — Um fracote como você. — E se deitava de tanto rir, devido a bebedeira.
—Não mostrei isso para assusta-lo, e sim para poder fazer isso. — e puxou o carcereiro pelas roupas arrastando- o pela mesa e derrubando-o no chão.
—Nunca ria de mim. – E apertava o pescoço do velho. — Não me desafie, acha que pode simplesmente interferir em meus assuntos? Já matei homens bem mais importantes do que um velho nojento como você. Acha que seria um problema me livrar de você?
—Não... Não. — falou ele arfando. — Juro pelos deuses que jamais chegarei perto ou comentarei sobre a cela de seu prisioneiro, senhor.
—Ótimo. — E soltou o velho. — Não aguentava mais seu hálito fétido perto de mim.
—E em relação ao seu companheiro de cela... — Falou ainda meio sem ar. -Tenho um ladrão de joias que é um bom rapaz quando está longe do ouro.
—É cego?
—Sim. Teve a espada de um dos guardas passada sobre seus olhos, uma cicatriz bem pior que a sua... Quero dizer...
—Já entendi.
—Vou providenciar a transferência dele para a nova cela agora mesmo...
Quando Bran foi posto para dentro da cela ficou um pouco perdido, pois logo na entrada havia uma parede de pedras, que servia para proteger a privacidade do preso. Era impossível ver o resto da cela sem que se entrasse nela. Os guardas se limitaram a rir da desorientação do de Bran, já que estavam proibidos de entrar.
—Mas para onde eu estou sendo levado?- Falou Bran tateando a parede tentando se localizar quando ouviu a pesada porta de madeira se fechar em suas costas.
—Quem é você?- Falou Conrad com medo.
—Meu nome é Bran... Mas você é uma criança!- Falou ele tocando no rosto de Conrad.
—Sim e o que você faz aqui?
—Me colocaram aqui, dizendo que faria companhia a outro bandido, não há uma criança. Que idade você tem?
—Cinco.
—Cinco é? Pode me ajudar a sentar?- Falou tateando as paredes para obter apoio.
—Tome. — Ele o ajudou a sentar em sua cama.
—Como aqui é frio! — Esfregou os braços. -Mas sinto cheiro de carvão e lenha.
—Tem aqui, mas eu não sei o que fazer com isso.
—Tem uma lareira aqui?-Ele estava encantado.
—Tem, o senhor está não está vendo?
—Não, eu sou cego. -Lamentou.
—Por quê?
—Por que eu fiz coisas erradas. Mas vivi muitas aventuras. Roubei cavalos, joias, lutei de espadas, quase fui morto por dragões... Ah, bons tempos.
—Eu tenho medo de cavalos, meu papai me chama de medroso por isso. — E começou a chorar.
—Mas você é um menino, é normal sentir medo... Ei não chore — Bran lhe toucou as costas- Por que está aqui?
—Não sei. Mas eu queria minha ama. — Falou limpando algumas lágrimas.
—Bom, eu não sou mulher, mas acho que podemos nos dar bem. Vamos acender essa lareira, acho que ainda consigo, mas pode me ajudar?
—Acho que sim.
—Pode falar mais sobre o dragão?
~~*~~
Taylor cresceu no pequeno baronato de Magatino, seu pai trabalhava plantando cevada. Porém, certa vez, em mais uma das epidemias, Baco adoeceu do peito e pouco tempo depois faleceu. Amélia, sua mãe adotiva, se preocupou, pois muitos lavradores do baronato estavam morrendo, não queria que a peste a levasse ou a sua filha, então resolveu abandonar o campo e tentar um trabalho dentro da corte.
Taylor estava brincando com outras crianças quando Amélia a chamou:
—Taylor, venha, nós vamos embora.
—Onde mamãe?
—Vamos morar agora no castelo!
—É serio?
—Sim, não temos mais dinheiro então nos vamos trabalhar para o rei, a rainha e o príncipe.
—Príncipe?
—Aham, ele é um bebê agora, mas quando crescer vai ser o rei.
—E eu posso brincar com ele?
—Logico que não! Mas existem outras crianças lá, filhos dos empregados.
Amélia conseguiu um emprego como cozinheira e Taylor ficava com ela na cozinha escondida entre os sacos de batatas, para evitar que atrapalhasse o trabalho. Porém, passados alguns anos, foi permitido que Taylor trabalhasse como ajudante e no tempo livre, Amélia lhe ensinou a costurar, isso se tornou a única diversão da menina. Um dia foi ajudar Amélia a servir o almoço lanche quando viu um menino:
—Muito bem pequeno príncipe, o que quer fazer agora? — Perguntou seu tutor, Sir. Henry ao menino.
—Brincar de cavalinho!
—Talvez de outra coisa, minhas costas doem desde a última vez, que tal brincar de espadas?
—Sim, eu gosto de espadas!
—Acho que seria uma má ideia, ainda estou cego da farpa que entrou no meu olho. — Disse outro rapaz.
—Então de que?- Perguntou decepcionado.
—Que tal observarmos as flores no jardim?- Sugeriu uma das amas.
—Não, isso é chato, eu quero cavalinhos ou espadas. — Falou cruzando os braços e baixando a cabeça como se fosse chorar.
—Quer costurar? É divertido. — Falou Taylor inocentemente.
Todos olharam para ela, lançando olhares fuzilantes.
—Sim! Sim! Eu não sei o que é, mas eu quero brincar disso.
—Taylor, já lhe disse que não deve falar com ninguém fora da cozinha. Volte pra lá. — Amélia lhe deu uns cascudos.
—Mas eu quero brincar daquilo. — Disse o príncipe.
—Sentimos muito príncipe, mas ela é uma menina suja e que trabalha na cozinha. Você é bonito e delicado, não deve se misturar, além do mais, você não tem que aprender a costurar.
—Mas eu quero, eu quero, e quero agora! — Ele se jogou no chão e começou a espernear e berrar.
Quando Amélia voltou para a cozinha, deu umas palmadas em Taylor para ela aprender a obedecer.
—E agora vai ficar no pátio da cozinha enquanto eu trabalho, assim eu evito que você fale o que não deve.
~~*~~
Uma semana depois enquanto brincava solitária, viu o príncipe encolhido entre as caixas vazias de legumes; era o menino a quem todos mimavam, ela queria ser mimada também. Ele tinha cabelos vermelhos e pequenos cachos. A cor do seu cabelo também era vermelha, porém era um vermelho mais claro que o do príncipe. Ficou parada apenas observando o menino que parecia chorar.
Gaherd estava escondido de seus responsáveis e não sabia mais como voltar, estava com medo de todos aqueles rostos estranhos e se escondeu entre as caixas de madeira. Quando cansou de chorar levantou a cabeça e viu a menina que sabia brincar de costurar olhando para ele. Ela tinha o rosto um pouco sujo e as roupas estavam rasgadas. Era a única pessoa conhecida ali então resolveu se aproximar dela, nesse instante apareceu Sir. Henry que a empurrou com uma força desnecessária para trás e se colocou no meio dos dois.
—Não se aproxime do menino seu trapo de gente- E voltando-se para Gaherd-Então ai está você garotinho levado. Estamos lhe procurando, e de agora em diante não vamos mais brincar de esconde-esconde. — Ele o pegou no colo e se foi, deixando Taylor no chão. Limpando algumas lágrimas com as mãozinhas sujas correu para a cozinha.
Na cozinha ela conta tudo a mãe, que a consola:
—Mas que absurdo Taylor. Você não deve se aproximar do príncipe, é só uma empregada aqui no castelo... Não, não chore.
—Quem é Taylor?- Perguntou um guarda ao entrar no recinto.
—Eu! -Falou ela mais calma.
—Tenho ordens de leva-la comigo.
—O que vai fazer com ela?- Falou Amélia puxando a menina para trás dela.
—Ela vai se limpar para brincar com o príncipe. Ele exige sua presença.
Taylor olhava assustada para Amélia, que a tranquilizou.
—Vá, você vai se divertir. -E sorrindo a entregou ao guarda.
Ela tomou um banho e pela primeira vez colocou uma roupa totalmente nova e limpa. Se não pensassem que era apenas um a criada, todos poderiam dizer que era uma verdadeira princesa. A rainha que perambulava pelo castelo como um fantasma devido sua depressão parou e olhou para a menina por alguns segundos. Depois falou com uma expressão quase feliz:
—Quem é você?
—Meu nome é Taylor, eu vou brincar com o príncipe.
—Gaherd?... -Ela entrou em um devaneio. — Faz tempo que não o vejo... Você é uma linda menina. — E voltou a vagar silenciosamente pelos corredores. Taylor não fez contato visual com ela, pois foi instruída a isso.
Ela passou o dia inteiro brincando com Gaherd, almoçou pela primeira vez em uma sala enorme com cadeiras bonitas e uma mesa cheia de comida. Algumas vezes os tutores e amas de Gaherd olhavam-na com um olhar indiferente, mas ela apenas ignorava e continuava a brincar. Ficaram assim até anoitecer.
—O dia já acabou, agora você pode voltar para seu mundo, lá na cozinha. — Falou Sir Henry, um homem magro, alto de olhar frio e rígido.
—Não! Eu quero que ela fique!- Gritou Gaherd.
—Ela tem que voltar para a mãe dela.
—Eu quero então minha mãe!- Disse Gaherd com seu jeito de ditador mirim.
—Ela não pode ver você, está doente.
—Mas eu quero minha mamãe!
—Por favor, não chore, principezinho. -Taylor o abraçou.
—Então eu quero a Taylor. Eu a quero no meu quarto!
—Não acho que seja uma boa ideia...
—Mas eu quero agora senão eu vou gritar!- Ele se jogou no chão sacudindo pés e mãos e gritando.
—Certo, como quiser. — Disse uma das amas que estava com as mãos nos ouvidos.
—Eh, Viva!- ele comemorou.
Fizeram uma cama no chão ao lado da cama de Gaherd.
—Agora durmam. — Falou uma das mulheres que cuidavam dele. Ela foi para o quarto ao lado que era interligado ao dele por uma porta.
Taylor já dormia quando Gaherd a chamou:
—Taylor... Taylor... -Estava apenas com os olhos para fora das cobertas, assustado com as sombras formadas pelas árvores.
—O que foi?
—Estou com medo...
—O que você quer que eu faça?
—Deite do meu lado, por favor. — Disse ele sussurrando, escondendo o rosto entre as cobertas.
Semanas haviam se passado e Taylor continuava dormindo no quarto de Gaherd.
—Esta noite Taylor não vai dormir com você. -Disse uma das amas.
—Por quê?-Perguntou Gaherd.
Taylor não falou nada, apesar de estar decepcionada em ter que voltar a dormir na cozinha.
—Ela vai ter um quarto especial para ela. Vai ser ao lado do seu.
—Ah, mas eu quero que seja do meu lado.
—Não complique as coisas Gaherd. — E virando para Taylor disse:
—Você agora vai cuidar do príncipe, vai ser uma das amas dele. Já falamos com sua mãe. Se ele chorar a noite é sua responsabilidade entendeu?
—Sim senhora.
—Eu prometo que não vou chorar. — Disse Gaherd e sorriu.
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