A Ilha do Sherdacé (Hastorn)
3 Capitulo 2
Em Druton Alene chorava.
—Mas papai, eu não quero me casar com ele. -Lágrimas escorriam do rosto dela.
—Minha filha, não há casamento melhor do que ter o rei como marido.
—E se ele for feio?
—Se for boa com ele e lhe der um herdeiro, tenho certeza que ele ira lhe cobrir com joias.
—Estou com medo. — Ela abaixou a cabeça entre os braços.
—Confie em mim, ele é um homem que passou muito tempo sozinho e agora só quer uma família. — Falou o duque abraçando a filha.
Chegando a Hastorn foi recepcionada por Reginald que esperava ansioso por ela.
—Minha rainha. — Falou se ajoelhando diante dela e lhe beijando a mão.
—Meu senhor. — Disse ela se contendo para não chorar.
Ele levou Alene para conhecer o castelo e o reino, mas apenas ele falava. Ela nem sequer conseguia levantar a cabeça. No final do interminável passeio, por fim Reginald falou:
—Bom, acho que deve estar cansada, nos vemos mais tarde. — E novamente lhe beijou a mão.
No quarto reservado a ela, várias mulheres a esperavam em fila. Suas futuras damas de companhia. Com a ajuda delas se preparou para o casamento.
O casamento em qualquer lugar da Ilha do Sherdacé era realizado ao ar livre, pois acreditavam que assim os Deuses estariam presentes abençoando a união. O casal era oficialmente unido através das palavras de um grupo de três feiticeiros que ofereciam cada um uma bebida, representando, saúde, felicidade e prosperidade. Depois comemoravam com festa, comida e bebida, e poderia ser feito em qualquer lugar.
Alene foi coroada no mesmo dia do casamento pelo Grande Mago, Gaditano. Que ofereceu ao casal uma quarta bebida, representando longa vida, para que o rei e rainha pudessem governar por muito tempo.
—Eu Gaditano, representante principal de toda a magia desse glorioso reino, proclamo agora, Alene Amonati, rainha consorte para que junto de seu marido, o rei Reginald III possam reinar com justiça e firmeza.
Mais tarde no quarto do rei, Reginald olhava para Alene com um olhar apaixonado enquanto ela se deitava pela primeira vez com ele.
—Você é uma das mulheres mais lindas com quem tive o prazer de estar.
—Muito obrigada, senhor. — Disse ela envergonhada ainda sem conseguir olhar o marido.
—Não, não precisa mais me tratar assim, me chame apenas de Reginald. — Ele a beijou, ela tentou retribuir, mas não conseguia, para ela, Reginald era velho demais e tinha um olhar frio e apesar de trata-la bem, não conseguia sentir nenhum amor por ele.
—Eu te amo Alene. — E olhava para ela esperando resposta igual. Ela permaneceu em silêncio o que incomodou um pouco o rei. Ela tentava se consolar. “Ele ainda é um pouco bonito. É forte e me trata bem. Seremos felizes.”
Os meses passaram e Alene não tinha nem sinais de gravidez. O que lhe deixava angustiada. Não gostava de ter que se deitar com Reginald e quando mais cedo engravidasse mais rápido estaria livre disso. Mas ao contrario dela, Reginald se encantava com Alene a cada dia. Ele a imaginava mesmo como uma fada, mas não era imaculada. Sonhava com o dia que teriam um filho, e quem sabe uma filha que se parecesse como a mãe. Linda e delicada como uma criatura mágica. Então finalmente ela engravidou. E todo o encanto sumiu. Foi uma gravidez difícil e Alene ficava apenas na cama. Reginald a visitava raramente e toda vez se decepcionava mais. Ela estava fraca, jogada entre os travesseiros com o cabelo despenteado e o rosto pálido.
—Onde estão os feiticeiros? As feiticeiras? Preciso de poções que lhe devolvam a beleza!- Gritava ele pelo castelo. Por todo o reino havia comentário de que a rainha não sobreviveria.
Ele reuniu o melhor grupo de mestres da magia do reino para administrarem as poções e elixires para a rainha. Foram meses difíceis e ele se preocupou tanto com a esposa que se esqueceu de seu reino. Um surto de peste cinzenta atingiu a camada mais pobre de Hastorn no Leste-Sul passando pelo centro e indo em direção ao norte, fazendo mais vitimas. Mas ele ignorou esse fato. Só tinha olhos para sua esposa.
—Não podem deixa-la morrer, o que será de mim sem Alene? Sem meu filho? — Dizia ele desesperado.
—Não se preocupe majestade, estamos fazendo todo o possível. -Tentou acalmar um dos feiticeiros.
—Quero ela viva e bela novamente. — Gritou.
Ninguém se perguntou o porquê de uma moça jovem estar passando tão mal com a primeira gravidez.
—Rainha. — Dizia uma de suas damas, preocupada, ao lado da cama segurando sua mão fraca. -A senhora tem que ser forte. Se for menino, um dia será o rei de tudo.
—Eu não quero essa criança, é filho de Reginald... Por favor, Maria não me force a amar essa criatura que estou carregando eu tentei tira-lo mas não consegui.
—Sabe bem que as ervas da floresta Sagrada não são para esse fim.
—Quem se importa? Se eu não der um filho para Reginald quem sabe ele me mande embora, libertando-me finalmente... — Sua voz foi ficando mais fraca a cada palavra.
—Não fale mais dessas coisas.
—Ah eu rezo para os deuses que me matem antes ou durante o nascimento... — E finalmente caiu no sono.
Sete meses depois ela deu a luz. Quando souberam que Alene estava em trabalho de parto, todos fizeram silêncio, pois dificilmente uma criança de sete meses sobreviveria. Em todo o reino e principalmente Arandril, estavam todos muito agitados, comentários não faltavam a respeito do nascimento do primeiro filho do rei. “será menino?” “quem sabe não teremos uma rainha dessa vez” diziam outros. Porém a maioria acreditava mesmo que os dois morreriam. Então ouviram o grito de Alene e choro da criança. Logo em seguida Harold entra no salão do trono com um grande sorriso no rosto.
—Estão todos vivos!- Falou alegre para a corte que esperava com olhares ansiosos. – A rainha vai se recuperar logo, e já temos um herdeiro. Um menino majestade. O filho de Hastorn!
—Que ótimo!- Disse o rei levantando o cálice. -Um brinde a meu filho, o príncipe Conrad! O futuro Rei! -Bebeu um gole mas assim que se virou percebeu que Harold continuava ali e agora com uma expressão preocupada.
—O que foi? Você não disse que estava tudo bem?
—Vamos conversar em outro lugar majestade.
Chegando a sala privativa do rei, Harold começou a se explicar:
—Apesar dos feiticeiros e curandeiros dizerem que o príncipe sobreviverá, devo lembrar-lhe que é prematuro e pode não ser saudável. Ainda ressaltando que há esperanças.
—O que eu devo fazer? Quero dizer se ele morrer?
—Sua esposa deve descansar por um tempo, mas depois estará livre para gerar outro filho. Que virá mais como uma precaução.
—Estou ficando velho, e se eu morrer e não deixar um herdeiro? Os D’Anduthors são a dinastia mais antiga de Hastorn. 40 gerações serem jogadas fora assim...
—O senhor ainda é jovem, não se preocupe vai conseguir deixar pelo menos um herdeiro.
—Está enganado Harold, estou ficando velho e a mercê dessas doenças. Tem certeza que Alene ficará bem?
—Quase absoluta, ela é forte e com certeza irá gerar filhos fortes.
—Mas Conrad não é.
—A primeira vista não, mas quem sabe não mude com o passar do tempo?
Reginald foi visitar Alene em seu quarto.
—Como está se sentindo?
—Acho que bem, na medida do possível. Mas ainda não vi meu filho... Nosso filho. — Ela tentou sorrir. O ódio pelo bebê havia passado no momento em que ouviu o seu choro.
Ele também tentou sorrir, mas não achava mais a rainha bonita. Não parecia a mesma. Lembrou que as fadas não ficavam cansadas nunca.
—Tenho que ir. — Falou e se sentiu aliviado por sair dali. Alene sentiu a mesma coisa.
Em quatro meses ela estava quase recuperada. Apesar de ninguém acreditar que um bebê tão frágil sobreviveria, o pequeno príncipe surpreendeu a todos. Porém ainda necessitava de cuidados especiais. Isso não agradava a Reginald.
—Vamos entregar o príncipe a cuidados de tutores.
—Mas ele é tão delicado. -Protestou Alene.
—Por isso mesmo. Precisamos nos preparar para o pior Alene e quando digo isso falo em nome do reino, precisamos deixar um herdeiro forte e saudável para governar quando eu morrer. Temos que ter outro filho.
—Acredita mesmo que ele não sobreviverá muito tempo? — Ela voltou a ficar com a mesma tristeza que para Reginald era imperceptível.
—Nunca se sabe.- Falou novamente frio.
Ela preferiu não discutir mais. Reginald era muito imprevisível, se estava feliz, logo se aborrecia e com a mesma rapidez voltava ao humor anterior. Ela aprendeu a não contraria-lo. Mas sentia medo por não saber o que responder ou faze em certos momentos.
Conrad foi levado pelos tutores quando tinha pouco mais de oito meses. A rainha se sentiu extremamente triste e passou a ter mais desprezo pelo rei. Mas como já estava completamente recuperada e sua beleza havia voltado, Reginald passou a se interessar por ela novamente. O que causava desespero na rainha. Meses depois, na véspera de ano novo, Alene confirmou suas suspeitas. Estava grávida. Sentiu novamente alegria e quase teve vontade de abraçar Reginald, quase. Sua alegria é por ter um filho a quem pudesse dedicar seu tempo e enquanto estivesse grávida não precisava cumprir suas obrigações como esposa. Esperou o dia seguinte, na festa de ano novo para contar a novidade ao rei.
—Reginald, eu tenho um presente de ano novo para lhe dar. –Disse sorrindo, mesmo que tentasse esconder sua alegria.
—O quê?- Falou ele extremamente feliz por ver que Alene sorria para ele.
—Estou grávida.
Um sorriso brotou do rosto dele, que não se conteve e a puxou para junto dele com o braço que envolvia seu corpo delicado:
—Um brinde ao meu novo filho. Alene está gravida novamente! — Desfazendo o abraço sentaram juntos na mesa, como verdadeiros rei e rainha.
—Está feliz?- Perguntou ela. Apesar de toda a repulsa que poderia sentir dele, foi criada para ser submissa e deveria ao menos tentar agradar e nunca contestá-lo.
—Sim, inclusive já escolhi seu nome.
—Qual?
—Giles, o nome do meu avô, ou Gaherd.
—Mas e se for menina?
O rosto dele ficou sério.
—Espero que não seja, seria uma grande decepção para mim. — Nunca ele havia pensado em ter filhas, queria ter apenas um herdeiro forte a quem pudesse ensinar.
Alene engoliu a seco.
—Tenho certeza que será um menino. — Falou tentado amenizar a situação.
Nove meses depois Alene estava novamente entrando em trabalho de parto. Dessa vez todos estavam esperançosos. E esperavam ansiosos para saber o sexo da criança. O rei preferiu esperar na porta do quarto de Alene. O que lhe deixou nervoso por que via muitas mulheres indo e voltando com bacias e panos ensanguentados enquanto falavam alto e se davam ordens. Resolveu ignorar completamente o que acontecia ao seu redor, apenas pensava que na corte todos comentavam “o que seria de Hastorn com um rei velho e um príncipe doente?” Seu pai morrera tarde e em todos esses anos como príncipe nunca se preocupou em casar o filho. Ah, se eu tivesse me casado mais cedo... Mas seus pensamentos foram interrompidos pois ouviu um choro, um choro agudo e forte. Uma camareira apareceu e lhe contou a notícia:
—Nasceu majestade, um lindo bebê forte e gorducho.
—Um menino então?-Falou não contendo a alegria.
—Não, é uma menina.
—Realmente eu não esperava por isso. -Falou o rei tenso, desfazendo seu sorriso.
—Se a menina é saudável, com certeza a rainha é capaz de gerar um menino tão saudável quanto. -Falou Harold aparecendo no corredor onde Reginald estava sentado.
—Realmente espero que você esteja certo. Mas não vamos nos preocupar com isso, no momento é só entregar a menina á uma ama e pensarei no que fazer depois.
—Vamos sair daqui, isso não é conversa para criadas ficaram ouvindo. — Convidou Harold.
Na sala junto com os outros conselheiros que por muitas vezes Reginald ignorava conversavam sobre o futuro da princesa.
—Majestade, devo lembrar-lhe que segundo as lei do reino, deve casar sua primogênita com algum nobre do reino de Druton. -Pion foi o primeiro a se manifestar.
—Eu sei, mas por hora vamos esperar... -No momento o rei não queria conversar.
— O acordo já deve ser selado no primeiro mês ao nascimento.- Insistiu Ciro.
—Pelos deuses não me pressionem!
—Mas senhor, tentamos lhe avisar sobre Druton. A trégua ainda está em regime.
—Entretanto os senhores esquecem que o acordo de trégua com Druton era passageiro, e pode ser facilmente cancelado por falta do comprimento. Eles deveriam pagar o resto da divida e até agora nenhum Litu. Nem um único Litu. Seria muito conveniente para Druton casar a princesa com o filho de Leon, pois com o dote pediriam o perdão da divida. É um enorme prejuízo. -Contornou Harold.
—É fácil falar não é mesmo Harold, já que estamos nessa situação graças a seus conselhos. — Pion provocou.
—Da mesma forma, Druton pode querer exigir seus direitos na trégua, exigindo o casamento.
—Simplesmente cancelaremos o contrato.
—E como fica nossa honra diante da ilha?
—Temos um bom exército principalmente se comparado a Druton. Não devemos nada a ninguém. Que venha a guerra. — Disse Reginald seguro.
—Mas Grijim está a anos querendo um motivo qualquer para nos declarar guerra. Se juntar o exercito deles com o de Druton e mais o apoio de Reweex que com certeza virá, temos um chance considerável de perder. Eu não apostaria todas minhas fichas no nosso exercito que há alguns anos vem decaindo em eficiência. -Morrice advertiu.
—Harold. Você nos colocou nessa situação. Como resolver?- Ciro olhava para ele com ironia.
—Seguiremos a lei como pudermos. — Ele começou a suar frio.
—Explique-se. -Insistiu Ciro.
—Podemos perdoar a divida como o dote... — Harold se sentia tonto, nunca pensou ter que resolver um problema desse porte.
—Eu me recuso a pagar um Litu se quer para aqueles Drutonianos. Já disse isso. — Reginald agora se irritava.
—Eu entendo que não queira acordos com o rei de Druton, porém a lei ainda prevalece antes mesmo do tratado, é uma das leis de Tristan. Infelizmente não podemos ignorar que os primogênitos devem casar entre si.
—Não vamos resolver nada agora. Em três dias nos reuniremos novamente. — Disse Pion cansado.
Os conselheiros saíram, porém Reginald permaneceu sentado pensativo.
—Harold espere.- Falou com o queixo apoiado na mão esquerda.
—Majestade?- Ele olhava para o chão em respeito.
—Estou pensando em algumas coisas...
—O que exatamente?
—O que as leis falam sobre caso a princesa morrer? — Ele dizia com o olhar voltado ao nada.
—Nesse caso a vontade dos deuses falaram mais alto e não há nada a se fazer... Mas se me permite perguntar, senhor, por que a pergunta, afinal a menina é saudável?
—Estou apenas pensando... Se ela estiver morta, não há como fazer nenhum acordo.
—O que pretende fazer? — Harold começou a ficar preocupado com as possíveis intenções do rei.
—Você começou com toda essa história. Até agora Alene não me deu um herdeiro saudável, além de ter gerado uma menina que nem tem um dia de vida e já causa problemas.
—Farei o possível para amenizar meu erro.
—Quero que troque a princesa esta noite mesmo por um bebê morto ou tão doente que morra logo.
—E depois?
—Vire-se. É um problema seu a partir de agora.
Harold não conseguia se mexer. Estava paralisado devido aos absurdos que acabara de ouvir. Ele sabia que o antigo rei era um tanto sádico com seus inimigos e que seu filho poderia ter herdado isso, porém nunca imaginou que ele fosse capaz de algo tão cruel com a própria filha. Por mais forte que fosse sua consciência, o medo de morrer enforcado era muito maior, engoliu a seco a nova ordem absurda do rei e a efetuou com uma perfeição assustadora. A princesa foi entregue a um casal na parte rural de Arandril, em uma pequena fazenda.
~~*~~
—O reino de Hastorn entra em luto com a perda inestimável da princesa. — Dizia o porta-voz do rei em um anuncio público.
—Pelo visto não temos mais problemas agora. — Comentou desconfiado Ciro a Morrice.
—É, pelo visto os deuses estão a favor de Harold. — Falou Pion compartilhando do mesmo sentimento.
Alene chorava pela suposta morte da filha. Reginald a consolava friamente.
Enquanto uma criança qualquer era enterrada com os luxos de um nobre, a verdadeira princesa dormia em uma cama de palha com lençóis sujos. Seus pais adotivos nunca tiveram filhos e ficaram felizes em ter a menina com eles. Chamaram-na de Taylor.
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