A Ilha do Sherdacé (Hastorn)
2 Capitulo 1
Havia parado de chover. Tudo indicava que seria um dia promissor em Arandril. As ruas estavam limpas da última chuva, o mercado de Dupratea repleto de compradores de todo o reino e até de outras partes da ilha, em busca dos melhores produtos. Não era comum ver pessoas mal vestidas andando por aquelas ruas de calçadas quase brancas. Elas não eram benvindas. E se eram pegas por um dos soldados era jogadas para fora, na área periférica de Arandril como animais.
Perto dali, perdido em meio à multidão suja e mal vestida de Panvas, um homem pedia informações. Era novo em Hastorn.
—Oi, senhora, pode me dizer como chego ao palácio? ...O palácio de Adalegeo.
—Não sei moço. Aqui ninguém sabe dessas coisas de nobreza. -E seguiu a velha curvada com cesta de legumes murchos recolhidos do chão.
—Está perdido senhor? — Perguntou um dos soldados vendo que as roupas de Harold não combinavam com o ambiente precário do lugar.
—Sim, eu preciso chegar ao castelo.
Após conseguir as informações necessárias apressou o passo. Recebera notícias de que o rei estava perto da morte. Precisava chegar com urgência antes de ele fechar pela ultima vez os olhos.
No castelo, o príncipe herdeiro aguardava notícias sentado em frente à lareira.
—Alteza, vosso pai deseja vê-lo antes de partir. — Anunciou o camareiro real a Reginald. Único filho vivo do rei.
Chegando ao quarto, estava repleto de pessoas entre druidas, conselheiros e o Mago. No centro do cômodo, estava Godard deitado na cama, com o sua vida chegando ao fim após seus 71 anos.
—Reginald... — Dizia a voz rouca e fraca do velho.
—Estou aqui pai. — Disse secamente.
—Aproxime-se.
O rosto do rei estava com um tom pálido e amarelo, causando a impressão de mais idade quando somada as inúmeras rugas e barba completamente branca.
—Vai cuidar bem desse reino?
—Vou.
—A continuação da nossa família depende de você... — Ento ele gemeu por um breve momento e parou de respirar. Um dos druidas se aproximou para verificar se o coração ainda batia.
—O rei está morto. — Anunciou.
Da mesma maneira que entrou, Reginald saiu. Pelo seu modo contido e até mesmo frio, muitos poderiam dizer que ele segurava toda sua dor, mas a verdade é que ele estava muito satisfeito com a morte do pai. Ele se dirigiu até a sala da torre média, onde Godard fazia seus pronunciamentos.
—Finalmente- Dizia ele entre os dentes com um sorriso contido- Finalmente serei o rei. Comtemplou todo o reino até que o céu voltou a se fechar e a chuva recomeçou.
Reginald havia esperado muito. Desde os vinte anos sonhava com esse momento quando Godard adoeceu pela primeira vez. Ele não era mais tão novo, aos 35 anos, muitos reis já tinham vários filhos para assegurar a linhagem, mas ele não. Nem sequer tinha esposa. Isso o preocupava demais. Durante o reinado de seu pai, que durou 48 anos, ocorreram muitas pestes, pragas e doenças em intervalos de tempo muito curtos, algumas delas, acabaram por matar seus irmãos que morrerem antes de seu nascimento. Temia morrer sem deixar herdeiros. Seus pensamentos foram interrompidos e ele voltou sua atenção aos estalos da lareira.
—Majestade. -Falou um servo. Para Reginald aquilo era como música para seus ouvidos.
—Sim? — Ele olhava o fogo queimando na lareira e era possível ver as labaredas refletida em seus olhos.
—Infelizmente com o a chuva vai ser impossível realizar a cerimônia.
—Isso quer dizer que vão atrasar minha coroação?-Falou ele virando para o servo pela primeira vez.
—Exatamente...
—Saia já da minha frente e só volte com boas notícias.
—Si.... Sim senhor. — Dizia o homem trêmulo de medo.
—Não deveria gastar sua saliva com a criadagem.
—Quem é você? E como ousa entrar em minha sala sem permissão?
—Sou Harold, filho de... De um conhecido do rei.
—E o que faz aqui?
—Vim trazer um recado ao seu pai, mas parece que cheguei tarde demais.
—Pois eu sou o rei agora, fale para mim.
—Nada de importante. Apenas uma palavra de conforto para o rei, em representação ao meu pai.
—Que seja. Agora já pode ir embora.
—Como desejar senhor...
Após chuva finalmente parar e os ritos de passagem estivessem encerrados, Reginald foi coroado por Gaditano, o Mago, sob o sagrado carvalho em Grove Naofa (floresta sagrada).Na mesma tarde uma assembleia foi realizada. No caminho Reginald encontrou-se novamente com Harold.
—Você de novo? Pensei que já tivesse ido embora. -Disse ele enquanto andava.
—Estou indo, mas antes de ir embora gostaria de lhe pedir um favor.... -Harold começou a andar ao mesmo passo do novo rei.
—Fale e aproveite que estou de bom humor.
—Ouvi os conselheiros de seu pai falando sobre vossa alteza.
—Falando o que exatamente? — Ele parou olhando para Harold com a sobrancelha ruiva levantada.
—Sobre quem deveria ser casar com o senhor.
—É bom, assim não tenho que me preocupar com isso... Mas o que tem a ver com o seu favor?
—Mas eles são todos velhos e não enxergam bem...
—Hum.
—O que quero dizer é que tenho uma visão muito boa e nenhum defeito físico me passa despercebido. Diferente dos seus conselheiros, que até podem achar que não é importante que a rainha seja bela.
—Hum... Não quero uma esposa feia.
—Eu sei. Eu estaria a seu dispor para encontrar uma bela dama para o senhor, se me permitir participar da escolha.
—Esse é seu favor? O que ganharia em troca?
—Faça um teste apenas. Deixe-me escolher sua esposa. Se não gostar eu vou embora e deixo a encargo de seus atuais conselheiros.
—E se conseguir encontrar alguém do meu agrado?
—Então se assim for sua vontade eu ficarei. Por algum dinheiro é claro.
—
Reginald olhou o homem por algum tempo em dúvida sobre o que pensar.
—De onde você veio afinal? E como entrou no castelo?
—De Grijim, e tenho uma carta de recomendação para trabalhar com a contabilidade do reino. Porém, acredito que serei mais útil como seu conselheiro.
—Espere, você disse que era filho de um amigo do meu pai.
—Também. Além de palavras de consolo, vim pedir emprego. Mas achei que era inapropriado falar uma coisa dessas naquele momento delicado.
—Será que devo confiar em você? Um grijiniano, no meu castelo. — Ele observava o homem de cima a baixo.
—Não sou um espião. Cansei de Grijim, por isso me mudei.
—E por que cansou?
—Eu era obrigado a ter contato com os Lugmis.
—Os de sangue sujo?
—Sim. Mas já estou descontaminado.
—Assim espero. Já me bastam as doenças daqui, não quero ter meu corpo infectado por aqueles vermes.
—E como pretende ser meu conselheiro se desconhece nossas leis?
—Engana-se Alteza, meu pai era um hastoriano, e conhece sobre o reino, me ensinou tudo desde pequeno. Sempre fui fascinado por esse lugar, mais um motivo para minha mudança.
O rei pensou por um segundo, avaliando Harold, tentando descobrir se ele estava mesmo falando a verdade. Resolveu arriscar.
—Está certo. Irei nomeá-lo um de meus conselheiros, mas será provisório, até que me prove ser competente. Harold apenas assente com a cabeça.
O rei entra na sala de reuniões, seguido por seu mais novo conselheiro.
—Majestade, o rei Reginald III. — Foi anunciado.
No recinto, todos os membros do conselho e alguns druidas estavam em pé frente a enorme mesa saudando o novo rei. Reginald sentou na enorme e confortável cadeira da ponta.
—Para começar temos que resolver a questão do casamento. — Começou um dos homens após estarem todos acomodados.
—Sim, e não saio daqui sem ter resolvido esse assunto.
—O ideal é uma mulher nova. -Disse outro.
—Eu deveria ter me casado antes. — Reclamou o rei.
—Mas seu pai fazia questão de escolher a melhor. — Um dos feiticeiros tentou amenizar.
—Pois escolheu tanto que fiquei sem ninguém!-Gritou Reginald batendo o punho fortemente na mesa.
—Bom, como sabemos segundo a 1º lei absoluta de Tristan, os primogênito de Hastorn e Druton devem casar-se entre si. Porém o rei Leon, tem apenas um filho de nove anos.
—Acho que esqueceram a dívida que Druton nos deve. Leon pediu dinheiro emprestado para a construção de um novo forte e simplesmente se recusa a pagar o restante. — Era um homem velho, com cabelos grisalhos que falava.
—Meu pai nunca gostou dele, não vou criar laços com nenhum nobre de lá.
—Bom, nesse caso temos a Duquesa de Mehall. Com 29 anos.
—29! Se ninguém a quis em todo esse tempo por que eu iria querê-la? -Protestou ele.
—Mas aqui em Hastorn não há mais nenhuma outra moça de boa família disponível. Ou estão casadas, ou velhas ou são crianças... Ou ainda são camponesas. — Ponderou Pion, um dos antigos conselheiros de Godard.
—Em compensação, em Druton, há a filha do duque de Amonati. -Ciro, um dos mais antigos conselheiros informou.
—Duas. — Completou outro conselheiro. — O duque tem duas filhas.
—Mas a mais nova, ao que parece recém se tornou mulher. E todos falam que a mais velha é muito mais linda. — Pela primeira vez Harold que nem havia sido notado falou.
—Linda?- Perguntou Reginald com interesse.
—Sim. Alene, com 19 anos.
—19? — Ele teve uma ponta de decepção. -É mais nova que essa duquesa, mas ainda assim.
—É talvez tenha passado um pouco da idade de casar, já que a maioria das mulheres se casam antes dos 17. Mas dizem que não aparenta a idade que tem.
—Fale mais dela. -Falou ele interessado.
—Tem cabelos ruivos ondulados, olhos verdes e pele lisa e delicada. Parece como as fadas.
—Fadas? Mas fadas não se casam. — Falou ele rindo. — Seria ela boa demais para mim?- Reginald já estava encantado com Alene mesmo sem tê-la visto. Quando criança tinha sonhos com essas mulheres mágicas e estava gostando de ter a oportunidade de casar com uma mulher que se parecesse com elas.
—Nenhuma mulher é boa o suficiente para o rei de Hastorn. -Disse Harold bajulando Reginald.
—Quem é você? -Espantou-se Ciro ao ver a figura magra e morena de Harold.
—Harold. Ele é o primeiro conselheiro que nomeio.
—Majestade, um jovem inexperiente não pode dar conta de servir a um rei.
—Tenho 27 anos e, ao contrario do que o senhor fala, possuo certa experiência com assuntos de estado, fui ajudante do secretário do rei de Reweex por um tempo. Aprendi muito apenas ouvindo. E muito provavelmente me saia melhor do que os senhores. — Falou com uma autoridade que chamou a atenção de todos.
Reginald gostou dele. Era submisso ao rei e a mais ninguém.
—Então acham que devo me casar com Alene?-Perguntou ansioso.
—Creio que apesar de suas qualidades não. Afinal seu pai não queria mais nada com Druton. E eles devem mais de Lt$ 3.000.000,00 para o reino. — Discordou Pion.
—Eu discordo, Druton não é um reino melhor que o nosso, porém suas frutas são ótimas devido ao clima mais quente e lá as ervas para poções são mais eficazes. Precisamos delas para os remédios dos feridos em combate. Já temos o melhor exercito da ilha de Sherdacé, mas isso não adianta nada se os soldados estiverem fracos e doentes. -Protestou novamente Harold.
—Concordo com Harold. Podem avisar ao duque que vou me casar com sua filha. E não há mais discussão sobre isso.- E se retirou encerrando a audiência.
Um acordo de trégua foi assinado com Druton, apesar de muitos conselheiros serem contra, e como parte do contrato pagou uma parcela pequena da dívida, e o casamento com Alene foi combinado.
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