A Ilha do Sherdacé (Hastorn)
14 Capítulo 13
Era final de inverno, mas a neve ainda poderia ser vista das montanhas do oeste e acumulada na janela; Conrad passou o rigoroso inverno trancado dentro de casa obcecado em encontrar as anotações importantes de Pavel que continham a formula do elixir que Reginald havia bebido. Era uma ótima distração, já que além do frio, Conrad odiava a neve. Nas masmorras ela entrava pelas frestas e pela pequena janela apagando o miserável fogo que ele conseguia acender e caia na sua cama deixando-a molhada.
Gaherd também andava mais obcecado do que nunca, mas era em sua mãe e sua vingança com o rei, que tomava proporções mais maduras. Quando a neve finalmente começou a derreter Gaherd e Gabor aproveitaram o inicio da tarde sentados em um tronco de árvore caído, com as costas viradas para o sol, enquanto observavam Taylor e Elinor ajudarem Ansur a andar.
—Não acha estranho isso?
—O que?
—A amante do seu pai morar na mesma casa que você.
—Não.
—E ainda com seu irmão.
—Não a vejo como amante do meu pai, eu a vejo como mais uma vitima dele. E meu irmão um acidente de percurso. — Disse dando de ombros.
—Você gosta mesmo dela.
—Gosto. — e olhava encantado para Elinor que ria com os passos desengonçados do filho. -Acho que estou amando.
—Isso é estranho.
—Estranho é sua cara.
—Ela é muito mais velha que você.
—E que importância tem isso? Meus pais se casaram com muitos anos de diferença.
Gabor olhava pra ele com uma expressão de pena.
—Que foi?
—Você sabe o final que teve sua mãe.
—Eu ainda acredito que ela está viva.
—Você não pode ter certeza disso, é muito mais provável que não.
—Por que ainda insiste nisso? Eu não digo pra você que não vai encontrar sua irmã.
—Mas ela não tem chance de estar viva, sua mãe foi mandado pro norte, ninguém despreparado sobrevive lá!
Gaherd pensa por um tempo. Esteve sonhando todo esse tempo em reencontrar a mãe e se vingar do pai, mas nunca passou de pensamentos, nunca fez nada pra que seu sonho e sua vingança se realizassem.
—Vou arrumar as coisas. — Ele se levanta decidido.
—Espere, vai aonde?
—Pro norte. — Ele grita já perto da casa de pedra.
—Norte? Gaherd vai pro norte? — Taylor tenta entender o que está acontecendo.
—Ele acabou de decidir. — Ele fala confuso.
—Esse garoto está louco. — E soltou Ansur no chão indo atrás do outro irmão.
—Seu amigo é uma pessoa bem interessante. — Disse ela sorrindo a Gabor, que se encolheu de vergonha.
Dentro da casa Gaherd procurava alguma coisa entre seu pequeno baú aos pés da cama.
—O que você pensa que está fazendo? — Taylor tentou parar o irmão.
—Vou procurar nossa mãe. Você deveria fazer o mesmo.
—Por quê? — Perguntou espantada.
—Por que ela é sua mãe!
—Gaherd me escuta! — Ela segurou com força os dois braços do irmão virando o rosto dele para frente do dela. — Talvez você não entenda, mas eu não convivi com ela. Eu não criei nenhum laço afetivo, eu sinto pelo que aconteceu com ela, mas é só. Minha mãe não é ela. Ela apenas me pôs no mundo.
—Como pode dizer uma coisa dessas? Ela te amava eu sei. — Ele se livrou das mãos dela e falava indignado.
—Ela pensou que eu morri quando nasci.
—Ela estava sempre triste com saudade do Conrad e da filha que ela achava que tinha perdido.
Taylor se sentiu atingida. Lembrou-se da voz tristonha da rainha naquela única vez que a viu, nenhuma das duas sabiam de nada. O incomodo que sentia ao dizerem que era parecida com a mãe talvez não fosse apenas a vergonha do elogio, pois sabia que Alene era bonita, talvez fosse saudade também, mesmo que nunca a tenha visto como mãe. E agora pela primeira vez desejou mesmo encontra-la. Mas tinha dúvidas.
—O que você vai fazer? — ela dizia agora em tom um pouco sofrido.
—Vou pro norte, se ela foi mandada pra lá, ainda deve estar.
—E se ela não estiver?
—Eu vou até o fim. Até Bartolomeu acredita que ela ainda esteja viva.
—Não tenho certeza, Gaherd.
—Mas eu queria tanto me encontrar com ela. Eu me lembro do rosto dela. Parece com você. — E tocou no rosto da irmã. — Seria uma bela princesa.
—Não fale besteiras. O castelo nunca foi minha casa. Nunca fui benvinda lá.
—Mas você teria gostado de ser princesa.
—Teria... — Ela confessou. — Na verdade... As vezes eu penso nisso, mas na situação em que nós estamos acho muito complicado.
—Eu vou derrotar Reginald e vamos ser felizes. -Ele falava com um brilho tão grande nos olhos, que para Taylor que a ideia começava a parecer tentadora.
—Vou com você. -E desceu para pegar algumas coisas no quarto das mulheres.
Gabor havia chamado Conrad, que esperava sentado na mesa da cozinha conversando com Nanael e Olavo. Quando Taylor e Gaherd ficaram prontos se depararam com os quatro sentados na mesa.
—Então pretendiam fugir?- Olavo parecia bravo e decepcionado ao mesmo tempo.
—Não... Nós...
—Procurar Alene? No norte? Isso é quase como pedir para serem mortos. — Censurava Conrad.
—Você tem medo até da própria sombra, e quer nos impedir de fazer algo importante por medo?
—Eu sou o mais velho, devem me obedecer. — Disse com surpreendente firmeza na voz.
—Ela também era sua mãe, vocês esquecem disso o tempo todo não é? — Ele olhava dizendo para Conrad e Taylor.
—E você Taylor? Eu esperava mais de você. — Disse Olavo.
—Eu vou cuidar dele. -Respondeu ela de cabeça baixa.
—Cuidar? E quem vai cuidar de você? Tem apenas 18 anos. — Dessa vez quem falava era Nanael. — Gaherd não vai conseguir te defender caso alguma coisa aconteça. -Por que você não vai junto Conrad?
—Não. É muito arriscado.
—Conrad tem razão é muito arriscado. — Olavo não queria que nada acontecesse a eles e principalmente a Conrad.
—Não sei como você pode ser o futuro rei de Hastorn, é um medroso, nem acredito que foi com as próprias pernas para Arandril.- Gaherd falou com raiva.
As palavras do irmão fizeram Conrad se lembrar de um triste passado, começou a se sentir mal, levantou e foi embora sem dizer nada.
—Onde você vai Conrad? — Nanael ficou preocupada.
—Tenho coisas a fazer.
-Não deixe que eles façam isso Olavo. — Implorava Nanael voltando para o marido.
—Se o irmão deles não se importa, eu também não. — Olhou para os dois e com o olhar magoado e sério disse:
—Podem ir se quiserem.
—Mas Olavo... — Nanael estava desesperada.
Olavo podia ser ganancioso, mas acabou criando afeto pelos dois e percebeu que realmente não queria que eles partissem, mas também não era de implorar por nada e por ninguém.
—Se eles querem ir, deixe Nanael. Não quero ter que ouvir depois que eu não permiti que procurassem a mãe. -Disse ele e por fim se retirou.
Max descobriu o que estava acontecendo por que acabou ouvindo a conversa enquanto descia as escadas e foi falar diretamente com Conrad, que estava ocupando a cabeça com um livro de poções.
—O que você quer Max?
—Você não sabe o que está acontecendo?
—Que meus irmãos vão viajar?
—É.
—Eu sei. — Ele estava distraído demais na leitura para olhar Max. -Não pode voltar outra hora?
—Você não pode pedir para Taylor ficar?
—Peça você.
—Eu não sei se ela vai me ouvir.
—Ela também não me escutou. — Ele ainda não olhava para Max.
—Será possível que você não pode prestar atenção em mim?- E pegando um livro da prateleira arremessou-o com raiva, que voou longe atingindo uma prateleira de poções que estavam prontas para a venda.
—Olha o que você fez? ...Meu trabalho de meses. — E finalmente olhou para Max fuzilando-o com os olhos. — Saia já daqui.
—Me desculpe, é que você não me escutava e...
—Saia! — Gritou empurrando Max para fora aos pontapés.
Nanael convenceu os dois a irem de manha bem cedo, para aproveitarem melhor a luz. Se fossem àquela hora, logo anoiteceria e já teriam que parar. Max evitou olhar para Taylor o resto do dia, e mesmo quando ela falava com ele, era tratada com indiferença.
—Por que não está falando comigo?
—Estou falando agora.
—Qual é o seu problema? -Ela se levantou e saiu sem entender o por que daquilo. Max estava magoado por que queria que Taylor tivesse pedido a sua permissão para viajar.
Já na cama Gabor também se mostrou chateado.
—Eu poderia ir com vocês. — Disse ele sem olhar para o amigo.
—Acho melhor não. — Gaherd revisava tudo para a viagem, eram pouquíssimas coisas, mas ele estava ansioso.
—Mas por quê? Eu prometi protegê-los.
—Sua casa é aqui, e você tem sua própria busca para fazer.
—Vou começar qualquer hora a procurar Aryane. — Terminou ele abatido.
Na manhã seguinte, antes do amanhecer, os irmãos partiram em direção ao norte. Gabor levantou junto com Gaherd e não parava de seguir o amigo.
—Gabor, eu vou voltar. Não sei quando, mas voltarei. — Disse segurando o ombro dele.
Janel e Leda costuraram as pressas uma bolsa de viagem e entregaram a Taylor.
—Muito obrigada.
—Nós esperamos que voltem logo. — Disse Leda em nome dela e de Janel.
Nanael se despediu dando um abraço forte e quente neles. Taylor procurava Max, com o olhar.
—Está tudo bem Taylor?
—Sim. Está. — Ele ficou extremamente decepcionada, mas se conformou já que Max era preguiçoso e nessa hora o sol ainda não havia nascido e ele estaria bem longe de acordar.
—Façam uma boa viagem. — Olavo se limitou a dizer.
Fale com o autor