Monte Cristallum fazia parte do Reino de Hastorn, mais precisamente do lado Leste-Norte. Muito antigamente Monte Cristallum era desprezado pelos hastorianos devido a sua dificuldade de plantio e pela quantidade de Dragões negros e vermelhos vivendo por ali. Foi rei Tagar IV da 94ª geração, que descobriu a riqueza daquela terra de solo pobre para plantio, porém riquíssimo em minas de ferro, ouro, prata, diamantes e túneis intermináveis de cristais que diferenciavam aquele lado da Ilha. Era um lugar cercado de montanhas recheadas de ninhos de dragões negros. Mas recebia constantes brisas marítimas, que entravam pelo pequeno litoral, o que refrescava o lugar que era aquecido diariamente pelos fornos e caldeiras usados para forjar os minérios. Pelas ruas estreitas e mal feitas andava uma figura feminina carregando um embrulho com cuidado. Entrou em casa e foi andando em direção aos fundos tentando não fazer muito barulho.

-Samantha, venha já aqui. — Sua mãe gritou.

—Estou aqui mamãe.

—Onde você estava?

—Fui conversar com Amadeu.

—Já falei para parar com isso... O que é isso ai?

—Ah, não é nada. — ela tentava esconder o embrulho, mas ele era grande demais.

—Deixe me ver.

Igrane arrancou o pacote e o desembrulhou; nele estavam pedaços de vários tipos de metais e algumas pedrinhas de cristais.

—Novamente isso?

—Eu não gastei nenhum Litu, juro, são apenas restos.

—Já disse que você não deve se meter na casa de Amadeu, isso é perigoso. Agora vá treinar. Samantha se sentou em um banco em frente a maquina de tear e com mãos nada habilidosas, começou a tecer tediosamente.

—Quando isso vai acabar?

—Quando fizer algo decente. É inacreditável, mal consegue tecer um pedaço de pano... Seu avô ficaria decepcionado. Mal consegue fazer um tapete. Antes de terminar de falar, seu outro filho havia chegado.

—Ah, ai está você Arion. Ajude sua irmã. Eu vou ao mercado.

—O que vai comprar?

—Grãos e um peixe pequeno.

—Consegui trocar isso hoje. — Ele jogou duas moedas de bronze na mão magra da mãe.

—De onde é isso?

—Troquei algumas peças.

—E só lhe pagaram dois Litus?

—Está cada vez pior.

—Tudo bem.

Arion segura a mão da mãe com força.

—Isso vai melhorar, estamos nos organizando.

—Os deuses te ouçam.

—Onde estava?-Perguntou Samantha à Arion que sentava ao seu lado e ajudando-a com o tecido.

—Conversando com o pessoal. -Falou ele moldando em alguns minutos uma boa parte do tapete. Coisa que ela levaria horas, talvez dias e não conseguiria com tamanha perfeição. Encantada Samantha perguntou um pouco decepcionada:

—Por que não consigo ser assim?

—Talvez seja ruim com o tecido mesmo... Mas nós sabemos que você é muito boa com os metais e os desenhos. Eu me arriscaria a dizer, excelente. — E puxou de dentro do colete alguns pedaços de papel.

—Pra mim?

—Eu vi que parou de desenhar, pensei que fosse por falta de papel.

—Obrigada Arion.

—Bom, agora tente você.

—Com cuidado... Bem ali... Isso... Um pouco mais delicada... Hum, me dê aqui, vou mostrar. -A maneira com que ele lidava era impressionante. — Assim entendeu?

—Eu desisto.

—Ah não dê atenção pra mamãe. Um dia ela vai perceber que seu talento não é esse.

—Espero que você esteja certo.

—Bom eu tenho uma reunião. Que vir?

—Posso ir mesmo?

—Mamãe vai demorar. Vai dar tempo.

Entraram em uma taverna, onde uma mesa isolada era ocupada por cerca de 10 homens. Samantha gostava de ir às reuniões, porém a mãe achava que ela tinha mesmo é que aprender as coisas de mulher. Os outros homens não se importavam mais com a sua presença. Um homem de cabelos brancos falava em união, força e guerra, falou sobre o rei também, entre outras coisas que ela não entendia bem. Mas gostava de ouvir. Quando estavam voltando pra casa ela perguntou:

—Do que exatamente o homem falava dessa vez?

—De que o povo do norte está nos passando à perna e que o rei precisa ser retirado do poder. Urgentemente.

—Por quê?

—Por quê? Ora, você na vê a situação que estamos? Trabalhamos apenas para o rei e a Grande Torre ganhando uma miséria que diminui a cada venda.

—E como vocês vão tirar o rei do poder?

—Temos que nos unir, não somente os moradores daqui, mas com o povo do norte e quem sabe do centro. E isso é difícil e demorado, principalmente se tratando do pessoal do norte.

~~*~~

A Praia dos Ventos que pertencia à parte norte de Hastorn, era banhada por uma praia de mar negro e areia clara, porém os ventos eram gélidos e fortes , e carregavam grãos de areia que além de causar cegueira se entrasse nos olhos, cortavam com facilidade o rosto de desprevenidos, tudo causado pelo dragão vermelho que vivia voando perto do litoral em busca dos melhores e maiores peixes.

Perto da Praia havia uma pequena floresta de pinheiros, era conhecida como floresta do Silêncio, por motivos óbvios. O lugar seria deserto se os peixes de lá não fossem os melhores do reino, mas apenas pescadores a mando do rei tinham acesso ao litoral, pois lá estava a minúscula vila com o 1º castelo de Hastorn, que agora servia de deposito de cargas importantes e secretas do reino. Aquele lugar era chamado de Havenu, pois foi primeiro lugar onde atracaram as quatro barcas iniciais.

Não muito longe de Havenu, Gaherd e Taylor saíram de uma vila quase deserta onde passaram a noite e andavam em direção ao norte.

—Está vendo Taylor?

—É o 1º castelo?

—Acho que sim, não tem mais nenhum. Segundo Sir Henry foi pra cá que mamãe foi trazida.

—Esse lugar me dá medo.

—É verdade.

Ele parou.

—O que foi Gaherd?

O olhar confuso e apreensivo do irmão aumentou a sensação de medo. E se ela estivesse lá? O que diriam? Fariam? Como ela reagiria? Ela tinha que ser forte e estar pronta.

—Vamos. Já chegamos aqui e não dá pra voltar. — Incentivou Gaherd respirando fundo.

O ruído agudo e alto do dragão Vermelho, anunciava que haveriam tempestades. Não de chuva, mas sim que ele estava se aproximando e que ventos cortantes estavam por vir.

—Temos que por isso no rosto. — Taylor entregou a Gaherd um lenço de algodão cru grosso com dois furos minúsculos.

Os ventos eram mais fortes do que eles esperavam. Um grupo de cinco dragões pescava peixes enormes enquanto um barco com pescadores voltavam desesperados para o litoral.

—Ei, vocês! Venham. — Chamou um homem usando uma mascara de couro. Vão morrer se ficarem aqui. — E sem esperar ele e mais dois homens os carregaram para um lugar escuro. Eles não viram muita coisa, os ventos eram fortes demais. Entrando na casa o homem tirou a mascara de couro, era uma mascara especial, feita para cobrir todo o rosto, deixando uma abertura mínima para os olhos e nariz, imaginaram o susto que um desavisado tomaria ao se deparar com alguém usando aquilo a noite.

—Mas posso saber o que deu em vocês? Ficaram a parados enquanto uma tempestade acontecia... E olhe só, com esses pedaços de pano fino.

—É um pano bem grosso.

—Realmente vocês não são daqui.

—Somos do sul. De Tagom.

—Tagom? Lá tem o que? O Dragão Marrom que mais se assemelha a uma praga do que uma fera.

—Quando eles voltarem pras montanhas podem ir embora. — e jogou as mascaras de volta.

—O que fazem aqui?

—Estamos procurando uma pessoa.

—Não veem muitas pessoas de fora, então não deve ser difícil.

—Até onde sabemos está no castelo.

—Em Havenu?

—Sim.

—Não podemos entrar lá.

—Você viu? — Falou ele indignado para a esposa. -Por pouco eles não ficam igual aquela mulher.

—Que mulher?

—Há uns nove anos chegou uma mulher de longe. Eu me lembrei disso por que ela tentou se proteger com um paninho assim igual vocês.

—Conversou com ela?

—Ela chegou com o rosto todo cortado... Não falava nada, parecia meio louca...

Gaherd olhou pra Taylor com esperança.

—E se for ela? -Ele cochichou.

—Não crie expectativas. — E o cutucou para que prestasse atenção no homem.

—Qual o nome de vocês? — Perguntou um dos filhos dele interrompendo o assunto.

—Taylor e Gaherd.

—Taylor? — Ele a olhava interessado.

—Bem já que estamos no apresentando. Eu sou Arhy. Esse aí é meu filho Oghan. — Falou o homem descontente com a interrupção.

—Então continuando, ela era uma mulher muito bonita. Mas estava muito mal.

—Parecia com a rainha?

—Rainha? Que rainha?

—Alene, Rainha Alene. — Gaherd estava ansioso.

Ele riu.

—Aqui só tem pobres, os nobres não vem pra cá. No norte, servimos apenas por trabalho. Nunca vi rei, nem rainha nenhuma. Quando o príncipe herdeiro, Conrad desapareceu, eu só vi um cartaz com a foto dele. A gente sabe das noticias pelos mensageiros e viajantes que andam por ai.

—Fale mais sobre a mulher. — Insistiu Gaherd.

—Por que tanto interesse?

—Estamos procurando nossa mãe. Talvez seja ela.

—Acho que não. Ela se vestia bem.

Eles não se sentiram incomodados com o comentário de Arhy, os dois vestiam roupas velhas com remendos, e no momento estavam sujas da viagem. Não podiam esperar que o homem os considerasse filhos de alguém como a rainha.

—Simples era da nobreza, ou no mínimo de família de mandante do exercito, sem duvidas. Nenhum plebeu usa vestidos de veludo e lenços de seda. — Completou a esposa.

Gaherd sorria, e Taylor não podia deixar de pensar que estavam perto.

—Ela morava no castelo antigo?

—Não sei. Ela não falava muito. Quem cuidou dela foi meu vizinho, Edwin.

Quando puderam sair, perceberam que a casa tinha apenas uma porta do lado de fora, o resto ficava em um buraco no chão, devido às chances de cair com a força do vento.

—Edwin fica naquela porta ali. Estão vendo? — E apontava longe.

—Sim obrig...

—Ah tudo bem eu vou com vocês. — Se ofereceu Oghan.

Gaherd fez uma careta e percebeu o mesmo estranhamento por parte da irmã. Seguiram os três para a casa de Edwin na floresta silenciosa. Realmente merecia o nome, só havia pinheiros e quase nenhum animal, tirando os dragões é claro. Edwin era um senhor velho, e tinha a casa cheia. Todos tinham a pele muito branca, assim como a família de Arhy, o que contrastava com o cabelo e olhos morenos. Exceto um rapaz que parecia desconfortável em um canto, o único loiro.

—Sim, havia uma mulher que chegou aqui há uns nove anos...Eu lembro bem desse dia, era um dia de mães ensinarem seus filhotes a voarem e época de entregar peixe em Monte Cristallum

—Pena que isso não acontece hoje em dia. — Saltou o loiro.

—Pensei que tivéssemos resolvido isso Arion. — Disse Edwin seco para Arion.

—Ela ficou conosco uns dias, tinha fome e estava fraca.

—O que aconteceu com ela?

—Não falava coisa com coisa. Acho que tinha perdido a família. Quem sabe uma família rica viajando por essas estradas perigosas e foram assaltados e mortos. Ela conseguiu fugir. É que todos comentam.

—Descreva ela.

—Ah, era bonita, mas nada muito diferente. Ruiva, um pouco alta, sardas no rosto...Como você mocinha, lembra muito ela.

—Menos os olhos... — Gaherd mal podia acreditar.

—Sim, tem razão, os olhos eram verdes.

—O que aconteceu com ela?

—Quando ela se sentiu bem, a levamos para Monte Cristallum. Ela não conseguia dizer de onde era... Acho que nem ela sabia ao certo.

—Disse o nome?

—Ela não falava muito, só olhava o vazio.

—Eu lembro dela. — Arion se aproximou.

—lembra?

—Sim. Eu era criança mas lembro.

—Tem certeza? Sim, parecia com você.

—E onde ela está agora?

—Ela morreu há um tempo, desculpe.

—Morreu? — Todo o mundo de Gaherd desmoronou. Ele poderia ter gritado ou saído correndo, mas ficou anestesiado. — Taylor o abraçou também decepcionada, mais até do que ela poderia imaginar. Ela estava triste; tentava, mas não entendia o que Gaherd sentia, ela tivera outras mães na sua vida, não esteve mais que dois dias com Alene, mas ele se lembrava dela, lembra o quanto sofria quando se separava dela e quando disseram que ela havia morrido, mas depois de descobrir que era mentira, ele teve uma chance de encontra-la, mas já era tarde.

—Obrigada Senhor, nós já vamos. — E segui para fora acompanhada de Oghan e Arion.

—Eu sinto muito... — Ele estava se sentindo culpado.

—Você não tem culpa. Pelo menos agora nós sabemos o que aconteceu com ela.

Gaherd estava transtornado. E tinha um olhar perdido.

—Nós vamos embora agora. Meu irmão não está bem.

—Se quiser ver o tumulo dela...

—Não, isso vai ser pior pra ele.

—Eu quero. Me leve agora.

—Não, temos que viajar a noite toda pra chegarmos lá.

Taylor olhava Arion irritada.

—Pare de falar nisso, Gaherd não vai ver tumulo nenhum.

—Eu vou sim.

—Nós acabamos de chegar aqui. Temos que descansar.

—Podem dormir na minha casa.- Sugeriu Arion. -E amanha vão comigo para Monte Cristallum, eu iria agora, mas posso esperar.

—Nem pensar.- Discordou Taylor irritada.

—Eu já disse que vou Taylor! — Gaherd nunca levantou a voz pra ela, que surpresa apenas concordou.

Voltaram para a casa de Arhy. Oghan puxava assunto o tempo todo.

—Eu queria muito viajar assim como vocês. Odeio esse lugar. — Dizia ele para Gaherd que apenas assentia com a cabeça, não parava de pensar no tumulo da mãe. Era difícil não ficar triste.

—Eu vou com Arion agora, amanha eu volto e depois resolvemos como tudo fica.

—Você não vai viajar sozinho.

—Então você vai ter que vir junto.

—Eu queria muito descansar mas pelo jeito...

Após se despedirem de Arhy e sua família seguiram junto de Arion para o Monte Cristallum. Por um bom tempo ficaram em silencio. Taylor estava contrariada e Gaherd com um misto de ansiedade e tristeza.

—Vocês viajaram sozinhos?

—Sim.

—Não tem medo? Você é uma mulher e seu irmão talvez não seja forte suficiente para te proteger... você sabe... De homens mal intencionadas.

—Eu nunca pensei nisso. — Pela primeira vez Taylor olhava para Arion.

—São só vocês dois? Quero dizer, na família?

—Não, temos mais dois irmãos. Um mais velho e um bebê.

—E uma irmã.

—Tínhamos.

—O que aconteceu?

—Ela morreu.

Arion preferiu se calar. Ela tinha muitos mortos na família.

No final do dia estavam chegando ao agitado Monte Cristallum. Caminharam por uma estrada triste de árvores queimadas até finalmente chegarem à vila.

—Vamos pra minha casa, lá vocês podem descansar já está escuro para ir ao cemitério.

—Sua mãe não vai se importar?

—Não. São meus convidados.

A casa de Arion era colada a varias outras, feita de pedra rustica, diferente da casa dos Burtons, a cozinha apertada e uma pequena lareira no canto.

—Essa é minha mãe Igrane e minha irmã Samantha. — Ele apresentou depois de ter entrado primeiro para contar a sua família sobre os hospedes.

Para Gaherd ouvir a palavra mãe foi como levar um soco. Mas engoliu. Igrane preparou uma cama para Gaherd e Taylor em frente à lareira. Os dois deitaram sem jantar, Gaherd dormiu logo, mas Taylor ficou acordada, Samantha e ela conversaram por um bom tempo.

—Eu não aguento mais. Foi tudo tão rápido, estávamos indo bem, mas ai descobrimos da nossa mãe e agora estamos aqui. Não era pra isso acontecer. Acampando na casa de estranhos... Sem ofensa Samantha... E tudo em menos de dois dias. Tenho medo do que vai ser de Gaherd daqui pra frente.