Uma nova onda de doenças estava passando pelo sul. Dessa vez era uma tosse persistente e contagiosa e que até onde se tinha noticias já havia matado mais de 100 pessoas em Hastorn. No mercado Conrad ouviu a conversa de duas mulheres que diziam que a peste vinha de Extedi, a vila dos excluídos, (que eram todos aqueles que chegaram à ilha depois das quatro barcas):

—Culpa daquele imundos. Chegam aqui doentes e espalharam. — A primeira mulher escolhia algumas ervas e colocava na cesta.

—O rei não fez nada pra impedir isso. -Disse o dono da banca. -Na ultima praga meu pai e meu irmão morreram.

—Eu tive sorte, mas não sei. Estão dizendo que vem bem forte dessa vez. — A segunda mulher comprava flores brancas e colocou uma na cesta de Conrad.

—Dizem que um chá dessa planta andou curando a peste.

—É... Bem, obrigado. — Ele sorriu sem jeito.

—Lá em casa estamos rezando para os Deuses nos protegerem. Rezarei por você também. — Então ela tossiu. Conrad, a mulher e o dono da banca se afastaram.

~~*~~

A mulher do mercado não tossiu diretamente nele, porém Conrad voltou assustado e começou a procurar nos livros e anotações alguma poção ou elixir que pudesse ajudar, mas não estava conseguindo se entender com a bagunça que eram as prateleiras de Pavel, isso o estava irritando-o. Se ele estivesse infectado, acabaria matando os irmãos e o restante da família de Olavo. Permaneceu isolado em sua casa procurando desesperadamente entre os livros e esperando que os sintomas demorassem a surgir.

—O que você está fazendo Conrad? Não te vejo faz umas três semanas. — Gaherd batia sem parar na porta.

—Eu quero brincar com o gatinho. — Elisa falou. Ela tinha concordado em deixar o animal com ele para que os outros garotos não o machucassem.

—Não! Estou ocupado agora.

—Mas ele é meu! — E sua voz foi ficando engasgada e ela começou a chorar.

—Olha o que você fez Conrad!

Conrad parou de mexer nas poções e olhou para o gato encolhido em um canto. “Se eu estiver doente, o gato não vai pegar, já que ele não vai morrer”. E rapidamente abriu a porta largando o animal nos pés de Elisa.

—Fique com ele e não voltem mais aqui.- e antes que os irmãos pudessem falar alguma coisa já estava novamente envolvido com os l

—Esse gato não cresce nunca!-Gaherd comentou intrigado olhando para o filhote no colo da irmã.

Mais cinco dias se passaram até que ele finalmente encontrou algo que talvez pudesse ajudar. Não era especifico para a praga, mas era um elixir que podia ser usado para todo o tipo de doença. Ele chegou a pensar que não adiantaria, mas então ele tossiu. E um arrepio lhe correu a espinha. Deu de ombros, e se convenceu que aquilo iria servir. Depois de pronto e de já ter tomado as primeiras doses, ele foi até a casa de Olavo para distribuir, mas quando chegou lá sentiu que já era tarde demais. Naquele horário da manhã todos deveriam estar se preparando para o trabalho, mas estavam deitados em suas camas.

—Por que estão deitados? — Conrad perguntou ao entrar no quarto do casal.

—A peste Conrad — Nanael Tossiu- Nos a pegamos.

Conrad pensou no gato. “maldito animal” Contaminou Elisa e o resto da casa e a culpa era toda dele.

—Eu tenho a cura.

—Mesmo?

—Acredito que sim.

—Você deveria ir embora para não se contaminar; -Olavo falou.

—Eu já estou com ela. E levantou um pequeno caldeirão ainda morno.

—Vou reunir todos.- Nanael se levantou seguida por Olavo.

Conrad praticamente voltou a morar na fazenda enquanto fabricava o elixir e para seu alivio e de todos os sintomas foram sumindo.

—Obrigado Conrad por ter nos ajudado. — Olavo o cumprimentou.

—Eu posso ficar com o gatinho? — Elisa disse agarrada as pernas dele.

—Acho melhor não.

—Por favor. — E então ela tossiu, forte e por tanto tempo que ficou sem ar.

—Não era pra ela ter parado assim como todo mundo?

—Leve ela pro quarto dos doentes. — Era um quartinho com pouca iluminação que ficava em baixo da escada isolado do resto da casa.

Conrad e Taylor permaneceram o tempo todo ao lado da irmã durante a tentativa de cura-la. Gaherd ficou assustado e se afastou, de vez em quando espiava Elisa pelas frestas da porta, mas nunca perto demais. Ficava relembrando da dor da separação, quase tão intensa quanto sentia da sua mãe e ninguém entendia isso.

No chão do minúsculo quarto, os dois irmãos conversavam:

—Conrad, você acha que ela vai ficar boa?

Ele se limitou a baixar a cabeça.

—Não tem nada mais a fazer? — Taylor perguntou aflita.

—Parece que a cada dia ela piora. — Disse ainda de cabeça baixa.

A conversa foi interrompida após uma crise de tosse e depois a menina se encolheu na cama exausta.

—Ela é a mais nova de todos nós, talvez ela não fosse forte o bastante.

—Talvez.

Mais uma crise e dessa vez ela não se moveu. Conrad se aproximou para verificar a respiração e tocando no ombro de Taylor que olhava angustiada disse em um tom de voz muito baixo:

—Está chegando a hora. E se retirou.

Taylor sentou na cama ao lado da irmã e segurando sua mãozinha ficou uns minutos observando-a dormir. Ela não sabia o que sentir naquele momento. Elisa era tão nova, tinha apenas nove anos. Olavo apareceu na porta e com a voz triste e calma disse:

—Nanael e as meninas gostariam de ficar um pouco aqui.

Saiu do quarto, mas não sentou na cozinha com os outros que comiam em silêncio. Foi para fora e ficou sentada na grama por um tempo, pensando em como se despedir da irmã, era tão difícil a escolha das palavras. Sentiu pela primeira vez uma grande impotência, ela era praticamente a mãe dela, cuidou dela desde bebê e agora não podia fazer nada. Havia começado a anoitecer, mas antes que o sol estivesse na metade do horizonte ela entrou. Tarde demais. Os meninos e Janel estavam todos sentados em silêncio na mesa da cozinha e dirigiram um rápido olhar a Taylor quando ela passou. Conrad estava do lado de fora na porta ao lado de Gaherd que lutava contra as lágrimas. Taylor gritava internamente, sentia um arrependimento por não ter se despedido. As lagrimas queriam escorrer, mas Taylor segurou-as firmemente, e se permitiu deixou chorar por dentro enquanto segurava a mão já morna de Elisa. Ao lado da cama todos choravam. Taylor se abaixou na altura da cama e ali ficou; Conrad foi saindo discretamente até sua casa e Gaherd também saiu, mas foi impedido por Max:

—Aonde você vai? É a sua irmã!

—Me deixe- falou tentando não deixar as lágrimas caírem.

—Não seja egoísta!

Gaherd empurrou Max para trás e foi até o celeiro. Aqueles gritos, àqueles gritos histéricos lhe causavam dor e desespero e Gaherd não conseguia suportar. Subiu até o andar superior do celeiro, onde guardavam sacos e palha. Então percebeu que havia feito uma péssima escolha de lugar. Costumava ver o sol nascer ali com ela. Lembrou-se da risada dela, sorriu. Ela sempre contava alguma historia de fada ou inventava alguma sobre o porquê do sol estar nascendo. Eram bobas, mas ele adorava ouvi-la contar. Nunca disse isso a ela. Abraçou os joelhos, sentia muita saudade. Desejou que a qualquer momento Elisa subisse e o olhasse com aquele jeito tentando parecer zangada por ele não a ter esperado para ver o sol nascer. Ficou por um bom tempo pensando em varias coisas quando percebeu que chovia. O celeiro era um pouco longe da casa então ele teria que passar a noite ali. Mas estava escuro e começou a trovejar, ele começou a ficar com medo.

~~*~~

Na sua cabana Conrad estava sentado na velha cadeira de Pavel e pensava na morte da irmã. Ele era o culpado, se tivesse tido que não emprestaria o gato ela ainda estaria viva. Por que ele sentia isso? Os anos passados preso nas masmorras sem contato com as pessoas deveriam tê-lo tornado distante dos sentimentos, mas mesmo assim sentia remorso e muito medo. Por ter saído e vindo para casa no momento da morte, todos os julgariam novamente covarde por fugir das obrigações, talvez até o culpassem pela morte, o que na cabeça dele tinha sentido. Levantou da cadeira e mesmo com a chuva se intensificando e sem poder iluminar o caminho foi em direção a Floresta dos Mil Sonhos. Os mesmos anões de antes o reconheceram.

—De novo um humano? Dessa vez vamos mata-lo. — E apontavam suas armas grandes e pontudas.

—Eu preciso falar com a Rainha.

—Não! — E tentou cravar a ponta da lança em seu peito na tentativa de mata-lo, mas conseguiu apenas ferir gravemente seu braço. Enquanto isso o outro tentava jogar um pó em cima dele, mas a chuva estava atrapalhando a visão de ambos os três.

—Ei, não faça isso. — Uma ninfa apareceu, ela se assemelhava com uma mulher, mas pelo modo de agir e de vestir, ou melhor de não vestir, pois estava coberta não mais que algumas folhas cobrindo os seios e partes intimas. Tinha também um perfume encantador de flores e parecia não se importar com a chuva.

—Está ferido?

Conrad estava em transe com a magia que a criatura exalava para conseguir responder.

—Acho que anda se arriscando demais, humano. É a segunda vez que invade nosso território. — Era uma bronca, mas ela sorria.

—Venha, vou cuidar de você.

Ele foi levado para dentro da floresta. Depois para os bosques e finalmente a clareira onde não havia mais chuva, apenas uma claridade dourada e perfumada. Uma arvore enorme abrigava uma espécie de casa. A ninfa o colocou em uma cama de folhas. Lavou o ferimento e com sua magia curou a ferida que sumiu sem cicatrizes.

—Os anões não vão contar para alguém?

—Eles nunca saem dali, não se preocupe... Mas, você parece triste. — Disse ela limpando a ferida.

—Estou.

—Por quê?

—Minha irmã.

—Ela não está bem?

—Ela morreu.

—Que pena, se estivesse viva eu poderia cura-la. Mas com a morte... Não há magica forte suficiente. Nem mesmo a magia das cavernas.

—Que magia é essa?

—Foi usada contra nós na Guerra da Traição. É um tipo de...

—É melhor você ir embora. -Falou de repente enquanto puxava Conrad da cama.

—Estar aqui é tão estranho... — Ele falou enquanto era arrastado pela Ninfa pelo bosque.

—O tempo não funciona aqui como lá fora, ele parece passar mais devagar aqui dentro, mas é uma ilusão.

—Por que você me ajudou?

—Eu gosto de humanos, mesmo que sejam cruéis às vezes. Eu e minhas irmãs gostamos de ir até as vilas onde vocês moram e fingir ser um de vocês... Pronto, já pode ir. E não se preocupe com sua irmã, ela deve estar bem, em algum lugar.... -Ela pareceu confusa. — Eu não sei bem onde, já que nós não morremos. -E o empurrou para fora definitivamente.

Quando finalmente voltou para casa, percebeu pelo estado do pão esquecido em sua mesa que algumas semanas haviam se passado sem que percebesse.