A Ilha Do Mal
1 Capítulo 1
Era um dia corrido na Universidade de Pimentel. Era meados de Junho e muitos alunos corriam para entregar a trabalhos atrasados, fazer provas e deixar em dia seus trabalhos de conclusão de curso. A Universidade era muito grande e bela e se localizava no norte do Brasil. Seu espaço territorial era realmente imenso; correspondia a cerca de sete vezes o tamanho da cidade do Vaticano. Dentro da universidade havia pequenas florestas, espaços para jardinagem e uma pequena orla para o rio que a cercava, além dos inúmeros prédios e departamentos das mais diversas áreas do conhecimento humano, exato e biológico. Apesar de contar com mais de 30 cursos e diversos institutos, sua área edificada correspondia a menos de dez por cento de sua área total. Para se movimentar de um extremo ao outro em seu território era necessário utilizar um carro ou um dos ônibus que a universidade disponibilizava para garantir o transporte de alunos e funcionários. Nela, estudavam regularmente mais de trinta mil alunos. Muitos viam a universidade como um lar e moravam em alguns dos centros estudantis que ela proporcionava. Sim; A Universidade de Pimentel era enorme e proporcionava a seus estudantes diversas oportunidades de aprendizado na prática. Estudantes de geologia poderiam ir para a área florestada da universidade e estudar o solo e toda sua constituição mineral. Estudantes de biologia poderiam estudar a considerável flora e fauna presentes na Universidade; a pequena floresta servia de abrigo para alguns animais como cobras, aranhas e pequenos javalis, não que os estudantes se importassem, raramente eram importunados pelos animais em seus institutos que ficava a uma distância considerável da florestinha de Pimentel, como costumavam chamar a floresta localizada na Universidade. Além disso, estudantes das áreas mais exatas do conhecimento tinham laboratórios e centros de pesquisa, não muito bem estruturados é verdade, mas quebrava um galho. Em Junho os estudante do último ano, não importa de qual curso, já começam a trabalhar em suas teses finais de curso. Alguns já até as tem prontas. Mas esse não era o caso de Alexis Braga, estudante de história. Alexis estava com seus vinte e poucos anos e era um dos melhores, se não o melhor, estudante de sua turma. Durante os quatro anos de graduação somente uma vez não ficara com conceito máximo em uma disciplina e até hoje contestava que seu professor fora injusto, pois não gostava que o questionassem frequentemente, como Alexis adorava fazer. Esse jovem magro de cabelos escuros e grande altura era muito inteligente, sem dúvida, mas no que se destacava em intelectualidade perdia no aspecto físico. Nunca conseguira correr mais de dois quilômetros sem ter um ataque de asma. Também não era forte, provavelmente não conseguia carregar objetos que garotões de dezessete ou dezoito anos conseguiriam. Mas ele era muito amigável e companheiro fiel para quem considerava um amigo. Neste dia de Junho em particular ele estava sentado confortavelmente na em uma cadeira junto a uma grande mesa na biblioteca central da Universidade. Lia um livro intitulado “Nativos e seus Costumes” quando seu celular tocou. Por mais inteligente que fosse, Alexis também era meio distraído e deixara, mais uma vez, seu celular ligado ao entrar na biblioteca. Quando tocou, a campainha ecoou na biblioteca e se ouviu um grande “shhhhh” de silêncio por todos os lados. Alexis saiu de seu confortável lugar para atender o telefone em um local onde ninguém o pudesse escutar.
–- Alô – Dissera ele
–-Alexis, é o Jonas, você não vai acreditar, acho que conseguimos! E você nem imagina quem é!
– A sua voz exaltava felicidade
–- Não brinca – A voz de Alexis soou como um grunido de felicidade – Onde você está?
–- No instituto de geologia, corre pra cá!
Alexis não hesitou. Guardou o celular e correu para encontrar seu amigo.
Jonas Albuquerque era do tipo atlético. Seus braços eram fortes. Seu peitoral atraia a atenção de praticamente todas as meninas de seu instituto. Era um bom estudante de geologia, suas notas estavam entre o top 10 da turma. Era do estilo aventureiro. Se pudesse passaria a vida viajando para lugares inóspitos e selvagens. Foi um dos motivos que levou este jovem rapaz, também nos momentos finais de sua graduação, a optar pelo curso de geologia. Sabia que viajaria muito e conheceria diversos lugares. Talvez conhecesse até alguns vulcões no futuro, quem sabe? Quando criança conhecera Alexis. Haviam estudado no mesmo colégio. É bem verdade que Alexis o superava basicamente em todas as matérias quando eram mais jovens. Talvez Jonas levasse alguma vantagem em química e física, mas era só. Alexis sempre fora o número 1 da turma. Na verdade eles dois e mais dois amigos sempre andavam em grupo. Discutiam todo o tipo de coisa. Jogos, quadrinhos, política, economia e claro, mulheres. Os outros dois integrantes do grupo eram Kaio Leão e Ronaldo Pamplonha. Kaio era o mais excêntrico do grupo. Estudava todos os tipos de coisas místicas que podem existir. Bruxos, Extraterrestres, lobisomens, vampiros... Tudo lhe interessava. Inúmeros eram os seus livros de esoterismo. Via todos os tipos de filmes que tivessem algo de místico. Kaio era gordinho. Seus olhos eram negros como a noite mais sombria e seus óculos estavam sempre em seu rosto. Na época de colégio suas notas eram medianas. “Existem coisas mais interessantes para se estudar” dizia ele inúmeras vezes para seus amigos mais próximos. Atualmente era estudante de história na Universidade de Pimentel, na mesma turma que Alexis. A amizade perdurara por todos esses anos. E finalmente havia Ronaldo. O mais cético do grupo. Vivia tendo discussões intelectuais com Kaio sobre a impossibilidade da existência de seres místicos. Acreditava que a ciência era a forma mais nobre de o ser humano conhecer o meio em que vivia. Ronaldo era o mais alto do grupo. Seus cabelos eram escuros, não tão escuros quanto os de Kaio, mas ainda assim escuros. Seus olhos castanhos analisavam tudo ao seu redor com metodologia científica. Não era surpresa que estivesse cursando física na universidade. Os quatro eram companheiros desde criança e até hoje faziam reuniões mensais para conversarem, jogarem alguns jogos de videogame e se divertirem. Eram muito amigos.
Em uma das reuniões há cerca de um ano os quatro perceberam que ainda não haviam feito nada de relevante para o mundo. Não passavam de quatro desconhecidos em uma universidade. Alguns se destacavam com suas notas e outros por seu porte físico, mas nada demais. Se morressem naquele momento seus nomes teriam sido esquecidos em pouco tempo.
–Cara, nossa vida é tão pacata – Dissera Jonas com um ar tristonho – Nem mesmo as poucas viagens que a Universidade me proporciona me alegram mais, quero uma aventura de verdade, quero ir onde ninguém nunca foi!
– Cala a boca Jonas – Retrucou Ronaldo – Não percebe que ainda somos jovens? Você tem que perceber que ainda estamos nos preparando para uma vida de realizações importantes e frutíferas. Em pouco tempo sairemos da Universidade e começaremos a trabalhar realmente em nossas profissões. Poderemos começar a fazer um nome para nós a partir daí. – Ronaldo como sempre analisava a situação friamente com seu pensamento científico.
– Concordo parcialmente com você Ronaldo – Agora Alexis era quem falava – Mas a verdade é que também concordo com Jonas. Já está na hora de o mundo nos conhecer, de fazermos algo que vá marcar nossos nomes na história.
Enquanto isso, Kaio estava no canto da sala, lendo um dos seus livros sobre Lobisomens. Quieto, apenas ouvia uma das muitas discussões do grupo de amigos com os quais estava acostumado a conviver. De vez em quando ria sozinho, mas em geral ficava olhando seu livro de forma concentrada.
Os quatro estavam reunidos na casa de Alexis, o único que morava na Universidade – os outros três ainda viviam com seus pais. Na verdade, Alexis também poderia morar com seus pais mas eles moravam em uma casa distante da Universidade e era muito trabalhoso para ele pegar três ônibus para chegar na Universidade e mais três para voltar todos os dias. Depois de inúmeras discussões com seus pais, eles chegaram a conclusão de que o melhor era que Alexis morasse na Universidade, contanto que a cada duas semanas passasse o fim de semana em casa com sua família. Alexis aceitara de bom grado o acordo feito. Teria a liberdade que tanto quisera e ao mesmo tempo continuaria vendo a sua família, o que lhe agradava muito. De qualquer forma estavam agora os quatro amigos no pequeno apartamento de Alexis na Universidade tendo uma de suas discussões rotineiras. Ainda pensavam sobre como poderiam fazer algo de útil e que fizesse as pessoas lembrarem-se de seus nomes.
–Poderíamos tentar criar um site que explicasse tudo o que conhecemos. Acho que faria sucesso. E todos saberiam que fomos nós que criamos – Os olhos de Jonas brilhavam.
– Nenhum de nós sabe tanto de informática a ponto de fazer um grande site. Além disso não seria algo que marcaria nosso nome na história, gênio – Retrucara Alexis.
–Mas... – Jonas começava a falar quando percebeu que Alexis estava certo.
–Além disso não podemos nos distrair com bobagens nesse momento. Temos de nos concentrar nos trabalhos de conclusão de curso ano que vem. Todos sabemos que teremos de trabalhar arduamente. E que eu saiba ninguém aqui sequer escolheu o tema, estou certo? – Ronaldo com seus olhos de cientista analisava seus amigos.
Era verdade. Nenhum dos quatro sabia sobre o que dissertariam no próximo ano. Nem os dois alunos de história, nem o de geologia nem o próprio Ronaldo, estudante de física. Ainda teriam de pensar sobre o assunto e trabalhar arduamente sobre ele. Foi quando Kaio finalmente falou pela primeira vez naquela noite
–Podemos unir o útil ao agradável meus amigos... mas será difícil...
Os três se entreolharam como se perguntando “alguém sabe do que diabos ele está falando?”.
–Bem me deixem explicar. Existe uma ilha ao norte de nosso estado chamda ilha Rajoma que é basicamente desconhecida. Lá, noventa por cento do território é reservado para os índios da tribo Kushyaki e os outros dez correspondem uma cidadezinha dez vezes menor que nossa universidade. Chamam a cidade de “ilhazinha”. O interessante é que dizem que os últimos remanescentes da tribo Kushyaki vivem todos nessa ilha. Não há mais nenhum representante no resto do Brasil ou do mundo.
– Sim, e daí? – Questionara Ronaldo, seu espírito de cientista o deixava cada vez mais curioso.
–Bem, a última vez que alguém conseguiu autorização para entrar no território dos Kushyaki para conhecer sua cultura faz mais de oito anos. Eram quatro pesquisadores. Um homem e três mulheres se não me engano. Infelizmente, ao que parece os quatro sofreram um grave acidente antes de deixar a ilha e acabaram por falecer. Seus corpos nunca foram resgatados pois os Kushyaki não permitiram que entrassem mais em seu território. Dizem que os quatro foram atacados por uma onça enquanto dormiam na mata. – Kaio dava um suspiro como para atiçar a curiosidade dos amigos.
–Mas como podem saber disso se não permitiram que ninguém mais entrasse no território deles? – Alguém perguntara, Kaio nem prestou atenção quem foi.
– Os moradores da cidade que ocupa os dez por cento da ilha disseram aos parentes das vítimas. Disseram que um garoto viu quando aconteceu... Sabe, na cidade qualquer um pode entrar, só não pode passar do limite demarcado, aí já é área dos Kushyaki. A cidadezinha é separada por uma cerca do território dos Kushyaki. De qualquer forma de lá pra cá ninguém nunca mais pôde entrar no território deles. Vocês sabem onde quero chegar né?
–E você acha que a gente podia tentar entrar lá? – Perguntara Jonas. A ideia de uma aventura do jeito que sempre imaginara começava a se formar em sua cabeça.
–Sim. Imaginem só. Durante as férias do ano que vem. Teremos dois meses livres. Podemos ir para a ilha Rajoma, nos hospedamos na cidade e, quando ninguém perceber, entramos no território dos Kushyaki. Aprendemos um pouco de sua cultura e damos no pé. Eu e você Alexis teremos um excelente trabalho de conclusão de curso para apresentar. E você, Jonas, poderá estudar o solo que creio que nunca foi estudado.
–Sim belo para vocês – Dissera Ronaldo – Mas e eu, que estudo física, como isso pode virar meu trabalho de conclusão?
–Aí que eu queria chegar, Ronaldo – continuava Kaio, com seus olhos brilhando ao ver o fascínio de seus amigos – Diz a lenda que em certas noites o solo da floresta na ilha Rajoma brilha. Alguns moradores da cidade certa vez relataram. Mas não se sabe o porquê disso. Imagina só se um estudante de física descobre o motivo? Imagina o sucesso que essa descoberta faria?
Os quatro amigos se entreolharam. Pela primeira vez em anos a conversa os estava levando a algo que realmente pudesse animar suas vidas. Talvez, antes disso, o que mais se aproximara de uma aventura foi o fato de os quatro terem ido juntos a uma festa em uma casa noturna onde cada um devia beijar pelo menos uma mulher. Incrivelmente os quatro conseguiram. Na verdade apenas três. Kaio não conseguira mas mentiu para não ficar por baixo. Mas nesse momento a possibilidade de descobrirem algo, de fazerem algo que pudesse fazer seus nomes serem lembrados por muito tempo era real. Jonas foi o primeiro a exclamar:
–Estou dentro! Se pudesse iria agora.
E então Alexis, após alguns minutos:
–em, realmente parece um pouco loucura invadir um território de uma tribo indígena sem autorização deles ou do governo. Ainda mais um local onde a última vez qua alguém esteve lá foi a quano? 8 anos aKaio? – Kaio afirmara que sim com a cabeça – E ainda por cima, morreram. Não somos mais crianças, podemos responder por isso e até mesmo ser presos. Além do mais precisaríamos de alguém que falasse a língua deles. Eu presumo que, se sabe, só conseguem falar malmente nosso idioma. Por outro lado... –alexis abaixou a cabeça como que se dizendo “estou cometendo uma loucura” – seria algo para lembrar pelo resto da vida, poderíamos marcar nosso nome na história e, além de tudo isso, seria uma aventura não?
E então foi a vez de Kaio:
–É isso ai. Vamos lá descobrir tudo o que os Kushyaki podem nos dizer sobre eles e sobre esse chão brilhoso... aposto que é alguma bruxa que faz isso.
Estavam empolgados, Alexis já traçando metas na cabeça, foi então que Ronaldo tomou a voz:
–Vocês estão loucos?! Podemos ser presos, pegar doenças desconhecidas e acabar mortos por cobras, aranhas ou coisa pior... Além disso, não temos dinheiro! Vocês esqueceram essa parte? Como vamos pagar o transporte até a ilha, nossa alimentação, hospedagem na cidade...? E, além disso, ainda há nossos pais que nunca concordariam com essa loucura. Param de viajar na maionese seus loucos.
Foi um banho de água fria. Apesar de duro, Ronaldo tinha razão, como sempre. Seu jeito metódico de pensar levara ele a ser o primeiro a pensar nas dificuldades práticas da situação. Ele era de uma família de classe média, assim como Kaio. Alexis não tinha tantas posses; estudara com eles no mesmo colégio quando era criança devido a uma bolsa que havia ganhado devido a suas excelentes notas. Já Jonas... Jonas era rico. Os três amigos olharam para Jonas com um olhar de... você vai pagar, não vai? Jonas compreendeu o que os amigos queriam e prontamente disse:
–Não se preocupem com a grana meus amigos, eu consigo com meus pais.
– É mas e as outras questões que levantei? Nunca nos deixariam ir, e além disso podemos ser presos! Ouviram bem? Presos!
Kaio estava nesse momento levantou os olhos negros e disse calmamente:
–É um preço a se pagar pela aventura. E nem mesmo sabemos se isso acontecerá.
Apesar de metódico, Ronaldo estava se deixando levar pelo grupo. Não imaginara grandes descobertas em sua vida e a carreira de cientista poderia punir os que não fossem os melhores dos melhores de seu país. Aquela era uma oportunidade de ouro. E sua curiosidade já o fizera se perguntar mais de uma dezena de vezes nos últimos cinco minutos – “O que poderia fazer o solo da mata brilhar?”. Não fazia ideia. Foi quando falou:
–Tudo bem, estou dentro. Se formos mesmo embarcar nesta loucura, quando será?
–Creio que a melhor época seja no meio no ano que vem, assim que entrarmos de férias. Neste ano creio que todos já tenhamos planos com suas famílias e tudo o mais. Além disso é um tempo necessário para arranjarmos alguém que saiba o dialeto Kushyaki além de bolarmos alguma desculpa para nossas famílias para viajarmos. É o tempo também que o Jonas arranja dinheiro não é Jonas? – Dissera Alexis. Jonas respondera afirmativamente com a cabeça.
Então estava tudo combinado. No Junho do ano seguinte iriam viajar para a tal ilha e descobrir todos os mistérios que a envolviam. Um povo que há muito tempo vivia isolado. Um solo que brilhava misteriosamente. E qualquer coisa mais que a ilha pudesse reservar para eles.
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