A Ilha
23 É só dizer obrigado

Mingi se sentou ao lado de Hoseok e lhe entregou um pedaço de folha de bananeira onde algumas frutas estavam cuidadosamente cortadas em pequenos quadrados.
— Você tá bem? — perguntou, observando-o com atenção.
Hoseok sorriu de leve.
— Eu seria muito frio se dissesse que não me sinto mal com a morte do Adam?
Mingi deu de ombros.
— Nem um pouco. Ele era um bosta com você. Agora você tá livre. — fez uma pausa antes de continuar — Já pensou no que vai fazer daqui pra frente?
Hoseok suspirou, olhando para as frutas antes de responder.
— Eu não sei nem se a gente vai conseguir sair daqui um dia… mas… — ele pressionou os lábios, visivelmente nervoso — Promete que não vai rir do que eu vou falar?
— Prometo.
Hoseok respirou fundo.
— Eu sei que pode parecer idiota, e talvez eu nem tenha capacidade pra isso, mas… eu quero estudar. Quero me formar. Ter uma profissão de verdade.
Ele ficou em silêncio, esperando alguma reação. Por um segundo, chegou a prender a respiração, com medo de ser ridicularizado. Mas Mingi apenas sorriu. E não era um sorriso de deboche. Era um sorriso orgulhoso.
— Hobi — disse com firmeza — você pode fazer o que quiser. Você é inteligente e esforçado. Eu sei que você consegue. Eu acredito em você… e vou estar do seu lado sempre que precisar.
Hoseok soltou um pequeno riso, aliviado.
— E eu vou precisar — respondeu — Então… seja meu professor particular. Primeiro me ensina como entrar numa boa faculdade.
O coração de Mingi praticamente disparou no peito. Só a ideia de Hoseok precisar dele para alguma coisa já era suficiente para deixá-lo absurdamente feliz.
— Pode contar comigo — respondeu, animado — Serei seu professor particular.
Hoseok sorriu, mas logo desviou o olhar para o chão. Mingi não soube dizer se aquele era um sorriso feliz ou triste.
— Mingi… preciso falar uma coisa com você. Em particular. — Hoseok levantou os olhos novamente — Podemos ir para um lugar mais reservado?
Mingi franziu levemente a testa, intrigado. Hoseok parecia diferente, quase misterioso.
— Tem um lugar onde eu gosto de ir pra ler — respondeu — Fica perto daqui. Lá a gente pode conversar com mais calma.
Ele se levantou e estendeu a mão para Hoseok. O gesto simples carregava uma gentileza que Hoseok ainda não estava acostumado a receber.
Caminharam juntos pela trilha estreita da floresta, Mingi guiando o caminho. Durante o trajeto, a tensão inicial se dissolveu aos poucos enquanto conversavam animadamente sobre livros, histórias favoritas, personagens marcantes e teorias absurdas que só leitores apaixonados costumam discutir.
Depois de alguns minutos, Mingi parou.
— Chegamos.
Hoseok ergueu o olhar e ficou em silêncio.
O lugar parecia uma pintura viva. Um pequeno refúgio escondido no coração da floresta. Flores de cores variadas cresciam por toda parte, espalhando tons vibrantes pelo cenário e enchendo o ar com um perfume suave e doce. Entre uma parede natural de pedras coberta por trepadeiras, uma pequena cachoeira descia discretamente, formando um fio de água cristalina que corria silenciosamente.
As árvores ao redor filtravam a luz do sol, deixando o ambiente fresco, sombreado e acolhedor.
— Aqui é lindo… — Hoseok murmurou, encantado.
Seus olhos se fixaram nas flores de tons azulados, que se destacavam entre as outras. Eram exóticas, delicadas e diferentes de tudo o que ele já tinha visto.
Mingi segurou a mão de Hoseok para que ele o olhasse.
— Então, Hobi… o que você queria me dizer? — perguntou com um sorriso curioso.
No mesmo instante, Hoseok sentiu aquelas temidas borboletas no estômago.
"O que tá acontecendo comigo?" pensou, apertando as mãos de nervoso. "É só fazer o que sempre fiz… então por que estou tão nervoso? Parece até que sou um garoto virgem e inocente acreditando no amor."
Respirou fundo antes de falar.
— Eu… queria te agradecer.
— Ah, era isso? — Mingi riu de leve — Você não precisa me agradecer, Hobi.
Ele passou a mão pelos cabelos de Hoseok com carinho.
— Eu preciso, sim — Hoseok insistiu — É o mínimo que posso fazer.
Hoseok segurou a mão de Mingi e a trouxe até o próprio peito, mantendo o olhar preso no dele. Seu coração batia rápido, denunciando o quanto estava nervoso. Aquela sensação era nova, estranha… mas ele precisava manter o controle.
Levou a mão de Mingi até o próprio rosto e esfregou a bochecha contra a palma dele. Mingi o observava em silêncio, confuso… mas também claramente afetado pelo gesto.
Hoseok respirou fundo mais uma vez, reunindo coragem. Então aproximou lentamente a mão de Mingi dos próprios lábios, deixando seus dedos roçarem contra eles. O corpo de Mingi reagiu imediatamente, ficando imóvel por um segundo, como se não soubesse exatamente como processar aquilo. O olhar de Hoseok também havia mudado. Era uma intensidade que Mingi nunca tinha visto antes.
Hoseok levou os dedos de Mingi à boca e os envolveu lentamente, sugando-os com suavidade. O gesto foi suficiente para deixar Mingi completamente sem reação, o corpo inteiro em alerta.
Hoseok então o puxou para mais perto e passou os braços ao redor de seu pescoço. A pequena mordida em seu lábio inferior, acompanhada de um sorriso malicioso, fez o coração de Mingi disparar. Pra piorar, ou melhorar, o ruivo passou a língua nos lábios de Mingi, provocando ainda mais.
Instintivamente, Mingi segurou sua cintura com força. Ele o queria mais do que tudo naquele momento, mas algo dentro dele dizia que aquilo não parecia certo. Não daquela forma.
— Hobi… o que você tá fazendo? — perguntou com a voz trêmula. O desejo ainda pulsava em seu corpo, mas a preocupação falava mais alto.
Sem responder imediatamente, Hoseok deslizou a mão pelo abdômen de Mingi até o cós de sua calça. Sem quebrar o contato visual, enfiou a mão ali dentro e o estimulou. Mingi arfou ao sentir o toque quente e macio.
— O que eu estou fazendo? — Hoseok repetiu, quase em um sussurro. — Estou te agradecendo.
Ele se aproximou ainda mais, os olhos fixos nos de Mingi.
— Mingi… você pode fazer o que quiser comigo. Eu faço tudo o que você mandar. Posso ser submisso e obediente. Vou te satisfazer quantas vezes você quiser. É só pedir.
Sua voz de Hoseok soava calma, como se estivesse apenas propondo um acordo simples.
— Não vou cobrar nada. Esse é o meu agradecimento.
As palavras atingiram Mingi como um choque. Em um instante, toda a excitação desapareceu, substituída por um peso amargo no peito. Ele segurou os ombros de Hoseok e o afastou, olhando diretamente em seus olhos, agora sério, quase ferido.
— Hobi… eu não consigo acreditar no que estou ouvindo. Você tá falando sério?
— Eu estou, sim… — Hoseok respondeu, confuso ao perceber a expressão de Mingi. — Mas você parece… decepcionado.
Ele baixou o olhar, entristecido.
— Mingi… eu sou bom nisso, juro. E eu não tenho nenhuma doença e…
— Hobi — Mingi o interrompeu com suavidade — para com isso, por favor. Você tá me deixando triste.
Hoseok ficou em silêncio. Mingi respirou fundo, tentando encontrar coragem para dizer aquilo que guardava.
— Hobi… eu… eu gost… — ele travou por um instante. Seu peito apertava ao ver o quanto Hoseok parecia acreditar que aquilo era tudo o que podia oferecer. — Hobi, não é esse o ponto.
Ele passou a mão pelos cabelos, nervoso.
— Hobi, eu gosto de você. E não é como amigo.
Hoseok levantou o olhar, surpreso.
— Eu me sinto atraído por você. Quero ficar com você… e sim, eu também quero muito transar com você — admitiu Mingi, com honestidade — mas de um jeito bonito. De um jeito que seja bom pra nós dois.
Ele segurou as mãos de Hoseok com cuidado.
— Você não é um objeto. Você é uma pessoa incrível que merece respeito. Eu quero que isso aconteça quando você também quiser, quando for algo que nós dois desejamos de verdade… no tempo certo.
Mingi apertou a mão dele com carinho.
— Hobi… eu não sou como esses homens horríveis que você conheceu. Eu realmente gosto de você. E se você quer me agradecer… só precisa dizer “obrigado”.
Hoseok desviou o olhar novamente, envergonhado.
— Mas isso é tão pouco… — murmurou, quase sem voz.
Mingi então segurou seu queixo, fazendo-o olhar para ele de novo.
— Eu tive uma ideia — disse, sorrindo com timidez — já sei como você pode me agradecer, se só um “obrigado” não parece suficiente para você.
Hoseok franziu a testa.
— Como? Se não é com sexo?
Mingi coçou a nuca, meio sem jeito.
— Com um… abraço.
Hoseok piscou, surpreso.
— Só um abraço?
Mingi riu baixo.
— Como assim “só”? Um abraço seu já seria como ganhar o mundo.
As benditas borboletas no estômago de Hoseok estavam em total rebelião. Parecia que não apenas voavam, mas dançavam, rodopiavam e causavam um verdadeiro terremoto dentro dele, abalando todas as estruturas que ele jurava ter sob controle.
— Bobo… — Hoseok murmurou, sorrindo timidamente antes de se inclinar e abraçar Mingi, que prontamente retribuiu o abraço apertando ele mais ainda.
Foi o abraço mais acolhedor que Hoseok já havia recebido, não estava acostumado àquela sensação. Não sabia exatamente como era ser amado ou protegido daquele jeito. Mesmo assim, seu corpo pareceu reconhecer aquilo imediatamente. Ele se apertou contra Mingi com força, como se não quisesse soltá-lo nunca mais.
— Não pense que isso é o suficiente — disse Mingi de repente.
Hoseok se afastou um pouco, olhando para ele com confusão.
— Como assim?
— Quero que me agradeça parcelado — respondeu Mingi com um sorriso. — Um abraço todos os dias. E também quero fazer um jantar pra você… te levar numa viagem pra Paris… sentir o cheiro do seu cabelo… ficar horas conversando com você… assistir uma série juntos… fazer piquenique… ir ao cinema…
Ele parou para respirar, completamente eufórico com a própria lista.
Hoseok riu.
— Tá parecendo que você quer namorar comigo.
— E eu quero — Mingi respondeu imediatamente, agora sério.
Hoseok piscou, surpreso.
Mingi o encarava com um brilho apaixonado nos olhos.
— Você quer namorar comigo, Hoseok?
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