A Ilha
24 Não brinque com a comida

— Namorar? — Hoseok o olhou, surpreso, quase sem acreditar. — Com você? Mingi… você tem noção do que tá me pedindo? Tem noção do que eu faço da vida?
Mingi não hesitou. Apenas segurou a mão dele com delicadeza e depositou um beijo suave.
— Sim, eu sei — respondeu com calma — e isso não muda nada pra mim. Hobi, o seu passado não me importa. Você quer mudar a sua vida… e eu quero estar ao seu lado enquanto você faz isso.
— Mas, Mingi… — Hoseok o interrompeu, a voz falhando levemente — você é… você é incrível. Você é culto, inteligente… dá aula nas melhores universidades do mundo, até em Harvard. Participa de pesquisas importantes, faz coisas que realmente importam…
Ele engoliu seco, desviando o olhar.
— Eu nem terminei o ensino médio. Entrei nessa vida muito cedo e… — respirou fundo — eu não posso ter a audácia de namorar alguém como você.
Mingi balançou a cabeça, negando com firmeza, mas sem perder a suavidade.
— Hobi… isso não é uma entrevista de emprego. As minhas qualificações não significam nada aqui.
Ele se aproximou um pouco mais, tentando alcançar o olhar dele.
— A gente só teve vidas diferentes. Só isso. Você passou por coisas que eu nunca precisei enfrentar. Você perdeu seu pai quando era criança, sua mãe ficou doente… você ficou sozinho. Não teve escolha, não teve apoio.
A voz de Mingi carregava cuidado, não julgamento.
— Eu cresci em uma família estruturada. Tive oportunidades, tive suporte. Claro que foi mais fácil pra mim. Então não… não se compara comigo desse jeito.
Ele segurou o rosto de Hoseok com carinho, obrigando-o a encará-lo.
— Eu não sou melhor que você. — Fez uma pequena pausa, como se organizasse o próprio coração antes de continuar. — Na verdade… eu quero ficar com você. Eu preciso de você. Eu sou mais feliz quando estou com você. — Um sorriso leve surgiu. — Você vive dizendo que eu sou inteligente, não é? Então confia em mim quando eu digo: pessoas inteligentes fazem boas escolhas… e você é a melhor escolha da minha vida. Fica comigo?
Hoseok não respondeu de imediato. Seu olhar caiu novamente para o chão, como se ali estivesse a resposta que ele não conseguia encontrar. Ele queria dizer sim, queria muito. Mas dentro dele, as dúvidas gritavam mais alto. A insegurança apertava seu peito, lembrando-o de tudo o que ele acreditava ser: pequeno, insuficiente e sem valor.
A ideia de entrar no mundo de Mingi parecia distante. Imaginou conhecer os pais dele, um médico e um cientista. O que eles pensariam ao ver quem ele era? O namorado do filho que não terminou a escola e que sobreviveu vendendo o próprio corpo.
Em contrapartida, Hoseok se via cada vez mais envolvido por Mingi. Era a primeira vez que alguém o tratava com cuidado de verdade, com carinho sem segundas intenções, com respeito que não precisava ser negociado. Ao lado dele, algo dentro de Hoseok começava a florescer devagar, como se estivesse reaprendendo a existir. Mingi despertava nele uma vontade sincera de ser alguém melhor, alguém de quem pudesse se orgulhar. Pela primeira vez, ele sentia que talvez fosse capaz de mudar sua própria história, porque Mingi acreditava nele, mesmo quando ele mesmo não conseguia.
Ele ficou em silêncio por alguns minutos, perdido nos próprios pensamentos, enquanto Mingi aguardava sua resposta com paciência, distribuindo pequenos beijos em sua mão, como se cada gesto fosse um incentivo para que ele tivesse coragem. Foi então que Hoseok chegou a uma conclusão: aquilo não parecia a vida real. Era como um recorte fora do tempo, um lugar onde ele podia, por um instante, ser alguém diferente. Talvez pudesse se permitir viver aquilo, mesmo que fosse temporário. E depois, quando voltassem para casa, se voltassem, ele daria um fim. Libertaria Mingi de alguém como ele, alguém que ele ainda acreditava não ser digno daquele amor.
— Mingi… — Hoseok chamou, segurando o rosto dele com delicadeza — Eu aceito. Aceito ser seu namorado.
A reação de Mingi foi imediata. Ele o puxou para um abraço apertado, quase sem conseguir conter a felicidade que transbordava.
— Hobi… eu prometo que vou ser bom pra você. Vou fazer você se apaixonar por mim todos os dias — disse, com a voz embargada de emoção — Obrigado, Hobi… obrigado por aceitar meus sentimentos e me deixar entrar na sua vida.
Hoseok sorriu, um sorriso leve, mas carregado de tudo o que ele estava tentando não mostrar.
— Bobo… eu já estou apaixonado por você.
Mesmo sabendo, no fundo, que aquilo poderia ter prazo de validade, ele decidiu não pensar nisso agora. Queria viver e sentir tudo aquilo. Queria, pelo menos ali, ser feliz.
Mingi então segurou seu rosto com cuidado, e se inclinou para beijá-lo. O beijo foi calmo, mas carregado de amor. Hoseok nunca tinha sido beijado daquela forma. Nos braços de Mingi, ele não era um corpo a ser usado. Não era alguém descartável. Era alguém escolhido. E, pela primeira vez, ele se sentiu amado.
…
Jimin achava fofo e ao mesmo tempo engraçado o jeito como Jungkook o tratava, como se ele fosse uma peça rara de porcelana, delicada demais. Mal sabia ele que Jimin estava longe de ser frágil. Habilidoso, ágil e muito mais resistente do que aparentava, ele poderia facilmente se virar sozinho. Mas, no fundo, gostava daquele cuidado. Gostava de brincar de donzela em perigo quando alguém se dispunha a protegê-lo com tanta dedicação.
Jungkook seguia alguns passos à frente, atento a cada detalhe do caminho, desviando galhos, observando o chão, certificando-se de que Jimin não tropeçaria em nada.
— Você é gentil demais comigo — comentou Jimin, com um sorriso de canto — Por que isso? Tá realmente apaixonado por mim?
Ele disse em tom de brincadeira, esperando qualquer resposta menos uma sincera.
— Estou.
A resposta veio simples, direta e completamente séria. Jimin piscou, surpreso, antes de soltar uma risada.
— Uau. Sem rodeios, hein?
Jungkook apenas o olhou por cima do ombro, tranquilo, como se tivesse dito algo óbvio.
— Então me explica — continuou Jimin, curioso — Por que você tá apaixonado por mim? O que exatamente te atraiu?
Jungkook desacelerou o passo, como se precisasse organizar as palavras.
— Primeiro… foi a sua voz — disse, com naturalidade — Eu estava caminhando pela floresta quando ouvi você cantando. Meu coração acelerou de um jeito estranho, diferente de tudo que já senti.
Ele desviou o olhar por um segundo, como se revivesse o momento.
— Fiquei curioso… e foi por isso que comecei a te observar.
Jimin arqueou a sobrancelha.
— Então você admite que me stalkeou.
Jungkook ignorou a provocação, ou fingiu ignorar.
— Depois da sua voz… foi a sua aparência que me atraiu. — Ele voltou a encará-lo, agora sem disfarçar — Você é um humano muito bonito.
— Mas eu sou homem… isso não é um problema pra você? Seu povo não acharia estranho?
— Não vejo problema nenhum — Jungkook respondeu com tranquilidade. — Na verdade, o único “problema” seria você ser humano.
— Ótimo, comecei bem — Jimin riu — Mas me diz… você já ficou com outros homens?
— Não. Os homens da minha cidade não me atraem… — Jungkook o observou por um instante a mais — Você é diferente.
Jimin arqueou a sobrancelha, interessado.
— Diferente como?
— Você é delicado… tem um corpo bonito… — Jungkook falou com naturalidade, como se estivesse apenas descrevendo algo óbvio — Gosto das suas bochechas… são macias e rosadas. E gosto dos seus lábios também. — Ele soltou um suspiro baixo. — Você é… perfeito.
Jimin segurou o sorriso, mas não conseguiu esconder completamente a reação.
— Tá, isso foi inesperado.
— E não é só isso — Jungkook continuou — Depois que comecei a te observar… foi a sua personalidade que me atraiu ainda mais. Eu já vi alguns humanos, e a maioria é covarde ou cruel. Mas você… — ele fez uma pequena pausa — Você é corajoso. Mesmo sendo pequeno, entrou sozinho numa floresta perigosa pra salvar seus amigos. E você respeita a natureza e respeita culturas diferentes da sua… seria impossível não me apaixonar.
Jimin balançou a cabeça, tentando disfarçar o impacto.
— Peraí que eu vou ali vomitar — brincou, levando a mão à boca — Muito meloso, sério.
Jungkook franziu levemente o cenho, confuso.
— Estou sendo sincero.
— Eu sei — Jimin riu — Mas parece até que você tá brincando comigo. Mesmo que você seja o homem mais lindo e gostoso que eu já conheci e mesmo que eu esteja louco pra te beijar e transar com você, não adianta querer se aproveitar do meu puro coraçãozinho — Ele parou por um segundo, analisando Jungkook dos pés à cabeça, mordendo o lábio.
Jungkook estreitou os olhos.
— Não sei se seu coração é tão puro assim.
— Você acabou de falar que é.
— Sim, eu disse, e aos meus olhos você é. Mas você chegou aqui algemado e escoltado pela polícia.
— Ok, aí você tem um ponto, muito válido, por sinal. Enfim, voltando ao que interessa, me explica uma coisa… você disse que humanos são considerados… comida, certo?
— Por alguns… sim.
Jimin inclinou a cabeça, sorrindo de forma sugestiva.
— Você tá brincando comigo, sua mãe nunca te ensinou que não se deve brincar com a comida?
Jungkook soltou um suspiro leve.
— Eu nunca te vi dessa forma, Jimin. Nem por um segundo.
— Então você não quer me comer? — Jimin perguntou, com um sorriso carregado de segundas intenções.
— Não. Jamais! — Jungkook o olhou horrorizado.
Jimin riu, aproximando-se mais.
— Tem certeza? Porque, modéstia à parte, eu sou bem gostoso.
Jungkook estreitou os olhos, desconfiado.
— Isso tem duplo sentido, não tem? Vocês humanos falam assim o tempo todo.
— Duplo sentido? — Jimin deu de ombros, fingindo inocência — Quem sabe…
Ele se aproximou ainda mais, colocando as mãos no peito de Jungkook, sentindo sob os dedos a firmeza dos músculos.
— Você quer… me experimentar um pouquinho?
— Te experimentar? — Jungkook repetiu, agora claramente afetado pela proximidade. — Jimin…
— Sim… experimentar um pouquinho do Jimin… — sussurrou, já com os braços ao redor do pescoço dele.
Instintivamente, Jungkook segurou sua cintura. Por um segundo, o mundo pareceu desacelerar. E então, Jimin o beijou.
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