A Ilha
17 Uma noite quentinha

Com as mãos trêmulas e o suor frio escorrendo pela testa, Yoongi segurava a arma com dificuldade, apontando para o animal selvagem que tentava, a todo custo, alcançar a jugular de Taehyung.
Tocar naquela arma trazia um peso insuportável. Os flashes do passado vinham com força. O olhar vazio de um civil inocente, o estampido do disparo que nunca deveria ter acontecido, a imagem do sangue vermelho vivo. Tudo ainda parecia fresco em sua memória.
Mas ali, diante dele, estava Taehyung. Seu parceiro, o amor da sua vida, lutando para sobreviver. E Yoongi sabia que não havia tempo para hesitar.
Inspirou fundo, sufocando o terror que tomava seu corpo.
E então, apertou o gatilho.
O som do disparo ecoou pela floresta como um trovão. Pássaros alçaram voo, folhas tremeram, e por um momento, o mundo silenciou.
O animal caiu com peso morto sobre Taehyung, que logo se desvencilhou do corpo ensanguentado. Levantou-se com rapidez, ainda ofegante, e correu até Yoongi, que permanecia imóvel, os olhos perdidos no vazio e a arma ainda erguida.
— Yoon… — sussurrou, tomando a arma de suas mãos com cuidado. Em seguida, o puxou para um abraço apertado, envolvendo-o com força — Tá tudo bem agora. Você me salvou.
Yoongi despertou lentamente de seu estado estático quando sentiu os dedos de Taehyung deslizando suavemente por entre seus cabelos. O toque era leve, quase hesitante, mas carregado de ternura. O cheiro familiar de Taehyung, o envolvia como um cobertor. A voz baixa e calma, sussurrando perto de sua nuca, dissolveu o medo que ainda pulsava em seu peito.
O coração de Yoongi, antes disparado e caótico, começou a se acalmar no mesmo ritmo da respiração de Taehyung. Os tremores cessaram, substituídos por um calor sereno que o preencheu por completo. O abraço de Taehyung era firme e protetor, mas ao mesmo tempo doce, o tipo de abraço que faz o mundo inteiro desaparecer. Sentia o peito de Taehyung subir e descer contra o seu, o pulsar de um coração que o lembrava que eles estavam vivos. Yoongi fechou os olhos e se permitiu afundar naquele momento, saboreando o conforto de estar nos braços do homem que amava, ainda que esse amor fosse um segredo.
Quando enfim se afastaram, a floresta parecia mais silenciosa, como se o mundo os observasse em respeito. Caminharam de volta para a praia em silêncio, lado a lado. O caminho era longo e difícil, as pernas doíam, e o cheiro do sangue do leão ainda impregnava o ar e as roupas de Taehyung, mas nada disso importava. A cada passo, o sol atravessava as copas das árvores, desenhando faixas douradas sobre seus rostos cansados. Taehyung olhou de relance para Yoongi, e o sorriso breve que trocou com ele foi mais revigorante que qualquer descanso.
Quando finalmente avistaram a praia, o som das ondas quebrando devolveu-lhes a sensação de segurança. O pesadelo havia passado. Por ora, estavam a salvo.
Adam ficou surpreso ao vê-los retornando.
Tinha plena certeza de que o leão teria feito deles o jantar, ou, no mínimo, os deixado em pedaços. Improvisou uma desculpa qualquer, dizendo que havia corrido para buscar ajuda, mas ninguém acreditou. Afinal, ele sequer avisou alguém que Taehyung e Yoongi estavam em perigo.
Jin, pragmático como sempre, preferiu ignorar as brigas e concentrou-se no essencial, a segurança.
Seguindo a descoberta de Taehyung e Yoongi, todos os sobreviventes foram até a caverna. O local era fresco, protegido do sol e de possíveis ataques dos nativos, ou de qualquer outro predador que rondasse a floresta. Um rio de água corrente passava próximo dali, o que tornava o abrigo ainda mais promissor.
Aquele novo refúgio trazia, enfim, uma sensação de segurança que há dias não sentiam.
Jin observava o grupo se acomodando, um por um, e respirou aliviado. Talvez, pela primeira vez desde o acidente, pudessem descansar sem medo.
Mas, no fundo, ele sabia que a ilha ainda escondia mais segredos do que eles podiam imaginar.
…
— E foi assim que eu perdi minha virgindade — Jimin falava alto enquanto caminhava pela floresta, gesticulando como se tivesse plateia. Na verdade, ele não estava totalmente sozinho. Seu misterioso amigo nativo o seguia em silêncio, ou quase silêncio, já que Jimin podia sentir sua presença e até ouvir, vez ou outra, o som contido de passos sobre as folhas.
— Você é virgem? — perguntou de repente, como quem puxa assunto com um velho conhecido. — Pelas suas pegadas, já deduzi que você é homem… então… você é gay? Hétero? Bi? Ou… um espírito livre?
Jimin riu sozinho e continuou:
— Eu, pessoalmente, sou o que der vontade na hora. Prefiro homens, claro, mas já fiquei com mulheres, não é muito a minha praia. Eu até já tentei ser ativo com outros homens, foi meio estranho, mas divertido. Depois comecei a namorar… durou umas três horas.
A gargalhada de Jimin ecoou entre as árvores, e logo veio o som que ele mais esperava: a risada abafada e envergonhada do nativo. Jimin sorriu satisfeito. Aquela risada provava que seu “companheiro invisível” era alguém racional, alguém que entendia suas piadas e compartilhava algo muito humano com ele.
E quanto mais isso acontecia, mais Jimin desejava ver seu rosto e descobrir, de uma vez por todas, quem era o povo misterioso que habitava aquela ilha.
— Eu nunca fui bom nessa coisa de namoro. Eu sou do cabaré — Jimin riu alto, e logo ouviu a risadinha abafada do nativo ecoando novamente — Ah, se você riu é porque sabe o que é um cabaré! Então quer dizer que vocês têm isso por aqui também?
Um vento frio soprou, arrepiando-lhe a pele. O sol já se escondia por trás das copas das árvores, e o céu começava a se tingir de azul-escuro. Jimin cruzou os braços, tremendo um pouco. Precisava parar para descansar.
Mesmo cercado por uma floresta cheia de mistérios e possíveis perigos, ele estava tranquilo. Além da sua habilidade incomum de não temer nada, sabia que o nativo o observava e cuidava dele o tempo todo, como uma presença silenciosa e protetora.
Se recostou ao pé de uma árvore e se encolheu, cobrindo-se com o manto macio que o próprio nativo lhe dera. Quanto mais a noite caía, mais frio fazia.
— Eu vou dormir um pouco — anunciou, falando para o vazio, mas certo de que estava sendo ouvido. — Desligue o despertador e tranque a porta, tá? — brincou, rindo sozinho. — Boa noite, meu caro nativo bonzinho.
E então fechou os olhos. O cansaço venceu o frio, e Jimin adormeceu com um sorriso leve no rosto, embalado pelo farfalhar das folhas e pela sensação reconfortante de que não estava sozinho.
…
Jimin não sabia ao certo se ainda dormia ou se havia despertado. Seu corpo estava pesado demais para reagir, preso entre o sonho e a vigília. Tudo o que conseguia sentir era o perfume das flores silvestres misturado a um aroma doce e familiar de vinho, o mesmo cheiro que já reconhecia como sendo do seu amigo nativo.
Um toque leve roçou seus lábios. O dedo do nativo deslizou lentamente, despertando arrepios que correram por todo o seu corpo. Outra carícia veio, agora em seu rosto, era suave e cuidadosa. Mesmo sem abrir os olhos, Jimin sentiu seu corpo responder, como se buscasse instintivamente aquela presença. Um calor crescia dentro dele, confundindo desejo e sonho. Seria real? Ou apenas o reflexo do anseio por ver o rosto daquele que o acompanhava em silêncio todos esses dias?
Um sobressalto o trouxe de volta. Jimin abriu os olhos, o coração disparado, respirando rápido como quem corresse quilômetros. Levou a mão aos próprios lábios, ainda podia sentir a sensação do toque.
À sua frente, uma fogueira queimava, cercada por pedras cuidadosamente dispostas. O fogo crepitava, lançando uma luz amarelada que dançava nas paredes da floresta. Jimin sorriu, um sorriso terno e grato. Seu misterioso protetor havia passado por ali novamente. E, mais uma vez, cuidou dele.
Jimin olhou para o próprio corpo, ainda estava coberto com a mantinha, mas havia algo diferente sobre ela. Sentou-se e pegou a peça que o cobria, era um casaco masculino.
“Por que eu imaginei que os nativos dessa ilha andavam pelados? Meu Deus, eu sou um pervertido”, pensou, examinando o tecido com atenção.
Mas aquele casaco não era comum. O material era de alta qualidade, a costura impecável, o caimento elegante. Parecia ter sido feito por um alfaiate londrino da era vitoriana. Um corte refinado, europeu, de outra época.
Jimin passou os dedos pelas bordas do tecido e franziu o cenho, intrigado.
“Então… os nativos daqui já viveram na Europa antiga?”, refletiu, levando o casaco ao nariz. O aroma era familiar: lavanda, flores silvestres e um leve toque de vinho, o cheiro do seu amigo nativo.
— Obrigado por cuidar de mim — disse em voz alta, para que o outro o ouvisse, onde quer que estivesse. — Graças a você, eu dormi quentinho e confortável.
Suspirou. Tinha mil perguntas entaladas na garganta. Quem era ele? Por que se escondia? Que povo habitava aquela ilha?
Mas se o nativo não se mostrava, Jimin teria que encontrá-lo.
“Você não me escapa, mocinho”, pensou, um sorriso travesso surgindo em seus lábios.
“Logo pela manhã estaremos conversando cara a cara.”
Com o casaco elegante sobre os ombros, ele começou a planejar sua nova expedição, não apenas para descobrir os segredos da ilha, mas também o rosto do homem que vinha o protegendo nas sombras.
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