A Ilha
18 Um humano?

Para Namjoon, aqueles dias se arrastavam em um tédio sufocante. Ele nunca soube o que era tirar férias, o trabalho sempre foi o centro da sua vida. Ficar tanto tempo sem fazer nada era uma tortura, e a sensação de impotência o consumia ainda mais diante dos últimos acontecimentos: estavam presos em uma ilha desconhecida, sem sinal de resgate, cercados por ameaças invisíveis, fossem nativos ou animais selvagens.
Jin, por outro lado, mantinha-se ocupado, como sempre. Cuidava dos feridos com dedicação incansável, a mesma que sempre teve com seus pacientes.
Taehyung e Yoongi passavam os dias explorando a floresta, ainda determinados a encontrar os desaparecidos, especialmente Jimin, que parecia ter sumido sem deixar rastros.
Naquela noite, era Mingi e Hoseok quem faziam a vigia. O som do vento misturado ao estalar da fogueira embalava o silêncio pesado do acampamento. Namjoon, porém, não conseguia dormir. Estava inquieto. Jin tinha saído para tomar banho no rio e já estava demorando demais para voltar.
Uma curiosidade repentina o cutucou, fazia quanto tempo que não via o marido em um momento tão íntimo.
Nem lembrava mais quando foi a última vez que o tocou com carinho, que beijou aquele corpo que agora sentia tanta falta. Uma pontada de arrependimento lhe apertou o peito, e junto dela, um desejo há muito adormecido reacendeu.
Sem pensar muito, Namjoon se levantou e seguiu o caminho até o rio, guiado pela luz prateada da lua e pela vontade quase esquecida de simplesmente olhar para Jin.
…
A noite estava abafada, consequência de um dia ensolarado e exaustivo. Namjoon caminhava lentamente pelo pequeno trilho que eles haviam aberto entre as árvores, o caminho que levava direto ao rio. Cada passo era acompanhado pelo som distante das cigarras e pelo murmúrio da água corrente, convidativo e tranquilo.
Quando chegou, parou. Ficou apenas observando.
Jin estava ali, de costas para ele. A luz da lua deslizava por sua pele, refletindo no brilho suave da água. Mesmo em meio ao isolamento e à falta de qualquer luxo, Jin parecia inalcançavelmente bonito. Tinha delicadeza nos gestos, um refinamento natural que nenhuma cidade, maquiagem ou produto caro poderiam reproduzir. Era apenas ele — puro, humano, real — e, ainda assim, o homem mais lindo do mundo.
Namjoon sentiu algo que não experimentava há anos: o friozinho na barriga que o fazia sorrir sem motivo, o mesmo de quando se apaixonou por Jin pela primeira vez.
Colocou a mão sobre o peito e sentiu o coração acelerar, pulsando forte.
“Será que é possível se apaixonar duas vezes pela mesma pessoa?”, pensou.
Não que tivesse deixado de amar Jin, jamais. Mas, ao longo dos anos, o amor se perdeu entre compromissos, reuniões e silêncios. Jin havia se tornado o segundo plano de uma vida guiada por prioridades erradas. E agora, diante daquela imagem simples e perfeita, Namjoon se sentia o maior dos idiotas.
Mas ainda dava tempo de arrumar as coisas. Sem pensar muito, tirou as roupas e entrou na água, o choque frio percorrendo seu corpo.
Jin se virou, assustado.
— Nam? Está tudo bem? Aconteceu alguma coisa? — perguntou Jin, confuso, a voz misturada entre preocupação e curiosidade.
Namjoon não respondeu de imediato. Apenas se aproximou, a água do rio batendo suavemente contra suas pernas, e segurou o rosto de Jin com as duas mãos. O toque foi delicado. Jin sentiu o coração acelerar, fazia tanto tempo que Namjoon não o olhava daquela forma.
— Sim, aconteceu algo — respondeu, com um sorriso tímido.
— Meu Deus, o que houve? — Jin perguntou, o olhar aflito.
Namjoon respirou fundo.
— Eu… descobri que estou perdidamente apaixonado pelo meu marido.
O sorriso que se formou no rosto de Jin foi tão grande que parecia iluminar o breu da noite.
— Que sorte a dele — respondeu, com humor doce e a voz embargada de emoção.
Namjoon riu baixinho e encostou a testa na dele, antes de depositar um beijo terno entre suas sobrancelhas.
— Jin… eu te amo tanto que esse amor não cabe dentro de mim. Tenho vontade de gritar pro mundo ouvir — ele riu, nervoso, como um garoto que acabava de se apaixonar pela primeira vez — acredita? Eu estou apaixonado pelo meu marido.
As palavras saíam com sinceridade, quase tropeçando, como se ele quisesse compensar todos os anos de silêncio.
— Eu fui um idiota, Jin. Te deixei em segundo plano, me escondi atrás do trabalho e quase te perdi. Quase perdi o homem da minha vida. — A voz dele falhou. — Me perdoa? Não desiste de mim. Eu quero ser melhor pra você.
Os olhos de Jin marejaram. Sentiu o coração vibrar, um turbilhão de alívio e amor. Esperou tanto por aquele momento, e agora, ele finalmente havia chegado.
— Nam… eu também te amo. E nunca desisti da gente. Você é minha alegria, meu amor, meu coração. Sei que nos afastamos, mas ainda dá tempo de recomeçar.
Jin passou os braços pelo pescoço de Namjoon e o puxou para um beijo suave, mas carregado de saudade. Um beijo demorado, que dizia tudo o que as palavras já não precisavam dizer.
— Agora não vou te soltar por nada — sussurrou contra seus lábios. — Eu sinto tanto a sua falta, que até dói.
Namjoon sorriu, o olhar marejado.
— Eu também te quero, amor. Sou louco por você. — Riu baixinho, com o coração leve, como se tivesse tirado um peso de anos das costas.
Ali, sob a luz prateada da lua, dois corações cansados se reencontravam e, pela primeira vez em muito tempo, o amor entre eles parecia novo outra vez.
…
Adam observava com ódio crescente Mingi e Hoseok, que faziam a guarda naquela noite. A luz da fogueira iluminava os rostos dos dois, que pareciam tranquilos, rindo baixinho entre uma conversa e outra. Aquilo o corroía por dentro. Jin e Namjoon estavam longe, perambulando por aí. Taehyung e Yoongi dormiam profundamente dentro da caverna. Era a oportunidade perfeita.
Hoseok já não o temia como antes, e isso deixava Adam furioso. Nenhuma chantagem, nenhum olhar ameaçador, nada mais surtia efeito. Hoseok agora se sentia protegido, cercado por amigos, e por aquele maldito professor que o tirara de seu controle.
Adam esperou pacientemente, fingindo dormir, até ver Mingi se levantar. O professor avisou algo a Hoseok, que sorriu.
Um sorriso leve, sincero, do tipo que Adam nunca tinha visto antes, e nunca recebera. Aquilo foi a centelha que acendeu seu ódio.
Assim que Mingi sumiu na escuridão para fazer a ronda, Adam se moveu.
Pegou discretamente um frasco entre os pertences médicos de Jin, um medicamento com cheiro forte e adocicado, e um pedaço de pano. Umedeceu o tecido com o líquido, observando o vapor leve subir no ar.
Sorrateiro como uma sombra, aproximou-se por trás de Hoseok. O ruivo olhava distraído para o fogo, sem desconfiar. Em um movimento rápido, Adam pressionou o pano contra o rosto dele.
— Shhh… — sussurrou com crueldade. — Vai ser rápido.
Hoseok tentou lutar, mas a força dele não era párea para a de Adam. O corpo se debateu por alguns segundos, depois amoleceu nos braços do agressor.
Adam o segurou antes que caísse e olhou em volta, ninguém tinha visto.
Um sorriso satisfeito se formou em seus lábios. Finalmente, Hoseok estava vulnerável de novo.
…
Hoseok sentia os olhos pesados. Tentava despertar, mas o corpo não respondia, era como se fosse um fantoche, mole, sem controle algum sobre si. Sentiu que estava sendo carregado, braços fortes o sustentando, mas não conseguia reagir, nem sequer abrir a boca para pedir ajuda. Tudo escureceu novamente.
Quando recobrou a consciência, uma dor incômoda latejava em seus pulsos e na cintura. Gemeu baixo, confuso. O dia já clareava, e o ar frio da manhã tocava sua pele. Abriu os olhos devagar e o pavor o atingiu como um soco.
Estava preso.
Amarrado a uma árvore, imobilizado e completamente nu.
Cordas grossas marcavam sua pele, apertadas demais.
— O que… o que é isso? — sussurrou, lutando para se soltar, mas as amarras só machucavam mais seus pulsos. O desespero subiu pela garganta. — Alguém me ajuda!
A resposta veio na forma de uma risada. Uma risada conhecida, fria e debochada.
— Acordou, dorminhoco? — a voz de Adam cortou o ar como uma lâmina.
Hoseok estremeceu.
— O que você tá fazendo? Me solta agora!
Adam deu um passo à frente, o rosto iluminado pelo amanhecer. Sorria como um predador diante da presa.
— Te trouxe pra lembrar quem é o dono de você, Hoseok.
— Eu não sou de ninguém! — gritou, tentando se soltar — Você é um lunático!
Adam inclinou a cabeça, o sorriso desaparecendo.
— Ainda não entendeu, né? — a voz agora era grave, ameaçadora. — Você é meu, Hoseok. Sempre foi.
Adam se aproximou. As mãos dele tocaram o corpo de Hoseok, e um arrepio de repulsa percorreu sua pele. Aquilo revirava seu estômago.
Por tanto tempo, Hoseok tentou fingir que aquilo não o afetava, que talvez gostasse, mas não dava mais. Não havia nada ali além de medo, vergonha e nojo.
Mesmo com os olhos marejados, ele implorava para que Adam parasse, mas o desespero parecia apenas alimentar a insanidade dele.
O toque forçado, o beijo sufocante, o peso da dominação, tudo fazia Hoseok se sentir impotente, como se seu corpo não lhe pertencesse.
Adam nunca soube o que era um “não”. E Hoseok, até pouco tempo atrás, nunca tivera coragem de dizê-lo. Mas agora era diferente. Agora ele tinha amigos. Pessoas que o faziam sentir-se seguro. Agora ele não estava sozinho.
Seu choro abafado ecoou pela floresta, um som que partia o coração, até que algo interrompeu tudo.
Um ruído vindo dos arbustos.
Adam se virou, irritado, mas o que viu o fez empalidecer.
De dentro da mata, uma figura emergiu, alta, esguia, coberta de sombras. O que parecia ser um homem, mas não inteiramente humano.
O ar ao redor pareceu congelar.
A criatura o observava com olhos que brilhavam sob a luz da lua. Ignorou Adam por completo e voltou o olhar para Hoseok.
Lambeu os lábios lentamente, salivando. Mas não era desejo.
Era fome.
Fome de sangue.
Adam ficou paralisado. O homem diante dele parecia humano, em partes.
Seus cabelos eram tão claros que quase reluziam sob a luz do luar, um loiro prateado que caía em fios lisos até a cintura. O corpo era forte, delineado, os músculos desenhando-se sob o tecido fino e translúcido da camisa preta. A pele, pálida como mármore, destoava da umidade quente da floresta tropical, nenhum humano com aquela cor de pele sobreviveria ao sol daquela ilha. Era claro que ele vivia nas sombras.
A roupa também destoava de tudo. Calças e botas pretas, perfeitamente ajustadas, e uma camisa de corte antigo, de mangas longas e tecido leve, quase transparente.
Não parecia um selvagem. Parecia saído de outra era, um aristocrata perdido, um fantasma de tempos vitorianos.
Por um instante, Adam e Hoseok se viram cativos de sua beleza inumana.
Mas então, o homem ergueu o rosto, e o queixo de ambos caiu.
Seus olhos eram vermelhos. Brilhantes. Como brasas acesas em meio à escuridão.
O olhar era frio, calculista e faminto. Naquele instante, Adam percebeu que não estava diante de um nativo qualquer. Estava diante de um predador.
O homem farejou o ar, lentamente, como um predador analisando sua presa. Seus olhos vermelhos brilharam ao pousarem em Hoseok, e um sorrisinho indecifrável surgiu em seus lábios, um sorriso que dizia tudo sem precisar de palavras. Hoseok sentiu o estômago revirar. Não havia nada de humano naquele olhar.
O silêncio que se seguiu foi sufocante. O estranho os estudava, imóvel, como quem decide qual parte do banquete provar primeiro.
Quando o olhar dele se desviou para Adam, Hoseok percebeu que o piloto tremia.
— P-pegue ele — Adam gaguejou, apontando para Hoseok — E-ele está preso, é um alvo fácil. Faça o que quiser com ele… só me deixe ir!
Hoseok o olhou, incrédulo. Sabia que Adam era um covarde, mas vê-lo entregar outra pessoa sem hesitar o enojou.
O homem de olhos vermelhos observou Adam por um instante. Adam era alto, forte e saudável, daria muito mais trabalho. Já Hoseok… era pequeno, magro e estava amarrado. Totalmente vulnerável. Um banquete fácil.
O predador voltou seu olhar faminto para Hoseok. Adam não esperou o próximo movimento, virou-se e correu em disparada pela floresta, tropeçando nas raízes, gritando desesperado, o som de sua fuga ecoando entre as árvores.
Hoseok ficou sozinho. O homem avançou um passo. E então, o mundo pareceu prender a respiração.
Hoseok prendeu a respiração ao sentir o hálito quente do homem roçar seu pescoço. Ele estava cheirando-o, como um predador analisando a presa.
— O-o-olha… a gente pode conversar? — tentou, a voz trêmula, o coração disparado — Eu não sei o que você quer, mas podemos… chegar a um acordo.
O homem se afastou apenas o suficiente para fitá-lo.
Seu olhar era profundo, hipnótico, e por um instante Hoseok esqueceu o medo, ele era lindo. Um tipo de beleza que parecia perigosa.
Então, para seu horror, os dentes do homem começaram a crescer. Os caninos alongaram-se de forma grotesca. Não havia mais dúvida, aquilo não era humano.
Hoseok tentou gritar, mas o homem tapou sua boca com uma força desumana. Ele se aproximou ainda mais, pressionando-o contra o tronco da árvore. Hoseok sentiu o toque frio dos dentes arranhando sua pele, e um fio de dor ardente cortou seu pescoço.
O homem lambeu o sangue que escorreu, a língua quente traçando a linha do ferimento, ele sorriu, embriagado pelo gosto.
Hoseok tremia, as pernas falhando, o coração implorando por fuga que o corpo não conseguia obedecer.
Quando os caninos finalmente cravaram-se em sua carne, o grito morreu em sua garganta.
A dor veio primeiro, perfurante, insuportável, depois, aos poucos, deu lugar a uma sensação estranha, doce e entorpecente, como se algo dentro dele se rendesse.
O mundo ficou distante, o som dos grilos e do vento parecendo dissolver-se na escuridão.
E conforme o homem sugava seu sangue, Hoseok sentiu a vida se esvair, mas também algo bom e perigoso nascer dentro de si, uma sensação de êxtase.
Quando Hoseok fechou os olhos, aceitando o fim, algo inesperado aconteceu.
O corpo que o prendia foi arremessado violentamente para longe, caindo entre as folhas secas com um estrondo.
Mingi surgiu como um raio, movido pela fúria e pelo desespero. Com um chute preciso nas costelas do homem de presas afiadas, conseguiu afastá-lo de Hoseok.
— Sai de perto dele! — gritou, posicionando-se à frente do ruivo, o corpo tenso e pronto para lutar.
O homem se ergueu lentamente, com um sorriso cruel manchando o rosto. A boca suja do sangue de Hoseok brilhava à luz da lua.
Mingi manteve a postura, o coração disparado, mas determinado a não recuar.
Para seu desespero, o chute não parecia ter causado nenhum dano. O homem apenas o observava, os olhos vermelhos como brasas, estudando-o como um caçador calcula seu próximo movimento.
Depois de alguns segundos de silêncio mortal, o estranho desviou o olhar para Hoseok e depois para a direção em que Adam havia fugido.
Um meio sorriso distorceu-lhe os lábios, escolheu um novo alvo. Sabia que enfrentar Mingi seria muito difícil. Além de parecer forte, sentiu que Mingi tinha afeição por Hoseok. O nativo sabia que o amor humano era capaz de dar forças.
Sem dizer uma única palavra, ele se virou e desapareceu na mata, movendo-se com a leveza de uma sombra.
Mingi caiu de joelhos ao lado de Hoseok, o coração ainda martelando no peito.
— Tá tudo bem… eu tô aqui agora — murmurou, tocando o rosto pálido do ruivo.
Mingi soltou o ar, o corpo inteiro tremendo com o alívio. Sabia que não teria vencido aquele homem, ou o que quer que fosse, mas pelo menos havia conseguido salvar Hoseok.
Sem dizer uma palavra, ele se virou para Hoseok e começou a desamarrá-lo, as mãos trêmulas e sujas de terra. Queria fazer mil perguntas, mas sabia que não era hora. Hoseok parecia atordoado, os olhos semicerrados e a respiração fraca, como se estivesse sob efeito de alguma droga.
Assim que o libertou, o corpo do ruivo cedeu e caiu mole em seu colo. Mingi o segurou com cuidado, desesperado para mantê-lo consciente. Tirou a própria blusa e o cobriu, tentando estancar o fino filete de sangue que escorria dos dois pequenos furos em seu pescoço.
— Aguenta firme, Hobi… — sussurrou, pressionando o tecido contra o ferimento.
O desespero lhe queimava o peito, mas ele não permitiria que Hoseok morresse ali. Com um último olhar para a floresta sombria, Mingi o ergueu nos braços e correu.
Correu sem olhar para trás, tropeçando entre as pedras e os galhos, o coração batendo no ritmo frenético do medo.
Precisava chegar à caverna. Precisava de Jin. Ele saberia o que fazer.
…
— Ele vai ficar bem — Jin disse com a voz serena, tentando acalmar Mingi, que segurava firme a mão de Hoseok. O ruivo ainda estava pálido, respirando com dificuldade, e Mingi parecia prestes a desabar.
— Ainda bem que não precisou de transfusão — continuou Jin, examinando o curativo no pescoço — Isso seria complicado aqui. Seja lá o que for que fez isso com ele, não conseguiu sugar muito sangue. Você chegou a tempo. Ele só vai ficar com uma pequena cicatriz.
Mingi soltou um longo suspiro, o rosto abatido.
— Eu não devia ter deixado ele sozinho… — murmurou — Não vou mais desgrudar dele, nunca mais.
Jin sorriu de leve, aliviando o peso do momento.
— Fofos — disse baixinho, com um tom divertido — Cuida dele pra mim, tá? Caso ele acorde e eu não esteja por perto. Preciso verificar uma coisa importante.
— Pode deixar. Eu vou cuidar dele. E não saio daqui nem que o mundo acabe.
— Yoongi e Namjoon estarão por perto se precisar de ajuda.
Mingi assentiu, os olhos marejados.
— Jin… obrigado. Obrigado por salvar ele.
Jin sorriu, pousando a mão na cabeça de Mingi num gesto afetuoso.
— É o que eu gosto de fazer — disse com ternura. — Salvar pessoas.
Deu-lhe um último olhar reconfortante antes de se levantar e sair da caverna, deixando Mingi sozinho com o som da respiração frágil de Hoseok e o crepitar distante da fogueira.
…
— Taehyung, eu sou médico, já vi de tudo. Não me impressiono com qualquer coisa — disse Jin, caminhando com calma entre as árvores.
— Jin, isso não é qualquer coisa, acredite. Eu sou policial, já presenciei cenas de crime horríveis, corpos mutilados, mas isso… — Taehyung balançou a cabeça, visivelmente perturbado.
— Você o encontrou hoje de manhã? — Jin perguntou, franzindo o cenho.
— Sim. Estava patrulhando a área quando achei o corpo.
Jin não respondeu. O tom grave de Taehyung e o olhar tenso bastavam para deixá-lo em alerta. Seguiram em silêncio pela mata por cerca de meia hora, até que o ar começou a ficar pesado. O cheiro pútrido invadiu as narinas de Jin, o tipo de odor que ele conhecia bem, mas aquele em especial parecia diferente.
O médico levou a mão ao rosto, tentando conter o enjoo.
Quando chegaram, Jin parou. Por um instante, o tempo pareceu se dissolver. Diante deles, jazia o corpo, ou o que restava dele.
A pele estava enrugada, seca e esbranquiçada, como uma uva passa. As veias sumiram, os músculos haviam murchado. O corpo parecia ter encolhido, reduzido a um casulo vazio e sem vida de onde todo o sangue havia sido drenado.
Não havia sinais de luta, nem ferimentos, nem hematomas. Apenas dois pequenos furos no pescoço.
Jin se abaixou, examinando os detalhes com atenção médica e um arrepio involuntário subindo-lhe pela espinha.
— Isso é assustador. Todo o sangue foi sugado — murmurou, quase para si mesmo. — E ele... não reagiu.
Taehyung o observava em silêncio, o rosto contraído.
— Foi assim que eu o encontrei — disse, a voz rouca. — Parecia... calmo. Como se tivesse morrido dormindo.
Jin respirou fundo e olhou novamente para o rosto do cadáver, ou o que restava dele.
Mesmo deformado e sem vida, ainda dava para reconhecer.
— Adam — sussurrou, chocado.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. O som das folhas balançando parecia distante. Taehyung desviou o olhar, engolindo em seco.
— Seja lá o que fez isso… não é humano.
Jin permaneceu imóvel, fitando o corpo ressequido do homem que, um dia, fora alto, forte e bonito. Agora, era apenas uma casca vazia.
E, pela primeira vez desde o acidente, Jin sentiu algo que nem a medicina nem a razão podiam explicar: medo genuíno.
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