A Ilha
33 Uma chance
Notas iniciais

Ha Jun sustentou um olhar sério sobre Jungkook enquanto levava a xícara aos lábios para mais um gole de sua bebida. Do outro lado da mesa, Jungkook o observava com expectativa. Desde criança, sempre teve curiosidade em descobrir como seu pai conseguia entrar e sair da ilha, algo que parecia impossível para qualquer outra pessoa.
— Filho, você sabe que esta ilha é protegida por uma magia ancestral extremamente poderosa, não sabe?
— Sim, pai, eu sei. Nossos ancestrais dominavam a magia e, quando se refugiaram aqui para fugir da ganância dos humanos, usaram todo o poder do nosso povo para proteger este lugar. Foi por isso que a magia desapareceu de nossas mãos. Ela passou a existir apenas na própria ilha. Desde então, ninguém consegue entrar ou sair daqui livremente. Os mares são protegidos por esse feitiço, e qualquer embarcação que tente atravessá-los acaba sendo destruída. A única exceção sempre foi o senhor... e eu realmente nunca entendi como consegue fazer isso.
Ha Jun assentiu lentamente.
— É justamente isso que você vai descobrir hoje. Chegou a hora de eu lhe confiar todos os segredos desta ilha. Confesso que já estou cansado dessa rotina. Durante muitos anos carreguei sozinho a responsabilidade de proteger nosso povo, mas chegou o momento de descansar. Quero me aposentar dessas funções e desejo que seja você quem assuma meu lugar como líder dos Jeon.
Jungkook permaneceu em silêncio por alguns instantes, absorvendo o peso daquelas palavras.
— O senhor realmente acredita que eu sou capaz de carregar uma responsabilidade tão grande?
Ha Jun sorriu com serenidade.
— Você é meu filho. Eu o vi crescer, conheço seu caráter e sei da bondade que existe no seu coração. Você é muito mais forte e mais sábio do que imagina. Tenho certeza de que está destinado a realizar coisas grandiosas.
Jungkook sentiu o peito aquecer. A confiança que seu pai depositava nele valia mais do que qualquer título.
— Obrigado, pai.
Um sorriso genuíno, cheio de orgulho e gratidão, iluminou seu rosto.
— Bem, agora vamos ao que realmente importa. Antes de qualquer coisa, preciso que responda uma pergunta. A resposta será fundamental para que esta missão tenha alguma chance de dar certo.
— Sim, pai. Pode perguntar o que quiser.
— Você realmente ama o senhor Park Jimin? Ele é, de fato, a sua alma gêmea?
Jungkook estranhou a pergunta. Não conseguia compreender como o fato de Jimin ser ou não sua alma gêmea poderia influenciar na forma de deixar a ilha.
— Sim, pai. Jimin é minha alma gêmea. Eu o amo de todo o meu coração e foi ele quem eu escolhi amar para o resto da minha vida.
Ha Jun assentiu lentamente, satisfeito.
— Ótimo. Tendo essa certeza bem definida, podemos prosseguir com o plano.
— Mas, pai... o que isso tem a ver?
Ha Jun apoiou a xícara sobre a mesa antes de responder.
— Filho, para o nosso povo, o amor jamais foi apenas um compromisso entre duas pessoas, muito menos um simples status de relacionamento. O amor é uma força viva. Ele transforma quem ama e também transforma o mundo ao seu redor. Vai muito além do corpo ou dos sentimentos. O verdadeiro amor é a manifestação mais pura da magia. Uma magia capaz de fortalecer outra, de moldá-la, de despertar seu potencial e até de transformá-la. A própria proteção desta ilha nasceu desse princípio. Nossos ancestrais entregaram toda a magia que possuíam porque desejavam proteger aqueles que amavam da crueldade e da ganância do mundo humano. Foi esse amor que tornou o feitiço praticamente inquebrável.
Jungkook permaneceu alguns segundos em silêncio, tentando organizar tudo o que acabara de ouvir.
— Mas... como o meu amor pelo Jimin poderia quebrar essa magia de proteção?
Ha Jun sorriu discretamente e balançou a cabeça.
— Veja bem, filho. Você ainda não acompanhou o meu raciocínio. Não será você quem quebrará a magia da ilha. — Ele fez uma breve pausa antes de concluir — Você irá convencê-la de que é digno de sucedê-la. De que é a pessoa certa para se tornar o novo líder e guardião desta ilha.
— E como eu posso fazer isso?
— Aí é que começa a parte complicada. — Ha Jun pegou o grande mapa da ilha e o desenrolou sobre a mesa. Em seguida, apontou para um pequeno círculo desenhado na região norte. — Está vendo este ponto aqui?
Jungkook aproximou-se para observar com mais atenção o local indicado pelo dedo do pai.
— Sim. É a grande torre de pedra que fica ao norte da ilha.
— Exatamente. A Torre do Norte é o coração dessa ilha. É lá que repousa toda a fonte da magia que protege nosso povo. E é justamente para lá que você precisa ir.
— Mas aquela região pertence aos Muller's. — Jungkook franziu a testa. — Para ser sincero, não entendi por que eles permanecem justamente naquele lugar. Se a torre é tão importante, ela deveria ser protegida por alguém de confiança.
Ha Jun sorriu discretamente.
— E é exatamente isso que eles fazem.
— Mas os Muller's... eles são...
— Maus? — Ha Jun completou, soltando uma breve risada. — De certa forma, sim. Eles escolheram um caminho diferente do nosso. Mas nunca se esqueça que eles continuam sendo nossos irmãos.
— Pai, eles são violentos. Matam qualquer um sem o menor remorso.
Ha Jun permaneceu em silêncio por alguns segundos antes de responder.
— Você sabe por que eles se tornaram assim? Ou acredita que nossos ancestrais criaram toda esta magia apenas por capricho? Os Muller's e os Jeon's caminharam lado a lado desde o princípio. Foram os dois clãs que uniram suas forças para erguer esta ilha e transformá-la em um refúgio seguro para seus descendentes, longe da perseguição humana. Nossos antepassados sofreram atrocidades inimagináveis nas mãos de homens corruptos, dominados pelo medo e pela ganância. Eu não odeio os humanos, filho. Nunca os odiei. Seria injusto generalizar. Sei que existem pessoas boas, como os seus amigos. Mas também sei do que a humanidade é capaz quando permite que o medo fale mais alto do que a compaixão. Durante toda a minha vida, minha prioridade sempre foi garantir que o nosso povo estivesse seguro. Ainda alimento o sonho de ver humanos e vampiros vivendo em harmonia, compartilhando a mesma sociedade sem medo uns dos outros. Mas, antes que esse dia chegue, preciso ter a certeza de que essa convivência será verdadeiramente segura para todos nós.
— Nunca tinha pensado por esse lado. Às vezes, acabo enxergando os Muller's apenas como inimigos.
— Bem, também não espere sentar para tomar uma xícara de chá com eles. — Ha Jun sorriu de leve. — Você já conhece sua natureza. Eles são violentos, impulsivos e nada fraternais. Ainda assim, durante séculos aprendemos a coexistir. Cada povo respeita os limites do outro, e esse equilíbrio sempre manteve a ilha em paz. Bruce Muller, como líder de seu clã, também possui o direito de deixar a ilha, assim como eu. No entanto, ele abriu mão desse privilégio. Não desejava manter qualquer contato com os humanos e... também porque sua alma gêmea o abandonou.
Jungkook arregalou os olhos, completamente surpreso.
— Bruce Muller... já amou alguém?
— Sim. — Ha Jun respondeu calmamente. — E amou profundamente. Mas essa é uma história que não cabe a mim contar. Talvez um dia você a conheça. Por enquanto, o que realmente importa é outra coisa. Para conseguir levar seus amigos para fora da ilha, você precisará se tornar o novo líder do nosso povo. Eu poderia realizar essa travessia por eles, mas, há alguns anos, percebo que a magia da ilha já não responde a mim como antes. Ela está se afastando pouco a pouco. A ilha deseja um novo guardião.
— Então é simples. Basta o senhor me nomear como seu sucessor, não é?
Ha Jun balançou a cabeça lentamente.
— Não. Não funciona assim. Nenhum líder escolhe o próximo. É a própria ilha quem faz essa escolha. Por isso você precisará ir até a Torre do Norte, o verdadeiro coração deste lugar. Lá, a magia dos nossos ancestrais colocará você à prova. As provações revelarão se você é digno ou não de carregar o legado dos Jeon e se a ilha o reconhece como seu novo líder. Diga-me, filho... você acredita que consegue enfrentar esse desafio?
Jungkook respirou profundamente. Havia muito mais em jogo do que apenas uma sucessão. Embora desejasse passar o resto de sua existência ao lado de Jimin, acima de qualquer desejo pessoal estava a felicidade dele. Se o lugar de Jimin fosse no mundo dos humanos, Jungkook faria tudo o que estivesse ao seu alcance para levá-lo de volta, mesmo que isso significasse colocá-lo no caminho para longe de si.
— Consigo! — respondeu com convicção. — Só preciso que o senhor mantenha o Jimin em segurança enquanto eu faço isso.
— É justamente aí que está a questão. Lembra quando eu disse que o amor é a maior de todas as magias? Pois bem, Jimin precisará acompanhá-lo nessa jornada. Somente o amor compartilhado entre duas almas gêmeas é capaz de fazer com que a magia da ilha os reconheça e se torne sua aliada.
— Eu não posso levar o Jimin para um lugar tão perigoso. Não quero que ele se machuque.
— Não subestime o jovem arqueólogo. — Ha Jun sorriu discretamente. — Pelo pouco que conversei com ele, enxerguei uma força rara em seus olhos. Jimin ama a vida com intensidade. Ama descobrir, aprender, proteger e cuidar das pessoas ao seu redor. É justamente essa paixão que o torna forte. Confie nele. Só assim vocês terão uma chance de concluir essa jornada e encontrar um caminho seguro para deixar a ilha.
Sentindo um peso esmagador sobre os ombros, Jungkook baixou o olhar. A última coisa que desejava era colocar Jimin em perigo. Estava disposto a enfrentar qualquer provação, qualquer batalha e até a sacrificar a própria vida para protegê-lo. Mas aceitar que o homem que amava precisaria caminhar ao seu lado rumo ao desconhecido era uma decisão muito mais difícil.
— Que tipo de provações são essas?
— Não posso responder. — Ha Jun balançou a cabeça lentamente. — A magia da ilha muda suas provas a cada geração. Quando sua mãe e eu percorremos esse caminho, enfrentamos desafios relativamente simples. Já seus avós quase perderam a vida antes de serem reconhecidos como líderes. Ninguém consegue prever o que encontrará na Torre do Norte. Esse é um risco que você precisará aceitar caso realmente deseje se tornar o novo guardião da ilha e conduzir Jimin para casa em segurança.
Jungkook soltou um longo suspiro. Percebeu que o maior desafio de sua vida ainda nem havia começado.
— Vou conversar com o Jimin e ver o que ele acha de tudo isso.
— Façam isso. Depois me contem qual foi a decisão de vocês. Se realmente escolherem seguir para a Torre do Norte, eu providenciarei tudo o que precisarem para a viagem.
— Obrigado, pai. — Jungkook sorriu discretamente antes de deixar o escritório, embora o peso daquela responsabilidade continuasse apertando seu peito.
Quando entrou no quarto, encontrou Jimin deitado na cama, completamente concentrado em alguns livros antigos que havia trazido da biblioteca mais cedo.
— Kookie! — exclamou animado. Fechou o livro imediatamente e engatinhou até a beira da cama para abraçá-lo. — Eu já estava morrendo de saudades.
Jungkook retribuiu o abraço por apenas um instante, mas logo se afastou. Seu semblante sério foi suficiente para fazer Jimin perceber que algo estava errado.
— Conversei com o meu pai sobre uma forma de vocês conseguirem sair da ilha.
— E... pelo jeito, a resposta não foi muito animadora, né?
Ainda abatido, Jungkook começou a explicar tudo o que Ha Jun lhe contou. Falou sobre a magia ancestral, o coração da ilha, a Torre do Norte, as provações e o papel das almas gêmeas naquele processo. Enquanto ele narrava cada detalhe com preocupação, Jimin o escutava com os olhos brilhando de fascínio, como uma criança ouvindo a história mais incrível de sua vida.
— E é por isso que você precisa ir comigo até a Torre do Norte. Só assim teremos alguma chance de superar essas provas. Mas eu realmente não queria pedir isso a você, Jimin-ssi. Não quero colocar sua vida em risco.
— Ei... — Jimin aproximou-se e segurou delicadamente o rosto de Jungkook entre as mãos. — Se você vai, eu também vou. Não existe a menor possibilidade de eu deixar você enfrentar tudo isso sozinho. E, além do mais, você está esquecendo o detalhe mais importante dessa história.
— Que você me ama, que é a minha alma gêmea e que o nosso amor é forte o bastante para convencer a magia da ilha?
Jimin fez uma careta.
— Não. Que bobagem. — Abriu um sorriso convencido e cruzou os braços. — O detalhe mais importante é que eu sou o grande arqueólogo Park Jimin. Já sobrevivi a tiros, quedas de avião, florestas, vampiros, monstros e a um monte de coisas que nem vale a pena listar. Lara Croft ficaria com inveja do meu currículo. Então trate de arrumar as malas, porque amanhã nós vamos conquistar essa torre.
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