A Ilha

21 Prazer em finalmente conhecê-lo



— Peguei você!

Jimin o encarava com um olhar desafiador, montado sobre Jungkook como se tivesse acabado de capturar uma criatura rara. Não pretendia deixá-lo escapar tão cedo.

Jungkook sorriu, tranquilo. Se quisesse, sairia dali sem esforço algum. Mas não queria.

— É… você me pegou.

— Então você fala o meu idioma? — Jimin perguntou, estreitando os olhos, desconfiado.

— Falo, sim. E outros também. Mas o coreano é a minha língua materna.

Jimin fez um leve bico, claramente insatisfeito.

— E por que nunca me respondeu, então? — disparou, sem dar espaço — Você esteve comigo todos esses dias, não esteve? Quem é você? Você mora aqui? Que lugar é esse?

As perguntas saíam atropeladas, uma em cima da outra, até Jimin precisar puxar o ar, sem fôlego.

— Eu vou responder tudo — Jungkook disse com calma — Mas vamos devagar. Uma pergunta de cada vez.

Com naturalidade, ele se soltou e deslizou as mãos pelas laterais do corpo de Jimin, até alcançar sua cintura. O toque foi breve, mas o suficiente para fazer Jimin estremecer e sair de cima dele imediatamente, o rosto corando de leve.

— Então… — Jungkook completou, com um meio sorriso — O que você quer saber primeiro?

Jimin o encarou por alguns segundos, pensativo, organizando o caos de perguntas na cabeça.

— Primeiro… qual é o seu nome?

— Meu nome? — Jungkook pareceu genuinamente surpreso — Achei que você perguntaria algo mais urgente.

Fez uma pausa curta antes de responder:

— Meu nome é Jeon Jungkook.

— Jeon Jungkook… — Jimin repetiu devagar, testando o nome na boca, como se procurasse algum significado oculto — É coreano mesmo… então você é coreano?

— De certa forma — respondeu Jungkook, enigmático.

— Hm… — Jimin levou a mão ao queixo, ainda mais intrigado — Tá, outra pergunta importante: eu morri? Isso aqui é o céu? Ou tipo… um limbo?

Jungkook riu, baixo e sincero.

— Não. Você não morreu — disse, aproximando-se um pouco — Está muito vivo, inclusive. Posso sentir seu coração batendo.

Jimin arqueou a sobrancelha. Aquilo era estranho. Muito estranho. Mas resolveu levar na ironia, por enquanto.

— Ok… se eu estou vivo, então… — Jimin passou a mão pelos cabelos, tentando organizar os pensamentos — estamos em outra dimensão? Tipo outro planeta? Ou outra época? No passado, talvez?

Seu olhar caiu nas roupas estranhas de Jungkook, analisando cada detalhe com atenção.

— Outra dimensão? — Jungkook riu de leve, quase divertido — Não, não. Estamos no seu mundo. E na sua época.

— Estamos em 2022, né? — Jimin perguntou sério — Só pra confirmar que eu não enlouqueci de vez.

— Sim, Jimin. É 2022.

— Então… — Jimin apontou com o queixo para ele — por que você se veste assim?

— É a nossa cultura — Jungkook respondeu com naturalidade.

— “Nossa cultura”? — Jimin arregalou levemente os olhos — Tipo… do seu povo?

— Sim. Do meu povo.

Jimin respirou fundo, sentindo a cabeça latejar. Era informação demais para pouco tempo. Sentia que cada resposta abria mais perguntas.

— Certo… — murmurou, tentando manter a calma — Senhor Jeon Jungkook… onde você mora tem internet? Wi-Fi? Um telefone? Qualquer coisa? — Seu tom mudou, ficando mais urgente. — Nosso avião caiu nessa ilha. Tem pessoas feridas. A gente precisa de resgate.

Jungkook o observou em silêncio por um instante. O olhar dele suavizou.

— Eu sei da queda — disse por fim — Sei de tudo o que aconteceu.

Os olhos de Jimin brilharam com esperança.

— Então você pode ajudar — disse rapidamente — Por favor. Você já me ajudou tanto, me ajuda com isso também. Depois eu prometo que não te incomodo mais.

Jungkook suspirou baixo, quase triste.

— Não é falta de vontade, Jimin — falou com sinceridade — Eu te ajudaria no que fosse preciso. — Fez uma pausa antes de completar — Mas aqui não existe sinal de telefone. Nenhum tipo de comunicação com o mundo exterior.

O silêncio que se seguiu foi pesado. Jimin engoliu em seco. E, pela primeira vez, percebeu que talvez sair daquela ilha não fosse tão simples quanto imaginava.

— Eu não consigo acreditar nisso… — Jimin passou a mão pelo rosto, ainda atordoado — Vocês não têm internet, nem telefone, nem nada?

— Não — Jungkook respondeu com calma — Não precisamos. E não queremos contato com o mundo exterior.

— Mas por quê?

— Para nos proteger.

A resposta curta só fez a curiosidade de Jimin crescer.

— Proteger de quê? — insistiu — Alguém fez mal a vocês?

Jungkook desviou o olhar por um instante antes de responder.

— A mim, diretamente, não. Mas aos meus antepassados… sim.

— O que fizeram com eles?

— Nos perseguiram. Nos caçaram. Assassinaram milhares — sua voz permaneceu firme, mas havia algo pesado por trás dela — Inclusive crianças.

O estômago de Jimin se revirou.

— Isso é… horrível — murmurou. Conhecia bem a crueldade humana, sabia do que eram capazes quando decidiam que alguém não merecia existir — Mas… vocês estão aqui desde então?

— Sim. Vivemos aqui há décadas. Eu nasci nesta ilha — Jungkook o encarou — Para mim, este lugar é o mundo.

Jimin ficou em silêncio por alguns segundos, tentando digerir aquilo.

— Mas… — começou, hesitante — vocês não podem simplesmente viver isolados assim. O mundo lá fora está um caos, e…

— Nós sabemos — Jungkook o interrompeu — Sabemos sobre a pandemia que matou milhões. Sabemos da guerra entre Rússia e Ucrânia. Sabemos de tudo, Jimin.

Ele deu um pequeno sorriso, quase enigmático.

— Não é porque escolhemos não viver no mundo que deixamos de observá-lo.

Jimin abaixou o olhar, pensativo.

— Mas você disse que nunca saiu daqui — Jimin cruzou os braços, confuso — Então como sabe de tudo isso? Ainda mais sem nenhum meio de comunicação.

— Meu pai sai — Jungkook respondeu com naturalidade — De tempos em tempos, ele vai ao mundo exterior para se manter informado.

Os olhos de Jimin brilharam.

— Então existe um jeito de sair daqui.

— Existe — Jungkook assentiu — Mas eu não faço ideia de como. Só ele sabe. Como líder do nosso povo, essa é a responsabilidade dele: observar o mundo, para nos proteger dele.

Jimin respirou fundo, organizando os pensamentos.

— Certo. Até aqui eu acompanhei. Mas agora vem a pergunta mais importante… — ergueu o olhar, sério — Por que exatamente seus antepassados foram perseguidos?

Jungkook não respondeu de imediato.

— Porque somos diferentes.

Um arrepio percorreu a espinha de Jimin.

— Diferentes como? — perguntou com cautela — Isso tem a ver com você ter me chamado de “refeição”? — ele franziu o cenho — Vocês são… canibais?

O silêncio que se seguiu foi pesado o suficiente para fazê-lo considerar fugir dali.

— Não — Jungkook disse por fim — Tecnicamente, não.

— Eu definitivamente não gostei desse “tecnicamente” — Jimin retrucou, tenso — Explica isso.

Jungkook soltou um suspiro lento, como quem escolhe as palavras com cuidado.

— Talvez seja difícil de acreditar — disse — Humanos costumam ser… céticos.

— Sim, são mesmo, no geral — Jimin respondeu de imediato — Mas eu não. Já estudei mitos, lendas, crenças antigas. Já vi coisas demais para achar que o mundo é só o que parece. — Deu um meio sorriso — Tenho a mente bem aberta, pode confiar.

Jungkook o observou por alguns segundos em silêncio. Então sorriu. Mas não era um sorriso leve. Havia algo melancólico nele.

— Jimin… — Jungkook falou com seriedade — Essa ilha é perigosa para você e para os seus amigos. Sinceramente, duvido muito que consigam sobreviver por muito tempo.

O coração de Jimin acelerou.

— Eles estão sendo mantidos vivos apenas para… — Jungkook hesitou por um segundo — como posso dizer isso de um jeito gentil? Para permanecerem “conservados”. Com o sangue fresco.

Jimin se levantou num salto, o susto tomando conta do corpo inteiro.

— Eu sabia, vocês são canibais mesmo!

Antes que pudesse se afastar, Jungkook o segurou pelo pulso.

— Ei, calma — disse com firmeza, mas sem agressividade — Eu não vou te machucar. Se quisesse, já teria feito.

Jimin engoliu em seco.

— Então por que não fez?

Jungkook o encarou, sério.

— Primeiro porque eu… gosto de você. E segundo porque o meu povo não age assim.

Jimin franziu o cenho.

— Assim como? Bebendo sangue humano? Por que não?

Jungkook inclinou a cabeça, pensativo, procurando a melhor analogia.

— É como batata frita pra vocês.

— Batata frita? — Jimin piscou, confuso.

— Sim — Jungkook assentiu — É gostoso, viciante… mas faz mal. Entope as veias. No nosso caso, beber sangue humano atrofia o cérebro. Nada pessoal.

Jimin cruzou os braços, ofendido.

— Eu me sinto profundamente insultado por saber que meu sangue não é nem bebível — disse com sarcasmo, um sorrisinho torto surgindo nos lábios. — Mas então… — ergueu uma sobrancelha — você é um vampiro?

Jungkook não respondeu de imediato.

— Então isso aqui é uma ilha de vampiros? — perguntou Jimin de braços cruzados.

— Eu fico um pouco receoso com a imagem que você possa ter de vampiros — Jungkook admitiu — Filmes e livros não são muito fiéis. Não, nós não brilhamos no sol nem nada do tipo. Embora… — deu um sorriso breve — o Drácula seja legal.

Jimin soltou um riso nervoso.

— Como eu disse antes — Jungkook continuou, agora mais sério — eu e o meu povo não bebemos sangue humano porque prezamos por manter nossas faculdades mentais intactas. O sangue humano transforma quem o consome. Torna o indivíduo mais instintivo, irracional e agressivo. As emoções se perdem aos poucos.

Ele fez uma pausa.

— É um processo gradativo. E varia de organismo para organismo. Ainda assim… preferimos não arriscar.

Jimin engoliu em seco.

— Mas… — Jungkook prosseguiu — não somos os únicos que vivem nesta ilha. Nós a dividimos com nossos vizinhos do sul. E eles… — respirou fundo — não são nada amigáveis.

— Do sul… — Jimin murmurou, juntando as peças. — Eles se alimentam de sangue humano, não é?

Jungkook assentiu.

— Nós os chamamos de sugadores.

O silêncio caiu pesado entre eles.

— Espera… — Jimin falou rápido — se eles ficam no sul, então meus amigos estão seguros na praia, certo?

Os lábios de Jungkook se contraíram.

— Sinto muito, mas não. Apesar de preferirem o clima frio das cavernas do sul, eles caçam sempre que há humanos na ilha. Em qualquer região. — Ele hesitou. — Exceto na minha cidade.

O coração de Jimin afundou.

— Meus amigos estão em perigo… — sussurrou, sentindo o peito apertar, a respiração falhar.

Então levantou o olhar, decidido, com uma firmeza que Jungkook não esperava.

— Precisamos salvá-los.

Jungkook o encarou, surpreso.

— Eu te ajudo no que for preciso — disse com honestidade — mas… como você imagina fazer isso?

Jimin respirou fundo, organizando os pensamentos.

— Podemos levá-los provisoriamente para a sua cidade. Pelo menos até encontrarmos um jeito de sair daqui. — Fez uma pausa. — Eu sei que só o seu pai conhece a forma de sair da ilha, mas se eu falar com ele… posso tentar convencê-lo.

Jungkook soltou um riso baixo, nada animador.

— Convencer meu pai?

O sorriso que surgiu em seu rosto deixava claro que aquilo não seria simples, mas Jimin sustentou o olhar, teimoso. Ele não desistiria.