A Ilha
2 Pouso de emergência

Com rispidez, Adam ordenou que Hoseok saísse da cabine e voltasse para seu lugar. Hoseok não pensou duas vezes. Virou-se e correu dali o mais rápido que pôde. A turbulência estava prestes a começar.
— Atenção, senhores passageiros. Passaremos por uma turbulência. Sentem-se em seus assentos e coloquem os cintos.
A voz de Adam ecoou pelo avião, fria e profissional. Mas o medo estampado nos rostos dos passageiros deixava claro que ninguém estava tranquilo. Ainda assim, todos obedeceram imediatamente.
Hoseok se jogou no primeiro assento vazio que encontrou, ao lado de Mingi, que o encarou com um olhar confuso, como se sentisse que algo naquela turbulência não era normal. Hoseok engoliu em seco e prendeu o cinto, os dedos se agarrando com força ao apoio de braço. Ele não era comissário de bordo. E, pior ainda, tinha medo de voar. Especialmente com turbulência.
Mais atrás, Jin precisou tomar o notebook de Namjoon para que ele finalmente percebesse que estavam prestes a entrar em uma turbulência.
Namjoon lançou um olhar irritado, pronto para protestar, mas o avião tremeu abruptamente, fazendo-o mudar de ideia. Definitivamente não era um momento propício para trabalhar. Com um suspiro resignado, guardou o notebook, apertou o cinto e cruzou os braços, fechando os olhos enquanto esperava tudo passar. Jin o observou por um momento antes de suspirar. Estava com medo. Tudo o que queria era que seu marido segurasse sua mão.
Enquanto isso, Taehyung verificava se Jimin e Yoongi estavam devidamente presos no assento. Yoongi percebeu sua preocupação e, para surpresa de Taehyung, sorriu.
Uma voz feminina, gravada, repetia incessantemente as orientações de emergência, alertando sobre procedimentos caso o avião precisasse fazer um pouso forçado. Aquilo só deixava os passageiros ainda mais aflitos.
Então, o avião mergulhou na tempestade e a verdadeira turbulência começou.
Na cabine, Adam suou frio. Seus dedos apertaram os controles com força enquanto fazia o possível para manter a aeronave estável. Mas aquela tempestade repentina não estava colaborando.
Lá fora, tudo era escuridão absoluta. A única coisa visível eram os clarões dos relâmpagos, rasgando as nuvens pesadas como lâminas afiadas. O avião sacudiu violentamente. E Adam sabia que estava perdendo o controle.
O copiloto estava em desespero absoluto. Lágrimas escorriam por seu rosto enquanto ele tentava, em vão, manter a compostura. Mas o pânico já o dominava. Sem paciência para lidar com aquilo, Adam desferiu um soco no rosto do homem.
— Se controla, porra!
O copiloto engasgou um soluço, atordoado, mas o silêncio forçado era tudo o que Adam precisava. Ele tinha que pousar aquele avião. De preferência, inteiro. Não que se importasse com as duzentas vidas a bordo. Ele só se importava com a própria pele.
De repente, várias luzes no painel começaram a piscar freneticamente. Uma pane no sistema. O avião estava perdendo controle, mas não era só a tempestade. Algo parecia puxá-lo, como se um ímã invisível estivesse atraindo.
Foi então que Adam sentiu um raio atingir uma das asas. O estrondo foi ensurdecedor. O avião chacoalhou violentamente, como se tivesse sido atingido por um soco colossal do céu. E, naquele momento, Adam percebeu…
Eles estavam caindo.
Gritos desesperados tomaram conta do avião quando os passageiros viram uma das asas em chamas.
Mas os gritos cessaram num instante. Porque, de repente, todos sentiram o estômago despencar. A aeronave perdeu altitude bruscamente, arrancando um frio na barriga tão intenso que parecia que seus órgãos tinham sido lançados para o cérebro.
Na cabine, Adam segurou o microfone com firmeza. Sua voz saiu calma, mesmo naquela situação.
— Senhores passageiros, estamos… caindo. Sim, caindo.
Não houve tempo para explicações. Sem rodeios, ele apenas ordenou:
— Coloquem as máscaras e fiquem em seus assentos. Cintos bem presos.
E então, o caos tomou conta. Foi tudo rápido demais.
Pela primeira vez em anos, Namjoon segurou a mão de Jin. As palavras ficaram presas sob a máscara de oxigênio, mas seus olhos disseram tudo. E Jin entendeu. Namjoon o amava. Naquele momento, enquanto caíam, Namjoon sentiu que não sobreviveriam. E tudo o que queria era uma segunda chance para demonstrar a Jin o quanto realmente o amava.
Do outro lado do avião, Hoseok entrelaçou seus dedos nos de Mingi. Nenhum dos dois disse nada. Nenhum deles se olhou. Mas sentiram o calor um do outro. E, naquele momento, isso foi o suficiente.
Yoongi não teve tempo para chorar. Mal conseguia respirar. O medo da morte iminente fazia seus pensamentos colidirem uns contra os outros, embaralhados em puro pânico.
Foi então que sentiu a mão de Taehyung apertando a sua. O gesto era firme e quente. Taehyung queria que ele soubesse que estava tudo bem. Ele não queria que Yoongi morresse pensando que ele o odiava, porque não era assim. Nunca odiou. Pelo contrário.
Na frente deles, Jimin era o único que permanecia calmo. Não tinha medo de morrer. Não tinha medo de nada. Aceitava que, se sua hora tivesse chegado, precisava estar pronto. Mas se havia algo que não queria, era morrer sozinho. E então, para sua surpresa, sentiu outra mão sobre a sua. Era Taehyung.
Jimin ergueu o olhar, mas Taehyung não disse nada. Não precisava. O toque falava por si só: ele não estava sozinho. E quando o avião colidiu contra o mar, Taehyung não soltou suas mãos. De um lado, Yoongi. À sua frente, Jimin. Taehyung não os soltaria por nada.
…
Jimin sentiu o impacto brutal do avião contra a superfície da água. Não se despedaçou por completo, o que provavelmente se devia às habilidades do piloto, que conseguiu, de alguma forma, realizar um pouso forçado.
Pelo menos, ainda estavam vivos. Ou quase. No caso de Jimin, isso poderia mudar a qualquer segundo.
O que restava do avião afundava rapidamente nas águas escuras do Pacífico. E, tragicamente, Jimin estava preso na parte que afundava. Preso entre destroços de ferro que logo seriam esquecidos no fundo do oceano.
A água subiu rápido, queimando seus pulmões com cada gole involuntário. O desespero tomou conta de seu corpo. Morrer afogado não estava nos seus planos.
Ele se debateu, lutou para se soltar, mas seus pés estavam presos em algo, e as algemas em seus pulsos tornava tudo ainda pior. A água o envolvia, sufocante. Seus pulmões queimavam. E o mundo ao seu redor escurecia.
Jimin procurou por ajuda, o olhar frenético varrendo o ambiente ao seu redor. Mas tudo ali embaixo era silêncio absoluto. Uma paz estranha. Imersa. Separada do mundo lá em cima.
Foi então que viu Taehyung. Ele lutava para soltar Yoongi, que também estava preso.
Os segundos se arrastavam como horas. A visão de Jimin já começava a escurecer.
Então, finalmente, Taehyung conseguiu soltar Yoongi e nadou para a superfície o mais rápido que pôde. Jimin assistiu os dois desaparecerem no azul infinito acima dele. E, naquele instante, soube que sua morte seria assim. Sozinho. Abandonado no fundo do mar. Se não estivesse se afogando, talvez tivesse rido da ironia. Um arqueólogo, ladrão, criminoso, que sobreviveu a tantos perigos… morrendo no fundo do oceano. Como o Titanic.
Jimin fechou os olhos e esperou a morte.
Mas ao invés disso, um puxão abrupto o acordou, era Taehyung tentando soltar Jimin e adiando sua morte. Ele usava uma faca e tentava desesperadamente soltar Jimin.
Jimin negou com a cabeça, não tinha mais o que fazer, se continuasse iriam morrer os dois, mas Taehyung insistiu. Jimin ja não aguentava mais, estava sem ar, sentia sua vida se dissolvendo naquele vasto mundo de água que o rodeava.
Então, Taehyung o encarou, segurou seu rosto e o beijou.
Não era exatamente um beijo. Pelo menos não do jeito que iria querer. Era uma tentativa de passar o pouco de ar que ele ainda tinha para Jimin. Então ele voltou a tentar soltá-lo.
Com um desespero avassalador e um esforço descomunal, Taehyung conseguiu soltar Jimin. Os dois nadaram com tudo o que tinham, rompendo a escuridão das águas em direção à superfície.
Quando finalmente emergiram, sugaram o ar com força, os pulmões queimando, famintos por oxigênio. O corpo inteiro tremia, a visão ainda turva, como se o mundo ao redor fosse apenas um borrão.
Aos poucos, os sentidos voltaram. O coração ainda martelava no peito, mas o choque começava a dar lugar à realidade.
Taehyung puxou Jimin, ajudando-o a se apoiar em um banco flutuante. Yoongi já estava lá, agarrado ao pedaço de destroço, tremendo de frio e ainda com o olhar assustado.
Jimin ergueu os olhos para o céu e franziu a testa. Não havia sinal da tempestade que derrubou o avião. Nenhuma única nuvem. O céu estava azul. O mar calmo como um lago. Pássaros voavam tranquilamente, como se nada de extraordinário tivesse acontecido. Algo estava errado.
O olhar de Jimin deslizou para o horizonte. E então, ele viu. Uma linha verde cortava o encontro do mar com o céu. Montanhas imponentes e uma vasta extensão de árvores contornavam uma praia desconhecida. Uma encosta. Mas… de qual país? Onde estavam?
Antes da queda, não havia nenhuma terra próxima. Nenhuma ilha. Nenhuma costa. Nada. Jimin não sabia onde tinham caído. Mas, por ora, estavam a salvo. Ou, pelo menos, era o que ele imaginava.
Fale com o autor