A Ilha
3 Caos

Quando finalmente conseguiram nadar até a praia, o que viram os deixou em choque.
Destroços espalhados por toda a areia. Corpos. Partes do avião. Malas abertas. Sapatos sem par.
O silêncio agora era mais aterrorizante que a queda.
Taehyung colocou Jimin com cuidado no chão e caiu de joelhos na areia molhada, completamente exausto. Seus músculos gritavam de dor. Havia nadado com Jimin por um longo tempo, e seus braços estavam moles, pesados, inutilizados.
Yoongi se sentou ao lado de Jimin, igualmente abalado, ofegante, com o olhar perdido no cenário de destruição ao redor.
— Vocês estão bem? — perguntou uma voz masculina. Um homem alto se aproximava, era evidente sua preocupação.
— Meu nome é Jin e sou médico.
— Estamos bem, obrigado, — respondeu Taehyung, ainda ofegante, pingando água salgada. — Sou policial. Tenho treinamento em primeiros socorros. Posso ajudar.
Jin abriu um sorriso aliviado.
— Graças a Deus. Precisamos de toda ajuda possível.
Taehyung assentiu, respirando fundo antes de se levantar com esforço. Virou-se para Yoongi e disse:
— Yoongi, fica aqui descansando e de olho nele. — Fez um gesto com a cabeça na direção de Jimin.
Yoongi apenas assentiu em silêncio. Estava cansado demais para falar.
Taehyung seguiu Jin até onde um rapaz gritava de dor com uma fratura exposta na perna. Apesar da gravidade da situação, Jin apontou para outra pessoa, inconsciente, caída logo ao lado.
— Veja ele primeiro. Pode estar com parada respiratória.
Sem hesitar, Taehyung se ajoelhou e começou as tentativas de reanimação, o olhar firme apesar do caos ao redor.
Do outro lado da praia, Namjoon lutava inutilmente com o celular, tentando ligar o aparelho encharcado.
— Namjoon! Precisamos de ajuda aqui! — gritou Jin, a voz impaciente.
Namjoon bufou, contrariado, e caminhou até ele.
— Estou tentando conseguir sinal. Alguém precisa pedir resgate ou pelo menos descobrir onde estamos.
— Precisamos de ajuda agora! — Jin cuspiu as palavras, sem disfarçar o nervosismo.
Namjoon congelou por um instante. Não era comum ouvir Jin daquele jeito. Jin sempre foi calmo, submisso, nunca elevava o tom com ele.
— Quando os feridos estiverem estabilizados, a gente pensa em resgate. Agora, me ajuda com isso. Segura ele. A dor vai ser excruciante.
Namjoon se ajoelhou ao lado e empalideceu ao ver o estado da perna do rapaz, o osso perfurava a pele de forma assustadora.
— E o policial que estava te ajudando? — murmurou, já sentindo o estômago embrulhar.
— Está reanimando outra vítima. Agora para de falar e me ajuda. — disse Jin, firme.
Namjoon engoliu em seco, colocou as mãos onde Jin indicou, e se preparou para o grito de dor que sabia que viria.
…
Mingi caminhava pela areia, procurando seus óculos e também por qualquer coisa útil que pudesse encontrar. Teve sorte. Achou uma bolsa com remédios e kits de primeiros socorros, todos bem embalados e protegidos da água. Em seguida, encontrou uma caixa com garrafas de água potável. Sorriu, aliviado. Era um pequeno milagre em meio ao caos.
Um pouco sem jeito, arrastou a caixa de garrafas de água, seguiu em direção ao local onde Jin e Taehyung cuidavam dos feridos. Mas, no caminho, seus olhos captaram algo familiar. Hoseok. O comissário de bordo ruivo estava sentado à beira da praia, ao lado do piloto, Adam.
Mingi sentiu um calor no peito ao ver que Hoseok havia sobrevivido. Estavam lado a lado quando o avião caiu, mas acabaram se separando quando o avião tragicamente mergulhou naquelas águas.
Adam e Hoseok pareciam estar conversando ou talvez discutindo. Mingi não tinha certeza. Havia perdido os óculos e sua visão à distância era péssima. Ainda assim, havia algo naquela cena que o deixou inquieto. Ele só não sabia o quê.
A verdade era que a conversa que Hoseok tinha com Adam estava longe de ser agradável.
Hoseok queria ajudar, fazer algo útil, sentir que era mais do que um peso. Mas a resposta de Adam foi curta, cruel e certeira como um tapa no rosto:
— Você é um garoto de programa. Não serve pra nada além de satisfazer um homem na cama.
Hoseok engoliu o choro como sempre fazia. No fundo, se convenceu de que merecia ouvir aquilo. Parte dele ainda acreditava que Adam estava certo.
Adam então se levantou e deu sua ordem final:
— Fique longe das outras pessoas. Vai procurar água e mantimentos, mas só pra nós dois. Entendeu?
Depois de despejar as palavras como veneno, Adam se afastou, em busca de qualquer coisa útil, especialmente algo que pudesse usar como arma.
Hoseok ficou parado por um momento, lutando contra o nó na garganta, até que alguém mais adiante chamou sua atenção. Mingi. Ele havia encontrado seus óculos, ainda sujos de areia. Mingi carregava uma grande caixa de garrafas de água. Hoseok hesitou. Talvez pudesse devolver os óculos. Talvez pudesse pedir um pouco de água. Um pequeno gesto que não parecia tão errado. Respirou fundo e se levantou. Foi ao encontro de Mingi.
— Mingi? — chamou Hoseok, com a voz baixa e gentil.
Mingi virou-se ao ouvir seu nome, apertando os olhos para enxergá-lo melhor.
— Hoseok! — reconheceu com um sorriso. — Você está bem?
— Bom… não é todo dia que a gente cai de um avião e sobrevive… mas estou vivo. — respondeu Hoseok com um meio sorriso.
Mingi deu uma risada breve e se aproximou, tocando o rosto do ruivo com delicadeza. Havia algumas escoriações ali, pequenas, mas visíveis.
— Você está machucado. Vem comigo até o Jin, ele pode te examinar.
— Não, não... está tudo bem. — Hoseok se afastou instintivamente. Mingi estava muito perto, e se Adam visse aquilo, não seria nada bom.
— Tem certeza? Não está sentindo nenhuma dor?
A pergunta o pegou de surpresa. Hoseok hesitou. Além de sua mãe, ninguém nunca havia demonstrado preocupação com ele assim.
— Não, estou bem... é... — ele abaixou um pouco o olhar, sem saber muito bem o que fazer com aquela gentileza. — Encontrei seus óculos. Pensei que talvez pudéssemos barganhar um pouco de água…
Estendeu a mão, oferecendo os óculos de volta. Mingi riu, sem ironia, só com um calor genuíno no sorriso.
— Não precisamos barganhar nada, Hoseok. Eu te daria uma garrafa de água de qualquer forma. Você precisa se manter hidratado.
Pegou os óculos, agradecendo com um sorriso sincero antes de colocá-los no rosto. Em seguida, pegou uma garrafa de água da caixa e entregou a Hoseok.
— Obrigado, mas… pode me dar mais uma? — Hoseok hesitou. — É pro… pro…
— Pro piloto? — Mingi completou, com o tom leve, quase brincalhão. — Ele é seu namorado?
Hoseok suspirou fundo. Não. Não eram namorados. Mas Adam o obrigava a dizer que eram para que evitasse que qualquer um se aproximasse.
— Sim… ele é meu namorado. — murmurou, com os olhos presos ao chão.
Mingi percebeu a mudança em seu tom, o desânimo que se espalhava como sombra em sua expressão. Sem questionar, apenas pegou outra garrafa de água.
— Aqui. Entregue isso para ele.
— Muito obrigado. — Hoseok tentou sorrir. Queria continuar ali, ao lado de Mingi, onde pela primeira vez se sentia seguro. Mas não podia. Se Adam visse...
— Preciso ir agora. — disse, virando-se para voltar onde Adam havia o deixado.
— Ei, Hoseok.
Hoseok parou e virou o rosto, encontrando os olhos gentis de Mingi.
— Se precisar de ajuda com qualquer coisa… qualquer coisa mesmo… pode me chamar, tá bem?
Mais uma vez, Hoseok engoliu o choro. Forçou um sorriso.
— Obrigado, Mingi.
E saiu apressadamente, o coração pesado. Mingi observou sua figura se afastar e franziu o cenho. Algo estava errado. Naquele cenário onde todos tentavam se ajudar, apenas Adam e Hoseok se mantinham isolados.
…
— Ah, qual é? Nosso avião acabou de cair e você ainda vai me manter preso? — Jimin choramingou, levantando os pulsos algemados.
— Vou sim. — Yoongi respondeu, sem hesitar. — São ordens do Tae.
— Você tem que fazer tudo o que ele manda? Você também é policial.
— Tae é meu superior. Então sim, sigo as ordens dele.
Jimin bufou, revirando os olhos com desdém.
— Você devia ter mais personalidade. Agir de acordo com suas vontades.
Yoongi arqueou uma sobrancelha.
— E a minha vontade é te manter preso. Independente das ordens do Tae.
Jimin ficou sem resposta por um segundo, depois resmungou:
— Pra quê tudo isso? — ergueu os pulsos algemados. — Eu posso ajudar! Sou arqueólogo e historiador… sei explorar uma floresta inóspita como ninguém. Posso descobrir onde estamos, se me soltar.
— Ah claro. — Yoongi sorriu com sarcasmo. — Vamos te soltar e deixar você perambulando livremente por aí. Excelente ideia.
Jimin franziu o nariz.
— Não precisa exagerar.
— Precisa sim. — Yoongi cruzou os braços. — Você é um dos criminosos mais procurados. Já fugiu várias vezes. Vai ficar algemado.
Jimin fez uma careta e virou o rosto.
— Vocês têm um protocolo terrível pra tratamento pós-trauma de acidente de avião — Jimin fechou a cara.
— Pelo menos não somos criminosos. — disse Yoongi, seco.
— Pelo menos eu não matei ninguém. — Jimin rebateu, num tom cortante demais até para ele.
As palavras caíram como pedras entre eles. Yoongi silenciou na hora. Jimin sabia o que estava dizendo. Sabia onde estava pisando. E ainda assim, foi fundo.
Yoongi não respondeu. Se dissesse qualquer coisa, iria chorar. E ele não queria chorar na frente de Jimin.
Jimin olhou para ele, e o que viu partiu seu coração. A expressão de Yoongi tinha mudado. Estava devastado. E foi ali que Jimin percebeu o que havia feito. Se arrependeu na mesma hora.
— Olha, eu… eu não quis dizer isso…
— Tá tudo bem, Jimin. — Yoongi interrompeu, a voz baixa, embargada. — Você tem razão. Eu sou um assassino.
Seus olhos, cheios de lágrimas, quebraram algo dentro de Jimin. Independentemente de tudo, Yoongi era o mocinho. E ele, o vilão. Era pra ser simples. Mas não era. Jimin sabia da história. Sabia que não era culpa dele. Sabia também que, mesmo assim, Yoongi se culpava. Todos os dias.
— Não foi culpa sua… foi um acidente.
Foram as únicas palavras que Jimin conseguiu dizer antes que o silêncio os envolvesse. Um silêncio triste, pesado e cheio de tudo o que ficou sem ser dito.
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