A Ilha
4 Negligência

… Uma semana antes da queda do avião …
Jin estava em sua sala, sentado diante de uma imensa parede de vidro que exibia a cidade inteira lá embaixo, iluminada como um mar de estrelas artificiais.
Segurava uma taça de vinho, girando o líquido lentamente, enquanto se perguntava em que momento tudo havia mudado.
— Quando foi que nós mudamos? — murmurou para si mesmo.
Um sorriso triste escapou de seus lábios, ao mesmo tempo em que uma lágrima silenciosa deslizava por seu rosto.
Estava sozinho. De novo.
Mais uma noite solitária, algo que, com o tempo, deixou de ser exceção e virou rotina. Será que havia perdido o marido? Essa era a pergunta que martelava em sua cabeça todos os dias.
O relógio marcava onze da noite quando ele ouviu o som familiar da porta se abrindo. Seu corpo queria correr, queria pular nos braços do marido como faziam quando ainda eram jovens e apaixonados. Mas se conteve. O orgulho o segurou no lugar.
Mesmo com o coração disparado de alegria, Jin se levantou com calma, tentando manter a compostura. Mesmo quando tudo dentro dele gritava por aquele abraço.
— Ainda acordado? — Namjoon perguntou com indiferença, a expressão exausta.
— Estava te esperando. — Jin respondeu, calmo, mas com o coração apertado.
— Não precisa me esperar. — Namjoon suspirou, já começando a afrouxar o nó da gravata. — Sabe que esses dias estão uma loucura com as novas negociações. Nem tenho tempo pra dormir, quanto mais pra...
Ele não terminou a frase. Apenas virou-se e começou a andar em direção ao banheiro, deixando Jin sozinho na sala. Jin observou as costas do marido se afastando. Suspirou. Estava tentando — ainda que um pouco — não deixar aquele casamento escorrer por entre os dedos.
— Eu sei que não preciso. — murmurou para o vazio. — Mas é o que quero fazer.
Namjoon não ouviu. Ou se ouviu, escolheu não responder e sumiu no corredor. Jin ficou ali sozinho. E então, só para si, começou a gritar em pensamento:
"Eu te amo."
"Fica comigo."
"Me beije, me abrace, como quando nos conhecemos."
"Diga que me ama."
"Faça eu me sentir importante. Faça eu sentir que ainda sou seu. Que você ainda se importa."
"Por favor… só olha pra mim."
Mas nenhuma dessas palavras saiu de sua boca. Com um silêncio dolorido, voltou a se sentar. Tomou um gole do vinho e enxugou discretamente as lágrimas teimosas que insistiam em cair.
Quando voltou para o quarto, Namjoon já estava deitado, de costas para a porta. Jin sorriu. O coração acelerou. Como ainda podia amar tanto aquele homem?
Deitou-se ao lado dele, buscando um pouco de calor, um resquício de afeto. Com cuidado, envolveu a cintura do marido com os braços e beijou seu pescoço com delicadeza.
Mas a resposta veio como um murro:
— Jin, estou cansado. — Namjoon se afastou e se cobriu com a coberta, como se o toque tivesse sido um incômodo.
Jin ficou paralisado. Por alguns segundos, não soube o que fazer. Então se virou lentamente, fechou os olhos e lutou contra a vontade de chorar.
Se perguntava, cada vez mais, se Namjoon ainda o amava. E, mesmo odiando a si mesmo por isso, a dúvida o corroía: estaria sendo traído? Mas logo se repreendeu. Namjoon era um homem íntegro. Sempre foi. Mesmo assim, a dor da distância e o silêncio constante começavam a abrir espaço para a desconfiança. E isso era ainda mais doloroso.
…
Era manhã de domingo quando Jin acordou e, ainda sonolento, tateou a cama em busca de Namjoon. Não o encontrou. Piscou algumas vezes, os olhos demorando a se adaptar à claridade suave que invadia o quarto pelas janelas.
Levantou-se em silêncio e tomou um longo banho quente. Depois, vestiu um roupão de seda confortável e desceu até a cozinha, sentindo o estômago reclamar.
No caminho, ouviu os estalos rápidos de teclas sendo pressionadas, aquele som familiar de alguém digitando com certa pressa. Era Namjoon trabalhando de novo.
— Bom dia. — disse Jin, com a voz baixa, quase como se não quisesse atrapalhar.
— Bom dia. — respondeu Namjoon, sem tirar os olhos da tela, os dedos ainda dançando no teclado.
Jin se aproximou com passos silenciosos.
— Podemos tomar café juntos? — perguntou com esperança.
— Claro, claro. — Namjoon respondeu de forma automática, mal ouvindo o que ele havia dito.
Mesmo assim, Jin sorriu e se inclinou para deixar um beijo leve em sua cabeça. Depois, se retirou em direção à cozinha, com o coração mais leve.
Cantarolava baixinho enquanto separava os ingredientes. Fazia muito tempo que não compartilhavam uma refeição e por isso, queria que aquele café fosse perfeito.
Quando finalmente terminou de arrumar a mesa, Jin deu os últimos toques com carinho. Flores coloridas no centro, um aroma leve e fresco preenchendo o ar. Havia colocado tudo com cuidado, como se quisesse montar não apenas um café da manhã, mas uma lembrança boa para os dois.
Animado, foi até o escritório.
— Nam, amor... terminei de arrumar a mesa do café da manhã e…
— Agora não posso, Jin. — cortou Namjoon, sem sequer desviar os olhos da tela.
— Mas você precisa se alimentar. A gente podia…
— Jin, já falei que agora não dá. Estou lotado de tarefas. Pode comer sem mim. Eu como alguma coisa depois.
Jin tentou de novo, com a voz mais baixa:
— Não pode parar cinco minutos? Eu preparei tudo…
— Não, Jin. Não posso. — interrompeu, mais ríspido.
Silêncio. Jin respirou fundo. A tristeza, a vontade de chorar, a raiva contida, o desejo de gritar ou até bater em Namjoon... tudo fervilhava sob sua pele.
Mas ele apenas disse:
— Tudo bem.
Virou-se e se retirou, engolindo todas as palavras que queria soltar, tudo o que estava entalado na garganta há dias, talvez meses. Mas, mais uma vez, escolheu o silêncio.
No fim das contas, nem Jin tomou o café da manhã. A tristeza e a decepção pesavam tanto que a comida perdeu o sabor antes mesmo de chegar à boca. Preferiu sair. Se continuasse naquela casa, com certeza acabaria socando a cara do marido.
Foi para um café aconchegante da cidade, pediu um caramel macchiato, se sentou perto da janela e abriu um livro, tentando se distrair.
Depois, almoçou sozinho em um restaurante caro, daqueles com toalhas de linho e pratos que pareciam obras de arte. E para fechar o dia, presenteou-se com uma tarde num spa. Massagem, sauna e cuidados com a pele. Quando saiu de lá, sentia-se mais bonito, mais leve e pronto para jogar umas verdades na cara do marido idiota.
Mas ao chegar em casa, à noite, a cena que encontrou tirou um pouco do ar dos pulmões. Namjoon estava exatamente como o deixara: na frente do computador.
Pelo número de copos de café vazios empilhados na mesa — todos entregues por aplicativo — Jin percebeu que o marido nem tinha almoçado. Talvez nem tenha comido nada sólido o dia inteiro.
Passou o domingo todo ali. Trabalhando. Sem descanso. As olheiras fundas e a expressão abatida diziam tudo. E, por mais que Jin estivesse furioso, também estava cansado de vê-lo assim.
— Namjoon. — Jin chamou com firmeza. — Precisamos conversar.
— Estou ocu…
— Não quero saber. — Jin o cortou, seco. — Precisamos conversar agora.
Ele nem entrou no cômodo. Parou no batente da porta, de braços cruzados, com o olhar firme.
Namjoon finalmente tirou os olhos do notebook. Parou de digitar. Jin estava lindo como sempre, mas havia algo diferente em seu rosto. Tristeza misturada com cansaço. E determinação.
— Olha, não vou tomar muito do seu precioso tempo. — Jin começou, a voz controlada. — Só quero te dar um aviso. Eu sou lindo demais pra tolerar a forma como você vem me tratando. E estou cansado. Se você não pode me dar carinho e atenção, tem muitos por aí fazendo fila pra isso. Então, se ainda me ama, se ainda quer continuar comigo, é bom mudar sua atitude. Caso contrário, vai me perder. Pra sempre.
Namjoon o encarava. Exausto, sim. Mas agora também, preocupado e assustado. Jin nunca tinha falado com ele assim. Nunca o tinha o ameaçado com uma partida.
— Era só isso, Namjoon. — finalizou, girando nos calcanhares. — Boa noite. Durma bem ou trabalhe até cair, tanto faz.
E saiu, antes que Namjoon pudesse dizer qualquer coisa.
Na manhã seguinte, Jin acordou sozinho na cama, o que não era novidade. Namjoon costumava sair muito cedo. Mas havia algo diferente naquela manhã.
Um envelope repousava sobre o criado-mudo, e nele, escrito em uma letra cursiva elegante e familiar, estava:
"Para meu amado Jin."
Jin sorriu, bobo, curioso, e seu coração acelerou. Abriu o envelope com cuidado, como se abrisse algo precioso. Lá dentro, encontrou duas passagens de avião para a Coreia do Sul, com destino à ilha de Jeju, o lugar onde haviam passado a lua de mel.
Junto das passagens, havia um bilhete curto, mas cheio de sentimento:
"Jin, eu sei que estou sendo um péssimo marido, mas por favor, não desista de mim. Eu te amo muito.
Não esqueci do nosso aniversário de casamento. Dez anos, meu amor. Dez anos ao seu lado.
E quero mais uma vida inteira com você.
Com amor,
Seu imperfeito, mas que te ama,
Nam."
Jin sentiu os olhos arderem. Sorriu, apaixonado, aliviado, tocado. Agora, mais do que nunca, estava ansioso por essa viagem.
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