A Ilha

19 Peguei você!



Não havia como fingir despreocupação diante do que estava acontecendo. O peso da situação era sufocante. Jin não tinha respostas, tampouco certezas, mas fazia o possível para sustentar a calma entre os sobreviventes. Sua prioridade era fazê-los se sentirem seguros, mesmo quando ele próprio não se sentia assim.

Precisava mantê-los atentos, vigilantes, mas sem espalhar pânico. O caos seria tão mortal quanto qualquer criatura daquela ilha. Para sobreviver, precisariam se proteger e, acima de tudo, cuidar uns dos outros.

Ninguém gostava de Adam. Ainda assim, Jin sentia um aperto no peito. Como médico, alguém que dedicou a vida a salvar pessoas, ele não conseguia ignorar a brutalidade daquela morte. Adam era um homem cruel, egoísta, abusivo, mas ainda assim, humano.

Para Jin, ninguém merecia ter a vida arrancada daquela forma. Adam deveria pagar por seus pecados em vida, enfrentando consequências humanas, não um fim tão desumano.

Depois de examiná-lo cuidadosamente, tentando extrair qualquer pista que explicasse o que haviam enfrentado, Jin fez o melhor que pôde para dar dignidade àquela morte.

Cavou uma cova em silêncio. Não havia orações grandiosas, apenas respeito. Fez um breve discurso e, ao final, colocou algumas flores silvestres sobre o túmulo improvisado. Galhos entrelaçados formavam uma cruz torta, mas firme.

Era o mínimo que podia fazer. Não por Adam. Mas pela humanidade que Jin se recusava a perder, mesmo naquela ilha que parecia devorar tudo o que tocava.

Depois daquela tarde exaustiva, Jin se sentou ao pé de uma árvore, os braços apoiados nos joelhos, o olhar perdido em algum ponto inexistente à sua frente. Não contemplava a paisagem, contemplava o vazio.

— Jin? — Taehyung se aproximou com cuidado, como se não quisesse quebrar aquele silêncio frágil.

— Tae… — Jin ergueu o olhar devagar — Está tudo bem?

— Está, sim. Eu só vim ver se você está bem. Tem sido… muita coisa pra você segurar sozinho.

Jin respirou fundo antes de responder.

— Nem tanto quanto parece. Nam me ajuda na liderança, você me ajuda com os feridos… todos estão fazendo sua parte. Pelo bem do grupo e pela sobrevivência. Eu não estou sozinho.

Taehyung assentiu.

— Somos uma equipe. E equipes sobrevivem porque ninguém carrega tudo sozinho. Estamos juntos nisso.

Jin desviou o olhar por um instante, como se organizasse os pensamentos.

— Vou fazer uma reunião. Precisamos falar sobre o Adam… sobre como ele morreu.

— Você já tem alguma suspeita? — Taehyung perguntou, atento.

Jin suspirou profundamente, a expressão carregada.

— Eu nunca vi nada parecido. Em toda a minha carreira… nada. Alguma coisa drenou todo o sangue do corpo dele. Não sobrou praticamente nada.

Taehyung franziu o cenho.

— Você não está sugerindo que…

— Sim — Jin o interrompeu, a voz mais baixa — E eu me sinto até ridículo dizendo isso em voz alta. Mas tudo aponta para algo parecido com vampiros.

Taehyung abriu a boca, surpreso, mas não riu.

— Pelos relatos do Mingi e do Hoseok, não é nada como filmes ou lendas romantizadas — Jin continuou, sério — Parece algo mais cru. Mais biológico. Humanos que evoluíram… ou se transformaram. As presas crescem, eles sugam o sangue até a morte. Não há sinais de luta, como se as vítimas fossem… rendidas.

Ele passou a mão pelo rosto, exausto.

— Não sei se são imortais. Não sei se usam algum tipo de… — hesitou, desconfortável — magia.

— Sinceramente, depois de tudo o que vimos, eu não duvido mais de nada nessa ilha — Taehyung deu de ombros, mas o olhar permanecia atento — Mas não acho que essas criaturas sejam invencíveis. Pensa comigo: eles atacaram apenas os feridos e debilitados naquela noite. O que atacou o Hoseok só fez isso porque ele estava amarrado, completamente vulnerável. No instante em que o Mingi apareceu disposto a lutar, ele recuou e foi atrás do Adam, que estava sozinho.

Taehyung fez uma pausa, organizando o raciocínio.

— Isso não é comportamento de algo imortal. É instinto de predador. Como felinos caçadores que escolhem alvos fáceis, evitam confronto direto e calculam risco. Se fossem realmente indestrutíveis, não se preocupariam com isso. Eles devem ter fraquezas como qualquer ser vivo.

Jin ficou em silêncio por alguns segundos, assimilando cada palavra.

— Faz sentido… — murmurou por fim, soltando um suspiro pesado — Muito sentido.

Passou a mão pelo rosto, cansado.

— Já estamos aqui há dias demais… acho que caminhando para a terceira semana. Nenhum sinal de resgate. Nenhuma resposta. Começo a perder as esperanças e a considerar a possibilidade de que talvez tenhamos que viver aqui pelo resto das nossas vidas.

Taehyung tocou seu ombro com firmeza, num gesto simples, mas carregado de carinho.

— Nós vamos sair daqui, Jin. Eu acredito nisso. Enquanto esse dia não chega, a gente cuida uns dos outros, se protege e aprende tudo o que puder sobre essa ilha. Nada existe sem um ponto fraco. Se houve um jeito de entrar, também deve haver um jeito de sair.

Jin levantou os olhos, encontrando força naquele olhar determinado.

— É isso que eu mais espero, Tae.

Naquela noite, Jimin se esforçou para não dormir. Claro, o cansaço o vencia em pequenos lapsos e ele acabava cochilando por alguns minutos, mas despertava logo em seguida. Estava aquecido e confortável sob a cobertinha que o nativo havia lhe deixado, o que tornava a tarefa ainda mais difícil.

“Não posso dormir hoje. Preciso ficar acordado.”

Acomodou-se melhor e passou a fingir um sono profundo, regulando a respiração até deixá-la lenta e pesada, como quem já havia se rendido ao descanso.

Funcionou.

Convencido de que Jimin dormia, o nativo se aproximou como fazia todas as noites. Seus passos eram silenciosos, quase inexistentes. Ajoelhou-se ao lado dele e observou por alguns segundos, certificando-se de que o arqueólogo realmente não despertaria.

Então se sentou ao seu lado e suspirou, como quem carrega um peso.

— Até quando você vai continuar vagando e vasculhando essa ilha? — sussurrou, a voz baixa e surpreendentemente suave — Lamento informar, mas você não vai encontrar nada…

Fez uma breve pausa, os olhos atentos à floresta ao redor.

— Só quero garantir que você não vá para o lado errado da ilha. Se isso acontecer… nem eu poderei te proteger, meu caro arqueólogo.

Jimin ouvia tudo, imóvel, o coração disparado no peito enquanto se obrigava a manter a respiração regular. Aquela era a primeira vez que escutava a voz do nativo. Não havia nada de primitivo ou animalesco nela. Era calma, articulada e gentil. A voz de alguém inteligente, consciente e perigosamente lúcido.

A curiosidade de Jimin cresceu de forma quase dolorosa. Quem era aquele homem? Que povo habitava aquela ilha? E, principalmente… O que existia no tal lado errado da ilha?

— Tenho vontade de conversar com você… conversar de verdade — murmurou o nativo — Não assim, enquanto você dorme ou durante o dia, quando faz de conta que não percebe minha presença. — Ele suspirou — Somos proibidos de falar com as refeições.

Jimin precisou de um autocontrole quase sobre-humano para não reagir.

“Refeições? Que porra é essa?” — gritou em pensamento, mantendo o corpo imóvel.

— Não me leve a mal — o nativo continuou, a voz suave — Eu não te vejo como uma refeição. Gosto de você como um amigo… como alguém que poderia ser um dos nossos. Apesar de você ser apenas um pequeno humano… eu gosto de você.

A ansiedade explodiu dentro de Jimin. Se ele não era humano, então o quê era? Um canibal? Uma criatura? Um ser de outro mundo? Cada possibilidade só tornava a curiosidade mais insuportável.

O nativo se aproximou ainda mais, até parar muito perto de seu rosto.

— Jamais permitirei que alguém faça mal a você.

Os dedos quentes e macios tocaram seu rosto com um carinho inesperado. Jimin sentiu o corpo reagir antes mesmo de pensar.

“É agora ou nunca.”

Num movimento rápido e impulsivo, Jimin abriu os olhos, surpreendeu o nativo e o derrubou no chão, montando sobre ele. Suas pernas ficaram paralelas ao corpo do rapaz, e suas mãos prenderam os pulsos dele acima da cabeça.

Jimin arregalou os olhos.

Os cabelos do nativo eram escuros, lisos, caindo suavemente sobre a testa, na altura do nariz. Os olhos, negros e profundos, o encaravam em choque. O rosto tinha traços finos e belos. O corpo era alto, forte e definido, esculpido como uma obra de arte viva. Parecia um deus grego, na verdade não exatamente grego, talvez um deus asiático, saído de alguma lenda esquecida.

Ficaram assim por longos segundos, próximos, respirando o mesmo ar. Jimin se perdeu naquele olhar hipnotizante, sentindo uma atração estranha, quase magnética.

Antes, ele imaginava esses nativos cobertos de folhas ou nus pela floresta. Mas estava absurdamente enganado.

O rapaz usava roupas antigas, leves, de um estilo que lembrava histórias medievais, algo entre o passado europeu e um mundo que não existia mais. Parecia ter acabado de sair de um filme épico.

O olhar de Jimin desceu até a boca rosada do nativo. Por um segundo, teve vontade de beijá-lo. A ideia de que talvez ele nem fosse humano tornava tudo ainda mais perturbador… e mais fascinante.

Jimin voltou os olhos para os dele, abriu um sorriso lento e provocador.

— Peguei você.

Notas finais
Agora já era, Jeikei!