A Ilha

20 O príncipe



POV Jungkook

Hoje é mais um dia comum. Tedioso, como tantos outros.

Não que eu não goste de ajudar meu pai com os assuntos do nosso povo, eu gosto, de verdade. Mas às vezes sinto que preciso respirar outro ar, sair daqui, conhecer rostos novos. Já conheço todos os habitantes da nossa cidade. Todos, sem exceção. Cada história, cada olhar, cada rotina previsível.

Meu pai sempre me ensinou a ser acessível, a ouvir as pessoas. Afinal, sou o filho dele. Um dia, quando chegar a hora, assumirei seu lugar como líder. Algo como um rei, mesmo que ele nunca use essa palavra em voz alta.

Jeon Ha Jun é um bom pai. Rígido e exigente, às vezes até demais. Mas quando estamos a sós, longe dos olhos do povo, ele relaxa. Ri comigo, brinca, deixa cair a postura de líder que carrega o tempo todo. Esses momentos são raros e preciosos.

Minha mãe morreu no meu nascimento. Desde então, meu pai nunca mais se apaixonou. Ele diz que o amor verdadeiro acontece apenas uma vez na vida, e que já viveu o dele com ela. Bonito, não é?

Desde pequeno, ele fez questão de me ensinar tudo pessoalmente. Nunca frequentei a escola da região como as outras crianças. Estudei em casa, cercado por instrutores particulares, livros e muitas expectativas.

Aprendi de tudo um pouco.

Idiomas, principalmente. Meu pai sempre diz que saber se comunicar é essencial. Por isso, falo fluentemente mandarim, japonês, tailandês, espanhol, inglês e russo. Arranho um pouco de português, um idioma complicado, confuso, mas interessante. E, claro, falo minha língua materna: coreano.

Além disso, estudei matemática, física, biologia, ciências, filosofia, tecnologia da informação, gestão de negócios…

Às vezes sinto que sei demais sobre o mundo. E, ao mesmo tempo, não sei nada. Talvez seja por isso que tudo pareça tão… entediante.

Temos uma biblioteca gigantesca. Quando digo gigantesca, não é exagero. Livros de todos os tipos, de todas as épocas. Alguns escritos por humanos extremamente influentes em seus tempos, Aristóteles, por exemplo.

Os humanos acreditam que muitas dessas obras se perderam ao longo da história, queimadas ou censuradas pelos cristãos. A verdade é bem menos heroica, nós inventamos essa história. Os livros nunca se perderam. Nós os trouxemos pra cá.

Vivemos isolados do mundo, mas isso não significa ignorância. Pelo contrário. Sabemos exatamente o que acontece lá fora. Acompanhamos guerras, revoluções, avanços tecnológicos, quedas e ascensões. Conhecemos os humanos melhor do que eles conhecem a si mesmos.

Talvez você esteja se perguntando por que me refiro a vocês como humanos, como se eu não fosse um.

Na verdade, provavelmente você nem tenha se perguntado isso, mas achei divertido criar um pouco de mistério.

Digamos que eu seja humano. Tecnicamente. Mas também digamos que pertenço a uma variação da raça humana um pouco… diferente. Mas calma, eu não mordo. Quer dizer, depende da situação.

Voltando ao assunto do meu dia absurdamente tedioso, às vezes penso que, se adotássemos a tecnologia dos humanos, tudo seria menos monótono. Mas meu pai é totalmente contra. Segundo ele, não precisamos dessas coisas. Não ficamos doentes, não envelhecemos como vocês e, principalmente, essas engenhocas eletrônicas só servem para afastar as pessoas umas das outras.

Por isso, nossa cultura permanece ancorada na época em que nos separamos do mundo: durante a Revolução Industrial. Vivemos como se o tempo tivesse decidido parar ali. E convenhamos, naquela época não existia o temeroso Twitter. Talvez seja por isso que acabamos sobrevivendo apenas nas lendas, em histórias de terror sussurradas à noite ou em filmes românticos terrivelmente mal escritos.

Definitivamente, acho que preciso de férias. Um tempo só para mim.

Conversei com meu pai sobre isso e, para minha surpresa, ele concordou. Ele não percebe, mas me mima bastante. Ser filho único tem suas vantagens, principalmente quando o seu pai é, bem… quem ele é.

Decidi passar minhas férias fazendo um tour pela ilha. E vale um esclarecimento importante: quando digo ilha, não estou falando dessas ilhotas ridículas de desenho animado, onde só cabe um coqueiro solitário. Nossa ilha é gigantesca. Na verdade, é a maior ilha do mundo. Quem acha que esse título pertence à Groenlândia está profundamente enganado.

A Ilha Vermelha — e não, você realmente não quer saber o motivo desse nome — é muito maior do que a Groenlândia. Sem exagero algum, isso aqui poderia ser facilmente considerado um país.

Sempre gostei de andar sem rumo, de explorar. Faz tempo que não faço uma viagem para além dos portões da minha cidade. Existe apenas um lugar da ilha que me é proibido: o Sul.

Aquela região é dominada pelos Millers, e eles definitivamente não são o tipo de vizinhos que mandam bolo de boas-vindas. Não são sociáveis, não são confiáveis e, sinceramente, não fazem questão alguma de parecer agradáveis. Mas isso é só um detalhe irrelevante. A ilha é tão grande que posso atravessar florestas, rios e montanhas sem jamais chegar perto daquele território.

Depois de separar o necessário para essa minha viagem de “purificação”, ou qualquer outro nome chique que meu pai goste de dar para uma simples fuga da rotina, me despeço dele e sigo meu caminho. O destino é as florestas tropicais. E, pela primeira vez em muito tempo, sinto algo parecido com expectativa.

Já faz alguns dias que caminho pela floresta. E, por algum motivo totalmente misterioso — leia isso com o máximo de sarcasmo possível — os animais têm medo de mim.

Cheguei a tentar pegar um coelhinho fofo no colo, mas ele fugiu como o “diabo foge da cruz”, para usar uma expressão humana bastante dramática. Pensando bem, se eu fosse um animal, provavelmente faria o mesmo. Então não posso dizer que fiquei exatamente ofendido.

Existe algo profundamente agradável em subir numa árvore alta, sentar entre os galhos e assistir ao pôr do sol. O vento fresco da tarde toca o rosto e o horizonte se abre diante dos olhos como uma pintura viva. Nessas horas, o mundo parece silencioso.

Em momentos assim, penso na minha alma gêmea, se eu tivesse uma, claro. Queria trazê-la comigo, fazê-la sentar ao meu lado e compartilhar essa vista que parece grande demais para ser apreciada sozinho.

Não me julguem. Sou um romântico incorrigível. E, apesar de tudo, ainda acredito no amor.

Depois de uma noite surpreendentemente agradável, embalada pelo som vivo da floresta, acordo cedo, disposto e estranhamente animado para a minha jornada espiritual. Eu mesmo rio ao pensar nisso. “Jornada espiritual” soa pretensioso, quase ridículo, mas também poético.

A manhã nasce generosa. O sol se infiltra entre as copas e o calor repousa sobre a pele de um jeito confortável. Diferente dos Millers, o sol nunca me fez mal. Pelo contrário, gosto de senti-lo. E antes que alguém imagine bobagens, não, eu não brilho no sol. Convenhamos, isso seria apenas constrangedor.

Caminho tranquilamente pela floresta quando algo me faz parar de súbito.

Um cheiro delicioso. Sangue fresco, doce e vivo. Mas não apenas isso. Há algo a mais ali, algo difícil de nomear. Não é um animal, é um humano. E isso levanta uma pergunta óbvia e incômoda. O que um humano estaria fazendo aqui?

Sigo o rastro daquele aroma envolvente até ser obrigado a parar novamente. Agora não é apenas o cheiro. É o som. Uma voz.

No instante em que ela alcança meus ouvidos, algo dentro de mim se rompe. Meu coração é roubado sem aviso, arrancado do peito e entregue, sem defesa alguma, roubado por um pequeno humano. Parece exagero? Pois foi exatamente assim.

A voz é doce, leve, atravessa meu corpo e vai direto ao coração. E dói. Dói muito. Dói de um jeito quase cruel. Já levaram uma flechada no peito? Pois bem, isso é pior.

Como alguém tão pequeno, tão delicado, aparentemente indefeso, consegue me deixar tão vulnerável apenas cantando?

Sigo o canto do humano em silêncio e me escondo entre os arbustos, só para poder ouvi-lo cantar mais um pouco. Não ouso respirar alto. Não ouso nem me mover.

Meus olhos ardem quando finalmente consigo ver o dono daquela voz impossível. Ele é lindo. Não, lindo é pouco. Ele é a criatura mais bela que já pisou neste planeta, e isso me atinge com força suficiente para me deixar imóvel.

Eu sei que não deveria pensar assim sobre um humano. Sei muito bem o que eles representam para os Millers. Sei como são vistos. Mas, ainda assim, não consigo ir embora. Não consigo desviar o olhar. Meu corpo simplesmente se recusa a obedecer à razão.

E então, como se o universo estivesse testando minha sanidade, ele começa a se despir.

Por Drácula!

Engulo em seco, os olhos presos ao corpo dele como se fossem amaldiçoados. Quero tocá-lo. Tenho certeza de que sua pele é quente e macia. Quero sentir. Quero beijar. Só de pensar nisso, algo dentro de mim se aperta de um jeito perigosamente agradável.

Ok. Eu admito. Isso está ficando estranho. Na verdade, isso é estranho. Estou me sentindo, como vocês humanos chamam mesmo? Um stalker?

Peço desculpas antecipadamente, mas simplesmente não consigo parar de olhar.

Meu corpo inteiro está quente. O coração bate tão rápido que parece dolorido. A simples presença daquele humano desperta em mim sensações deliciosas, intensas, e ele nem sequer sabe que estou aqui.

Quando termina o banho no rio, ele se deita sobre as pedras, completamente nu, como se o universo tivesse decidido testar todos os meus limites de uma vez só. E, veja bem, preciso fazer uma confissão importante: eu sou virgem. Sim. Então talvez isso explique a euforia absurda que toma conta de mim.

Nunca foi por falta de opção. Modéstia à parte, eu sou incrivelmente lindo. Mas as mulheres do meu povo nunca me despertaram interesse, e os homens… talvez. Ainda assim, nenhum deles chegou perto do que esse humano desperta em mim. É como se meu corpo tivesse passado todos esses anos esperando exatamente por ele.

Isso é loucura. Eu sei. Tenho plena consciência disso.

Não posso me aproximar. Vou ficar à distância, apenas observando. Entender o que ele quer, por que está aqui, o que procura nesta ilha. Só isso. Não vou me aproximar.

… Algumas semanas depois …

— Jamais permitirei que alguém faça mal a você. — sussurro, tocando o rosto de Jimin com a ponta dos dedos enquanto ele dorme.

Park Jimin, meu passarinho, meu amor. Estou tão apaixonado que chega a ser ridículo. O sorriso bobo insiste em nascer, mesmo quando tento contê-lo.

Então tudo muda num piscar de olhos.

Jimin desperta de repente e, antes que eu consiga reagir, ele pula em cima de mim. O impacto me pega completamente desprevenido.

Ele estava fingindo dormir?

Suas mãos pequenas seguram meus pulsos acima da minha cabeça, numa tentativa quase cômica de me imobilizar. Se eu quisesse me libertaria em um segundo. Mas não quero. De jeito nenhum.

Quero que ele continue assim. Quero sentir o peso do corpo dele sobre o meu. Quero essa falsa captura, confesso que está gostoso.

Nossos olhares se encontram pela primeira vez, sem sombras, sem distância, sem arbustos entre nós. Meu corpo inteiro estremece sob o dele, um arrepio quente e incontrolável.

Tudo o que quero é puxá-lo para um abraço.

— Peguei você — ele diz, com aquela voz doce. Ele nem imagina que já me pegou há muito tempo.

Já aceitei a verdade mais simples e mais perigosa de que eu sou do Jimin. Vou protegê-lo custe o que custar. Agora só preciso sobreviver à enxurrada de perguntas que ele certamente vai despejar sobre mim depois de todo esse tempo fingindo que eu não existia.

Notas finais
Boa sorte, JK :)