A Ilha

26 Os humanos também amam



Yoongi abriu os olhos com dificuldade, mergulhado em uma sonolência pesada que parecia prender sua consciência em um lugar entre o sonho e a realidade. Era como se não sentisse o próprio corpo, como se estivesse flutuando em nuvens densas e silenciosas, incapaz de distinguir o que era real. Suas pálpebras pesavam absurdamente, e, mesmo forçando, mal conseguia mantê-las abertas. Aos poucos, outras sensações começaram a invadir aquele estado confuso: o contato bruto do chão, irregular e frio, e a dor incômoda das pedras raspando sua pele. Foi então que percebeu que não estava flutuando, estava sendo arrastado.

Com a visão ainda turva, conseguiu distinguir uma figura borrada à sua frente, alguém que o puxava pelas pernas sem qualquer cuidado. A compreensão veio como um golpe seco: ele estava sendo levado, assim como os feridos do acampamento haviam sido. Era o mesmo destino, o mesmo fim inevitável. Mesmo tomado pelo medo, seu corpo não respondia. Não conseguia reagir, não conseguia se debater, nem ao menos emitir um som. Estava preso dentro de si mesmo, completamente vulnerável.

Ainda assim, não era exatamente a própria morte que ocupava seus pensamentos. Sua mente, mesmo fragmentada, corria desesperada até Taehyung e até os outros. Ele estava com Jimin antes de tudo acontecer. Como ninguém percebeu sua ausência? Teria havido algum confronto? Alguém se machucou tentando impedir? Estariam todos bem? As perguntas surgiam uma atrás da outra, sufocantes, sem qualquer resposta, enquanto o desespero crescia dentro dele.

Aos poucos, tudo começou a fazer sentido. Era assim que levavam as pessoas. Não havia luta, não havia gritos, não havia resistência. Eles deviam usar algum tipo de substância, algo que desligava o corpo e aprisionava a mente. Yoongi tinha certeza disso agora. Sentia na própria pele. Estava sob o efeito de algo que o impedia de reagir, de se mover, de pedir ajuda. Restava apenas consciência e o terror. Yoongi entendeu o verdadeiro significado de impotência: estar acordado, lúcido, e completamente incapaz de fazer qualquer coisa além de esperar pelo próprio fim.

— Jimin! — Taehyung o sacudia com força, a voz trêmula, carregada de desespero — Jimin, acorda!

— Hã… o que foi? — Jimin murmurou, ainda sonolento, esfregando os olhos.

— Cadê o Yoon? — Taehyung perguntou, rápido, quase sem respirar — Ele tava dormindo com você. Cadê ele?

O tom não deixava espaço para dúvida. Aquilo não era uma simples preocupação. Jimin ergueu o olhar e, pela forma como Taehyung se esforçava para não desmoronar ali, entendeu na hora que era sério.

Ele se levantou às pressas, o corpo ainda pesado, e olhou ao redor. Nada. Yoongi não estava mais ali.

— Ele… tava aqui — disse, confuso, tentando juntar os pensamentos.

— Eu sei que tava aqui! — Taehyung retrucou, a paciência já esgotada, a voz falhando no meio do caminho — Ele disse que ia pra algum lugar? Falou alguma coisa?

— Não, eu nem vi ele sair — Jimin respondeu, agora completamente desperto.

Seus olhos começaram a varrer o chão com mais atenção. E então ele viu as marcas. Um rastro irregular, arranhando a terra, como se algo — ou alguém — tivesse sido puxado à força.

O ar pareceu ficar mais pesado.

— Tae… — Jimin chamou, mais baixo dessa vez, o olhar fixo no chão — Eu acho que…

Ele engoliu seco antes de completar:

— O Yoon foi levado.

Jimin apontou para o rastro marcado no chão, e Taehyung reagiu no mesmo instante, levantando-se de um salto, como um predador que finalmente encontra a trilha de sua presa. Sem pensar, ele começou a seguir as marcas com urgência, avançando pela mata com passos rápidos e desordenados, guiado apenas pelo desespero. Jimin não perdeu tempo; virou-se e correu para acordar os outros, a voz ainda embargada, tentando organizar o caos que se instalava. Sabia que não podia deixar Taehyung ir sozinho, não naquele estado.

Jungkook estava mais afastado, no alto de uma árvore, observando a floresta em silêncio, alheio ao que havia acontecido. No entanto, os gritos de Jimin cortaram o ar e chegaram até ele como um alerta urgente. Em um movimento ágil, desceu rapidamente, aterrissando com leveza no chão e correndo na direção do grupo. Namjoon e Mingi já estavam despertos e, ao entenderem a gravidade da situação, se juntaram aos outros sem hesitar.

Para Jungkook, acompanhar o rastro não era difícil. Seus sentidos eram mais apurados que os dos humanos, e sua velocidade o colocava à frente. O cheiro, as marcas no solo, tudo apontava na mesma direção. Não demorou para encontrar Taehyung, que corria descontrolado pela floresta, como se cada segundo fosse uma chance a menos de salvar Yoongi. A respiração dele era irregular, os passos pesados, mas ele não parava.

Taehyung só interrompeu a corrida quando o rastro desapareceu por completo. Diante dele, não havia mais marcas, não havia mais direção, não havia nada. Apenas o vazio. O mundo pareceu ruir naquele instante. O desespero, que antes o impulsionava, agora o paralisava. A ideia de ter perdido Yoongi, de não saber onde ele estava, ou se ainda estava vivo, caiu sobre ele como um peso insuportável, deixando seu corpo imóvel, preso entre a urgência de agir e a dor que o consumia por dentro.

— Você precisa ser forte — disse Jungkook, aproximando-se com firmeza — Não pode entrar em choque agora. O Yoongi precisa de você.

Taehyung não reagiu. Seus olhos, arregalados e vazios, permaneciam presos no chão, como se buscassem ali uma resposta que já não existia.

— Eu perdi ele… — murmurou com a voz baixa e trêmula — A culpa é minha.

Jungkook avançou mais um passo e segurou seus ombros com força, tentando trazê-lo de volta.

— Taehyung?

Nenhuma resposta. As lágrimas escorriam livremente, mas sua expressão continuava distante, quase alucinada.

— TAEHYUNG! — Jungkook gritou, e o som ecoou entre as árvores. No mesmo impulso, desferiu um tapa firme o suficiente para quebrar aquele transe — Acorda! O Yoongi precisa de você. A gente não tem tempo pra isso. Se recomponha!

O impacto fez Taehyung puxar o ar de volta aos pulmões, como se estivesse emergindo debaixo d’água. Por um instante, tudo girou. Em toda a sua vida como policial, nunca tinha se sentido assim. Nem nas situações mais perigosas, nem quando a própria vida esteve em risco. Aquilo era diferente. Era mais profundo e mais devastador. Yoongi estava em perigo. E isso o desestabilizava por completo.

Ele fechou os olhos com força, tentando organizar a mente em meio ao caos, enquanto o eco do tapa ainda vibrava em sua pele.

— Você tem razão… — disse, finalmente, passando a mão pelas têmporas, como se quisesse conter a dor que latejava ali — Você consegue sentir o cheiro dele?

Jungkook assentiu.

— Consigo. Ele está perto… mas não estamos sozinhos. Tem alguns Muller's com ele.

Taehyung engoliu seco.

— Ele… tá bem?

Por um breve segundo, Jungkook ficou em silêncio. Não pela falta de resposta, mas pelo que enxergava. Nos olhos de Taehyung havia algo intenso e incontestável. Um sentimento que ele reconhecia, mas não esperava ver em um humano. Amor. Puro, desesperado e absoluto. Jungkook sempre acreditou que aquilo era exclusivo do seu povo. Mas ali estava o amor pulsando vivo diante dele.

— Está — respondeu, por fim, com firmeza — Ele está vivo. Só está inconsciente.

Fez uma pequena pausa antes de completar:

— Nós vamos trazer ele de volta.

Disse aquilo tentando transmitir segurança mas, no fundo, sabia que o tempo estava contra eles.

Seguiram em silêncio pela mata, cada passo calculado, cada respiração contida, até alcançarem o local onde Yoongi estava sendo mantido. Esconderam-se entre os arbustos, usando a vegetação densa como proteção, e então puderam observar o acampamento improvisado que os Muller's haviam montado. No centro, jogado no chão como se não passasse de um objeto, estava Yoongi. Seus braços e pernas estavam amarrados, o corpo imóvel, mergulhado em um estado que parecia um sono profundo.

Ao vê-lo, Taehyung perdeu o controle por um breve segundo. Apertou os dentes com tanta força que sentiu o gosto metálico do sangue na boca, sem sequer perceber que mordia o próprio lábio. O impulso de correr até ele foi imediato, quase incontrolável. Jungkook percebeu e colocou a mão firme sobre o ombro de Taehyung, pressionando levemente, um aviso silencioso para que ele não se movesse. Não era o momento. Não podiam agir sem pensar.

Forçando a visão, Jungkook estreitou os olhos e analisou a cena com precisão. Ao contrário de Taehyung, ele conseguia enxergar cada detalhe com clareza. Yoongi estava pior do que imaginavam. Mais pálido do que o normal, os lábios esbranquiçados, o corpo aparentemente mais frágil, como se parte de sua vitalidade tivesse sido drenada. E havia no pescoço duas pequenas perfurações que marcavam sua pele, discretas, mas suficientes para denunciar o que havia acontecido. Eles já haviam se alimentado dele.

Mas não o suficiente para matá-lo. Jungkook entendeu na mesma hora que estavam guardando, preservando o que restava para depois.

Seu olhar se deslocou para o entorno. Os Muller's estavam espalhados pelo acampamento, relaxados. Alguns dormiam, largados sobre o chão ou encostados nas árvores. Outros permaneciam acordados e distraídos, um observava o céu do alto de um galho grosso, como se estivesse completamente alheio ao mundo, enquanto outro afiava lentamente uma lâmina, conversando com um companheiro ao lado.

Era um cenário perigoso e evidente. Não havia abertura, não havia distração suficiente, muito menos um caminho seguro. Jungkook soltou o ar devagar, mantendo o olhar fixo em Yoongi. A conclusão era inevitável. Não havia como resgatá-lo sem ser notado. O único caminho era o confronto.

— Não tem outro jeito… vamos ter que invadir — sussurrou Jungkook, mantendo o olhar fixo no acampamento — Eles estão em maior número. Você acha que dá conta?

Taehyung não hesitou.

— Pra salvar o Yoongi, eu faço qualquer coisa.

Jungkook soltou um pequeno riso pelo nariz, quase admirado.

— Então vamos usar a sua força do amor a nosso favor. Você tem arma, eu lido bem com combate corpo a corpo e, com sorte, seus amigos vão chegar a tempo de reforçar. A gente entra, desestabiliza e tira ele de lá.

— Ok — Taehyung respondeu, já se levantando de forma impulsiva.

Jungkook o puxou de volta pelo braço.

— Calma. Ainda não.

Taehyung o encarou, impaciente.

— O Yoon precisa de ajuda agora.

— Eu sei — Jungkook respondeu, firme — Mas eu não vou atacar de surpresa. Eles são… do meu povo, de certa forma. Eu preciso tentar resolver isso com diplomacia primeiro.

Taehyung cerrou a mandíbula, claramente insatisfeito, mas ficou em silêncio.

— A gente não tem tempo pra conversinha.

— Vou dar a chance deles entregarem o Yoongi sem luta — completou Jungkook — Se não aceitarem aí a gente resolve do seu jeito.

Por um segundo, os dois se encararam. Então Jungkook se levantou. Antes de sair, apertou o ombro de Taehyung em um gesto breve. Taehyung respirou fundo e assentiu, mesmo que cada parte dele gritasse para agir logo.

— Vamos trazer ele de volta — disse Jungkook, baixo.

E então saiu dos arbustos e caminhou em direção ao acampamento dos Muller's com as mãos erguidas, em sinal claro de rendição. A reação foi imediata. Os homens se levantaram, atentos, assumindo posições de combate.

Taehyung surgiu logo ao lado dele, silencioso, tenso, pronto para puxar a arma ao menor sinal de ameaça. Agora não havia mais volta.

— O que faz aqui, Príncipe Jeon? — perguntou um deles, a voz carregada de desprezo.

Jungkook não recuou. Manteve a postura firme, o olhar direto.

— Vim buscar meu amigo — respondeu, apontando para Yoongi caído no chão.

O homem inclinou a cabeça, analisando-o com interesse.

— Sabemos que os Jeon’s não se alimentam de sangue humano… — disse, arrastando as palavras — Mas também sabemos que vocês não fazem amizade com eles. Então, o que você realmente quer?

— Já disse — Jungkook respondeu, mais frio — Ele é meu amigo. E eu não vou sair daqui sem ele.

O homem soltou uma risadinha baixa, debochada, e desviou o olhar para Taehyung, como se ele fosse apenas um detalhe irrelevante.

— Seu pai sabe que você anda se misturando com… nossas refeições?

A palavra ecoou como uma provocação.

Jungkook apertou as mãos, tensionando os dedos, lutando contra o impulso imediato de avançar. Um calor desagradável subiu pelo seu corpo, não de fome, mas de algo muito mais perigoso. Raiva.

— Eles não são isso — respondeu, a voz contida, mas firme — E eu vou perguntar só mais uma vez… — Seus olhos escureceram levemente. — Vocês realmente querem entrar em confronto com a gente?

O homem riu, dessa vez sem disfarçar. Seu rosto pálido estava manchado de sujeira, os cabelos loiros, longos e desalinhados, caíam até a altura do abdômen, carregando vestígios de terra e folhas secas. Havia algo bruto nele, quase selvagem, bem diferente da postura controlada de Jungkook. Os Muller's não se importavam com aparência, nem com ordem. Dormiam no chão, viviam como predadores e agiam como tal.

— Isso… — disse ele lentamente, enquanto seus caninos se alongavam — vai ser interessante.